Primeiro, Manuel Aires Mateus leva-nos a passear pelo Jardim, composto por 72 maquetas de projetos de arquitetura que assinou com o irmão Francisco. Esses projetos, “representados à mesma escala, a escala do objeto”, são as flores. Apesar das diferenças – há uma casa, uma capela, uma biblioteca, uma mesquita, um hotel… –, pretende-se que dialoguem entre si. Os mais antigos têm duas décadas, mas mantêm a frescura. “São aqueles que continuam a interessar-nos”, afirma o arquiteto. Está explicado o critério de seleção dos trabalhos integrados nesse primeiro núcleo da exposição Beleza Apesar de Tudo, que abre ao público já nesta sexta-feira, 28 de novembro, no Museu de Serralves, no Porto.
Beleza Apesar de Tudo, patente na Ala Siza até 19 de abril, é apresentada como a “primeira grande exposição a reunir a obra” dos reputados arquitetos, “mostrando material que evidencia a diversidade de escalas e programas em que têm trabalhado em Portugal e no estrangeiro”. Foca-se no seu trajeto ao longo dos últimos 20 anos, sem pretender funcionar como retrospetiva. “É uma exposição de meio de carreira, portanto, o que nos interessa não é tanto um lado retrospetivo, mas mais de reflexão sobre o que vamos fazer no tempo que nos resta.” Palavras de Manuel, que em 1988 criou, com Francisco, o Atelier Aires Mateus. Hoje, o estúdio conta com mais de 50 profissionais e tem, no portfólio, projetos para habitação, equipamentos culturais e intervenções urbanas mundo fora.
Entre os projetos com o selo Aires Mateus estão as casas de Alenquer e Azeitão; o Centro de Investigação das Furnas, nos Açores; as casas na areia, na Comporta; a sede da EDP, em Lisboa; os Museus em Lausanne e Tours; ou a Faculdade de Arquitetura de Tournai, na Bélgica. São reconhecíveis na exposição, que envolve um total de 91 peças, distribuídas por cinco núcleos: Jardim, Matéria, Tempo, Lugares e Geografias.
▲ “Apesar de a exposição ser um conjunto de peças, na verdade, ela é una, tem princípio, meio e fim”
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Na base de tudo esteve o desafio de expor arquitetura num museu de arte contemporânea. Daí que se procure transformar representações clássicas da arquitetura — plantas, cortes e maquetas — em elementos com alguma autonomia, explica Manuel Aires Mateus. “As representações são abstratas e com valor em si, mas todas traduzem uma real possibilidade de construção”, observa. Por um lado, exibe-se arquitetura através dos seus elementos tradicionais; por outro, atribui-se-lhes um valor autoral. “A arquitetura responde a qualquer condição, mas importante é o que consegue fazer a partir daí.”
A pretexto do nome, Beleza Apesar de Tudo, diz ainda Manuel Aires Mateus: “O que me interessa, na arquitetura, não é responder a condições a que ela tem de responder, quer práticas, quer do seu tempo; é o que consegue fazer com isso. Se estamos a construir um parque de estacionamento, o que me interessa é como transformo esse parque de estacionamento num espaço extraordinário, que, eventualmente, pode ter outras funções. Mas, mesmo quando é utilizado como parque de estacionamento, de alguma maneira, sou inspirado pela presença nele”.
“O trabalho da arquitetura é utilizar as necessidades como matéria. De uma forma simplista, diria que, como os escultores utilizam a pedra, os arquitetos utilizam os problemas”, continua o vencedor do Prémio Pessoa 2017. “As motivações são sempre necessárias, a arquitetura só trabalha a partir de condições práticas, mas o motor da arquitetura são os problemas.”
“Uma exposição muito arriscada e experimental”
“O interessante desta exposição é que ela estabelece uma relação entre arquitetura e arte”, defende, por seu lado, o curador, Nuno Crespo. “Fazer uma exposição de arquitetura num museu de arte obriga a um tipo de pensamento expositivo diferente do de uma exposição de arquitetura num museu de arquitetura.” O intuito é proporcionar ao visitante uma experiência estética e artística, seja qual for a sua motivação para rumar a Serralves.
Nuno Crespo fala também do “paradoxo que é mostrar arquitetura”: “Como se mostra uma casa sem trazer a casa? Independentemente de os projetos estarem ou não construídos, existirem ou não fora do museu, as exposições de arquitetura lidam com as maneiras de representar a realidade”. O curador sublinha que esta “não segue o modelo tradicional de ilustrar projetos de arquitetura que existem fora do museu”, antes põe a tónica na “representação de certas ideias e conceitos espaciais que têm caracterizado o trabalho destes arquitetos”.
O curador da exposição vê-a mais como “um lugar de experiências do que de divulgação”: o visitante sofre “um confronto com diferentes escalas e diferentes materialidades”, uma “alternância de estímulos”. Depara-se com desenhos enormes, com metros de altura, e logo a seguir com maquetas que podem medir cinco centímetros, ou pesar 500 quilos. “Apesar de serem arquitetos consagrados, esta é uma exposição muito arriscada e muito experimental, daí haver tantos materiais: madeira, betão, aço, materiais sintéticos…”, sustenta. Não é uma exposição de demonstração ou antológica, antes põe à vista “os ingredientes que usam para pensar os projetos”.
▲ “Quando chegámos à arquitetura, trabalhámos muito tempo ainda a aprender o ofício, e houve um momento fundamental: quando descobrimos a liberdade que a arquitetura pode ser”
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A propósito, no núcleo dedicado à “Matéria”, surgem quatro projetos construídos com materiais diferentes, representados por maquetas nesses mesmos materiais: madeira, tijolo, reboco branco e betão. Entre eles, conta-se uma casa “obsessivamente feita em tijolo”, em concreto, “400 mil tijolos, sem emendas”, situada na costa alentejana. Também se alude a outra habitação, no Barreiro, que nasce da recuperação de dois armazéns junto ao rio e tem um elemento que faz lembrar o casco de um barco ao contrário.
Noutra sala, fala-se de contextos, e apresenta-se quatro exemplos. Um deles diz respeito ao Centro Cultural de Sines, construído à volta da rua principal de acesso ao centro histórico, para que fosse “impossível evitá-lo”. Outro prende-se com a já referida Faculdade de Arquitetura de Tournai, na Bélgica, projeto que resultou na criação de um edifício que liga e preserva outros, preexistentes naquele quarteirão.
Já o núcleo alusivo às Geografias apresenta cinco projetos de casas em processo de construção, cada uma num continente. Há a “casa particular gigantesca” em Deli, na Índia, “que um dia pode ser um equipamento para a cidade”; a casa de férias pensada para o clima do sul do México, sem paredes e com piscina ao centro, com uma abertura por cima, para deixar entrar a luz natural; ou a casa projetada para a Ilha do Fogo, em Cabo Verde, que parte da maneira de construir tradicional e é revestida por pedra vulcânica. Os dois irmãos – com vários prémios no currículo e atividade expositiva regular – gostam de explorar aquilo que aprendem com outros lugares ou condições muito extremas.
“Apesar de a exposição ser um conjunto de peças, na verdade, ela é una, tem princípio, meio e fim”, responde Nuno Crespo, quando instado a destacar um ou outro elemento. “É como uma casa. As casas têm de ser uma espécie de máquina, como diz [o arquiteto e pintor] Le Corbusier. Todos os elementos têm de estar em harmonia, porque é o todo que funciona. Nas exposições é a mesma coisa.”
Da bateria dos Radar Kadafi ao ensino numa faculdade suíça
O pai de Manuel e Francisco Aires Mateus era arquiteto, mas “a maior influência” para ambos terem enveredado por aquela área foi a mãe. “Era pintora e tinha uma teia de conexões que nos ajudou a ligar-nos à arquitetura”, partilha Manuel, lembrando que o irmão ainda fez várias outras coisas: “Foi baterista dos Radar Kadafi, desenhava, pintava bares para ganhar dinheiro para ir de férias…”.
“Quando chegámos à arquitetura, trabalhámos muito tempo ainda a aprender o ofício, e houve um momento fundamental: quando descobrimos a liberdade que a arquitetura pode ser”, recorda Manuel Aires Mateus. Aconteceu com o projeto de recuperação da Casa de Alenquer, em inícios de 2000: quando estava em fase de construção, “aquilo caiu tudo”, marcando uma viragem na sua maneira de encarar a arquitetura. “Percebemos que podíamos falar do espaço de outra maneira. Ali, começámos a falar de tensões entre geometrias diferentes, tensões entre tempos diferentes, criação de espaços diferentes, e que a espacialidade tem um impacto na vida. Portanto, precisamos de manipular esse impacto. Podemos criar sentimentos criar sentimentos ou sensações a partir das espacialidades. Essa ideia de que o espaço é ou sensações a partir das espacialidades. Essa ideia de que o espaço é um valor usável foi muito libertadora para nós.” Não duvida: “O espaço é uma matéria de expressão, como a escrita, a fotografia ou a pintura”.
▲ "A necessidade de nos explicarmos é um treino maravilhoso, porque é no trabalho sobre a explicação que fazemos evoluir uma ideia"
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Outra coisa que então ficou clara para a dupla: “A arquitetura constrói limites, porque o que é central é o vazio, mas os limites constroem-se de muitas maneiras. Constroem-se, muitas vezes, com muitas camadas diferentes. Constroem-se adicionando outros espaços de menor escala”.
Manuel e Francisco têm ateliês separados (apenas por 500 metros), o que em nada atrapalha o processo criativo. Com “uma visão tendencialmente coincidente” da arquitetura, continuam a fazer trabalhos e, acima de tudo, a ensinar juntos. “São coisas que nos permitem um tempo de discussão e de conversação”, revela o primeiro, acrescentando que dão aulas há 23 anos na mesma faculdade, em Mendrisio, na Suíça. “O ensino ajuda-nos a criar ou a discutir uma série de assuntos que nos interessam, depois, para os projetos.”
O contacto com os alunos contribui para manter uma certa frescura de pensamento. Além disso, “a necessidade de nos explicarmos é um treino maravilhoso, porque é no trabalho sobre a explicação que fazemos evoluir uma ideia”, sublinha Manuel, professor há praticamente quatro décadas. Para ele, ensinar “é fundamental”. E a vantagem de o fazer noutro país é que “o avião corta as amarras”, deixa-o 100% disponível para essa tarefa que tanto aprecia e lhe permite “descobrir coisas verdadeiramente surpreendentes”.