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As pessoas chegam de todo lado. Maria Armanda começa a sentir os nervos, o coração a bater mais depressa. Faltam poucos minutos para as 21h30 do dia 4 de setembro de 1956. Hoje, a multidão que passa pelo Jorge das Farturas na Feira Popular da Palhavã não veio pelos carroceis, nem pelos carrinhos de choque. Pagaram um escudo pra entrar e vieram vê-la, a ela. Maria Armanda era secretária da emissora nacional quando ouviu dizer que a televisão, que finalmente vai chegar a Portugal, precisa de apresentadoras. É nova, bonita e fotogênica. Não tem nada a perder quando vai bater à porta de Camilo Mendonça, o engenheiro agrônomo de 33 anos que o governo nomeou pra nova Rádio e Televisão de Portugal. O presidente da RTP pergunta-lhe que experiência tem ela pra função. Ao que Maria Armanda responde que tem a mesma que ele, nenhuma. O lugar é dela. À hora marcada, começa aquele a que chamaram o maior espetáculo do mundo. Assim que é retirada a mira técnica, Maria Armanda Falcão, com o cabelo que teve de pintar de loiro e colar de pérolas ao pescoço, entra em cena ao lado de Raul Feio. São os dois primeiros rostos da televisão em Portugal. Na primeira emissão experimental, que só passa nas dezenas de ecrãs montados na Palhavã, apresenta um documentário sobre ourivesaria portuguesa. Entre os locutores e o público, há apenas uma barreira de plástico. É uma feira ao ar livre. Maria Armanda chega a ter de enxotar vendedores de fotografias enquanto está a falar pras câmeras pra que as pessoas não apareçam também na televisão. Durante um mês, a nova locutora da RTP atravessa a feira popular todas as noites rodeada de admiradores. Sente-se uma celebridade. No fim de cada programa, Domingos Mascarenhas, chefe dos serviços de produção da RTP, põe-lhe o papel à frente com uma ordem. A locutora deve despedir-se dos telespectadores com uma frase: "Até amanhã, se Deus quiser". Ela lê, vira o papel e com um sorriso fecha a emissão com um simples: "Boa noite, até amanhã". Tinha desrespeitado a ordem. Quando terminam as emissões experimentais da RTP e começam as emissões regulares, Maria Armanda já não é uma estrela da televisão. Foi despedida por excesso de personalidade. Nunca foi apenas uma questão de beleza. Aliás, muitos anos mais tarde, Vera Lagoa viria a confessar que nem sequer tinha a noção de ter sido uma mulher bonita. Mesmo que todos parassem pra olhar quando ela tinha à rua. Ela e uma amiga, que Vera considerava ser realmente a mais bonita da cidade. Ela própria seria, quando muito, a segunda mulher mais bonita de Lisboa. Foi sempre, isso sim, uma questão de atitude. De recusar fazer o que lhe pedem se for contra aquilo em que ela acredita, de não trair quem mais confia nela, de fazer o que acha certo, mesmo quando toda gente à volta lhe garante que está errado. E de procurar justiça. Vera Lagoa não vai deixar que lhe roubem a identidade, que lhe passem por cima. Mas até a segunda mulher mais bonita de Lisboa tem fraquezas. E ela vai ter um deslize, um único passo em falso. Vai cair de amores como nunca imaginou ser possível. E sofrer ainda mais por causa de um homem que a vai trair. Esta é a Grande Provocadora, uma série pra ouvir em cinco episódios, que faz parte do podcast Plus do Observador. É narrada por mim, José Mata, com banda sonora original de Moulinex. Episódio três: a segunda mulher mais bonita de Lisboa.

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Maria Armanda Falcão abre a carteira e conta o dinheiro que lhe sobra. Não é muito, mas chega. Decide que hoje vai, finalmente, ter direito a um pequeno luxo. Na Praça da Figueira, em Lisboa, escolhe um dos pinheiros mais pequenos e compra a primeira árvore de Natal da família Falcão. Sobe a Avenida da Liberdade sozinha, com o pinheiro às costas. Tem 20 anos e desde os 16 que é o sustento da família. O pai foi demitido do exército e a mãe não tem profissão. Há quatro anos que Maria Armanda atravessa a baixa de Lisboa todos os dias Conseguiu emprego como secretária no arsenal da Marinha, onde além dela, há oito mulheres a trabalhar. Homens são mais de dois mil, o que pra ela é um orgulho, pro pai é um desgosto, recordou a própria em entrevista à RTP em 1992.

Nós vivíamos, de facto, muito mal e eu era muito nova e as pessoas nessa época não trabalhavam, não se empregava aos 16 anos. Lembro que quando fui pro meu primeiro emprego, meu pai chorava convulsivamente: "A minha filha empregada, a minha filha empregada", que era uma coisa aquelas. Ainda bem que a filha se empregou, porque arranjou armas pra poder combater, no sentido de sobreviver.

Estamos no final dos anos 30, quando Maria Armanda Falcão conhece Francisco António de Gusmão Fiusa. O casamento acontece quase de imediato. Vão viver pra Moçambique, porque o marido trabalha nos caminhos de ferro de Lourenço Marques. Maria Armanda engravida logo depois de casar. O filho, Armando, tem poucos meses quando os pais se divorciam, conta Isabel Fiusa, que viria mais tarde a casar com ele.

Ela depois dizia assim: "Eu nem percebo porque casei com aquele homem".

Por aquela época, se calhar tinha-

Pois, eu tenho a impressão que ela também quereria independentizar-se, pensava ela que casando se independentiza. Mas eu acho que foi um bocado isso. Não resultou.

O casamento é um fracasso, mas termina sem conflito. Maria Armanda virá até a ser madrinha do segundo casamento do ex-marido, lembra Carlos Piçarra, o sobrinho neto.

O Fiusa, Francisco Fiusa era uma boa pessoa e se calhar era uma pessoa um bocadinho passiva, um bocadinho mole pra aquela dimensão dela, que já estava a desabrochar aos 20 e tal anos, que é quando ela casa com ele. Sempre amigos, ela foi madrinha de casamento dele. E ficaram amigos até o fim dele. Ele morreu antes dela, mas sempre íamos lá a casa, eles iam lá a casa e tudo. E a segunda mulher dele, ela dava-lhe roupa, ela dava-lhe tudo. Ela era muito generosa.

Maria Armanda deixa Moçambique e regressa a Lisboa em 1944. A Segunda Guerra Mundial ainda não tinha terminado e o navio é bombardeado à saída do porto. A 20 de maio, desembarca no Cais de Alcântara às oito da noite. O pai está à espera dela desde as 17h30. Por esta altura tem 27 anos, é divorciada e traz um filho pequeno. Mas não vem com a ideia de ficar muito tempo em casa dos pais. Maria João Câmara, autora da biografia de Vera Lagoa, conta como ela teve uma juventude pouco habitual pra época.

Era uma mulher que se decidia viajar, viajava. E se decidisse ir para Paris, para a Itália, pra onde quer que fosse, ela ia. E de facto, há uma fotografia que eu acho que é bastante sintomática, que é uma fotografia em que aparece Vera Lagoa de laço grande na cabeça, uma espécie de um lenço com umas calças, numa altura em que ninguém usa chinelos e de mãos assim nas ancas. E eu acho que é uma imagem que eu fixei porque não havia mulheres assim, ou havia muito poucas mulheres assim em Portugal.

A roupa era uma manifestação da personalidade irreverente e descomplexada. Há uma fotografia daquele tempo que ilustra tudo isso numa única imagem. Maria Armanda está na praia, na Arrábida. Segura um cacho de cerejas na mão direita, que eleva acima da linha do olhar. O rosto virado pra as cerejas, os olhos semcerrados. Os lábios pintados com batom, o sorriso muito aberto num dia de sol. O cabelo preso com um lenço e um biquíni escuro. Estávamos em 1949. O biquíni tinha sido criado há apenas três anos. Ela terá sido mesmo uma das primeiras mulheres em Portugal a usar um. Se a foto passa uma mensagem, ela é muito clara. Maria Armanda Falcão é uma mulher livre. Não foi difícil encontrar trabalho no regresso a Portugal. Afinal, já tinha experiência como secretária. Em Lisboa, consegue emprego no consórcio hidroelétrico franco-português. Mas no final dos anos 40, a empresa fecha. Recebe de imediato outra oferta que a entusiasma. Noutra cidade, noutro país. Só que se aceitar, vai ter de deixar o filho de 10 anos pra trás ao cuidado da avó. Em 1949, Maria Armanda escolhe partir. O destino é Paris. Vai trabalhar pra a Casa de Portugal, que ajuda os que estão no exílio. Na capital francesa, os amigos de Maria Armanda são artistas e escritores. Um grupo que inclui nomes como Natália Correia ou Alves Redol. E é por Alves Redol, que Maria Armanda se apaixona. Com ele, desce os Campos Elísios até à Praça da Concórdia pra ver uma exposição de Gauguin. Visita-o no quarto miserável junto à Sorbonne, onde o escritor vive. Mas o amor não é correspondido. A rejeição é um alívio pra Natália Correia, uma das confidentes de Maria Armanda. Considera o escritor um ganga que andava de elétrico Critica a amiga por ser uma tarada que tem mania de trabalhar e diz que ninguém beija a mão a uma mulher que trabalha. Mas Maria Armanda trabalha sim, em Paris e em Lisboa, e até trabalha pra Natália Correia, a passar-lhe os textos à máquina. Quando regressam a Portugal, chegam até a viver juntas. São conhecidas como as mulheres mais bonitas de Lisboa. Dizia-se que quando desciam a Avenida da Liberdade, até as árvores se inclinavam.

A mulher mais bonita de Lisboa era a Natália Correia. Eu não sabia que era facto muito bonita. Só depois de ter havido sido é que comecei a ouvir dizer que era muito bonita, que tinha sido muito bonita. Não ia servir-me disso, da minha beleza, mas foi pena não ter apercebido há mais tempo. Um dia foram fazer uma entrevista ao jornal, uma menina ingênua, novata no jornalismo, e que me perguntou: "Já alguma vez se serviu da sua beleza pra subir na vida?" E eu disse: "A menina pensa que eu sou alguma pega".

A relação entre as duas é tão próxima que chega até a provocar rumores, conta Carlos Piçarra.

Minha tia, a certa altura, tem a fama de ser alcóolica e lésbica, que não era nem uma coisa nem outra. Nunca bebeu um copo de vinho e gostava muito de homens. Ela própria ria-se muito disso e falava disso, porque as pessoas achavam sempre que ela gostava de senhoras, até por causa da Natália e tudo isso.

Mas Maria Armanda Falcão e Natália Correia são muito diferentes uma da outra. Sara Ferro, que foi uma das amigas mais próximas de Maria Armanda, viveu de perto o afastamento das duas.

A Natália Correia era uma relação complicada. Houve um período em que viveu na mesma casa com a Natália Correia e ela viveu aí um tempo com ela e não aguentou. Ela dizia que a Natália Correia era uma pessoa completamente desorganizada nas partes de casa, da roupa, usava os collants naquela altura em que apareceram os collants e tudo. E ela dizia: "Eu fico doida com esta Natália, eu não aguento mais isto". E depois saiu e foi viver pra Estelheiria um. E penso que depois separaram-se um bocado, afastaram-se, porque eram pessoas realmente muito diferentes. Duas mulheres bonitas também, provavelmente alguma competição nessa área, não sei.

Mas nunca deixaram de se falar. E Natália Correia será uma das pessoas que defenderá sempre Maria Armanda, especialmente quando ela se transformar em Vera Lagoa. Estamos a 2 de dezembro de 1956. O primeiro número está nas bancas. Na manchete: 12 mil húngaros em armas preparam-se para desencadear uma ofensiva contra os russos. Não estava nos planos de Maria Armanda trabalhar num jornal. Um dia, o amigo Miguel Urbano Rodrigues, que é jornalista, diz-lhe que precisa de uma pessoa de confiança pra ser secretária do diretor do novo Diário Ilustrado. A escolhida tem que cumprir dois requisitos: ser bonita e ter pulso forte. O diretor é Carlos Branco, bom rapaz, mas que se deixa ultrapassar facilmente. Maria Armanda vai ganhar menos, mas mesmo assim aceita. Rapidamente percebe que não é a pessoa de confiança que Miguel Urbano Rodrigues, o chefe de redação, procura. Foi contratada pra estar ao serviço do diretor. Só que o amigo e outras camaradas do jornal têm planos diferentes pra ela. Querem que Maria Armanda esteja ao serviço deles, que seja uma espécie de agente infiltrada, mas ela não está de acordo. Um dia, é preciso enviar uns contratos pra França. A ordem é de Miguel Urbano Rodrigues, mas Maria Armanda sabe que o diretor é contra. Recusa-se a cumprir e diz-lhe: "Sou por ti, mas não sou uma traidora". Desvairado e com a gravata fora do sítio, Miguel Urbano Rodrigues entra no gabinete do diretor, onde está Maria Armanda. Aponta-lhe o dedo e diz-lhe: "Carlos, meu amigo, meu companheiro de escola, põe essa mulher na rua". Só que o diretor recusa-se. E ao fim de poucos dias, são os administradores do Diário Ilustrado, gente ligada ao regime, que tratam da limpeza. O que lhe contam é que foi Miguel Urbano Rodrigues, o amigo que a tinha contratado e que viria a ser um militante histórico do PCP, a queixar-se à administração. Maria Armanda Falcão é uma mulher perigosa, de esquerda e filha de um deportado político, diz-lhes. O diretor é despedido. Maria Armanda, também. Em janeiro de 1957, Maria Armanda Falcão é mais uma desempregada. A taxa de desemprego em Portugal é alta. Tão alta que o Diário Ilustrado, por solidariedade, decide criar uma secção de anúncios gratuita, pra que os desempregados possam oferecer-se pra trabalhar. É a oportunidade perfeita pra ela se vingar. Nessa noite, Maria Armanda não dorme No dia seguinte, bem cedo, apresenta-se no Diário Ilustrado com uma carta para entregar, que diz: "Ex-secretária da direção deste jornal, com as melhores referências, procura situação compatível. Resposta ao número um". Miguel Urbano Rodrigues não quer acreditar no desplante da secretária que despediu e que agora está a usar o próprio jornal para conseguir emprego. Entra aos gritos pela redação. Pede uma reunião aos administradores para explicar que o anúncio não pode sair, que Maria Armanda está a insultar o Diário Ilustrado. Mas não há nada a fazer. O anúncio é mesmo publicado no dia seguinte. A passagem pelo Diário Ilustrado pode ter durado apenas um mês, mas é lá que conhece o homem que vai ser a maior paixão da vida dela. Maria Armanda vai fazer 40 anos. Ele tem 24. São 15 anos de diferença. Ela está divorciada há quase 20 anos. Ele ainda está a acabar o curso na Faculdade de Letras. José Manuel Tengarrinha é um jovem jornalista, alto, moreno e atlético. Pratica vela, natação, voleibol, futebol, boxe e judo. É um ativista político desde os 15 anos, um intelectual de esquerda e é o homem que desperta em Maria Armanda uma paixão avassaladora. Casam-se a 20 de novembro de 1958, em Lisboa, poucos meses depois da campanha de Humberto Delgado para as eleições presidenciais, na qual os dois participam ativamente. Maria Armanda é completamente apaixonada por José Manuel Tengarrinha. Faz tudo por ele. Lembra Isabel Fiuza, a futura nora.

Até porque ela dizia que a única pessoa de quem tinha mesmo gostado tinha sido o Tengarrinha.

Arranja um novo emprego logo depois do casamento, como secretária na Companhia Nacional de Navegação. Quer ganhar dinheiro para o ajudar a terminar os estudos. Passa-lhe a tese da licenciatura a limpo na máquina de escrever. Corre riscos de todas as vezes que o marido é procurado pela PIDE. No apartamento da Praça das Águas Livres, o casal enfrenta cada vez mais privações. Tengarrinha é preso pela polícia política no final de 1961. Quando sai em liberdade, em fevereiro do ano seguinte, fica impedido pelo regime de dar aulas e de escrever em jornais. Vive de uma bolsa da Fundação Gulbenkian e de meia dúzia de traduções que ela vai conseguindo trazer para casa. Mais tarde, Maria Armanda há de responder aos rumores de que é ela que o sustenta. Diz que nem podia, porque o Zé Manel come muito. Estão casados há quase 10 anos. A dada altura, Maria Armanda começa a ter crises de ciúmes. Por causa da diferença de idades, sente que a relação não pode durar. Lembra a amiga Sara Ferro.

Tengarrinha era uma pessoa bastante mais nova que ela. E eu lembro dela me ter dito: "Ó Sara, isto é um amor intensíssimo, mas com esta diferença de idades, os anos estão contados".

Sara Ferro diz que ele tinha uma postura perante a vida muito diferente dela. Além disso, nunca gostou de ser casado com a autora de uma coluna de jornal chamada "Bisbilhotices", onde ela escrevia sobre as festas, os vestidos e as intrigas do social.

Penso que o Tengarrinha a deve ter ferido no aspeto de não lhe reconhecer valor. Valor no sentido de que ela estava a enveredar por um caminho que para ele era uma superficialização.

No final de 1967, a relação vai mesmo chegar ao fim, da forma mais inesperada possível. O postal vinha escrito dos dois lados. Chegou a 26 de dezembro de 1967, um dia depois do Natal e de ela fazer 50 anos. O carimbo dos Correios era do Algarve. José Manuel Tengarrinha não tinha aparecido em casa no dia do aniversário de Maria Armanda. Agora, ela percebia finalmente por quê. Sem avisar, tinha ido para a Praia da Rocha. Usou um postal para lhe dizer apenas que teve problemas para resolver. Como sempre, trata-a carinhosamente por Papussa, mas sem nunca ir direto ao assunto, dá rapidamente a entender que aquela é uma mensagem de despedida. Agradece-lhe pelas últimas maçadas que teve com ele. Reconhece-lhe a amizade e dedicação e deseja-lhe uma vida calma e digna. Não houve uma conversa cara a cara, nem sequer um telefonema. Através de um postal, chegava ao fim o casamento de nove anos.

Ela sofreu muito. Ela sofreu brutalmente. A Armanda sofreu brutalmente com a separação. Eu penso que o próprio Tengarrinha também teve muita dificuldade. Não teve coragem de dizer que separava. Saiu. E ela gostava muito dele. Gostava mesmo muito dele. Foi-se muito abaixo. Eu acho que ela se foi muito abaixo nessa altura.

Era um golpe muito duro. Antes de ir embora sem lhe dizer nada, o marido já a tinha traído com outra mulher Maria Armanda não é capaz de ficar na casa das Águas Livres. É demasiado doloroso. Pega no telefone para pedir ajuda. Poucos dias depois, está dentro de um avião a caminho de uma ilha que conhece bem e onde também tem contas do passado para ajustar. Durante uma semana, Maria Armanda não sai do quarto. Ninguém a vê. É a amiga Helena Marques, também jornalista, que lhe dá guarida. O refúgio é a Ilha da Madeira. É uma espécie de regresso a casa. Foi na Madeira que tirou a quarta classe com a professora Bernadette, mãe do futuro banqueiro Jardim Gonçalves. Nessa altura, em 1927, a ilha não foi uma escolha, foi um castigo. O pai, o major Armando Pires Falcão, tinha recebido ordem de deportação por um golpe falhado contra o regime. Um de muitos.

O meu pai foi sempre um homem que esteve sempre do outro lado, nunca esteve com o poder. Como eu.

A confissão é da própria Maria Armanda, em entrevista à RTP. Pires Falcão era um revolucionário profissional. Participou no 5 de Outubro, que instaurou a República. Foi um dos autores morais de uma revolta que ficou conhecida como a Noite Sangrenta, em 1921, que resultou na morte de várias figuras do regime republicano. Mais tarde, já em ditadura, vai parar à Madeira, deportado, depois de uma tentativa de golpe. Durante a infância da filha, Pires Falcão acaba por ser transferido para os Açores. Maria Armanda fica na Madeira com a mãe. A partir de São Miguel, o major participa, em 1931, em mais uma tentativa de golpe contra o governo, que volta a falhar. Por ordem do então presidente da República, Óscar Carmona, é deportado para Cabo Verde e expulso do exército. Em 1945, morre na miséria, sem nunca lhe ver reconhecido o direito a um julgamento e sem nunca obter resposta aos pedidos de reintegração no exército. Quando regressa à Madeira para chorar o divórcio com Tengarrinha, Maria Armanda ainda trava a batalha pela reintegração do pai no exército a título póstumo, recorda Carlos Piçarra.

Vivia sempre nessa coisa de defender o pai, a injustiça que tinha sido feita. Tudo isso ela queria um ajuste de contas.

Perde a conta aos requerimentos que apresenta e que voltam sempre para trás. Até ao dia em que recebe o telefonema. "Pede agora que vai ser deferido", diz-lhe um amigo bem colocado. É dia 1 de março de 1979. Mais de 30 anos depois de morrer, o major Armando Pires Falcão é reintegrado no exército por motivos políticos. Chegava ao fim uma luta de décadas para fazer justiça pelo pai. Um concurso de beleza moribundo e aquela que tinha sido a segunda mulher mais bonita de Lisboa. Em 1970, os donos do Diário Popular percebem que podem ter nas mãos uma receita para o sucesso. A Miss Portugal tinha surgido em 1927. Margarida Bastos Ferreira foi a primeira a receber a coroa. O concurso foi-se fazendo de forma intermitente nos anos seguintes, mas com pouco retorno, quer mediático, quer financeiro. Mas agora os donos do jornal querem transformar as Misses numa marca e, claro, ganhar dinheiro com ela. E é aí que entra Vera Lagoa, como conta Maria João Câmara.

Penso que tem a ver com o Diário Popular, que decide repescar o concurso e, portanto, não vê a pessoa melhor para pegar nele do que a Vera Lagoa. A Vera Lagoa era uma primeira figura. E a Vera Lagoa, quando entrava na redação, por exemplo, com capelinas, da maneira como estava vestida, a redação parava. Portanto, ela sabia que tinha este tipo de impacto nas pessoas. Como gostava de moda, ainda por cima, penso que foi uma pessoa muito bem escolhida para pegar no concurso. E, de facto, foi um sucesso.

O primeiro prémio é um BMW. A 11 de abril de 1970, já é quase de madrugada quando, no Teatro da Trindade, é anunciado o nome da vencedora: Ana Maria Lucas, uma jovem alta, elegante, com um tipo de beleza bem português, escreve o Diário Popular. É mannequin, estudou línguas e está noiva de um jovem músico chamado Fernando Tordo. O concurso é transmitido na RTP. Tem tanto êxito que no ano seguinte o pequeno Teatro da Trindade dá lugar ao Casino Estoril. E as Misses da metrópole passam a ter companhia. Primeiro vêm raparigas apenas de Angola e Moçambique. Mais tarde, juntam-se as Misses de Cabo Verde, Guiné, Timor e Macau. A iniciativa tinha a bênção do regime, que usava os concursos para fazer a propaganda de um país do Minho a Timor.

É sobretudo quando foi a Miss Moçambique, a Miss Angola, também vieram, também tiveram muita Tiveram grande sucesso também quando vieram para Lisboa. Se for ver os filmes da RTP Arquivos, da chegada das Miss a Lisboa, percebe porque tinham uma vida muito mais livre, porque se vestiam de uma maneira muito diferente das portuguesas e, portanto, tudo aquilo teve muito impacto na sociedade portuguesa da época.

Não tinha sido uma decisão fácil. Antes de aceitar recuperar o concurso das Misses, Maria Armanda fala com Maria Lamas, uma das melhores amigas e uma das maiores feministas portuguesas. É Maria Lamas que lhe dá um bom motivo para avançar. Vais ajudar a esclarecer as raparigas.

Mas ela fala muito sobre a mulher e a igualdade, e luta muito e usa muito as Miss Portugal para lutar contra as desigualdades, que eram gritantes na época. Se hoje ainda são de alguma maneira, na altura nem imaginamos. Mas, por outro lado, ela achava, penso eu, que o concurso das Miss era uma maneira de as mulheres também se afirmarem. Podia começar pela beleza, mas depois podia espalhar-se para outros campos, ir para outros campos. Aliás, se nós virmos as Miss portuguesas, as primeiras, todas elas depois tiveram uma carreira reconhecida. Portanto, isso já é um fruto, no fundo, e era isto que ela queria, penso eu, também.

Só que há sempre algum preconceito contra as Misses. Vera Lagoa não desiste e quando lhe perguntam se não acha o concurso piroso e semelhante a uma exposição canina, a organizadora responde que os cães vão levados pela trela. As Misses vão porque querem. Do lado de fora do Casino Estoril, os protestos contra a coisificação da mulher são audíveis. Vera Lagoa ignora. Até 1973, continua a ser a cara da Miss Portugal. Nesse ano, deixa os concursos de beleza. Diz que está cansada, que tem poucos meios, mas não é essa a verdadeira razão. Meia dúzia de meses antes, em novembro de 1972, a PIDE tinha apanhado Teresa Tengarrinha Dias Coelho, sobrinha do ex-marido, José Manuel Tengarrinha. É presa pouco depois de fazer 18 anos, uma década depois de o regime lhe ter matado o pai. E com a mãe ainda na clandestinidade. A 2 de maio de 1974, Vera Lagoa revela aos leitores que foi a prisão da jovem a quem ainda chama sobrinha, que a levou a deixar os concursos de Miss. E escreve: "Jurei a mim mesma não fazer nenhum festival pondo em foco as jovens da minha terra, enquanto as jovens da minha terra estiverem na cadeia". Mandaram artilharia pesada. Na Praça das Águas Livres, o barulho chama a atenção dos vizinhos, naquela que parecia ser uma sexta-feira pacata. Alarmados, correm até às janelas para ver o aparato. Não se lembram de uma coisa assim, nem no tempo da PIDE. Lá embaixo, na rua sem saída, está um carro com oficiais, um jipe com militares e uma carrinha celular. Pararam em frente ao número oito. Os homens que saem dos carros entram no prédio em passo apressado e sobem as escadas até ao segundo andar. Estamos em setembro de 1975, mais de um ano depois do 25 de abril. Assustados, os porteiros perguntam se os carros são para o prédio todo. "Não", respondem os militares. "São só para a Vera Lagoa". Mas essa é uma história para o próximo episódio. No próximo episódio. Diz que Vera Lagoa é um diabo de saias e que veio causar desconforto e susto a muitas consciências intranquilas.

Mas o pior, o mais grave, que surgiu depois do 25, foram os arranjismos. Foram as pessoas que eram verdadeiramente de direita, alguns até da PIDE, e que passaram a ser comunistas ferrenhos porque tinham que apagar alguma coisa do seu passado. Ora aí está, o que me acontecia a mim, não estou a gabar-me, nem a elogiar-me, porque eu me disse sempre feia das pessoas auto propagarem-se, mas eu não tinha nada a apagar.

"A Grande Provocadora" é uma série para ouvir em cinco episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, José Mata, e tem banda sonora original de Moullinex. O guião e as entrevistas são de Ana Sanles. A sonoplastia é de Artur Costa. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Borges Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio ouvimos sons do arquivo da RTP. Se gostar desta série, pode seguir, dar cinco estrelas e comentar o episódio no Apple Podcasts ou no Spotify. Pode subscrever e gostar no YouTube. Assim, recebe uma notificação sempre que houver um novo episódio. Podcast Plus, do Observador. É mais do que um podcast.