Uma exposição que questiona as fronteiras entre criação artística, cultura “faça você mesmo” e sociedade de consumo, com obras de 31 artistas da Coleção de Arte Contemporânea da Fundação “la Caixa”, é inaugurada esta sexta-feira, na Gulbenkian, em Lisboa.

Intitulada “Pintar É Fácil. Faça Você Mesmo!”, a exposição reúne cerca de quatro dezenas de obras, incluindo de artistas portugueses, numa seleção com curadoria do artista João Maria Gusmão, que ficará patente até 8 de fevereiro na galeria principal da Fundação Calouste Gulbenkian.

Entre pintura, instalação, escultura, vídeo e fotografia, a mostra inclui obras de Antoni Muntadas, Giovanni Anselmo, Angela de la Cruz, Peter Halley, Damián Ortega, Sigmar Polke, Gerhard Richter, Doris Salcedo, Thomas Schütte e Michael Snow, entre muitos outros, e dos portugueses Ana Jotta e Jorge Queiroz e da luso-alemã Susanne Themlitz.

João Maria Gusmão explicou, numa visita realizada esta quinta-feira para a comunicação social, que o título da exposição é, na realidade, “falso”, porque corresponde a uma crítica presente na própria obra de abertura do artista espanhol Muntadas, nascido em 1942, que analisava as mensagens ideológicas escondidas na publicidade.

O título remete para uma fotografia de 1989 que reproduz o anúncio de uma loja de materiais de construção com o slogan “Pintar es fácil! Hágalo usted mismo”, imagem que serve de ponto de partida para uma reflexão sobre as relações entre a cultura do “faça você mesmo” e a prática artística.

A fotografia de Muntadas recebe os visitantes da exposição convidando a viajar aos anos 1980, num contexto em que a sociedade de consumo fazia crescer um mercado associado ao “faça você mesmo”, sugerindo uma aproximação entre o trabalho do artista e o do construtor civil. Para Gusmão, a ironia da obra procura questionar a ideia de que fazer arte é uma tarefa simples.

“A ironia de Muntadas apela à reflexão, na medida em que o anúncio quer dar a entender que é muito fácil criar uma obra de arte, quando na realidade é difícil criar uma intencionalidade”, afirmou o artista e curador, questionado pela Lusa.

A escolha parte de uma leitura pessoal de João Maria Gusmão de um acervo constituído por mais de um milhar de obras adquiridas pela instituição espanhola Fundação “la Caixa”, desde os anos 1980, e que inclui diferentes práticas artísticas, da pintura e escultura à fotografia, cinema, instalação e vídeo.

“Na exposição há artistas com obras diferentes, com vários propósitos: uns exploram novas sensibilidades e materiais, outros práticas autorreflexivas e outros são nitidamente ativistas políticos”, acrescentou Gusmão sobre a tensão que atravessa a seleção de obras, que reúne práticas e objetivos distintos.

A seleção estabelece um diálogo entre práticas experimentais desenvolvidas na arte contemporânea ao longo dos últimos 50 anos, propondo uma leitura crítica e satírica sobre o lugar da arte num contexto em que a criatividade, o lazer e a subjetividade foram progressivamente integrados nas lógicas da produção e do consumo.

De acordo com o diretor do Centro de Arte Moderna da Gulbenkian, Sérgio Mah, presente na visita, a nova mostra em Lisboa resultou de um processo de colaboração entre as duas instituições, e distingue-se das anteriores apresentações da coleção “la Caixa” em Portugal.

“Há artistas que são ótimos curadores e João Maria Gusmão é um exemplo”, afirmou Mah, defendendo que os museus devem também propor formas inesperadas e alternativas de usufruir as obras de arte, criando outras possibilidades de apreciação e despertando “ideias e sensações”.

Por seu lado, a diretora da Coleção de Arte Contemporânea da Fundação “la Caixa”, Nimfa Bisbe, destacou o trabalho desenvolvido durante mais de um ano e meio para concretizar a exposição, e a surpresa que sentiu perante a nova leitura da coleção criada pelo artista e curador português.

“Estou muito surpreendida porque parece outra coleção totalmente diferente”, afirmou, acrescentando que a Fundação “la Caixa” encara o seu acervo como “um organismo vivo” que pode ser entregue a curadores para novas interpretações, tendo dado “carta branca” a Gusmão, que, segundo Nimfa Bisbe, recebeu o convite “com muita inteligência e espírito crítico”.

Entre as escolhas do artista e curador (nascido em Lisboa, em 1979), para esta exposição, estão várias obras adquiridas recentemente pela “la Caixa” e ainda não apresentadas publicamente, incluindo trabalhos de artistas portugueses, o que, segundo a responsável, também permite tornar esta exposição “muito diferente” das anteriores.

No texto de apresentação, Gusmão avisa que, “não sendo bazófia tampouco é para levar a sério”, prolongando o tom irónico para o catálogo, pois as obras e os artistas são apresentados através de textos que assumem a forma de receitas e instruções.

A coleção da Fundação “la Caixa” inclui ainda obras de artistas como Joseph Beuys, Bruce Nauman, Antoni Tàpies, Jannis Kounellis, Mario Merz, Giovanni Anselmo, Juan Muñoz, Robert Ryman, Donald Judd, Carl Andre, Mike Kelley, Agnes Martin e Sigmar Polke, entre outros.

João Maria Gusmão desenvolve há cerca de duas décadas uma prática multidisciplinar que atravessa o cinema experimental, a fotografia, a escultura e o desenho, mas também a literatura, a edição e a curadoria, resultado de uma investigação que cruza uma reflexão sobre a estética da fotografia e do cinema dos primórdios, uma análise conceptual do meio analógico e a recuperação de experiências modernistas na literatura e na filosofia contemporânea.

Ao longo do percurso, Gusmão desenvolveu também colaborações com outros artistas, curadores e editores, destacando-se a parceria com Pedro Paiva, entre 2001 e 2018, e projetos com Alexandre Estrela, Mattia Denisse e Gonçalo Pena.