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A tragédia do beijo entre dois homens no São João

Aconteceu na rua, chegou aos jornais e não mais parou. A peça "O Beijo no Asfalto", de Nelson Rodrigues, que escandalizou a sociedade brasileira dos anos 60, estreia-se nesta quinta-feira, no Porto.  

"O Beijo no Asfalto" que vai estar em cena no São João é fiel ao português do Brasil (mais especificamente, do Rio de Janeiro), sendo o elenco composto por atores brasileiros residentes em Portugal
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"O Beijo no Asfalto" que vai estar em cena no São João é fiel ao português do Brasil (mais especificamente, do Rio de Janeiro), sendo o elenco composto por atores brasileiros residentes em Portugal

"O Beijo no Asfalto" que vai estar em cena no São João é fiel ao português do Brasil (mais especificamente, do Rio de Janeiro), sendo o elenco composto por atores brasileiros residentes em Portugal

Um ardina surge, de jornal em punho, apregoando a notícia mais sonante: “Beijo no asfalto é crime!”. Está lançado o mote da peça escrita pelo autor brasileiro Nelson Rodrigues, que pode ser resumida assim: um homem é atropelado numa praça e, agonizando, pede a outro, que fora em seu socorro, para o beijar na boca; o estranho acede, num gesto de compaixão, o que gera suspeitas de homossexualidade na família e escândalo social, amplificado pelos jornais. Mentiras, distorções e preconceitos transformam a vida de alguém bem-intencionado num inferno. O texto, datado de 1960, mostra-se intemporal, dando protagonismo a “uma sociedade sempre pronta para julgar”.

Em O Beijo no Asfalto, tudo gira, pois, à volta de um beijo entre dois homens. Um beijo que não se vê, que não sabemos se existiu, a não ser pela boca de um dos protagonistas (porque o outro está morto) e de um par de testemunhas (porque terá acontecido na via pública). A galeria de personagens tende a revelar o pior da humanidade. Há o “rapaz do beijo” (Arandir); a “esposa ferida entre raiva e preconceito” (Selminha); a irmã menor, com um desejo escondido pelo cunhado (Dália); o pai das duas, “macho alfa de tradição” (Aprígio); o “homem da lei” agressivo e corrupto (delegado Cunha); o detetive sem coluna vertebral (Aruba); o jornalista “traiçoeiro”, que não hesita em difundir mentiras se derem lucro e gosta de mulheres se forem magras (Amado Ribeiro); as vizinhas metediças; e a manipulável viúva do atropelado.

A violência verbal e física é uma constante, com direito a pancadas na cabeça, puxões de cabelo e mesmo tiros – amor reprimido convertido em ódio. No centro da narrativa está Arandir, que ia com o sogro empenhar um anel para pagar o aborto da mulher (segundo a própria), quando se deparou com a vítima de atropelamento, moribunda. Só que a assistir à cena estava também um jornalista que logo se encarrega de espalhar que os dois já se conheciam e eram amantes.

Na esquadra da polícia, a prestar declarações como testemunha, Arandir mal imagina que nas suas costas, e às suas custas, está a ser cozinhada uma estratégia para desviar as atenções públicas do delegado Cunha, acusado de ter dado um pontapé na barriga de uma grávida, levando-a a perder o bebé. Para o encenador, Tónan Quito, esse é “um dos grandes pontos da peça: a nossa verdade pode ser adulterada, transformada, independentemente de ter acontecido ou não”. Aliás, vê na sociedade atual muitas semelhanças com a sociedade “preconceituosa” da década de 1960, quando a peça nasceu. Gerou tanta polémica que o público chegava a interromper os espetáculos para se manifestar em direções opostas: “uns a dizerem que era imoral, outros a mandarem calar, porque queriam ver”.

Para Tónan Quito, “faz muito sentido” trabalhar este texto hoje, porque aborda temas fraturantes que estão na agenda, a começar pelas fake news, ou seja, “como é que uma notícia de um jornal, a partir do momento em que sai, passa a ser uma verdade e destrói toda uma família, destrói todo um alicerce de uma pessoa completamente normal, que estava no seu dia a dia”. O encenador lembra ainda que, naquela época, “para uma mulher, era muito mais grave ser deixada, ou ficar solteira de repente porque o marido era gay, do que o pai matar o marido para salvar a sua honra, sabendo disso”. A homofobia está claramente presente na peça, assim como a misoginia. “O facto de Arandir ser negro também levanta a questão do racismo”, acrescenta.

Tónan assinala, por outro lado, que Nelson Rodrigues se inspirava na rua (a peça em causa foi suscitada pela morte de um jornalista seu amigo, atropelado) e “fazia um teatro de observação de onde estava inserido, sendo ele próprio uma pessoa completamente contraditória, também homofóbica e misógina, que apoiou a ditadura militar brasileira e depois o seu contrário”. Daí as “contradições e ambiguidades” identificáveis no espetáculo, que cria um certo distanciamento do que se está a ver, ao introduzir, pela leitura, muitas das didascálias (indicações do que os atores devem fazer em cena) presentes no texto original.

“Uma pitada de tempero para cada tacho”

O Beijo no Asfalto que vai estar em cena no São João é fiel ao português do Brasil (mais especificamente, do Rio de Janeiro), sendo o elenco composto por atores brasileiros residentes em Portugal. Estes conhecem a obra de Nelson Rodrigues “de trás para a frente” e permitem que o texto “surja em toda a sua potência”, defende o encenador. Os intérpretes ensinaram-lhe “quem é o Nelson Rodrigues e o que é este teatro tão explosivo, tão denso, tão contraditório, tão difícil de se fazer, na monstruosidade que cada personagem traz”.

A personagem central, Arandir, é interpretada por Allex Miranda, que vive em Portugal há 19 anos. “Fiquei a saber desse projeto e confesso que me interessou porque era em português do Brasil e, como é dito, a nossa língua é a nossa pátria, eu gostaria de revisitar muitas vezes a minha pátria, e vi nesse texto a possibilidade de fazê-lo. Não que revisitar a pátria seja uma coisa benéfica, mas é bom enfrentarmos os nossos fantasmas, algumas coisas que deixámos apagadas. E essas personagens vêm trazer um pouco dessas perguntas”, conta. Ora, os fantasmas variam consoante a experiência de cada espetador, o próprio género, ou o credo. “Esse espetáculo tem uma pitada de tempero para cada tacho”, resume.

Sem querer antecipar eventuais reações do público, Allex acredita que a peça, de cariz “universal”, terá impacto, “até porque tem algumas questões que são colocadas de forma muito crua, e o Nelson Rodrigues tem isso: ele é tido como um dramaturgo desagradável; ele não faz espetáculos para agradar, ele faz espetáculos para questionar”. O ator destaca sobretudo o olhar que recai sobre Arandir “perante uma ação de compaixão”: “A peça trabalha muito sobre isso: como interpretamos o outro, as ações do outro; e muitas vezes parece-me que é mais importante parecer ser bom do que realmente o ser”.

O Beijo no Asfalto, um espetáculo para maiores de 14 anos, conta ainda com mais oito intérpretes: Bárbara Meirelles, Beto Coville, Dai Ida, Gabriel Delfino Marques, Genário Neto, Joyce Souza, Julia Prado e Luciano Luz. Foram selecionados em audições públicas, de entre quase 200 candidatos, com idades dos 20 aos 60 anos.

Trata-se da segunda produção própria do Teatro Nacional São João neste ano, e encerra a atual temporada. Para ver a partir desta quinta-feira, 18 de junho, até 5 de julho, no São João. As sessões decorrem às quartas, quintas e sábados, às 19 horas; às sextas, às 21 horas; e aos domingos, às 16 horas. O espetáculo, com cerca de hora e meia de duração e legendagem em inglês, segue depois para o Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada, nos dias 13 e 14 de julho.

Em paralelo, tem lugar no próximo sábado, 20 de junho, no Salão Nobre do São João, a conferência “O Anjo Pornográfico”, sobre Nelson Rodrigues. Figura controversa, iniciou-se muito cedo no jornalismo e afirmou-se como escritor multifacetado e profícuo: publicou 17 peças de teatro e nove romances, além de diversos contos e crónicas, que viriam a originar edições de textos reunidos, adaptações para teatro, cinema e TV.

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