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Um feitiço do tempo embruxou a Espanha: “5 minutos más”

Javier Ruiz Caldera, que vem do cinema popular e da TV, deu à competição do festival basco o seu maior motivo de contentamento até à data, já “The Housewife” é oportunidade perdida.

Berto Romero e Belén Cuesta em “5 minutos más”
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Berto Romero e Belén Cuesta em “5 minutos más”

Berto Romero e Belén Cuesta em “5 minutos más”

Um casal espanhol de meia-idade e à beira do divórcio deixa o filho com os avós e parte em viagem de fim-de-semana para um retiro campestre, a ver se as coisas se endireitam. O paraíso rural, que tem piscina e paisagem verdejante a perder de vista, promete, entre outras “iguarias”, não ter cobertura telefónica. Tudo se vende, até a falta de certas coisas que muitos têm por indispensáveis. Não é preciso esperar muito para perceber que as discussões da dupla (Berto Romero e Belén Cuesta) vão continuar. E o encontro com caseiro que lhes abre a porta (Javier Cámara), coxo de uma perna, não inspira propriamente confiança.

É então que algo de extraordinário acontece: a meio de uma conversa, o tempo retrocede 5 minutos. Uma vez, outra, outra ainda. E assim sucessivamente. Aquilo que as personagens fazem a cada 5 minutos tem consequências nos seguintes, embora, volvido esse tempo, todos tornem ao lugar de partida, numa variação destrambelhada do que acontecia a Bill Murray em Groundhog Day/O Feitiço do Tempo (1993). O realizador de Spanish Movie e Superlópez, êxitos de bilheteira do país vizinho, vê agora San Sebastián reconhecer-lhe o “valor artístico” com esta comédia distópica e endiabrada que também pede ao cinema de terror para entrar.

Afinal, 5 minutos são mais do que suficientes para atropelar mortalmente a filha menor do vizinho e desencadear mais à frente a fúria vingativa do pai armado com carabina, entre outras peripécias. Tomba na anedota, esta “pratada” de Ruiz Caldera? Sim, tomba. É fatal. E a verosimilhança, aqui, também tem pavio curto. Só que o guião escrito por um dos intérpretes (Berto Romero) está sempre a fazer o filme renascer no rasgo dos seus twists, ora drama ora comédia, ora pantomima ora ficção científica, à medida que aquele casal de classe média, acima de qualquer suspeita, começa a revelar a sua real natureza.

Filme abertamente comercial que não deixa de ser cinema de autor, 5 minutos más é caso de estudo interessante. Levou abaixo a sala 1 do Kursaal, 1800 lugares a rebentar pelas costuras, de tanta folia. A última Concha de Ouro em San Sebastián, que nada tem que ver com estas andanças — Os Domingos, de Alauda Ruiz de Azúa — foi um êxito de estima em Espanha, chegou quase aos 800 mil espectadores. 5 minutos más vai seguramente ultrapassar essa fasquia.

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Javier Ruiz Caldera (ao centro), ladeado pelos seus intérpretes, no photo call de San Sebastián

Getty Images

Javier Ruiz Caldera é o pirata que vem do “mundo dos bárbaros”, entrando de assalto, pela primeira vez, no maior bastião festivaleiro da Península Ibérica com 5 minutos más. Já Fatih Akin, é o inverso: desde o Urso de Ouro de Berlim 2004 a Head On — A Esposa Turca, instalou-se no cinema de autor de prestígio. San Sebastián, aliás, deu ao germano-turco de Hamburgo as honras de abertura. Mas Ghost Song é mais um filme de Fatih que torna a não convencer, pese embora a sinceridade da história de amor dos seus protagonistas, Farasha e Faris, que se conhecem numa festa e se apaixonam — mas a rapariga não sucumbe aos ferimentos do desastre de automóvel no regresso a casa e morre nessa mesma noite. Akin ergue depois um filme de tons baços em que os vivos são visitados pelos fantasmas dos mortos, nas ruas e nas noites escuras de Hamburgo. Imagine-se As Asas do Desejo, de Wenders, cruzado com Patrick Swayze e Demi Moore em Ghost (1990). É nesta baliza que se movem as miniaturas existenciais de Ghost Song. Uma tentativa de reabilitar a traço grosso o cinema romântico.

Fatih Akin, apesar de tudo, não faz soar os alarmes de Les misérables, produção francesa bem recheada de euros, assina Fred Cavayé, com Vincent Lindon na pele de Jean Valjean e Tahar Rahim na do seu arqui-inimigo Javert — tal como Victor Hugo os escreveu. A complexidade desta relação cai por terra, não pela falta de entrega do elenco, que é de nível, mas pela forma como o filme, de tanto tentar escapar a academismos e a clichés de época, espectaculariza o romance no ecrã para lhe dar ar modernaço, com imagens de drones e outras que tais. A sensação de postiço é indisfarçável. Pior para o filme: Les misérables torna-se ridículo a imitar A Guerra dos Tronos.

“Ghost Song”, de Fatih Akin

Entretanto, volta-se à origem da primeira crónica e ao alvoroço causado por La bola negra, o “filme dos Javis” (Javier Ambrossi e Javier Calvo), como a imprensa espanhola lhe chama, galvanizado pela aposta da representação espanhola nos Óscares. La bola negra não partiu da linha da frente sob circunstância alguma, pese embora a estreia em Cannes, como então se assinalou nestas páginas. Ambrossi e Calvo são novatos nestas andanças. Além disso, o filme tem uma estrutura invulgar, cose-se com três histórias em três tempos cronológicos, em jeito de elegia queer a partir de uma peça teatral de García Lorca nunca terminada, contextualizando a vida das personagens em 1932, em 1937 (durante a Guerra Civil Espanhola) e em 2017. Acontece que a Espanha o elegeu como acontecimento. E em San Sebastián, não se dá um passo sem se tropeçar em La bola negra.

Bem mais modesto é The Housewife, em que Naomi Watts doura a pílula da figura de Hermine Braunsteiner, uma ex-guarda dos campos de concentração nazis de Ravensbrück e Majdanek, responsável pela morte de milhares de pessoas, como depois se provaria. Foi a primeira criminosa de guerra a ser extraditada dos Estados Unidos. Vivia em Queens e já era cidadã americana quando foi apanhada, em 1964, graças a uma investigação de um jornalista do New York Times. Tinha casado com um americano e estava perfeitamente integrada naquela sociedade.

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Naomi Watts no Festival de San Sebastián

Getty Images

Mas o biopic é frouxo, frustrante, desperdiça uma história poderosa pelo seu ponto de vista vago, indesculpável, entregando a Naomi Watts a inglória missão de ilustrar o retrato de uma mulher afável com o Holocausto a servir de papel de parede. A actriz britânica que quase todos nós associamos imediatamente a Mulholland Drive, de David Lynch, veio a San Sebastián receber um prémio honorário à carreira mas The Housewife não está à sua altura.

O autor escreve segundo a antiga ortografia.

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