Prima de Marcelo,
descendente
de cristãos-novos
perseguidos
pela Inquisição
e com ligações à nobreza.
A árvore genealógica
de Catarina Martins
A 4 de julho de 1942, o médico António Carlos de Carvalho Ferreira Soares, conhecido em Nogueira da Regedoura como “Doutor Prata”, foi chamado a acudir uns doentes que precisavam de ajuda clínica. Enganaram-no. Os supostos doentes eram, afinal, agentes da PVDE, a polícia política do Estado Novo, que assassinaram o médico, um conhecido comunista que vivia na clandestinidade naquela vila em Santa Maria da Feira — mas que, apesar disso, nunca deixou de atender doentes. Catarina Martins cresceu a ouvir falar daquele que conhecia como “tio Carlos” e que era irmão do seu avô materno, e deixou-se inspirar politicamente pela sua história, assassinado por resistir à ditadura. Quase um século depois, a sobrinha-neta do “Doutor Prata” está na corrida para a Presidência da República.
A poucas semanas das eleições presidenciais, as únicas em que os eleitores são chamados a escolher uma pessoa concreta e não um partido ou um movimento político, o Observador traçou a árvore genealógica dos principais candidatos para conhecer a história familiar de cada um. Através de uma parceria com a Associação Portuguesa de Genealogia, que desenvolveu a investigação histórica e científica, foi possível recuar vários séculos para descortinar a sucessão de acasos históricos e familiares que conduziram ao nascimento de cada um dos candidatos.
Na árvore genealógica de Catarina Martins, nascida no Porto a 7 de setembro de 1973, filha de dois professores de Matemática (o seu pai, Arsélio, chegou a receber, em 2007, o Prémio Nacional de Professores), encontramos, por exemplo, uma prima distante também fortemente ligada à Matemática: Guida Lami, a primeira mulher em Portugal a formar-se em Engenharia Eletrotécnica, colaboradora próxima do célebre matemático português Bento de Jesus Caraça e uma das fundadoras da Sociedade Portuguesa de Matemática. Pela mesma via familiar, encontramos primos mais improváveis — incluindo António Sousa Lara, o antigo subsecretário da Cultura que, em 1992, tentou impedir a candidatura de um livro de Saramago ao Prémio Literário Europeu.
Na ascendência de Catarina Martins, concretamente na família materna, encontramos também várias histórias que ilustram bem a perseguição aos judeus pela Inquisição portuguesa nos séculos XVI e XVII — vários dos ascendentes da antiga coordenadora do Bloco de Esquerda e agora candidata presidencial foram cristãos-novos, sofreram perseguições, foram levados a autos-de-fé e acabaram duramente punidos. As histórias de alguns deles ficaram registadas nos arquivos da Inquisição e podem hoje ser reconstituídas com bastante detalhe. E é justamente através desta origem familiar entre os cristãos-novos de Vila Nova de Foz Côa que Catarina Martins é prima distante do homem a que quer suceder em Belém, Marcelo Rebelo de Sousa.
Em 1667, o sapateiro Manuel de Morais, natural de Vila Nova de Foz Côa, foi preso pela Inquisição.
Como muitos nas regiões próximas da fronteira — que no século XV haviam recebido milhares de judeus expulsos de Espanha pelos Reis Católicos —, Manuel tinha ascendência judaica: a sua mãe, Francisca, era cristã-nova, a designação dada aos judeus que se converteram à força ao Cristianismo. Os cristãos-novos eram o grande alvo da Inquisição em Portugal, que procurava os suspeitos de práticas “judaizantes” — isto é, que mantinham as práticas judaicas em segredo apesar da conversão forçada.
Primeira página do processo de Manuel Morais
Manuel de Morais era aquilo a que se chamava um “meio cristão-novo” — a mãe era cristã-nova, mas o pai era cristão-velho.
Acusado de judaísmo pela Inquisição, Manuel de Morais foi condenado num auto-de-fé em Coimbra em maio de 1669. A pena foi dura: os seus bens foram-lhe confiscados, foi forçado a abjurar (ou seja, a rejeitar publicamente o judaísmo), foi preso, forçado a usar o hábito penitencial para o resto da vida (uma veste que indicava que se tratava de um condenado), a receber instrução na fé e ainda sentenciado a um conjunto de penitências espirituais.
Dois anos depois, porém, a pena foi-lhe levantada e foi devolvido à liberdade, onde pôde acompanhar o crescimento dos filhos e netos.
Manuel de Morais teve vários filhos com a sua mulher, Isabel Rodrigues, também ela meia cristã-nova. Um deles foi João Morais Gemelgo, um homem de negócios de Foz Côa.
A família, com sangue judaico, não deixou, porém, de estar na mira da Inquisição. Mais de cinquenta anos depois do auto-de-fé que condenou Manuel de Morais, o seu neto António da Silva, filho de João Morais Gemelgo, apresentou-se voluntariamente perante a Inquisição para confessar culpas de judaísmo — uma forma de tentar escapar a uma pena mais dura que pudesse ser aplicada pela Inquisição em caso de uma denúncia por um vizinho ou conhecido.
Os descendentes de Manuel Morais mantiveram-se durante várias décadas na região de Foz Côa.
Francisco António da Silva, quinto neto de Manuel Morais, foi o último desta linhagem a nascer em Vila Nova de Foz Côa, em 1803. Duas décadas depois, em 1821, a Inquisição seria finalmente extinta em Portugal.
Francisco casou-se com Maria José Lopes, natural de Lagoaça, em Freixo de Espada à Cinta, onde o casal passou a viver — e onde nasceu também a sua filha Maria José de Jesus da Silva.
Maria José, por seu turno, mudou-se para Torre de Moncorvo, onde casou com António Brás Baptista.
Ainda em Torre de Moncorvo, o filho de Maria José e António, Alfredo Brás Baptista, casou-se com Estelita Amélia da Fonseca Cramez, filha do galego Manuel Maria Cramez e de Raquel Umbelina Hospitaleira da Fonseca, natural de Torre de Moncorvo.
A filha do casal, Maria Raquel Baptista, casar-se-ia depois com Fernando António de Carvalho Ferreira Soares: os avós maternos de Catarina Martins (que ainda hoje conserva o apelido Soares, do avô materno).
A ascendência de Fernando, que nos leva à origem do apelido Soares na família de Catarina Martins, também é uma história que vale a pena contar.
Antes disso, porém, voltemos a Manuel de Morais, o sapateiro cristão-novo do século XVII condenado pela Inquisição por práticas de judaísmo.
Como vimos antes, Manuel de Morais e Isabel Rodrigues tiveram vários filhos. Um deles foi João de Morais Gemelgo, um negociante que seria nono avô de Catarina Martins.
Outro dos filhos do casal foi Diogo de Morais, um comerciante de Foz Côa que também seguiu as pisadas do pai como sapateiro. A descendência de Diogo deu origem a toda uma nova linhagem familiar.
Nascido por volta de 1643, Diogo de Morais foi também militar em Almeida. Tal como o pai, Diogo também se apresentou voluntariamente à Inquisição para confessar culpas de judaísmo.
Na verdade, pai e filho foram julgados e condenados no mesmo auto-de-fé, em Coimbra, em 1669.
Diogo de Morais casou-se com Ana Pereira e a descendência daquele casal manteve-se no distrito da Guarda durante pelo menos seis gerações — entre as povoações de Vila Nova de Foz Côa, Pinhel e Figueira de Castelo Rodrigo.
Já no início do século XIX, Daniel de Almeida Campos Carvalho, quinto neto de Diogo e Ana, mudou-se de Figueira de Castelo Rodrigo para a Covilhã, onde se casou com Rosa Pereira de Carvalho.
Um século depois, uma bisneta de Daniel e Rosa, Maria das Neves Fernandes Duarte, mudou-se para Lisboa, onde casou com Baltazar Rebelo de Sousa, médico lisboeta com raízes familiares em Celorico de Basto, que ocuparia importantes cargos na ditadura do Estado Novo, incluindo o de governador-geral de Moçambique e o de ministro do Ultramar.
Em 1948, o casal teve o filho Marcelo.
Por via deste ramo familiar com origem em cristãos-novos de Vila Nova de Foz Côa, Catarina Martins é prima distante de Marcelo Rebelo de Sousa — o homem a quem pretende agora suceder na Presidência da República.
Recuemos uma vez mais na linha materna de Catarina Martins, até ao casamento dos seus avós maternos: Maria Raquel Baptista (descendente do ramo de Foz Côa) e Fernando António Carvalho Ferreira Soares.
Subindo nesta linha em busca das origens do apelido Soares (o apelido materno de Catarina Martins), é possível chegar ao final do século XVII, altura em que nasceu Manuel Pinto Soares, oitavo avô da candidata e antiga líder do Bloco de Esquerda.
A origem desta linha familiar encontra-se na freguesia de Carregosa, em Oliveira de Azeméis, no norte do distrito de Aveiro. Foi lá que, em 1708, Manuel Pinto Soares se casou com Catarina de Oliveira — e que viveram os seus descendentes durante pelo menos mais quatro gerações.
Já no início do século XIX, António Soares, trineto de Manuel Pinto Soares e Catarina de Oliveira, mudou-se para a freguesia de São João de Ver, em Santa Maria da Feira, onde se casou com Margarida Rosa.
O neto de António e Margarida, António Ferreira Soares, nascido em Gaia em 1871, tornar-se-ia juiz e escritor — e viria a ser Governador Civil de Viana do Castelo.
Exoneração de António Ferreira Soares de governador, no Diário do Governo
O escritor e juiz António Ferreira Soares casou-se em 1901 com Inês Pereira de Carvalho, natural do concelho da Feira.
Livro escrito por António Ferreira Soares
O casal teve vários filhos. Um deles foi o avô materno de Catarina Martins, o advogado Fernando António Ferreira Soares.
Outro foi o médico António Carlos Ferreira Soares, nascido em Viana do Castelo em 1903. Intelectual marxista e militante do PCP, viveu parte da sua vida na clandestinidade e foi assassinado pela PVDE em 1942. Milhares de pessoas estiveram no funeral deste tio-avô de Catarina Martins.
António Carlos Ferreira Soares
Três anos depois da morte de António, o seu irmão Fernando casou-se, no Porto, com Maria Raquel Baptista. Ao fim de quatro anos de casamento, nasceria também naquela cidade Rosa Amélia Baptista Ferreira Soares, a mãe de Catarina Martins.
O apelido mais conhecido da antiga coordenadora do Bloco de Esquerda e agora candidata presidencial, Martins, chegou-lhe por via paterna, através daquilo a que os genealogistas chamam “linha masculina pura” — que se encontra procurando o pai do pai do pai, e por aí adiante.
Nesta linha, os genealogistas conseguem recuar até ao final do século XVII.
Nos primeiros anos do XVIII encontramos António Martins Caçoilo, oitavo avô de Catarina Martins, a viver no lugar de Lombomeão, em Vagos, casado com Isabel Manuel.
A descendência de António e Isabel manteve-se em Vagos (entre os lugares de Lombomeão e Santo André) durante pelo menos oito gerações. Foi ainda ali que nasceu, em dezembro de 1947, o pai de Catarina Martins, Arsélio de Almeida Martins.
Município de Vagos
Por via deste ramo oriundo de Vagos, é possível encontrar ligações entre Catarina Martins e a nobreza.
Basta recuar a 1883, ano de nascimento do bisavô Manuel Raimundo Martins, em Santo André, Vagos.
Manuel Raimundo casou-se no início do século XX com Maria Albina de Jesus, também natural de Vagos.
Subindo pela ascendência de Maria Albina de Jesus, conseguimos chegar até aos seus bisavós Manuel João dos Santos e Isabel Domingues, nascidos em Vagos no final do século XVIII.
Manuel João e Isabel tiveram vários filhos. Um deles, Diogo dos Santos Graça, nascido por volta de 1818, seria o tetravô de Catarina Martins.
Mas Diogo não foi o único filho daquele casal.
Antes de Diogo, Manuel João e Isabel tinham tido outro filho: o médico Cipriano dos Santos José da Graça, nascido por volta de 1805 também em Vagos.
Cerca de 70 anos depois, uma neta de Cipriano, Augusta Pais Brandão Queirós da Graça, casou-se em Coimbra com João Francisco de Paula de Almeida e Silva, descendente direto de Manuel Maria da Piedade Coutinho Pereira de Seabra — o nobre em favor do qual o Rei D. Miguel I tinha, em 1833, criado o título nobiliárquico de Conde da Baía.
O filho de Augusta e João Francisco, José Fernando Pais da Graça de Almeida e Silva, nascido no verão de 1899, receberia o título nobiliárquico de 3.º Conde da Baía.
O 3.º Conde da Baía viria a casar-se com a leiriense Maria Isabel de Sousa Charters de Azevedo. Deste casamento nasceu, em 1935, o filho João Charters de Almeida e Silva — o famoso escultor Charters de Almeida, que continua a usar o título de 4.º Conde da Baía, apesar do fim da monarquia em 1910.
Charters de Almeida
Além destes primos da nobreza, a árvore genealógica de Catarina Martins ainda guarda várias outras histórias — associadas a uma única ligação familiar.
Para conhecer essa ligação, temos de voltar a uma trisavó de Catarina Martins de que já falámos: Maria José de Jesus da Silva, nascida em 1841 em Freixo de Espada à Cinta.
Já conhecemos uma parte da ascendência do pai de Maria José, o ramo oriundo de Vila Nova de Foz Côa que nos leva até ao sapateiro Manuel de Morais, o cristão-novo perseguido pela Inquisição.
Mas vale a pena explorar igualmente a ascendência materna da trisavó de Catarina Martins, também ela chamada Maria José.
É aqui que começa a complexidade desta árvore genealógica: 200 anos antes do nascimento de Maria José de Jesus da Silva, este ramo materno da trisavó da bloquista cruza-se com o seu ramo paterno.
Isto porque, na verdade, os pais de Maria José — os tetravós da candidata, Maria José Lopes e Francisco António da Silva — eram primos afastados.
Não é, sequer, certo que soubessem dessa relação familiar muito afastada: é preciso recuar dois séculos para encontrar os antepassados que partilhavam.
Uma trisavó de Maria José Lopes, Maria Rodrigues Navarro, nascida em meados do século XVII em Mogadouro, era irmã de Francisco Rodrigues Navarro, tetravô do seu marido.
Por isso, os pais dos dois irmãos, João Rodrigues Navarro e Esperança Rodrigues, são simultaneamente décimos avós (por via do filho Francisco) e nonos avós (por via da filha Maria) de Catarina Martins.
Este duplo parentesco liga Catarina Martins à família Navarro, oriunda da localidade de Lagoaça, em Freixo de Espada à Cinta — uma família amplamente estudada pelos genealogistas e que tem várias figuras públicas entre os seus descendentes.
Ao longo de 1.700 páginas, os quatro volumes da obra Judeus — Os Navarros de Lagoaça, de Filipe Pinheiro de Campos e António Maria de Assis, contam a história dos múltiplos ramos desta família, que deu origem a fidalgos, juristas, médicos, artistas e políticos de várias gerações.
Os genealogistas conseguem traçar as raízes desta família até António Nunes Navarro e à sua mulher, Maria Nunes, um casal de cristãos-novos que nasceu em meados do século XVI na localidade espanhola de Trabazos, junto à fronteira, perto de Bragança. Este casal, que está no vértice de uma família que produziu centenas de descendentes mais ou menos célebres, fixou-se em Mogadouro, no distrito de Bragança, depois do édito dos Reis Católicos que expulsou os judeus de Espanha.
Foi já em Mogadouro que, por volta de 1610, nasceu João Rodrigues Navarro, neto daquele casal fundador.
No caminho familiar que liga João Rodrigues Navarro e a sua mulher, Esperança Rodrigues, a Catarina Martins encontramos vários antepassados da bloquista que sofreram perseguição da Inquisição.
A própria Esperança Rodrigues, antepassada longínqua da candidata presidencial, foi presa pela Inquisição em 1668, quando já era viúva, e libertada no ano seguinte.
Luís Francisco Lopes, bisneto de Esperança e João Rodrigues Navarro por via do filho Francisco, também foi preso pela Inquisição. O mesmo aconteceu com Francisco Rodrigues Navarro, neto de Esperança e João por via da filha Maria.
Através da ligação de Catarina Martins à histórica família Navarro, a Associação Portuguesa de Genealogia conseguiu identificar três primos distantes célebres da candidata presidencial — que são também descendentes de João Rodrigues Navarro e Esperança Rodrigues.
O mais surpreendente de todos será, porventura, o professor universitário António Sousa Lara.
Antigo subsecretário de Estado da Cultura, Sousa Lara ficou para a história como o homem que vetou a candidatura de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago, ao Prémio Literário Europeu em 1992, seis anos antes de ser distinguido com o prémio Nobel da Literatura.
Saramago na entrega do Prémio Nobel, 1998
O incidente viria, de resto, a ditar a saída definitiva de Portugal do escritor, que se fixou na ilha espanhola de Lanzarote.
Tal como Catarina Martins, Sousa Lara descende dos Navarros de Lagoaça.
Sousa Lara, que militou no Partido Popular Monárquico e no PSD durante várias décadas, voltaria mais recentemente a estar envolvido em polémica. Em 2019, integrou o Chega, partido de que chegou a ser porta-voz, mas acabaria por afastar-se um ano depois, por recusar abdicar da subvenção vitalícia a que tem direito por causa das suas funções públicas anteriores.
A ligação familiar entre Catarina Martins e Sousa Lara é bastante complexa — uma vez que envolve o já referido casamento entre primos afastados do lado da bloquista e um casamento entre um tio e uma sobrinha do lado de Sousa Lara.
Os antepassados mais recentes comuns aos dois são Francisco Rodrigues Navarro (neto de João Rodrigues Navarro e Esperança Rodrigues) e a sua mulher, Luísa Lopes.
Francisco e Luísa são sétimos avós de Catarina Martins, porque uma das suas filhas, Ana Maria Lopes, nascida em 1730, é ascendente direta da mãe da bloquista.
Uma outra filha de Francisco e Luísa, Josefa Lopes Navarro, também nascida em Freixo de Espada à Cinta, em 1720, é ascendente de António Sousa Lara.
Josefa Lopes Navarro mudou-se para Vila Nova de Foz Côa, na sequência do seu casamento com Gabriel Mendes da Silva, que era natural daquela localidade. Os dois tiveram uma filha, Angélica Maria Mendes da Silva, que por seu turno se casou com Luís de Campos Henriques.
Neste ponto da árvore encontramos uma situação, aos olhos de hoje, não apenas bizarra, como ilegal: um casamento entre um tio e uma sobrinha.
José António de Campos Henriques, filho de Angélica e Luís, casou-se em 1814 com Ana Máxima de Campos Henriques, filha do seu irmão Manuel.
Desse casamento nasceu, em 1835, Luís de Campos Henriques, trisavô de António Sousa Lara.
Mas, através da família Navarro, é possível encontrar mais primos célebres de Catarina Martins.
Por exemplo, na descendência de Manuel José de Campos Henriques (o pai de Ana Máxima, que casou com o tio) é possível encontrar Guida Lami, uma tetraneta de Manuel nascida em 1921, que ficaria para a história como a primeira mulher a formar-se em Engenharia Eletrotécnica em Portugal. Formada no Instituto Superior Técnico, Guida Lami foi colaboradora próxima do célebre matemático português Bento de Jesus Caraça — também conhecido pela sua militância no PCP e pela resistência ao fascismo, e que acabou preso pela PIDE.
Guida Lami foi uma das fundadoras da Sociedade Portuguesa de Matemática. Viria a morrer aos 97 anos em 2019.
A mesma ligação familiar aos Navarro permite, ainda, concluir que Catarina Martins é prima afastada do empresário Carlos Barbosa, presidente do Automóvel Club de Portugal — descendente por três vias distintas de João Rodrigues Navarro e Esperança Rodrigues, devido a dois casamentos entre primos ocorridos pelo caminho.
Um total de 90 ascendentes diretos de Catarina Martins estão documentados nesta árvore genealógica traçada pela Associação Portuguesa de Genealogia para o Observador. Apesar de essencialmente centrada no centro e norte de Portugal, a árvore revela a grande variedade de histórias que marcaram não só a história familiar da antiga líder bloquista, mas também as raízes de uma boa parte dos portugueses.
Como a candidata presidencial, muitos portugueses têm raízes familiares em zonas como Trás-os-Montes ou as beiras — e é possível que, como ela, também descendam de judeus expulsos de Espanha, perseguidos em Portugal, forçados à conversão e duramente punidos pela Inquisição ao longo de séculos de perseguição contra o povo judaico.
Para Catarina Martins, que só agora descobriu este ramo da sua família, estudar estas histórias é especialmente útil hoje em dia: "Em tempos em que há uma política que tenta semear a divisão e o ódio, ter a noção de que todas as histórias das nossas famílias estão marcadas pela perseguição é um bom antídoto contra essa indecência."
Mas os séculos de percurso de uma família não são apenas inspiradores, como o caso do tio-avô assassinado pela PVDE cujas histórias Catarina Martins cresceu a ouvir: há também o risco de descobrirmos relações inesperadas com primos "incómodos", como disse a candidata sobre o seu primo António Sousa Lara. Agora na corrida a Belém, Catarina Martins procura suceder na Presidência da República ao seu primo, Marcelo Rebelo de Sousa.