Todos os anos, a Milken Global Conference transforma Los Angeles num ponto de encontro para líderes globais. Reunindo milhares de decisores, principalmente ligados à área financeira e tecnológica, o evento é reconhecido pela sua capacidade de definir a agenda mundial. Este ano, mais de 900 oradores de mais de 80 países contribuíram para um debate profundo sobre os desafios e as oportunidades que se colocam à sociedade global.

Entre os cerca de 4 mil participantes, apenas dois viviam em Portugal – entre eles eu, que há sete anos escolhi este país como casa -, um sinal claro de como a participação nacional neste tipo de debates ainda é escassa. Ao longo do evento, assisti a 24 painéis, testemunhando a visão de antigos chefes de governo como Tony Blair, decisores influentes como Scott Bessent e Steven Mnuchin, e CEOs de algumas das empresas mais inovadoras do mundo, como Jensen Huang da NVIDIA.

Entre os muitos temas abordados, destaco quatro eixos que merecem especial atenção por parte de qualquer economia aberta ao mundo, como Portugal.

1. A IA como a força mais transformadora da nossa era

A Inteligência Artificial (IA) foi um dos temas dominantes da conferência. Considerada o maior impulsionador de produtividade da história, está a revolucionar praticamente todos os setores, das finanças à saúde. Isto levanta novos desafios em termos de adaptação da força de trabalho, implicando repensar estratégias de requalificação em larga escala.

As ferramentas de IA demonstram já capacidade para tarefas que antes exigiam alta especialização humana. Na área da saúde, por exemplo, destacou-se a rápida adoção da IA por médicos nos EUA (de 38% para 66% em apenas dois anos) e o papel crescente na otimização de operações e até triagem de pacientes.

E a evolução não abranda: a próxima fase – a IA Generativa Adaptativa – promete sistemas capazes de aprender com feedback e melhorar de forma contínua. Neste contexto de evolução acelerada, a computação quântica surge também como uma das próximas grandes inovações.

A transformação digital não está apenas a revolucionar indústrias; está a gerar novas reflexões sobre o futuro do sistema económico. O conceito “Capitalismo 3.0” surge, assim, associado a uma nova fase de um sistema em reinvenção. Este novo capítulo pode exigir uma reestruturação das bases económicas, incluindo a possibilidade de um rendimento básico universal, como resposta à substituição de empregos e à desigualdade. Mas também soaram alertas: o mundo não está a salvo de evoluir para um “feudalismo tecnológico”, onde a riqueza e o poder se concentram ainda mais.

2. A administração Trump e a economia mundial

A estratégia económica da administração Trump foi outro dos pontos centrais, com Scott Bessent a destacar três pilares: reequilíbrio do comércio global, redução de impostos e desregulamentação. Michael Kratsios afirmou que está planeado o investimento de 170 mil milhões de dólares em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), com foco em áreas como Inteligência Artificial (IA), ciência da informação quântica, energia nuclear e biotecnologia – com o objetivo de acelerar a sua adoção.

Num cenário de competição tecnológica, o conceito de “IA soberana” está também a ganhar força, com os EUA determinados a vencer a batalha pela liderança nesta área e a proteger a sua propriedade intelectual, principalmente em relação à China, que se aproxima em várias frentes e já lidera em áreas como robótica e drones.

A posição dos EUA e o papel do dólar na economia mundial foram também temas em destaque. Os Estados Unidos mantêm-se como principal mercado em termos de risco/retorno, graças à concentração de empresas líderes e à profundidade e liquidez dos seus mercados de capitais. Reconhece-se, no entanto, que outras regiões estão a tentar desenvolver centros financeiros alternativos, que poderão tornar-se concorrentes nos próximos cinco a dez anos.

Já o dólar continua a ser a principal moeda de reserva mundial, mas cresce o interesse em alternativas como ouro, bitcoin e stablecoins. Em paralelo, intensificam-se os esforços de alguns países para contornar o sistema de pagamentos SWIFT, o que sublinha a urgência de uma reforma fiscal nos EUA.

3. A polarização cultural e os novos equilíbrios políticos

A política global, segundo os especialistas, está a afastar-se das tradicionais divisões ideológicas esquerda-direita, sendo cada vez mais marcada por conflitos culturais e de valores.

Em tempos de incerteza, os eleitores tendem a deslocar-se para a direita como resposta protetora à ansiedade cultural, procurando líderes populistas que “façam acontecer”, mesmo que à custa da qualidade das soluções.

O antigo primeiro-ministro britânico Tony Blair apelou a uma abordagem mais pragmática, defendendo que a política pública deve estar acima da política partidária, focando-se em resolver problemas reais e não em alimentar trincheiras ideológicas.

4. A educação e os desafios geracionais

A crise no ensino superior foi outro dos tópicos abordados. A queda das inscrições universitárias nos EUA (mais de 10% na última década) e o aumento do endividamento estudantil estão a abalar o modelo tradicional de ensino. As universidades enfrentam agora o desafio de provar um verdadeiro retorno sobre o investimento (ROI) aos estudantes e famílias, sobretudo num contexto em que um “diploma” já não garante a segurança financeira de outrora.

Paralelamente, surgem novas preocupações geracionais, como a saúde mental, agravadas por pressões sociais e tensões políticas. Estas questões já chegaram aos campus universitários, com as instituições a lutarem para equilibrar liberdade de expressão e direitos civis. Para os especialistas presentes na conferência, as universidades perderam de vista a sua missão central, tornando-se demasiado politizadas.

No campo da mobilidade social, a Geração Z e os Millennials deparam-se com um bloqueio, enfrentando desafios financeiros sem precedentes: salários estagnados, acesso difícil à habitação e distribuição de riqueza profundamente desigual. Basta lembrar que os Baby Boomers ainda detêm 65% da riqueza dos EUA.

Entre a diversidade de temas abordados na Milken Global Conference 2025 – que incluiu ainda debates sobre blockchain e inovação na saúde – torna-se evidente que a transformação está a acontecer nas mais diversas áreas.

Estar atento a estas tendências globais e refletir sobre os seus impactos torna-se cada vez mais relevante. Para países como Portugal, que conta com ambições internacionais e talento emergente em áreas como tecnologia, acompanhar este tipo de fóruns pode mesmo ser uma oportunidade estratégica.

As conversas que moldam o futuro estão a acontecer. É importante não perder o fio à meada.