As ondas de calor súbitas (mas previstas pelos desafios climáticos) têm provocado prejuízos que não são inéditos, não tivesse sido há muitos (milhares de) anos o homem neandertal extinto pela incapacidade de resistir às ondas repentinas de tipo frio e quente, este último sobretudo. Nas recentes décadas as variações do tempo têm quase declarado ‘estado de sítio’ dada a emergência, diria eu, que o calor está a provocar em regiões europeias. Essa emergência resulta no stresse térmico que é uma espécie de stresse sazonal, mas resultando do evento anómalo como o de uma temperatura de 40 graus consecutivamente no hemisfério norte. De norte vem a morte, então. Esse stresse térmico pode mesmo ser fatal e vítimas já se contam nos escombros do sol abrasador. Mas, afinal o que é o stresse térmico em termos psicológicos? Tudo se explica ‘olhando’ para dentro do cérebro. Permitam-me esta análise em jeito cirúrgico: o ser humano, durante dias e noites de excessivo e iterativo calor, fica com os impulsos elétricos do sistema nervoso mais lentos, o que causa menor tempo de reação, bloqueio dos movimentos, falhas nas decisões e oscilações do humor. E junte-se: acumulação de gordura em modo rápido.

Nesta área científica, não se afigura novidade o stresse térmico porque já está atestado desde 1980 que temperaturas muito quentes e constantes nos países situados perto da linha do equador lentificam o sistema nervoso, portanto a reação humana aos estímulos ambientais. Isto é o mesmo que dizer que o rendimento académico e laboral decresce significativamente. São as populações mais afetadas pelo calor que menos trabalham por causa deste stresse térmico, culpa do tempo, não das pessoas. Esse stresse afeta diretamente, e de forma silenciosa, a atividade física das populações sobretudo quando a realizam no exterior. A obesidade está a aumentar com correlação significativa com o aumento do stresse térmico, comprovado recentemente. É quase uma antítese: quanto mais se esforça o corpo em exercícios regulados, mais obesidade e também mais acidentes vasculares.

O ano de 2026 está a ser perspetivado como caótico e até a dar direito a julgamento Tribunal de Estrasburgo. Mas, pense-se: é a mão humana que tem provocado a maioria dos extremismos das temperaturas, é o descuido das pessoas com a emissão de gases desavindos, é a falta de noção de sustentabilidade, é o facto de se combater o calor com milhares de aparelhos de ar condicionado que emitem, eles também, excesso de dióxido de carbono e de metano para a atmosfera e nos torna carne débil à estrela do sol. E a limpeza de florestas e de matas só aumenta o risco deste ‘estado de sítio’, porque a emissão poluidora aumenta e a atmosfera está sobrecarregada funcionando em efeito espelho: recebe excesso de aquecimento e devolve-nos em dobro.

E, se pensar que não, estes ‘descuidos humanos’ afetam o que vimos assistindo e não é nada bíblico: os sismos recentes, voluptuosos e impactantes. A desflorestação, os fogos e o uso excessivo de pesticidas no cultivo curvam as placas tectónicas, nem tudo é da mão da mãe natureza. Em 2100 maiores alterações estão já detetadas, sendo o aquecimento muito maior em todo o globo. E o que antes era a franca indicação para coisas como maratonas na marginal, agora é preciso rever quando isso acontece e que morte estamos a preparar para as pessoas que se exercitam.