Chamem-lhe essência, pinta ou Características Denunciantes da Classe Social de Um Artista, mas às vezes basta olhar para uma banda e quase sentimos o cheiro a cerveja na sala de ensaios, às vezes basta olhar para uma artista e quase a imaginamos em pequenina a pôr glitter nos brinquedos (estou a imaginar que houvesse dinheiro para fazer isto), às vezes olhamos para um artista e o que imaginamos é um barracão abandonado na zona industrial da cidade. Este último é o caso dos Mandy, Indiana, uma espécie de acidente urbano transformado em música; se por acidente urbano entendermos que eles soam à ferrugem da cidade a cantar.
O que é adequado, tendo em conta que vêm de Manchester, uma cidade que não é apenas conhecida pelos clubes de futebol, mas também pela capacidade que gente que trabalha em fábricas feias e sujas tem de produzir grande música, quase como vingança por terem de sobreviver numa catedral industrial. Alguém alguma vez acordou em Manchester, olhou pela janela e ficou encantado com a beleza da cidade? E de seguida pegou numa guitarra acústica e foi fazer canções folk? Não. As pessoas odeiam viver em Manchester, Manchester é feia e triste e deprimente e aborrecida como uma doença venérea não muito grave; e é por tudo isto que quando alguém faz música em Manchester, faz música para se vingar de alguma coisa.
Talvez por isso o punk e o pós-punk se tenham sentido tão em casa em Manchester, talvez por isso uma cidade tão pequena (a sério, vocês não têm ideia de quão pequena Manchester é) tenha parido o som mortuário dos Joy Division, o tumulto dos The Fall, ou o caos controlado dos A Certain Ratio. Podia dar mais exemplos – o ponto é: certos sítios inspiram certo tipo de arte.
Se calhar é por isso que o pós-punk nunca morreu verdadeiramente em Manchester, foi mudando de pele, de geração – até chegarmos a 2026 e aos Mandy, Indiana que, como já terão notado, não são de Mandy, no estado de Indiana (uma terra que existe) mas são de Manchester (uma terra que resiste). Às guitarras angulares de Scott Fair junta-se a percussão tribal de Liam Stewart, mas não podemos diminuir o poder dos sintetizadores e manipulações sónicas de Daniel Vega, que enche o som da banda de ruído. No centro de tudo está a presença magnética e ameaçadora de Valentine Caulfield, francesa, a cantar (maioritariamente na sua língua materna) o que parecem ser manifestos sobre o fim do mundo ou a iminente revolução, com um cocktail molotov na outra mão (a que não segura o microfone).
Há uma coisa que eu quero muito que vocês saibam: é que vocês podem chamar a isto pós-punk, vocês podem chamar a isto noise-rock, mas estão terminantemente proibidos de dizer que os Mandy, Indiana são “retro”. Não, népia, não há nada aqui de imitação para os desgraçados que, nos seus 50 e muitos anos de idade (ou 60), teimam em afirmar que música boa eram os Joy Division ou os The Fall. Até porque os Mandy, Indiana são bem mais sujos e ruidosos e brutos do que qualquer uma dessas bandas. Estão, até, mais perto dos Throbbing Gristle ou dos Young Gods e outras bandas da música industrial. A gente imagina-os a tocar numa rave ilegal num armazém abandonado às quatro da manhã, onde até a polícia se recusa a aparecer, mesmo quando sabe que há negócios de droga lá.
Os primeiros singles foram gravados com uma crueza deliberada, os concertos soavam a confrontos – como muitas bandas antes dele, a primeira ordem de trabalhos não foi ser musicalmente incrível e encantar o universo – foi ocupar espaço, dizer “Eu estou aqui”. Daí que uma descrição dessas canções se assemelhe a um catálogo de armas – esta soa a uma granada, naquela o refrão parece um lança-chamas.
E depois aparece Urgh, lançado há poucos dias, o tipo de discos que faz todo o músico fã de noise pensar “como é que eu não pensei nisto antes?”. Em Urgh eles deixam de ser uma banda engraçada e sobem ao patamar de quem vai começar a ser requisitado para festivais de verão. Porque isto não é apenas uma coleção de canções, é antes uma experiência quase arquitetónica. O som abre-se como uma fábrica a acordar: máquinas a arrancar, ritmos repetitivos que não pedem licença. A produção é cirúrgica, mas não polida de mais. Há sempre uma sensação de perigo iminente, como se alguma coisa pudesse colapsar a qualquer momento.
As batidas são secas, quase industriais, mas há momentos de silêncio tenso, pausas que parecem alongar-se como corredores intermináveis. A voz de Valentine não é “cantada” no sentido tradicional; é proclamada, sussurrada, ameaçada. Ela não está ali, no meio daquele matadouro, para ser doce — está ali para fazer com que tudo seja serrado ao meio e as serras nunca parem, 24 horas por dia. Ela está ali para vos instilar medo.
Há faixas que funcionam como martelos pneumáticos: repetição hipnótica, baixo a vibrar no estômago, guitarras que cortam como lâminas. Outras deslizam para territórios mais atmosféricos, onde o ruído se transforma em textura e a melodia surge como um fantasma distante. O disco é uma alternância constante entre claustrofobia e expansão.
Algumas das pessoas mais fascinantes deste mundo irão adorar isto – eu, por exemplo. Porque neste mundo higienizado, em que tudo é conteúdo e tudo pode ser monetizado, os Mandy, Indiana soam a um louco munido de uma serra elétrica a querer cortar aos pedaços os influencers do Tik Tok. E isto é um elogio – um elogio que eventualmente ainda me levará à cadeia, mas um elogio.
Nada neste disco é “fácil”. Não há melodiazinhas pop, não se põe em fundo enquanto se faz o jantar, não dá para ouvir distraidamente enquanto se responde a emails. É um álbum que nos pega pelos colarinhos e de seguida procede a espancar-nos, uma cabeçada de cada vez. Nada disto vai ser ouvido no casamento da vossa prima – tudo isto foi feito para agredir o vosso corpo (estas duas frases não têm verdadeira relação entre si, mas apeteceu-me usá-las de seguida).
Há beleza nesta dureza toda – não uma beleza solar, pastoral, quieta, antes a beleza de quem olha para um barracão abandonado e pensa “já fizeram porcas e parafusos ali” e mira o portão ferrugento a cair, as janelas quebradas e encontra algo de belo em toda essa ruína.
Mandy, Indiana: porque alguém tem de ser o mau da fita, o Larry David do rock, o tipo que vai fazer aquilo que é desconfortável, mas necessário. E isso é bom: precisamos de mais música desconfortável, confrontacional, física – precisamos de menos música agradável, precisamos de fazer menos amigos, de dizer bem de menos coisas, precisamos de ser mais reais e andar mais à cabeçada só porque sim, porque andar à porrada é viver.
E quando o disco acaba, não há alívio nem cansaço – é como ter saído de um clube particularmente ruidoso às seis da manhã, sabendo que a noite foi intensa demais mas que vamos voltar. E, de preferência, andar à porrada.