À porta da Voz do Operário, em Lisboa, a fila que se estendia sob o calor da tarde desta quarta-feira reuniu rostos de todas as idades. O que ali juntou gente tão diversa foi o adeus a Jorge Palma, que morreu esta segunda-feira à noite, aos 76 anos, deixando uma obra que transformou as inquietações dos dias simples em grandes canções, com a modéstia e a despretensão de quem nunca imaginou estar a assinar a banda sonora de tantas vidas.
Helena Gavanche, 69 anos, deixava sair as palavras a conta-gotas. “Estou muito comovida”, admitiu ao Observador, à porta do edifício onde o velório público decorreu até às 22h. Ex-funcionária do Instituto de Ação Social das Forças Armadas, há muito reformada, lembrou assim um dos cantores e compositores mais marcantes da música portuguesa contemporânea: “É um símbolo do 25 de Abril, porque ele falava em liberdade, que está tão ameaçada atualmente. Ele nunca se rendeu. Ouviu os discursos dele? Os discursos que fazia, e eram muito poucos porque ele ia pouco à televisão… Viu o último, nos prémios Play?”, interpela-nos. Recorda as vezes que viu o cantor em palco, em particular os concertos na Festa do Avante. Quantos? Perdeu-lhes a conta. Por isso hoje “tinha de vir [ao velório], nem cabia na minha cabeça não vir. Nem me ficava bem”.
Mais de duas décadas a separam de Filipe Mateus, alguns metros atrás na fila para entrar. Tem 47 anos, veio de Sintra. Para lá dos óculos escuros, conta como encontrou nas canções de Palma o reflexo do seu próprio percurso: “É uma pessoa com quem sempre me identifiquei por vários motivos: os dramas de vida, o modo como combateu na vida. Identifico-me com as histórias mais pessoais.” Na ponta da língua surgem-lhe os temas incontornáveis: Jeremias, Frágil, A Gente Vai Continuar, o álbum Só. “É o maior músico português de todos os tempos, a par da Amália. É a minha visão”.
Puxa do telemóvel para mostrar uma fotografia resgatada esta manhã dos arquivos do seu computador. Com um ar jovial, surge lado a lado com o músico, com o mar dos Açores ao fundo. “É de 2005. Encontrei-o nos Açores. Fiz a viagem de pneumático do Corvo às Flores, e ele tinha lá ido dar um concerto. Deve ter sido a pedido de um amigo ou um favor qualquer, porque foi um concerto para umas cem pessoas. No dia seguinte vi-o e nem tenho o hábito de pedir fotografias, estive ali no vai-não-vai, mas lá pedi. Ele foi buscar a guitarra e tudo para a foto. E a mulher dele, ela própria disponibilizou-se para tirar a imagem. Uma pessoa impecável.”
Filipe Mateus (à direita) esteve no velório de Jorge Palma e fez questão de mostrar uma foto com o músico, com o mar dos Açores ao fundo
Marta Nabeiro, 24 anos, nunca teve o privilégio de se cruzar com o cantor. Nasceu em Lisboa no ano em que o músico editava No Tempo dos Assassinos (2002). “A verdade é que o acompanho desde sempre. Os meus pais já eram e são fãs dele, cresci a ouvir a música dele e, mais velha, fui percebendo o que significava”, disse-nos, enquanto aguardava para entrar. Recordou com orgulho o concerto a que assistiu na Casa da Música, no Porto: “Foi um dos primeiros concertos a que fui sozinha”. É violoncelista, mas o seu apreço pela obra do músico vai além do virtuosismo técnico. “Gostava das melodias, mas fui percebendo o que ele dizia, o que ele tocava… Costumo dizer que ele nos ensina a condição de bem existir nas suas palavras.”
Noutros casos, a relação com o artista já estava predestinada antes mesmo de nascer. Raquel, de 22 anos, revelou que o seu avô é o cantor e compositor Edmundo Falé, figura crucial dos primeiros passos do rock português. O percurso cruzou-se com o de Jorge Palma quando ambos integraram os Sindicato, uma das bandas a pisar o palco da edição inaugural do Festival Vilar de Mouros. Por essa razão, o nome de Jorge Palma sempre fez parte da sua vida: “desde pequena que ouço a música dele e sempre fui uma ávida fã”, afirmou, confessando que Estrela do Mar é ainda hoje a canção que a faz “ficar com as emoções à flor da pele”. Ao seu lado, António, de 20 anos, chegou aos temas do artista como a maioria da sua geração, pelos pais. Ao Observador, disse que “todas as pessoas são insubstituíveis, mas algumas, quando partem, deixam mesmo a sensação de que nunca mais vai haver uma pessoa igual a esta, que diga as palavras desta forma”.
Ao longo do início da tarde, várias foram as figuras públicas que passaram pela Voz do Operário, artistas como Carminho, Selma Uamusse, João Gil, Sérgio Godinho ou Vitorino, para nomear alguns, e músicos, muitos, que preferiam o silêncio neste dia. Outras importantes figuras do mundo das artes também se deslocaram para o derradeiro adeus, como João Botelho, Maria João Luís e Ivo Canelas. O realizador Manuel Pureza foi um dos visivelmente emocionados ao falar sobre aquele que considerava ser “a coisa mais próxima de um irmão muito mais velho”. “Viu-me crescer, foi a banda sonora da minha vida”, disse ao Observador. “A única coisa que tenho a dizer é: os poetas ficam, os parvalhões dos tweets morrem. É triste como tanta gente estúpida perdura, mas os poetas têm um condão incrível de passar por cima disso tudo. É uma perda gigante para o país.”
Pouco depois, também o presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Carlos Moedas, passou para prestar homenagem ao cantor de Encosta-te a mim. A aparição ocorreu poucas horas após a polémica gerada devido a uma nota de pesar nas redes sociais do autarca na qual o edil citou uma canção de Sérgio Godinho. Aos jornalistas presentes prestou-se a pouco mais de um minuto, o suficiente para edificar o “grande lisboeta” que o país perdeu.
▲ Sérgio Godinho no velório de Jorge Palma
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
Um homem “livre e com disponibilidade para os outros”, lembra Marcelo
Marcelo Rebelo de Sousa fez questão de sublinhar um homem “que amava as pessoas e que amava ser amado”, alguém que “era fácil de amar”. Descreveu “uma alma rebelde”, “um homem integralmente livre”, que “lutava pela liberdade, pela democracia, pela justiça”, com uma invulgar “doçura”. “Há muita gente livre que não tem disponibilidade para os outros. Ele tinha de uma forma doce”, rematou.
“Aquilo que Jorge Palma nos deixa vai ficar”, acredita Margarida Balseiro Lopes, ministra da Cultura, Juventude e Desporto. Descreve “um artista, um compositor, um autor”, mas também “um homem que muitas vezes fez questão de dar a sua opinião”. “As letras que escreveu não são só letras. Denunciou muitas injustiças sociais. É evidente que [a sua perda tem] impacto na cultura e na sociedade portuguesa”, considerou. “O país admirava muito Jorge Palma e vai continuar a ser conduzido por muitas músicas que ele nos deixou. Certamente que cada um que aqui está foi marcado pelas músicas de Jorge Palma, para mim foi o Bairro do Amor, cada um tem a sua”.
Ao longo da tarde, foram chegando outras figuras políticas de destaque, sobretudo à esquerda, como o secretário-geral do PCP, Paulo Raimundo, que descreveu Jorge Palma como “um grande artista, um grande letrista, um grande amante da música e da arte, um apaixonado pela vida e pela justiça”. “Perdemos um amigo, um amigo que pode não ser lá de casa, mas esteve sempre connosco em casa”, sublinhou.
Já José Manuel Pureza, coordenador do BE, lembrou que o artista “mostrou-nos a Terra dos Sonhos”, descrevendo essa canção como “um caderno de encargos brutal” que deixa a responsabilidade de fazer desse tema realidade, tendo nós de ser “fiéis à exigência de que não vamos parar”. Além disso, frisou a gratidão dos portugueses pela capacidade que Jorge Palma teve de “nos mostrar a beleza, a solidariedade e a transgressão como valores essenciais da vida de quem tem espinha dorsal”.
Isabel Mendes Lopes alinhou por bitola idêntica ao recordar também o discurso que Jorge Palma fez ao receber o Prémio Carreira nos Prémios Play em abril deste ano, instando a que o 25 de Abril de 1974 não se torne “uma memória distante, uma imagem a desvanecer-se lá longe”. “Essa é uma mensagem de muita esperança que temos de continuar. Há aqui um legado também na postura, no acreditar num país que temos de honrar”, afirmou a co-porta-voz do partido Livre, lembrando também que muitos dos que cresceram a ouvir Jorge Palma “conseguem associar a sua música a episódios concretos de cada altura da sua vida, num estilo absolutamente único e particular”.
JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
“Vai estar a dar grandes concertos, onde quer que esteja”
Jorge Palma tinha uma história antiga com a Voz do Operário. Foi aqui, nos meses seguintes ao 25 de Abril, que o cantor, regressado do exílio na Dinamarca, participou nas sessões de canto livre, ao lado de Sérgio Godinho, José Mário Branco, Fausto Bordalo Dias e Zeca Afonso. Mais de 50 anos passados, as escadarias da instituição centenária voltaram a sentir a sola de centenas de pessoas, desta feita para uma despedida e não um regresso.
No quarto andar do salão nobre da Voz do Operário, o caixão repousava ao centro, coberto com um manto azul e ladeado por uma coroa de rosas vermelhas à esquerda e outra de cravos vermelhos à direita. Ao fundo da sala, uma fotografia de grande escala de Tiago Miranda retratava o músico ao piano, num campo aberto, de costas voltadas para a câmara, a tocar para o horizonte.
Até ao cair da noite, manteve-se sempre um fluxo contínuo de pessoas a entrar e sair com o fito de integrar a fila formada ao centro do salão para homenagear Jorge Palma, não obstante o calor que ventoinhas de teto e leques falhavam em dispersar. O ambiente manteve a dignidade requerida, mas não a soturnidade, sendo também um espaço de reuniões e memórias felizes. “Só podia ser o nosso Jorginho”, exclamava um grupo quanto ao motivo do seu reencontro. “Lembro-me de apanhá-lo a tocar junto ao metro do Saldanha, a ele e ao Rui Siqueira, eram dois Dylans”, ouvimos recordar quanto às suas temporadas enquanto músico de rua. “Vai estar a dar grandes concertos, onde quer que esteja”, prometeu-se.
Tendo feito uma vida a cantar e fazer cantar, a pergunta que se impunha não era “se” mas “quando” é que a primeira voz se faria ouvir a entoar versos de Jorge Palma. No exterior da Voz do Operário, um primeiro sinal foi dado com um carro a fazer estafetas, rua acima, rua abaixo, enquanto os ocupantes gritavam A Gente Vai Continuar a partir do habitáculo. No entanto, lá dentro, começaram a ser distribuídas resmas com as letras do cantor, antecipando que o momento estava para breve.
Pedro Santa-Rita revela uma das páginas com as letras das canções de Jorge Palma que o coro da Casa da Achada – Centro Mário Dionísio trouxe para o velório.
Pelas 20h15, um grupo formou uma roda no patamar do primeiro andar do edifício e começou a cantar alguns dos temas mais famosos de Jorge Palma: A Gente vai Continuar, Jeremias, Frágil, Encosta-te a Mim, Bairro do Amor e Estrela do Mar. À falta de sistema de som ou colunas portáteis, o telemóvel teve de servir para dar o balanço. À medida que as canções se sucederam e os apelos para que mais se juntassem ao canto se repetiram, também as pessoas se foram avolumando, sentadas nas escadas ou encostadas aos corrimãos.
Entretanto, ficámos a saber que esta foi uma iniciativa impromptu do coro da Casa da Achada – Centro Mário Dionísio, onde figuram “elementos da família, direta ou indireta, de Jorge Palma”, contou Pedro Santa-Rita, um dos integrantes, ao Observador. “Cantar é uma forma de celebrar. Neste caso, é homenagear alguém que nos pôs a cantar, em várias circunstâncias. Aliás, o Jorge Palma tem músicas para todos os momentos da nossa vida, os bons, os maus, as dores de crescimento, a felicidade, a dor também”, declara.
Apesar desta homenagem decorrer com o tipo de bonomia pela qual Jorge Palma era conhecido, o grupo teve o cuidado de não cantar “diretamente no velório, para não ser muito intrusivo”. Todavia, enquanto este coro recordava o artista através das suas criações, um outro tipo de celebração começou a ecoar a partir do salão nobre. Durante cerca de 20 minutos, bateram-se palmas ininterruptamente, com a família ao centro, abraçada de forma emotiva. Quando a percussão cessou, o espaço foi finalmente palco de uma canção, entoada de forma mais solene, mas não menos rejubilante:
Enquanto houver estrada pra andar
A gente vai continuar
Enquanto houver estrada pra andar
Enquanto houver ventos e mar
A gente não vai parar
Enquanto houver ventos e mar
[Duarte Lima chega ao Brasil 45 horas antes de Rosalina Ribeiro ser assassinada. Tinha encontro marcado com a milionária no Rio de Janeiro mas aterra em Belo Horizonte. Na reconstituição dos movimentos dele, a polícia percebe que o advogado nunca usou o telemóvel pessoal no Brasil. Mas foram detetados contactos a partir de dois telefones portugueses e um suiço. Um deles liga várias vezes para a casa da milionária. Já pode ouvir o terceiro episódio de “As Sombras de Duarte Lima”, o novo Podcast Plus do Observador. Está disponível no site do Observador, na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube.]