Gostei muito da temporada encetada como ‘primeira’ da coleção “Rabo de Peixe”. Ri-me bastante com a sátira premente, com os factos ficcionados; voltei a rir-me imenso na 2ª temporada até que comecei a perceber que me estava a rir de mim própria, dos ‘meus’ e do infortúnio que até hoje o real Rabo de Peixe sofre. Isso não é o mais correto. E, de seguida, veio o tédio: a narrativa começou a perder-se na voz (literalmente) dos personagens (não criticando de todo os atores que estiveram a desempenhar muito bem os seus papéis). Entram em quase monólogos melancólicos que contrastam, duramente, com a bênção de se ser traficante como única saída para quem é desfavorecido. É esse o primeiro problema desta temporada, que já se assemelhava na primeira. Pensei, sempre, que a nova temporada resolveria isto. Mas, não: temos os açorianos ridicularizados, os portugueses amontados numa sobrevivência de crime galardoado. E a mistura de nacionalidades quase que forçada para dar um ar mais ‘international’ à série. O realizador está de parabéns, sim. Mas, se teve a brilhante ideia de se apoderar dos factos ocorridos em 2001, durante a tragédia mortal em Rabo de Peixe e que se espalhou por São Miguel, porque não se contou essa parte de forma respeitosa?

E, porque não temos açorianos (normalmente os habitantes preferem esta nomenclatura e é cientificamente aceite) no elenco, com representatividade? Porque não temos aquilo que continua, afinal, a ser oprimido em Rabo de Peixe: a oportunidade. Sinto que estava a assistir a uma segunda vez do tráfico, mas de pessoas que, com o seu bom sotaque norte-atlântico, são suprimidas da série.

Não perfilho este artigo como uma espetadora mera, mas porque há um ano precisamente estive na zona e em toda a ilha aliás. Fui como oradora de um congresso internacional que focava a questão da imigração açoriana (para a ‘América’ e os dissabores que estão como chagas na alma dos portugueses desta ilha-paraíso). Aproveitei, pelas ruas de edifícios lindos de basalto, com o cheiro indelével de vulcão, para perguntar a alguns habitantes sobre a primeira temporada. As opiniões não foram as melhores e os muitas expressões estavam tristes: “afastados do que é seu”, “ridicularizados”.

No âmbito do congresso, na belíssima Universidade dos Açores, percebi que há vários jovens adultos que estudam a ambicionam a área do cinema e o audiovisual. Ninguém quis saber ‘deles’ para a série que palmilha terra açoriana.

Neste ensejo à estilo de Gil Vicente que é a trama, vê-se que a ignorância, a subsidiodependência, os sonhos mortos, o crime, os vícios e as mortes dos outros pela ignorância (dos vícios, da cocaína que parecia farinha ou cal) são a divina comédia. Mas, e o respeito? O humor não tem de ser isto.

Por fim, o conteúdo da série, em especial desta temporada, precisava de ter um aviso (típico) para maiores de 16 anos, dada a violência, o consumo alusivo de estupefacientes e a quantidade de vernáculo menos pomposo do discurso. Aliás, por outro lado, temo que as traduções de “Rabo de Peixe” ofereçam sérias dificuldades por causa da quantidade de asneiras em cada frase. Observei Rabo de Peixe (sem ser a série) quando lá estive e pensei: nem numa série importante portuguesa deram oportunidade aos locais da ilha. Não quis ver até ao final do episódio 6, passei para o documentário do qual gostei mais sinceramente. E concluí que não me sentiria bem se não chamasse a atenção nesta forma de artigo. Isto não é crónica cor de rosa, é a educação da História e a reeducação dos comportamentos. Ser líder de tráfico não é profissão que ‘sobre’ em terra desfavorecida.  Ir para a ‘América’ para viver numa prisão também não é o sonho nem a vivência dos portugueses lá. Temos tão bons exemplos de glória portuguesa nos EUA e no Canadá.