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Esta é a música dos Lavoisier. Eles são os meus convidados para o Cabeça de Cartaz desta tarde, terça-feira. "Coroa de Espinhos" foi também single de avanço para este "Viagem a um Reino Maravilhoso". É o novo disco dos Lavoisier. É também uma homenagem a Miguel Torga, onde a banda recria e usa alguns dos poemas de Torga neste novo disco. Tenho, por isso, comigo a Patrícia Relvas e o Roberto Afonso. Muito bem-vindos à Rádio Observador. Obrigado por terem tido este tempo para falarmos um bocadinho deste belíssimo disco. Antes de irmos lá, e porque estamos também num dia que está a ser marcado pelo desaparecimento do José Mário Branco, hoje estivemos aqui numa emissão especial com o Portulez, também dedicado a esse "Um Disco para José Mário Branco", um projecto do qual fizeram parte com uma canção, "Eu Não Me Entendo". Como é que foi pegar também no trabalho do José Mário e porque escolheram esta canção em particular para esse disco?
Antes de mais, obrigada nós pelo convite. Este tema do "Eu Não Me Entendo" foi-nos apresentado pelo Carlos Bica em Berlim, quando fizemos uma colaboração com ele. Foi um dos temas que ele propôs e nós não o conhecíamos antes de o Carlos Bica nos apresentar. E partiu daí. Depois de ter corrido bem, tornou-se uma necessidade fazer aquela canção e depois de a gravar. Assim, fez parte do "É Teu", do nosso último álbum. Depois, acho que quando se estavam a reunir as canções de tributo ao Zé Mário, souberam desta reinterpretação do "Eu Não Me Entendo" e foi escolhida para este álbum, que nós ficamos muito contentes. E foi uma honra, claro, poder participar.
O Zé Mário pode ser escutado em alguma coisa dos Lavoisier?
O Zé Mário, acho que sim, especialmente nesta parte da orquestração. Devo confessar que talvez a nossa primeira abordagem ao trabalho do José Mário foi na parte da produção musical. Lembra-me do "Cantigas do Maio", do Zeca Afonso, que ele esteve envolvido, e de uma série de histórias que envolvem esse mítico álbum do Zeca. Acho que essa parte da orquestração nos influenciou bastante. Acho que de uma maneira indirecta, posso confessar que não sou assíduo ouvinte do José Mário, embora durante a minha vida, como é óbvio, que já ouvi bastante vezes. Mas devo confessar que o imaginário colectivo, chamemos-lhe português, talvez ele não gostasse tanto, mas eu posso lhe chamar assim Há de facto uma personalidade, uma característica muito forte e um carácter português muito forte na sua orquestração, embora tenha muitas influências, essa própria orquestração. E nós gostamos de sentir que é uma grande influência do Zé Mário, mais nessa parte da composição, da orquestração.
Sim, para além da sua música, tudo o que representou. Através de um tempo, toda a sua voz, tudo o que fez, como artista, no todo.
Ao longo deste dia, temos ouvido muitos amigos, ex-colaboradores do Zé Mário e toda a gente diz duas coisas que me ficam sempre. Primeiro, que é muito difícil de dissociar o homem artista do homem, homem. E essa indissociação que ele faz é ótima, é muito verdadeira e é o que é. E a outra é que ele era um exímio, tu falavas em orquestração, ele tinha um sentido estético muito apurado para os arranjos, principalmente. Depois disso, era um grande letrista, faltam-lhe poucas coisas.
Sim.
Era um artista completo.
Completo.
Mas a nível conceptual era bastante rico e transmitia-nos essa força, de poder fazer coisas com utilidade, com verdadeiro sentido de arte, um verdadeiro sentido artístico. Acho que o José Mário era especial por isso.
Voltamos aqui aos Lavoisier nesta viagem a um reino maravilhoso. Por que escolheram Torga? De facto, é um poeta que deveria ser mais celebrado, até por outras artes. Acham isso?
Acho que sim. Acho que é um escritor um pouco esquecido, talvez, mas também é transmontano. E Trás-os-Montes acaba por ser um pouco esquecido no Portugal. É uma terra que é distante de Portugal em si, acho eu. Mas este trabalho à volta de Miguel Torga surgiu por um convite de uma associação cooperativa, Transa, de Vila Real, que desenvolve uns concertos que se chamam Canções da Montanha, no espaço Miguel Torga, em São Martinho de Anta, que é a terra natal de Miguel Torga. E então eles fizeram-nos este desafio e nós aceitámos. E assim se chegou a esta viagem a um reino maravilhoso.
Foi difícil escolher as canções ou os poemas que iriam musicar?
Foi interessante, chamemos-lhe assim.
Há algum ângulo que tenham escolhido?
É difícil. O espólio é enorme. Temos a prosa, temos os contos, temos os diários, temos os romances, temos os poemas. Eu acho que da maneira mais fiel que nós teríamos de não cair no erro de trair a obra de Miguel Torga era musicar alguma coisa que nós não tivéssemos que escrever em termos de letra, absolutamente nada. E então a escolha aí foi um bocado óbvia.
Escrever ou de resumir.
Ou de resumir. De repente vamos fazer um conto ou vamos musicar um conto. Não que não tivéssemos vontade.
Vocês tinham medo era de cortar coisas.
Sim, ou de escrever pelas nossas palavras alguma coisa.
Claro que são sempre nossas palavras e a nossa interpretação, mas a poesia nesse sentido foi bem mais directa.
Era óbvia essa escolha. Essa escolha residia. Depois daí aos poemas, nós já dissemos noutras ocasiões que, de facto, não queríamos ouvir nada. Quando o desafio foi lançado, eu e a Patrícia pensámos: "Ok, não vamos ouvir nada, porque não queremos ter minimamente uma referência qualquer ou alguma ideia do que já foi feito e vamos pegar, como é óbvio, na antologia poética, vamos folhear o livro e vamos tentar perceber quais os poemas que gritam." Há poemas que gritam. E de facto houve uns, posso dizer um ou dois, que foram muito fáceis de escolher. Mas quando chegas ao sexto poema, são sete poemas, quando chegas ao quinto, sexto poema, começa a ser um bocadinho mais difícil. E agora? E agora o que vamos escolher? Já li este, este é muito bonito. As características que nos levaram a escolher o poema, embora estéticas, também teriam que passar por uma parte técnica. Nós não podemos ler um poema, por muito que gostemos dele, assim que o vamos ler e pensamos na música: "Isto é terrível musicar. Eu acho que este vai ter que ficar para o lado." Ainda assim, ainda nos envolvemos em aventuras perigosas, com uma espécie de vocabulário muito característico do Miguel Torga nesta sua abordagem telúrica, mas muito bonita, muito dele. Lembra-me dos tojos arnais, dos silícios vegetais sobre a fronte de quem tem medo das carícias do presente. Eram imagens fortes, mas acho que a escolha recai sempre por esses dois fatores: estético, mas um bocadinho técnico também, e não tanto por essas...
E há, claro, uma mensagem. Há sempre o que nos tocou mais e no sentido também para nós. Claro que todo o trabalho dele é intemporal, mas há mensagens que para nós, que são mais fortes e que nós quisemos reinterpretar, como é óbvio, e dar outra voz.
Conseguiram fazer com que os poemas tenham que ver uns com os outros de alguma forma? Porque quando dizem que o álbum é conceptual, já percebemos que é essa homenagem, de facto, ao Torga, mas conseguiram fazer com que eles tenham alguma ligação entre eles?
Sem dúvida. Para nós, aquela ligação foi a viagem a um reino maravilhoso do princípio ao fim.
A ti, Patrícia, em particular, colocaram-se alguns desafios na própria interpretação destas canções. Há pouco o Roberto falava que há poemas que gritam. Tu percebes quando é que há palavras que Que tens que puxar por elas ou não.
Sim.
Aí entra a interpretação, não é?
Certo. Acho que há poemas, como "Dias irei, dias direi" é tão forte. "Apetece cantar, mas ninguém canta, apetece matar, mas ninguém mata" e por aí vai. Mas acaba por ser muito natural. A música começa a surgir e há determinadas coisas que têm que ser gritadas. E assim foi. Também não me poupei de berros que achei que isto teria que dar, sei lá, porque os senti assim.
Porque o poema, se calhar, os pedia.
Exatamente.
E a música depois também. A pergunta é também um pouco semelhante à do Roberto. Há pouco falávamos nisto de Trás-os-Montes, isto de Vila Real e isto do país. E o Torga tinha aquela paisagem e aquela geografia na sua escrita. Do ponto de vista de criar uma canção para um poema, tu também foste um pouco atrás disso. E como é que isso se consegue? Há afinações de guitarra ou sons que possam ser mais Torga ou menos Torga?
Acho que há realmente o imaginário torganiano. De facto, quando lemos e quando temos as primeiras abordagens ao aspecto literário de Torga, ele revela-se muito nítido dentro da nossa cabeça. Conseguimos imaginar paisagens, mesmo não estando em Trás-os-Montes. Indo já a esse assunto, uma das coisas que foi fundamental para nós foi de estar lá. Em dezembro foi o primeiro contacto, quando recebemos o convite por parte do Ilídio Marques, da Covilhete ou da Cooperativa Tranza. E depois fomos também no verão. Ou seja, nós decidimos inverno e verão, porque muita da literatura do Miguel Torga, onde ele te consegue revelar aquele inóspito Trás-os-Montes, o calor de agosto. Lembro-me de um conto da Mariana, do calor de agosto, do dezembro, de um conto de Natal, quando ele vai para Nossa Senhora da Azinheira e revela que só com uns cibinhos de madeira, uns ratos de madeira, como ele dizia, conseguiu aquecer numa noite fria. Aquilo era importante para nós, embora a imagem já fosse muito explícita, o estar lá foi extremamente importante para percebermos essa parte sónica ou sonoplasta do álbum.
Sim, até porque os retratos sonoros que fazem parte do álbum, do princípio ao fim, também foram gravados lá, como é óbvio, através das residências artísticas que nós fomos fazendo em São Martins de Hanta e em todos os roteiros torganianos, que nos foram tão bem mostrados pelo director da Casa Miguel Torga, João Sequeira. E isso fez toda a diferença para esta nossa viagem a um reino maravilhoso, estar lá e ser gravado lá também.
Desculpa, só esse aspecto da música e dos timbres. É curioso porque trabalhando com o José Fortes, nós gravámos e levámos o José Fortes lá para cima. Foi um bocado doloroso para ele, eu acho, mas foi muito interessante, porque também para ele foi muito bonito encontrar Trás-os-Montes e então esta capacidade de ir arranjar o álbum de Torga. É interessante tu teres características tímbricas na tua cabeça, que são muito difíceis de executá-las. A nível de uma guitarra, se calhar vais ter que usar três guitarras, se calhar não vais usar uma voz, se calhar vais ter que usar três vozes. Mas esse encontro conceptual do som com o José Fortes foi muito interessante para lhe dizermos: "Esta parte tem que ser muito dramática, está a ver o monte? Está a ver aquela imagem? Temos que ressuscitar isso." E acabou mais por ir por aí.
Por falar em imagens, eu acho que conseguiram muito bem uma coisa que eu identifico sempre com Torga, que é uma árvore sem folhas. E quer no "Coroai-me de Espinhos", o vídeo que puseram com a canção, quer nalgumas fotos que acompanham este "Viagem a um Reino Maravilhoso", acho que conseguiram captar essa estética, que é muito Torga. "Viagem a um Reino Maravilhoso" é o novo disco dos Lavoisier. Já deram pelo menos dois concertos que vi da apresentação deste álbum. Há alguns próximos agora, gostava muito de ver este disco ao vivo e não apanhei.
Vai ser apresentado em Lisboa e no Porto, mas ainda não posso divulgar as datas da apresentação.
Ainda este ano?
Ainda não. Isto vai ser no início do próximo ano.
Ok, ficamos a aguardar. Sigam também os Lavoisier nas redes sociais para saberem destas próximas datas de apresentação de "Viagem a um Reino Maravilhoso". Um disco de homenagem a Miguel Torga, um disco e um espetáculo também da Patrícia Relvas e do Roberto Afonso, que estiveram aqui na Rádio Observador, no "Cabeça de Cartaz" de hoje. Ficamos ainda aqui com alguns minutos desta viagem dos Lavoisier, que faz parte deste disco. Obrigado por terem vindo e parabéns.
Obrigada.
Obrigado.
O que importa é partir, não é chegar. Aparelhei o barco com da ilusão e reforcei a fé de marinheiro. Era longe o meu sonho e traiçoeiro o mar. Só nos é concedida esta alegria de viver. E é nela que é preciso procurar o velho paraíso que perdemos. Presto a vela e disse adeus ao cais, à paz dormida, desmedida. A imensidão transforma dia a dia a embarcação numa errante alada sem moldura. Mas corto as ondas sem desanimar em qualquer aventura. O que importa é partir, não é chegar.