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Se for assinante Standard ou Premium do Observador, não tem de esperar e pode ouvir já todos os episódios. Se ainda não for, basta assinar em observador.pt/assinar. 6 de dezembro de 2009, um dia antes do crime. A sala de espetáculos do Arouca Barra Clube, na Barra da Tijuca, está cheia. Rosalina Ribeiro está na plateia, junto à família de Maria Alcina, a ver a amiga cantar em palco. O espetáculo assinala os 50 anos de carreira da cantora. Rosalina tem andado angustiada, mas nunca equacionou faltar. Como acontecia muitas vezes, a filha e o genro da fadista foram buscá-la a casa, à porta de casa. Rosalina nunca se sentiu confortável para andar sozinha no Rio de Janeiro, mesmo que o destino fosse uma zona nobre como a Barra da Tijuca. Depois, ainda recolheram outra amiga, Rosemary Spínola. O concerto dura horas. Rosalina vai batendo palmas. Está feliz pela amiga. Sabe bem o que ela batalhou para divulgar a cultura portuguesa durante tantas décadas, quase sempre sem o reconhecimento de quem vive em Portugal. Alcina está em êxtase. Sente-se realizada. E ter ali a amiga ao lado da família é especial.
Como foi uma coisa muito grandiosa, só nos falamos. Ao sair, ela disse pra mim: "Alcina, por favor, eu quero quarta-feira ir na sua casa almoçar consigo". Nós já nos havíamos despedidos, pensando que eu ia pra São Paulo. Ela disse: "Eu quero ir almoçar consigo, que eu quero lhe falar muitas coisas. Precisamos conversar muito". Eu disse: "Tá bem, então eu faço um almocinho gostoso".
Rosalina fala também com Rosemary sobre tudo que a tem vindo a incomodar. A amiga ouve-a e fica preocupada. Mas quando Rosalina lhe pede que a acompanhe ao encontro que vai ter no dia seguinte com o advogado Duarte Lima, diz-lhe que não pode. Já tem coisas combinadas.
Ela sempre estava naquela preocupação, de vez em quando, que ela falava. Eu acredito que ela não tenha comentado com ninguém mais desse encontro, porque ela disse pra mim que era sigiloso, que ela não podia falar com ninguém. Mas inclusive, numa ocasião, se não me engano, ela me perguntou se eu podia ir com ela e eu tinha um compromisso, eu não fui.
É através do telefone de casa que Rosalina tem muitas conversas com as amigas. E é também por lá que fala com o advogado sobre o encontro na noite do crime. Para a polícia, o levantamento do sigilo telefônico é essencial. Os pedidos às operadoras brasileiras foram feitos logo no início da investigação. Nas longas listagens de números que vão recebendo, há alguns contactos que se destacam. Sobretudo os que foram feitos de um telemóvel suíço e de dois portugueses. Nenhum deles é o telemóvel pessoal de Duarte Lima, mas a polícia vai concluir que os três foram usados por ele nas 45 horas antes do crime. Para a polícia, esse pode ter sido o primeiro grande erro de Duarte Lima. "As Sombras de Duarte Lima" é uma série para ouvir em seis episódios que faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, João Reis, com banda sonora original de Filipe Raposo. Episódio três: as 45 horas antes do crime. A investigação já leva alguns meses e Duarte Lima continua a ser o principal suspeito do assassinato de Rosalina Ribeiro. A polícia precisa traçar um mapa com as deslocações do advogado português, a última pessoa conhecida a estar com a vítima. E uma das formas de fazer isso É seguir o percurso do telemóvel dele, através do registo nas antenas que são ativadas de cada vez que é usado. O problema: o telemóvel pessoal de Duarte Lima não foi detetado no Brasil nos dias 5, 6, 7 e 8 de dezembro de 2009. Ou estava desligado, ou ficou em Portugal. É estranho. Isso não era o que costumava acontecer. As operadoras brasileiras têm registros do número do advogado durante as outras viagens que fez ao país. Aurélio Nascimento e Rogério Lima sabem que ninguém passa vários dias sem telemóvel. E além disso, Rosalina foi contando às amigas que tinha falado ao telefone com o advogado. Por isso, os policiais analisam a lista de chamadas feitas e recebidas em casa de Rosalina, à procura de uma pista. E há dois números desconhecidos que se destacam. Um é um número português, um cartão pré-pago. E foi a partir dele que foram feitas quatro chamadas para a casa de Rosalina no dia 7 de dezembro. As últimas, poucos minutos antes de ela sair para se encontrar com o advogado. "É plausível considerar, pelo tempo de duração da chamada e horário, que o interlocutor poderia estar avisando a sua chegada ao local do encontro", hão de escrever os polícias. O outro número que chamou a atenção é de uma operadora suíça. Para além de ter chamadas com Rosalina, os investigadores vão descobrir que também ligou várias vezes para o motorista de Duarte Lima e para um outro telemóvel brasileiro, que pertence a uma mulher chamada Marlete Oliveira. É natural de Belo Horizonte, onde estava nesses dias de dezembro de 2009, mas vive em Portugal e mantém uma relação com Duarte Lima. A polícia está cada vez mais certa de que estes dois telemóveis foram usados pelo português. E há mais. Descobrem um terceiro número que conseguem relacionar com ele. A partir desse número, foram feitas chamadas no mesmo local e à mesma hora que o telefone suíço, quando o advogado português estava em viagem entre Belo Horizonte e o Rio de Janeiro. Foi assim que o conseguiram localizar. É um número muito parecido com o que ligou para Rosalina antes de ela sair de casa na noite do crime. Começam ambos por 91171. Só mudam os últimos quatro dígitos. Estes três números de telemóvel vão ser essenciais para traçar o percurso que Duarte Lima fez no Brasil. A investigação vai descobrir que o número suíço terá sido fornecido ao advogado português por Michel Canals, o gestor da UBS, que foi arguido no caso Monte Branco, a megaoperação que investigou crimes de fraude fiscal qualificada e branqueamento de capitais, e que deu origem a alguns dos maiores processos de criminalidade econômico-financeira em Portugal, como o caso Marquês e as investigações ao BES. A descoberta do número suíço vai permitir à polícia encontrar uma outra inconsistência na versão de Duarte Lima. O português sempre afirmou que o encontro com Rosalina tinha sido combinado com seis dias de antecedência, quando ainda estava em Lisboa, através do número pessoal dele. Mas não há qualquer conversa nesse dia a partir desse número. Há uma chamada de seis minutos para a casa da cliente, mas foi feita do número suíço. A 19 de março de 2010, os investigadores escrevem uma informação ao delegado da Divisão de Homicídios. Duarte Lima mentiu. Duarte Lima chega ao Brasil 45 horas antes do crime. Tem um encontro marcado com Rosalina no Rio de Janeiro, mas estranhamente, o avião que apanha leva-o para outra cidade a centenas de quilômetros de distância. Aterra no aeroporto de Belo Horizonte, de onde sai já após a 1 h da manhã de domingo, 6 de dezembro. Vai direto para o BH Platinum, um hotel de quatro estrelas. Liga algumas vezes para Marlete Oliveira, que também está na cidade. É uma pessoa com quem mantém uma relação de alguma intimidade. Nos relatórios policiais, conclui-se ser amante dele. Passa apenas oito horas em Belo Horizonte, mas a polícia vai descobrir que fez várias chamadas naquela madrugada e manhã a partir do quarto do hotel. Uma delas para a Pantanal Caça, Pesca e Camping, uma loja de armas a cerca de 15 km dali.
Fui saber que o hotel que ele estava, de onde ele ligou, do apartamento que ele se hospedou, ligou para a loja de arma.
9 da manhã. Faltam 37 horas para o crime. O advogado já está a sair de Belo Horizonte para o Rio de Janeiro. É uma viagem de 620 quilômetros e há vários voos diários entre as duas cidades, que demoram apenas 65 minutos. Mas Duarte Lima não vai de avião, aluga um carro. Para a investigação, é mais uma decisão difícil de explicar. Meses mais tarde, há de dizer, numa entrevista à RTP, que se sente mais seguro a fazer viagens grandes de carro, do que de avião.
Eu faço deslocações regulares de grandes viagens. Vou regularmente a Madrid, vou regularmente a Barcelona, são distâncias de 600 ou 800 quilômetros e faço de carro. Para mim, é uma viagem mais segura de ser feita de carro do que ser feita em voos internos.
Mas entre Belo Horizonte e o Rio de Janeiro, o caminho não é todo em autoestrada. Tem partes sinuosas. É muito diferente das vias que ligam Lisboa a Madrid ou a Barcelona. Às 14h30, pega no telemóvel e tenta falar com Marlete. Está na localidade de Duque de Caxias, apenas a uma hora e meia da zona sul do Rio de Janeiro. Depois, arruma os telefones durante várias horas. O rasto de chamadas registadas por antenas é interrompido aí. Durante as seis horas seguintes, o paradeiro de Duarte Lima é um enigma. O número português que usa para falar com Marlete volta a estar ativo à noite, pelas 20h19. Faltam 26 horas para o crime, quando Duarte Lima chega ao hotel onde vai ficar, no Rio de Janeiro. Não é o preferido dele. Costuma hospedar-se no Copacabana Palace, o conhecido cinco estrelas da Avenida Atlântica, junto ao mar, onde ficam as grandes celebridades. Faz o check-in no Sofitel de Copacabana pelas 21h e não paga a garagem do hotel. O carro alugado fica no exterior, apesar das dificuldades em estacionar naquela zona.
Por que ele não colocou o carro na garagem do hotel? Por quê? Sofitel tem quatro andares. Claro que não, não tinha, porque ele vai pagar pelo estacionamento. Sofitel tem, não sei se o novo hotel que está lá manteve, mas tinha cinco andares de estacionamento, quatro andares de estacionamento. Por qual motivo uma pessoa chega num hotel com carro e não estaciona no hotel? Com o manobrista, que foi lá e colocou o carro lá. Não existe.
Às 21h52, o outro número português, a começar por 91171, é usado pela primeira vez para ligar para Rosalina Ribeiro. A tentativa fica registrada na antena em frente ao hotel. Dois minutos depois, outra antena capta uma nova tentativa na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, mesmo ali ao lado. Finalmente, às 21h32, Rosalina Ribeiro atende o telefone de casa. A chamada dura sete minutos. Faltam 24 horas e 28 minutos para o crime. Há algum tempo que Rosalina não dorme no quarto. Sente-se melhor num sofá-cama que está no escritório. Passa muito tempo naquela divisão a tratar de papelada relacionada com a herança ou a falar ao telefone. E há uma coisa que só consegue ver daquela janela: o nascer do sol na praia, conta a amiga Rosemary.
Ela dormia porque ela gostava muito de acordar e ver a beleza do lugar. Ir na janela e olhar. Então ela estava dormindo no sofá, no escritório. Ou no escritório tinha um sofázinho cama, junto à janela. Ela estava dormindo ali. Ela dizia: "Rose, eu acordo com aquela luz, olho pro céu, fico na janela, vejo aquela beleza de paisagem, eu me sinto bem". E ela estava dormindo ali. Não estava dormindo no quarto de casal, não.
Rosalina sempre teve o hábito de apontar aquilo que tem para fazer. Mas à medida que os anos têm passado, faz cada vez mais anotações. Tem medo de perder a memória. O comissário Aurélio Nascimento há de recolher muitas destas notas durante a investigação.
Nós recolhemos agendas, várias anotações. Havia um cofre, estava fechado, nós tivemos que voltar posteriormente e levando uma pessoa especialista para abrir o cofre. E quando abriu, o que tinha lá também eram anotações. Por algum motivo, ela colocou aquelas anotações que não tinham muita diferença das anotações que ela tinha fora do cofre. Não tinha nada de excepcional. Tudo ela escrevia. Fazia aquela anotação por algum motivo. Segundo me informaram, ela tinha muito medo de Alzheimer. Então, o que ela fazia? Ela numa agenda desenhava o teclado do celular, e ao lado ela colocava uma setinha dizendo para que servia aquilo. Aqui para ligar, aqui para isso, aqui para aquilo. Então ela tinha, segundo as amigas, as pessoas que eu conhecia, essa mania de anotar as coisas para não esquecer.
Por esses dias, Rosalina pega num pedaço de papel e com a letra tremida, escreve um recado para ela própria, que pousa em cima da bagagem que já começou a arrumar. "Parto para Lisboa dia 12 de dezembro, se Deus quiser". Está ansiosa por voltar a Portugal. Está no Rio de Janeiro desde 6 de setembro e deveria ter regressado a 30 de outubro. Foi essa a data com que os advogados dela em Lisboa se comprometeram, quando pediram autorização para que se ausentasse do país, para tratar de assuntos pessoais e de saúde inadiáveis no Brasil. Em Portugal, Rosalina Ribeiro é argúida no processo interposto por Olímpia Feteira, filha do milionário Lúcio Tomé Feteira, que acusa Rosalina do desvio de dinheiro da herança do pai. Por isso, está sujeita a termo de identidade e residência. Não pode viajar para o estrangeiro sem informar o tribunal. Mas entretanto, o regresso já foi alterado mais do que uma vez. No último requerimento, feito a 27 de novembro de 2009, Valentim Rodrigues, o advogado português que trabalha com Duarte Lima, voltou a pedir a extensão do prazo, presumivelmente até finais de dezembro do corrente ano de 2009. Às amigas, Rosalina Ribeiro nunca explica exatamente por que a viagem de volta a Lisboa tem sido adiada. Mas a Rosemary Spinella dá a entender que a decisão de ficar mais tempo foi dos advogados portugueses, Valentim Rodrigues e Duarte Lima, e não dela.
Ela só comentou isso, que eles tinham pedido que ela ficasse mais uns dias.
Faltam agora cinco dias para o tão ansiado regresso. Até quando lhe ligam a oferecer serviços, Rosalina Ribeiro faz questão de dizer que está prestes a voltar ao país dela. Esta chamada foi encontrada no gravador da portuguesa, já depois do crime.
Alô? Sou, sim. Alô, boa tarde. Boa tarde. Por favor, senhora Rosalina? É própria. Boa tarde, senhora Rosalina. Aqui quem fala é Rejane, da Net Rio. Tudo bem? De onde? Da Net Rio. Ah, sim. Tudo bem? Tudo bem. Alguma novidade? Não entendi. Se há alguma novidade. Sim, com certeza. A senhora já possui alguns serviços Net? Não, eu vou para Portugal. Não posso agora tratar de nada. Está bom? Entendi. Peço desculpa. Não, sem problemas. Obrigada. Tchau, um abraço.
Segunda-feira, dia 7 de dezembro de 2009. Dentro de 13 horas, Rosalina Ribeiro será assassinada. Ainda não são 9:00 quando o telefone começa a tocar. Vai passar o dia todo em casa, a atender telefonemas e à espera do momento em que vai finalmente encontrar-se com o advogado. Primeiro, recebe uma chamada de Maria Cá para falar sobre assuntos de imóveis deixados por Lúcio. Depois, faz uma chamada para uma padaria do Flamengo, onde costuma ir. E à meio da manhã, ligam-lhe da Associação Brasileira de Assistência a Pessoas com Cancro. Rosalina sempre foi sensível a este tipo de doenças, mas o caso de Duarte Lima, que tinha tido cancro anos antes, tinha a sensibilizado, tal como a Lúcio Feteira. Maria Alsina lembra-se bem desses tempos.
Eu sei que ela pedia muito para rezar pelo doutor Duarte Lima. Quando ele esteve doente.
Depois do almoço, Rosalina volta a receber telefonemas de Maria Cá sobre a herança. Um deles é da Mineração de Santa Joana, a sociedade gerida por Arlindo Gomes, que explora as areias na Fazenda da Pedra Grande. Quando termina, liga a Rosemary. São 16h09. A amiga brasileira não atende, mas devolve a chamada cinco minutos depois. Rosalina lamenta-se. São os últimos dias no Brasil e está em casa à espera que o advogado lhe telefone a dizer a que hora chega.
"Não, eu estou em casa". Inclusive, ela comentou, agora que você falou, não me lembro. Ela comentou: "Meu Deus, eu com tanta coisa para fazer, e véia de viagem, estou presa em casa esperando o telefonema".
Mal acaba esta conversa de mais de sete minutos, o telefone volta a tocar. São 16h20. É o número português começado por 91171 que lhe tinha ligado na véspera. A conversa dura pouco mais de dois minutos. Depois desta, Rosalina vai receber outras três chamadas rápidas do mesmo número. Uma às 18h15, outra às 19h48 e a última às 19h51. Poucos minutos antes de sair de casa. Ao longo do dia, por entre chamadas e desabafos, foi arrumando algumas coisas. O quarto de hóspedes ficou organizado. Em cima de uma das camas de madeira trabalhada, está uma mala aberta, cheia de roupa. Não está bem dobrada. Ao lado, há uma pequena televisão antiga e uns panos. Encostada a essa cama, no chão, está ainda um saco grande de viagem em pele. Em cima da outra cama, Rosalina dispôs cinco vestidos, um para cada um dos dias que ainda ia passar no Rio de Janeiro. Estão também separados uns sapatos pérolas. Na mesa de jantar de madeira maciça, deixou os dois comprimidos da noite para não se esquecer de tomar quando voltasse do encontro com Duarte Lima. Enquanto Rosalina espera em casa, Duarte Lima anda pela Zona Sul durante todo o dia 7 de dezembro. Às 14h, as antenas de telemóvel captam-no junto ao Forte de Copacabana e às 16h20, passa perto da casa de Rosalina, no bairro do Flamengo. São alguns quilômetros de distância. Está na avenida da casa dela quando lhe liga para o número fixo e falam aproximadamente dois minutos. É a antena instalada no número 66 da Avenida Praia do Flamengo, que registra toda a chamada. Rosalina mora no número 60. Ainda voltam a falar duas horas mais tarde, quando Duarte Lima passa junto a Rio Comprido, na zona norte da cidade. Cinquenta e dois segundos é a duração da chamada, segundo os registros das operadoras. Acaba por voltar a Copacabana, onde liga a Marlete, mas a chamada não é atendida. Depois disso, regressa para perto da casa da cliente. À porta do número 20, um pouco antes do prédio de Rosalina, são feitas duas novas chamadas do cartão 91171, que só foi usado para ligar para a portuguesa. A primeira, às 19h48, dura cerca de dois minutos. A segunda, às 19h51, é ainda mais curta. Vinte e um segundos. Minutos após esse telefonema, Rosalina abre a porta de casa. As imagens de videovigilância no interior do prédio mostram que, enquanto o elevador desce, segura uma pasta com documentos debaixo do braço direito. Na mesma mão, leva um casaco e a mala. Se não fosse encontrar-se com alguém conhecido, o mais certo é que tivesse usado uma das estratégias habituais que tinha para não ser assaltada.
Tinha até um hábito que eu achava muito engraçado. Ela botava a bolsa dentro de sacola plástica.
Apesar de a cliente ter medo de sair à rua sozinha, Duarte Lima não a vai buscar à porta de casa. Rosalina disse às amigas que combinaram encontrar-se no Alcaparra, um dos restaurantes a que ela costuma ir quando está no Rio de Janeiro. Fica na rua onde mora, a 350 metros de distância. São cinco minutos a pé, se tanto.
Foi o que ela tinha me dito. Ela disse: "Se ele vier aqui em casa mais tarde", ela não sabia nem o horário, "e é perto da hora de jantar, eu vou levá-lo ao restaurante".
Como sempre, Rosalina está alerta. Desce as escadas da entrada do prédio e vira à direita. É filmada pelas câmeras de videovigilância a voltar-se para trás, repentinamente, assustada. É um carro que vem a grande velocidade e quase sobe o passeio. Rosalina continua a andar. Um pouco mais à frente, na avenida, volta a aparecer nas imagens de uma câmera instalada no número 100. Poucos minutos depois, uma outra câmera de videovigilância que está apontada para a porta do restaurante Alcaparra, deveria tê-la filmado a entrar para um encontro com o advogado. Mas quando a polícia pedir as imagens, vai perceber que Rosalina nunca aparece. Duarte Lima também não. Mas essa é uma história para o próximo episódio. Se for assinante Standard ou Premium do Observador, não tem de esperar e pode ouvir já todos os episódios. Se ainda não for, basta assinar em observador.pt/assinar. No próximo episódio.
Surgiram uma, duas ou três questões sobre a pessoa que estava em investigação, como é que ela era vista em Portugal, se existiria algo contra ele.
Lima vem de um meio muito pobre, é um excelente aluno na universidade, é o homem que tocava órgão e tinha todas as qualidades.
Como o crime ocorre num país estrangeiro, naturalmente, as autoridades estrangeiras não podem atuar em Portugal, não podem vir ao país onde pretendem obter informação e vão fazê-lo de diferentes formas.
O Observador contactou Domingos Duarte Lima, mas o advogado recusou ser entrevistado para este podcast. "As Sombras de Duarte Lima" é uma série para ouvir em seis episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, João Reis, com banda sonora original de Filipe Raposo. O guião e as entrevistas são de Carlos Diogo Santos. As entrevistas a Olímpia Feteira, Maria Alcina e Rosemary Spinella foram feitas em 2015. A sonoplastia deste episódio é de Artur Costa. O design gráfico é de Miguel Ferraz Cabral. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio, ouvimos sons retirados do YouTube. Podcast Plus do Observador é mais do que um podcast.
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