San Sebastián favorece La Bola Negra, filme de Javier Ambrossi e Javier Calvo, inspirado nessa novela inacabada de Federico García Lorca, e co-produzido, entre outros, pelos irmãos Almodóvar, Pedro e Agustín. A obra estreou-se a concurso em Cannes, será agora exibida no País Basco pela primeira vez e já se sabe que representará Espanha nos Óscares. Inscrito no cartaz gigante que a promove, é de Lorca (e da peça de teatro Mariana Pineda), por supuesto, o célebre verso que dá as boas-vindas a quem passa: “En la bandera de la libertad bordé el amor más grande de mi vida.” Estamos na Ponte de Zurriola, entre o muy chic Teatro Vitória Eugénia, colado ao esplêndido Hotel Maria Cristina (ambas rainhas de Espanha, nora e sogra, aliás) e os dois gigantes cubos de vidro translúcido do vanguardista Kursaal, o centro de congressos desenhado por Rafael Moneo. É aqui que, todas as segundas quinzenas de Setembro, se instala de armas e bagagens o maior festival de cinema da Península Ibérica. A nova edição começa esta noite, até dia 26.
San Sebastián, o último dos grandes no calendário, tem-se tornado um festival pujante nestes anos do pós-pandemia e, sem surpresa, é o ponto de convergência anual de todo o cinema ibero-americano (que é imenso), além de ser o primeiro, na Europa, a divulgar as estreias mundiais que vêm do lado de lá do Atlântico, de Toronto. Este é o caso do veterano Mike Leigh, que assim repete a estratégia de Verdades Difíceis e chega agora a terras bascas após a estreia canadiana — o novo trabalho chama-se Tender Loving Care. No júri presidido pelo norte-americano Ira Sachs, estarão as actrizes Alice Braga (Brasil) e Patricia López Arnaiz (Espanha), a argumentista Catherine Paillé (França), o realizador Genki Kawamura (Japão), o actor Bill Skarsgård (Suécia) e o produtor e programador Mike Goodridge (Reino Unido).
▲ "Tender Loving Care", de Mike Leigh
Mike Leigh encontrará na compita a francesa Nicole Garcia (7h40 ce matin-là, com Marion Cotillard e o sensível québécois Théodore Pellerin) ou o chileno Pablo Larraín (Mis muertos tristes, uma entrada no sobre-natural), para citar apenas autores que já tiveram ampla divulgação entre nós. Fatih Akin é também um deles e Ghost Song, novo trabalho do germano-turco, uma vez mais rodado na sua cidade-natal, Hamburgo, inaugura esta noite o festival.
Da América vem Jesse Eisenberg, actor de Noah Baumbach, Woody Allen, Kelly Reichardt e David Fincher. Enveredou por um percurso de cineasta nesta década que ainda não convenceu. Contudo, The Debut, a sua terceira longa-metragem, não traz apenas Julianne Moore na pele de uma tímida dona de casa de meia-idade que consegue um pequeno papel no musical de um teatro comunitário de New Jersey (encenado por Paul Giamatti). Traz também dos EUA ecos muito promissores para a temporada de prémios — a revista Variety apontou-o como um dos favoritos aos Óscares. Passará em solo basco (após a estreia em Toronto), a concurso pela Concha de Ouro. Fora de competição, para entretenimento dos donostiarras, é esperado Brad Pitt pela sua presença (ao lado de J.K. Simmons) em Heart of the Beast, de David Ayer.
▲ Juliane Moore em “The Debut”, de Jesse Eisenberg
Pitt será sempre uma estrela bem vinda a San Sebastián, mas nem por isso necessária. Um dos trunfos da direcção artística de José Luis Rebordinos (que cederá agora o cargo, ao fim de 15 anos, a uma programadora formada na sua equipa, Maialen Beloki) tem sido a aposta no cinema hispânico em toda a sua abrangência cultural e geográfica, e que levou a três Conchas de Ouro consecutivas para o cinema espanhol nos anos mais recentes: O Corno do Centeio, de Jaione Camborda, em 2023, Tardes de Solidão, de Albert Serra, em 2024 e Os Domingos, de Alauda Ruiz de Azúa, em 2025. Este ano, San Sebastián aposta em 5 minutos más, de Javier Ruiz Caldera, El mal padre, de Roberto Bueso e Sants, de Mikel Gurrea. Qualquer um destes cineastas tem parco currículo e tudo ainda a provar, no ano em que as três obras espanholas mais destacadas rumaram à Croisette (entre elas o supracitado La Bola Negra).
Não há cinema português na competição principal de San Sebastián, mas a língua vai ser representada por Vicentina Pede Desculpas, do brasileiro Gabriel Martins. A heroína do título é uma professora reformada, interpretada por Rejane Faria, que perde o filho, motorista de autocarro, num acidente em Belo Horizonte. Quase todos os passageiros morrem e, à medida que a investigação avança, começam a surgir indícios de que o motorista poderá ter provocado deliberadamente o acidente, num possível suicídio. Vicentina toma então uma decisão invulgar: a de procurar, uma por uma, as famílias das vítimas, pedindo-lhes desculpa pelo insondável acto. Rejane Faria contracena com Maíra Azevedo, Grace Passô, Karine Teles, Giovanna Heliodoro, Flavio Bauraqui e Thalma de Freitas.
▲ Rejane Faria em “Vicentina Pede Desculpas”, do brasileiro Gabriel Martins
Werner Herzog e Naomi Watts serão homenageados com o prémio honorário Donostia. O alemão esteve há poucos dias em Veneza, a apresentar Bucking Fastard. Já a actriz inglesa tem estado a promover The Housewife, realizado por Ben Shirinian. É um drama passado na Nova Iorque de 1964, baseado numa história verídica. A personagem de Watts é inspirada em Hermine Braunsteiner, antiga guarda de um campo de concentração nazi. Depois da guerra, conseguiu emigrar para os Estados Unidos e viver durante anos como uma banal dona de casa em Queens. Alertado pelo célebre caçador de nazis Simon Wiesenthal, um jovem jornalista americano lançou então uma investigação sobre a ex-SS, descobrindo-lhe o rasto.
O autor escreve segundo a antiga ortografia.