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Nos primeiros filmes a concurso em Veneza, ganha a panache de Malkovich

“Wild Horse Nine” coloca Martin McDonagh a caminho dos Óscares, já “Bucking Fastard” leva Herzog para o conto de fadas, sem alcançar a altíssima fasquia de filmes anteriores.

John Malkovich e Sam Rockwell em “Wild Horse Nine”
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▲John Malkovich e Sam Rockwell em “Wild Horse Nine”

Searchlight Pictures

▲John Malkovich e Sam Rockwell em “Wild Horse Nine”

Searchlight Pictures

John Malkovich chegou aos ecrãs do Lido de camisa, suspensórios e chapéu, com ar de veraneio, a encarnar um agente da CIA no Chile de 1973 de Salvador Allende em vésperas do golpe militar de 11 de Setembro. Chris, assim se chama ele, é personagem verosímil face à realidade histórica? Não, de todo, agentes da CIA com aquela panache, só no cinema e, neste campo, tão-pouco o seu colega Lee (Sam Rockwell) convence. Mas a performance dos actores e o guião de Martin McDonagh estão tão recheados de humor e escarninho que Wild Horse Nine ganha esta parada.

Chris está na recta final da carreira, em mais do que um sentido: matou imensa gente, sabe de mais (nomeadamente, sobre o assassinato de JFK), e está a braços com um cancro terminal. Só a morfina ainda o aguenta. Está-se nas tintas para o jogo de segredos e mentiras sobrevisionado pelo seu chefe na CIA (um Steve Buscemi irritado e heroinómano), diz a quem lhe apetece que, dentro de pouco tempo, semanas, dias, não sabemos ao certo, Allende vai mesmo cair (com cumplicidade americana) e aquilo que se segue não será pêra doce. Duas chilenas de idade universitária, entusiasmadas pelas marchas da democracia socialista e pelas canções de Victor Jara, ouvem-no com especial desdém no aeroporto. Cruzam-se a caminho da Ilha de Páscoa, a 3700 quilómetros de Santiago, mas para Chris, a viagem não é para ver os moais: é suposto que Lee, por misericórdia, o eutanasie à lei da bala.

Na Ilha de Páscoa decorre quase todo este filme de McDonagh, quinta longa-metragem do britânico, e a terceira que ele o traz ao concurso dos Leões após Três Cartazes à Beira da Estrada (2017) e Os Espíritos de Inisherin (2022), que valeu nove nomeações para os Óscares (mas não venceu nem um). É muito provável que a Searchlight Pictures (que pertence à Disney desde 2019) tenha aqui concorrente do mesmo calibre para as estatuetas de 2027; para o argumento, seguramente (é a área em que McDonagh é mais forte), e para o elenco masculino, com atributos de sobra para ambas as categorias (aos citados, acrescente-se a óptima cena em que aparece Tom Waits, irmão desavindo de Chris, com quem este fala às tantas ao telefone).

▲ No photo call de Veneza: o realizador Martin McDonagh entre John Malkovich e Sam Rockwell

Mesmo delirante a nível político, com mensagem subliminar para as recentes investidas de Trump na América do Sul, e sempre mais forte no texto que na mise en scène, em sintonia com o resto da filmografia de McDonagh, o filme é divertido, muito mais do que tudo o que o realizador mostrara até agora, e se o é, deve-o por inteiro ao protagonista, capaz de pôr tudo à girar à sua volta e ao seu ritmo. Aliás, a primeira pergunta da conferência foi logo para ele, assim, à queima-roupa: “Sr. Malkovich, é desta que vence o Óscar?” Do alto da experiência de 72 anos de vida, o norte-americano afastou-se com elegância do assunto. A sua performance nos Óscares (apenas duas nomeações, a última há mais de 30 anos) não é mais do que uma sombra do seu enorme talento.

Herzog “em stereo” com “Bucking Fastard” através de Kate e Rooney Mara

Já aqui se assinalara, no texto de apresentação desta edição da Mostra, a originalidade do novo projecto de Herzog que Cannes não quis programar em Maio. Mas quis Veneza, que o aproveitou. Trazendo o veterano alemão para a contenda (tal como aconteceu com Jarmusch, em 2025, que em boa hora foi dispensado da Croisette, pois ganhou aqui o Leão de Ouro).

Passado na Irlanda, em tons de fábula, e inspirado na extraordinária história de Freda e Greta Chaplin, duas gémeas monozigóticas de York que se notabilizaram pela sua rara simbiose — vestiam-se de forma idêntica, moviam-se em uníssono e eram capazes de falar em coro — Bucking Fastard flui como um filme de aventuras, surpreendentemente solto da realidade histórica.

▲ Rooney e Kate Mara à procura do tunel da liberdade em “Bucking Fastard”, de Werner Herzog: poderão sobreviver uma sem a outra?

Não se pode escrever que é novidade em Herzog. No cinema, o que é que ele ainda não experimentou? É um realizador obcecado pela superação e vontade extravagante do ser humano. As suas personagens são frequentemente únicas naquilo que são ou que fazem. Freda e Greta, que no filme se chamam Jean e Joan Holbrooke, neste prisma, são “herzoguianas” por inteiro.

Mas o filme toma caminho inesperado, muito mais aberto à ficção, com as norte-americanas Kate e Rooney Mara (têm dois anos de diferença e nunca tinham interpretado juntas) a entregarem-se por inteiro a este trabalho que se folheia como um livro de fábulas, em tom leggero. É um facto surpreendente já que o próprio Herzog falara antes de Bucking Fastard (o trocadilho vem de uma frase das gémeas em tribunal) como a última parte de uma “trilogia operática” sobre a natureza indomável, dando seguimento a Fitzcarraldo e Grizzly Man. O novo filme, sejamos claros, é estranho, sedutor, tem paisagens deslumbrantes. Mas não está ao nível dos citados. Culpa do próprio Werner, que tem a fasquia lá em cima.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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