No verão de 1995, o filme de estreia de um tal Larry Clark criava burburinho pelo mundo fora. Kids, que entusiasmou o festival de Cannes, mostrava a juventude como o recreio por excelência de drogas e, sobretudo, de sexo. Com uma crueza pouco habitual, Kids chocou e marcou uma geração de millenials, sendo tema de conversa mesmo junto de quem não viu o filme. Chegados a 2026, Truly Naked, realizado e escrito neerlandesa Muriel d’Ansembourg, tenciona ser um zeitgeist semelhante para a chamada Gen Z. Com duas gritantes diferenças de contexto: por um lado, a Gen Z tem um acesso a pornografia desenfreado e incomparável ao das gerações sucessoras; e, por outro, a Gen Z famosamente não faz tanto sexo quanto isso, com um estudo recente a demonstrar que um em cada quatro adultos nunca teve relações sexuais. Talvez ambos estes pontos estejam ligados, mas agora não temos tempo.
Com a tagline “quando a pornografia se torna na norma, a intimidade é o novo tabu”, Trully Naked, que se estreou há pouco tempo e está na Filmin, não é tímido a apresentar-se e começa logo com uma cena de sexo bem gráfica. Se isto não chocar, há mais um ás na manga: trata-se de uma cena de um filme porno no qual um filho adolescente está a filmar e a dirigir o pai e uma companheira. É assim que conhecemos Alec, um adolescente tímido e introvertido, que sempre viu a vida através da lente do pequeno negócio de pornografia do pai, sendo que a própria casa da família serve também de cenário para as filmagens. Desde a morte da mãe, Alec foi sendo arrastado cada vez mais para o negócio familiar, filmando e editando os conteúdos produzidos e protagonizados por Dylan, o seu pai de trato brusco. Progenitor e filho mudaram recentemente para uma pequena cidade, e o jovem faz um esforço extra para que ninguém saiba dos filmes pornográficos que ocorrem no seu lar. Mas toda essa fachada fica em risco quando tem de fazer um trabalho para a escola exatamente sobre os perigos do vício em conteúdos XXX, sendo emparelhado com Nina, uma rapariga independente e feminista.
▲ Toda a fachada que Alec tenta manter fica em risco quando tem de fazer um trabalho para a escola exatamente sobre os perigos do vício em conteúdos XXX, sendo emparelhado com Nina, uma rapariga independente e feminista
Com poucos personagens, “Trully Naked” centra-se em dois eixos: a relação entre pai e filho e a relação entre Alec e Nina. Na justaposição de ambos estará, espera-se, a oportunidade para o protagonista descobrir quem é, verdadeiramente (é o chamado filme “coming of age”, com tudo o que a palavra “coming” pode albergar neste contexto). O título não é propriamente subtil no subtexto — numa casa com tanta gente nua, será a cumplicidade a nudez suprema? E talvez seja este o maior problema de Trully Naked, o de achar que tem muito subtexto quando na verdade nos está a escarrapachar intensões e sentimentos na cara.
Nos seus bons momentos (e há alguns), a longa-metragem de estreia de Muriel d’Ansembourg é um filme simples. Nos piores, é simplista. Há algumas boas ideias que não precisam de grandes rococós para resultarem, mas também há muitos atalhos que fazem da obra um simples puzzle com meia dúzia de peças. As relações entre personagens são apressadas, sem se compreender o à-vontade quase automático da supostamente enigmática Nina com praticamente toda a gente (como o pai de Alec ou as actrizes que com ele trabalham).
Na dinâmica entre Alec e Dylan há algumas cenas com alguma autoironia, mas noutros pontos o filme leva-se demasiado a sério — o que faz com que às vezes resulte na pior das gargalhadas, a que vem da vergonha alheia. Trully Naked tenta chocar (há uma cena de sexo com um polvo capaz de impressionar até os fãs de filetes com arroz do mesmo), o que é claramente mais difícil em 2026 do que em 1995. Há aqui um bom filme dentro, que parte de uma premissa interessante e que é solidificado por boas interpretações, mas o resultado é toldado por alguma imaturidade.