No lançamento da Biblioteca da Academia, uma colecção de clássicos brasileiros promovida pela Academia Brasileira de Letras e pela editora Glaciar, lembrei-me que esta iniciativa teria sido uma das mais destacadas do Ano Brasil-Portugal, de 2012-13, que foi o que foi e não deixou saudades em ninguém, precisamente porque não quis perguntar o que precisava de ser feito, nem depois fez o conveniente balanço crítico.

Agora, num gesto sem precedentes na sua história, a Academia Brasileira de Letras traz aos leitores portugueses a obra de alguns dos seus «imortais» — e, mais ainda, oferece 200 exemplares às nossas bibliotecas públicas. Merece, por isso, aplausos prolongados e de pé, pela inteligência de fixar na leitura pública os pilares do conhecimento perene da literatura brasileira entre nós, e pela generosidade de nos proporcionar edições reconhecidas como as melhores, em fixação textual e aparato crítico. Jorge Reis-Sá, dono da pequena e nova Glaciar, soube obter o apoio decisivo da Fundação Gulbenkian para este empreendimento, e deu-lhe indesmentível excelência gráfica.

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Podemos olhar os monumentais livros Os Romances de Machado de Assis (um hardcover de 1400 páginas), Poesia Completa de João Cabral de Melo Neto, e Os Sertões de Euclides da Cunha, agora disponíveis, com a incredulidade feliz de quem já não esperava ver vencida a ausência, entre nós, do grande cânone literário brasileiro, e agora quer saber que autores a Academia, a Glaciar e a Gulbenkian nos vão trazer nos próximos anos. As escolhas seguintes, ainda não estabelecidas ou anunciadas (apenas Raul Pompeia, 1863-95), estão limitadas pelo vínculo académico — e sabemos bem que há muitos excelentes escritores brasileiros que por uma razão ou por outra não vestiram ou vestem o vistoso fardão —, mas se ao menos, vamos supor, Alberto da Costa e Silva (Prémio Camões 2014), João Guimarães Rosa, Manuel Bandeira, Gregório de Matos (1636-96), Adriano Suassuna, Ivan Junqueira, ou, talvez, Ferreira Gullar (que alguns dizem já a caminho do alfaiate) puderem ser publicados em Portugal no mesmo padrão de qualidade, não há dúvidas de que em poucos anos a falta de algum re-conhecimento será coisa do passado.

Costumo dizer que o Brasil é o único país com o qual Portugal tem uma relação profundamente visceral, que por isso precisa de ser nutrida por uma contínua transfusão cultural de duplo sentido. Numa década, o Curso Breve de Literatura Brasileira e a colecção Sabiá, da editora Cotovia, ou a atenção avulsa ou contínua a Clarice Lispector, Moacyr Scliar, Milton Hatoum, Raduan Nassar, Antônio Cícero, Murilo Mendes, Millôr Fernandes, entre alguns outros, melhoraram substancialmente essa representação editorial, mas ela nunca poderá sobressair na vida dos escaparates enquanto esta for drasticamente poluída pela actual avalanche de entretenimento, mediania ou mediocridade. E é isso que torna a decisão inusitada mas esclarecida de fazer entrar também nas estantes das bibliotecas cópias destes livros da Glaciar o maior mérito dessa iniciativa bilateral, e claramente um exemplo a seguir.

Livros em bibliotecas são a melhor maneira de os tornar conhecidos e acessíveis, evitando a cada vez mais curta e voraz passagem por livrarias e compensando as restrições económicas dos leitores. Além disso, depois do grande impulso dado à construção de uma rede nacional de bibliotecas, as autarquias de que tais bibliotecas hoje dependem inteiramente reduziram a valores mínimos ou nulos as verbas disponíveis para a compra de livros, esvaziando sem escândalo (quem fala disso?) o desígnio dessas construções. Projectos patrocinados que cedam livros a bibliotecas colaboram com a inclusão cultural, e tratando-se de livros brasileiros ajudam a repor e a recriar, paulatinamente, uma presença literária que já teve grande influência entre nós, e que é quase uma responsabilidade conhecermos razoavelmente pelo que representa como expressão e expansão da nossa língua comum.

Um pequeno esforço, portugueses!!