A propósito do décimo aniversário do museu, que se assinala na segunda-feira, o diretor, João Pinharanda, falou sobre uma temporada que pretende cruzar artistas com percursos consolidados, novos talentos e projetos internacionais, abordando temas contemporâneos através de diferentes linguagens artísticas.

A exposição de Christian Marclay partirá da relação entre a cidade, as questões urbanas e a música, indicou João Pinharanda, sobre o artista suíço-americano que viveu em Londres e trabalhou entre o Reino Unido e os Estados Unidos, desenvolvendo uma obra que cruza som e imagem.

“Marclay pensa a cidade e todas as questões urbanas a partir da música e dos ruídos”, explicou o diretor.

Outra das propostas anunciadas é uma exposição coletiva dedicada à inteligência artificial, com curadoria do italiano Antonio Somaini, historiador de arte e curador, especialista em teoria do cinema e novos media, professor na Universidade Sorbonne, em Paris.

Com o título provisório “Energias da IA”, a mostra reunirá artistas contemporâneos, incluindo portugueses, e deverá apresentar obras recentes, muitas das quais pela primeira vez, referiu o diretor do MAAT desde 2022.

A exposição abordará as energias que alimentam as tecnologias de inteligência artificial, como a eletricidade, a água, os minerais críticos, a computação, o trabalho humano e o capital, mas também as capacidades e os efeitos que estas tecnologias desencadeiam nas sociedades e nos ambientes.

O objetivo da proposta, segundo Pinharanda, não é explicar didaticamente o funcionamento dos sistemas de inteligência artificial.

“Não é a inteligência artificial pensada como uma coisa didática ou andar a ver como é que são feitas as maquinetas. São mesmo artistas que trabalham com essa tecnologia e que pensam esse tema criticamente”, afirmou Pinharanda.

A temporada incluirá também a exposição do Prémio Fundação EDP Novos Artistas, que integra a aposta do MAAT na apresentação de novas gerações da criação artística portuguesa, e cujos finalistas deverão ser conhecidos em breve, disse.

Pinharanda referiu igualmente a intenção de apresentar artistas internacionais provenientes do Brasil e da Europa Central, nomeadamente da Polónia e da República Checa, regiões que considera menos representadas na programação do museu.

“Temos apresentado muitos ingleses, suíços, franceses e não tem havido ainda nada ligado a essa região”, observou, acrescentando que a programação deverá também incluir, entre 2027 e o ano seguinte, mais projetos significativos de artistas afrodescendentes.

Por outro lado, a presença de artistas da América do Sul continuará a ser uma das linhas de programação, apontou, recordando exposições anteriores dos criadores brasileiros Ernesto Neto e Jonathas de Andrade, assim como a apresentação de coleções brasileiras ligadas à arte contemporânea.

Questionado sobre a possibilidade de privilegiar artistas lusófonos nas próximas temporadas, Pinharanda defendeu que a escolha de criadores deve partir “sobretudo da qualidade e do interesse das obras, e não da sua capacidade para ilustrar determinada identidade ou tema”.

“Eu não gosto de ser didático nem militante. A escolha dos artistas e das exposições será sempre feita pelo valor que a obra tem em si”, sustentou o historiador de arte, curador, crítico de arte e adido cultural da embaixada portuguesa em Paris entre 2016 e 2021.

A programação internacional insere-se numa estratégia que o diretor considera importante para o posicionamento do MAAT: apresentar em Portugal artistas de outros países, mas também conceber exposições capazes de circular no estrangeiro.

Instalado na frente ribeirinha de Belém, o complexo museológico do MAAT integra o edifício contemporâneo desenhado pelo estúdio AL_A, de Amanda Levete, a antiga Central Tejo e um jardim que liga os dois espaços.

A programação do museu cruza arte, arquitetura e tecnologia, tendo como referências a história energética da Central Tejo, a localização junto ao estuário do Tejo e temas como a ecologia, a transição energética, as tecnologias e as transformações sociais.

As comemorações do décimo aniversário do MAAT decorrem até segunda-feira, com visitas guiadas, oficinas, uma performance de ópera e um mercado solidário, entre outras iniciativas.

Coincide com a apresentação de três novas exposições: “Venus– Valentino Garavani pelo olhar de Joana Vasconcelos”, “New Age”, de João Pimenta Gomes, e “Expor, publicar: o MAAT impresso (2016–2026)”, dedicada à produção editorial do museu.

MAAT quer afirmar-se pelo conteúdo após década com mais de 3 milhões de visitantes

“Foi importante transformar um museu que era uma curiosidade, inicialmente, quando inaugurou, devido à sua arquitetura. E agora que as pessoas identificam o museu pela forma, [que] passem também a identificar pelo conteúdo”, disse João Pinharanda, em entrevista à Lusa, a propósito do décimo aniversário do museu.

O MAAT abriu ao público em 2016, com um edifício concebido pelo estúdio britânico AL_A, de Amanda Levete, alterando a paisagem da frente ribeirinha de Belém.

A instituição integra também a Central Tejo, antiga central termoelétrica construída em 1908 e reconvertida em espaço museológico, estando os dois edifícios ligados por um jardim desenhado pelo arquiteto paisagista Vladimir Djurovic.

Para Pinharanda, que regressou ao museu em 2021 e assumiu a direção em 2022, a identidade da instituição resulta de várias dimensões, desde a localização e a história do território, na zona de Belém, até à coleção de património energético, à exposição e coleção de arte contemporânea portuguesa e à apresentação de artistas internacionais.

“O próprio local chama-nos a tocar certos temas”, considerou, referindo a ecologia, o clima, a transição energética e os problemas da poluição, numa relação direta com o estuário do Tejo e a paisagem envolvente, como inspiração para desenhar o programa expositivo.

A história de Belém é outra das linhas de trabalho do museu, pela ligação à expansão marítima portuguesa, a partida das naus e a chegada de pessoas escravizadas, lembrou o historiador de arte, acrescentando que o MAAT já abordou estes assuntos através de exposições, procurando relacionar o passado do território com questões contemporâneas.

Por outro lado, Pinharanda sublinhou que a escolha programação de arte contemporânea também contribui para a diversidade de linguagens que o MAAT procura acolher, ao mesmo tempo que a Fundação EDP, através da sua coleção de arte, e dos prémios para novos artistas e consagrados, “permitem acompanhar diferentes momentos da arte portuguesa, desde artistas em início de percurso até nomes com reconhecimento consolidado”.

Este ano, o Grande Prémio Fundação EDP Arte distinguiu o artista João Penalva, e os finalistas do Prémio Fundação EDP Novos Artistas “deverão ser anunciados muito em breve”, indicou à Lusa.

Para Pinharanda, a atribuição regular dos prémios representa “um compromisso com a história de Portugal e da arte portuguesa”, a par da vocação internacional do museu, que apresentou artistas como Miriam Cahn e Jeff Wall, em 2025.

O MAAT tem também procurado fazer circular no estrangeiro exposições concebidas em Portugal. O diretor destacou as apresentações internacionais de trabalhos de Vivian Suter no Palais de Tokyo, em Paris, e de Ernesto Neto no Grand Palais, em França, além de peças produzidas pelo museu que já integraram exposições no estrangeiro.

Ainda assim, considera que a projeção internacional dos artistas portugueses enfrenta dificuldades associadas à dimensão do mercado nacional e à falta de estruturas de promoção comparáveis às de países como Espanha ou França.

“O mercado português é tão frágil”, avaliou, observando que a circulação internacional de artistas como Rui Chafes, Pedro Cabrita Reis ou Joana Vasconcelos dependeu sobretudo do esforço individual destes artistas.

Na sua perspetiva, o museu pode contribuir para essa projeção, mas não consegue substituir o papel das galerias, das feiras e das políticas públicas de promoção cultural.

Outra componente importante da programação tem sido a herança da Central Tejo, já que o antigo Museu da Eletricidade deixou de existir como instituição autónoma, mas o seu património, incluindo máquinas e instrumentos ligados à história da energia, permanece no complexo museológico, em exposição e em reservas, e por vezes tem sido cruzado com a arte contemporânea.

“Uma das linhas que tenho trabalhado, de uma maneira relativamente discreta, mas persistente, tem sido fazer exposições com material dessa coleção”, disse Pinharanda, recordando mostras anteriores sobre a primeira central elétrica instalada naquele local, em 1909, e sobre publicidade, e antecipando outros projetos ligados ao som e à imagem.

O diretor do museu considera que a coleção de património energético tem uma dimensão invulgar e atrai visitantes estrangeiros interessados, por exemplo, nas antigas caldeiras da Central Tejo: “Temos muitas visitas internacionais, ingleses nomeadamente, que vêm cá ver as caldeiras que já não existem em lado nenhum”, apontou.

Os números globais da primeira década de vida do MAAT incluem ainda visitas de mais de 357 mil alunos, resultados que o diretor relaciona com a multiplicidade de espaços do museu, permitindo acolher várias exposições em simultâneo e dirigir propostas a públicos diferentes.

A coleção de arte da Fundação EDP, por seu lado, reúne cerca de 2.500 obras, sobretudo de artistas portugueses e com uma concentração significativa na produção do século XXI, embora inclua também nomes como Lourdes Castro e Helena Almeida, a partir da década de 1960.

O diretor revelou ainda que está em preparação um depósito de obras de um artista histórico, cujo nome não quis divulgar por ainda não estar formalizado o contrato. O acordo permitirá ao museu utilizar as obras em exposições e poderá incluir uma opção de compra.