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Schanelec, Covi e Frimmel: Berlim entre o fim do amor e o triunfo dos afetos

Este artigo tem mais de 6 meses

Radical e romântico, “My Wife Cries”, história de uma relação a aproximar-se do fim, é um dos pilares desta Berlinale. Depois, foi preciso “The Loneliest Man in Town” para o entusiasmo voltar.

Agathe Bonitzer em “My Wife Cries”
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▲Agathe Bonitzer em “My Wife Cries”

▲Agathe Bonitzer em “My Wife Cries”

No novo filme da alemã Angela Schanelec, rodado em Berlim, Thomas (Vladimir Vulević), um empregado da construção civil, de 40 anos, é chamado pela mulher, Carla (Agathe Bonitzer), que está no hospital a chorar após ter estado envolvida num acidente de carro. Nada mais se saberá dos contornos do acidente de Carla, que trabalha num infantário. Foi certamente mais susto que outra coisa, as lágrimas caem por outro motivo. Contado assim, My Wife Cries até parece o início de um drama qualquer, com princípio, meio e fim. Acontece, desde logo, que o novo drama de Schanelec não é necessariamente contado por aquela ordem. Vem assinado por uma grande cineasta que anda há duas décadas a medir o pulso aos sentimentos, mas sem a menor tentação sentimentalista. O novo filme inscreve-se na mesma linha. Há uma ferida aberta nas emoções entre Thomas e Carla da qual não se conhece a origem. As cenas seguintes tratarão de iluminá-la. Dão forma a um mapa interior do desgosto.

O meio de transporte predilecto das personagens de Schanalec é, há muito tempo, a bicicleta. Os berlinenses também lhe dão preferência em dias solarengos e temperados. Em My Wife Cries, somos tentados a dizer que a bicicleta não é apenas um meio de locomoção pelo qual os corpos mudam de lugar: está também ligada a saltos no tempo das personagens (de Carla, em particular), para três dias diferentes da vida daquele casal, uma ante-câmara do desastre súbito com que o filme arranca.

My Wife Cries é um dos melhores filmes desta Berlinale, de uma beleza sem consolo, exigente e sensual a nível formal, intenso nas emoções, que também atravessam números coreográficos acompanhados por Lover, Lover, Lover de Leonard Cohen (a letra da canção comenta com ironia o filme) — é um dos momentos que ficarão na memória desta edição. Alguns dos diálogos mais elaborados do filme decorrem em longos planos-sequência, por vezes em travelling, em viagens de bicicleta, acrescendo um grau elevado de dificuldade ao trabalho dos actores, num filme em alemão em que quase todos os intérpretes (incluindo o casal protagonista) não são falantes nativos. Essa textura sonora de diferentes pronúncias soma-se à sensibilidade da película 35mm.

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▲ Angela Schanelec e a actriz Agathe Bonitzer, em Berlim

Getty Images

Schanelec foi premiada em Berlim com um Urso de Prata de Melhor Realização em 2019 por I Was at Home, But… Em 2023, Music valeu-lhe outro prémio, de Melhor Argumento. Não se sabe se voltará ao palmarés de sábado à noite, certo é que este filme deixou alta a fasquia para o que veio depois dele. Home Stories, terceira longa-metragem da também alemã Eva Trobisch, fixa-se na família destruturada de uma jovem de 16 anos, Lea (Frida Hornemann), concorrente de um programa televisivo de talentos. A experiência de Lea é um engodo que o filme usa para expôr várias gerações, dos pais separados aos avós, que tentam manter um hotel, até à renovação do museu local da pequena cidade de Greiz, no Leste da Alemanha, terra de poucos recursos e ainda repleta de memórias da antiga RDA comunista. Procurando a empatia, é anódino a nível cinematográfico.

O australiano Wolfram (Berlim costuma trazer novidades desta filmografia tão distante) é bem pior porque o realizador Warwick Thornton, de tanto querer dramatizar a crueldade da vida mineira daquele país nos anos 30 do século passado, acaba por caricaturar toda uma época, carregando de clichés este bizarro drama histórico com ares de western em que a população aborígene procura salvar-se da ganância dos colonos brancos. A New Dawn, única animação da Competição, do nipónico Yoshitoshi Shinomiya, não trouxe especiais argumentos que justifiquem a sua chamada ao concurso.

Mas a Berlinale tinha um coup de foudre guardado para quinta-feira, com um herói verdadeiro que todos nós merecemos conhecer. Al Cook (Alois Koch, nome de baptismo), é cara conhecida das noites e dos bas fonds de Viena. Guitarrista, pianista, cantor e compositor, Al chegou a gravar alguns discos mas é artista de incontáveis concertos de blues, sobretudo em bares da sua cidade. Siderado por Elvis Presley desde os 15 anos — quando viu pela primeira vez o seu ídolo no filme Loving You/Ritmo no Coração — esta figura da cena blues austríaca sonhou toda a vida em visitar Memphis e o rio Mississippi. Mas nunca deixou o Danúbio. Em Viena, ergueu uma carreira de “rockabilly revival”, sincera e desinteressada.

A dupla de cineastas Tizza Covi e Rainer Frimmel, radicados na Áustria e especialistas na construção de documentários permeáveis à ficção (mas sempre alheios aos cânones do biopic), apanhou agora Al, aos 80 anos, e com ele construiu The Loneliest Man in Town, numa altura em que o artista enfrenta uma ordem de despejo do apartamento em que nasceu (em 1945) e sempre viveu. O prédio foi comprado por uma empresa imobiliária, que o quer demolir. Al é o último inquilino. É óbvio que o filme segue um argumento previamente escrito, mas as situações são tão autênticas como autênticos são os pacientes capangas que tentam persuadir Al a deixar a casa.

Quem imaginar o ponto de partida de Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, cruzado com o cinema (e o humor lacónico) do finlandês Aki Kaurismäki, poderá ficar com uma ideia aproximada deste filme. E pouco importa saber se a dramatização documentou melhor ou pior o que se passou, de facto, com a vida de Al Cook (que em conferência de imprensa permanece fascinante). O retrato é tão genuíno e cativante como aquele apartamento repleto de posters, discos, guitarras, memórias tão antigas como o papel de parede, com fotografias de entes queridos que já partiram e tornaram Al no “homem mais solitário da cidade”, uma das canções favoritas do seu portfólio. Resta-lhe os blues. Mais um trunfo acrescentado a esta 76.ª Berlinale.

À data em que se escreve, faltam ser exibidas três longas-metragens a concurso pelo Urso de Ouro: Soumsoum, la nuit des astres, do veterano cineasta chadiano Mahamat-Saleh Haroun, o documentário norte-americano Yo (Love is a Rebellious Bird), de Anna Fitch e Banker White, e Josephine, da norte-americana de origem brasileira Beth de Araújo, filme que já venceu a secção US Dramatic do último Festival de Sundance. Será trazido à próxima crónica.

O autor escreve segundo a antiga ortografia. 

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