É de 1911 que data, em Itália, a primeira adaptação ao cinema da Odisseia, de Homero, que não se perdeu, ao contrário das duas primeiras, desaparecidas para sempre. É um ambicioso filme mudo de 44 minutos, uma superprodução tendo em conta os meios da época, realizado por Francesco Bertolini, Adolfo Padovan e Giuseppe de Liguoro, tendo este, um aristocrata napolitano e nome pioneiro do cinema transalpino, assegurado também o papel de Ulisses. Esta Odisseia foi filmada por ocasião da Feira Internacional de Turim, que comemorava o 50.º aniversário da unificação de Itália.

O cinema e a televisão têm-nos dado várias e geralmente boas versões do poema épico homérico, caso do formidável Ulisses, de Mario Camerini (1954), com Kirk Douglas no papel principal; da minissérie europeia de 1968 A Odisseia, de Franco Rosi e Mario Bava, com o jugoslavo Bekhim Fehmiu como Ulisses; ou da adaptação também televisiva feita por Andrei Konchalovsky em 1997, rodada nos EUA e co-produzida por Francis Ford Coppola, em que Armand Assante veste a pele de Ulisses. E há ainda os filmes inspirados na Odisseia, como o enfadonhíssimo O Olhar de Ulisses, de Theo Angelopoulos (1995), ou o estrambólico Irmão, Onde Estás?, dos irmãos Ethan e Joel Coen (2000).

[Veja o “trailer” de “O Regresso de Ulisses:]

Só em 2026 veremos a nova adaptação da Odisseia por Christopher Nolan, com Matt Damon a interpretar Ulisses, e que já está a causar algum mal-estar por causa do seu elenco “inclusivo” (que inclui Lupita Nyong’o, Zendaya, Himesh Patel e Will Yun Lee). Entretanto, temos agora nas salas O Regresso de Ulisses, de Uberto Pasolini, um produtor que de vez em quando se aventura pela realização, e que se centra, neste filme, na parte final da Odisseia, sobre o retorno de Ulisses a Ítaca após toda uma série de aventuras, e o seu sangrento confronto com os pretendentes de Penélope. 

O Regresso de Ulisses banha num estado de espírito consentâneo com os tempos mornos, apáticos, pessimistas e animicamente desolados em que vivemos. Pasolini e os seus co-argumentistas, o dramaturgo Edward Bond (falecido recentemente) e John Colee, privilegiam  a estética do realismo miserabilista e deprimido, e a astenia narrativa, bem como uma abordagem de “desconstrução”, anti-heróica e anti-épica, da história e da figura de Ulisses, interpretado por Ralph Fiennes – que até teria dado um adequadíssimo Ulisses numa versão mais fiel e mais vitaminada do poema. Mas aqui, tudo puxa para baixo e nada para cima.

[Veja uma entrevista com Ralph Fiennes e Juliette Binoche:]

Roubado da carga mitológica, oco de miolo fantástico e aventuroso, e esvaziado de fôlego épico, O Regresso de Ulisses passa-se numa Ítaca paupérrima e famélica que mais parece a Albânia no tempo do comunismo — fora a população “diversa” —, em que o palácio real é um tugúrio tão acolhedor e confortável como uma caverna nas montanhas, e junto ao qual os muitos pretendentes à mão de Penélope (Juliette Binoche) se amontoam em tendas, naquilo que se assemelha ao camping selvagem de um festival de música alternativa patrocinado por um produtor de canabis.

[Veja uma entrevista com o realizador:]

Enquanto Penélope desfaz de noite o manto que tece de dia e os pretendentes gozam com Telémaco (Charlie Plummer), ameaçam-no de morte e maltratam, roubam e assassinam os locais, Ulisses, transformado numa figura caracterizada pela dúvida, pelo derrotismo e pela inação, passa o tempo a pensar na morte da bezerra escondido num casebre por Eumaeus, que o recolheu na praia e salvou da morte. O filme, macilento e deprimente, arrasta-se dolorosamente ao som de uma banda sonora sub-Philip Glass composta por Rachel Portman, ex-mulher do realizador, e nem Penélope (que, implausivelmente, não reconhece o marido quando o vê…) escolhe um pretendente, nem Ulisses se decide a agir, nem a gente almoça.  

A coisa anima (e mal seria se assim não fosse) no final, quando Ulisses encordoa o seu arco, atira a flecha através dos doze machados, e com a ajuda de Telémaco, Eumaeus e outro dos seus fiéis, dizima os pretendentes que se encontravam no salão do palácio, e faz enfim o sangue correr à litrada (embora tenhamos também de sofrer um monólogo “anti-patriarcal” e didático de Penélope sobre a natureza violenta dos homens). Mas já é tarde demais para livrar O Regresso de Ulisses de ser uma andrajosa, macambúzia e indigesta chumbada. Parafraseando Álvaro de Campos: “Coitado do Ulisses! Coitado do Homero!”.