Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Vera Lagoa está pronta para se entregar. Tem a mala feita. Leva a roupa, a máquina de escrever e o kit de toalete. Os três perfumes diferentes são só para irritar a polícia. Avisou a cabeleireira, a secretária e mais uma série de outras pessoas. Vai chegar à prisão com estilo. Sabia que corria um risco quando escreveu a crônica. O motivo? O crime de injúrias e ofensas ao chefe de Estado. Estamos em setembro de 1975. Vera Lagoa é agora cronista do jornal O Tempo. O Presidente da República é o general Francisco da Costa Gomes. O Conselho da Revolução esteve dividido, metade contra Vera Lagoa, metade a favor. Terá sido o próprio presidente a desbloquear o voto. Ameaçou demitir-se se o mandado não fosse para frente. Pelo menos, foi isso que ela ouviu dizer junto de fontes bem informadas. Já a tinham tentado prender. Na sexta-feira anterior, os vizinhos do número oito da Praça das Águas Livres, em Lisboa, estranharam o aparato à porta do prédio. Só que quando os militares tocaram à porta, ninguém atendeu. Ela estava no Porto quando foi informada do que aconteceu. Decidiu que não ia ficar à espera que a fossem prender. Regressou a Lisboa para falar com o advogado antes de avançar. Vera Lagoa vai entregar-se, mas vai fazê-lo à maneira dela. A crônica saiu com 15 linhas cortadas. Não era para ter saído, de todo. Nuno Rocha, o diretor do jornal O Tempo, estava contra. Criou O Tempo para ser um jornal independente, o que em 1975 significa que é visto pelo poder dos revolucionários como um jornal fascista. Vera Lagoa escreve na página três. Num dia, pede a demissão do Primeiro-Ministro, Vasco Gonçalves. Chama-lhe um homem manipulado. Noutro, atira a Otelo Saraiva de Carvalho, um general que fala e o país desata a rir. Até que atinge Costa Gomes. "Senhor Presidente, perdi-lhe o respeito" é o título da crônica que Nuno Rocha não queria que saísse e que leva ao mandado de captura. Apesar de estar pronta para se entregar, Vera Lagoa acaba por não ir parar à prisão. Graças ao novo Ministro da Informação, António de Almeida Santos, que classifica o mandado de detenção como ilegal. Mas o episódio tem consequências. Vera Lagoa fica convencida de que O Tempo quer proteger o Presidente da República. E toma uma decisão. Ela própria vai criar um jornal. Esse jornal até já existe. Pertence ao inimigo, mas em breve vai ser dela. Esta é a Grande Provocadora, uma série para ouvir em cinco episódios, que faz parte dos podcast Plus do Observador. É narrada por mim, José Mata, com banda sonora original de Moulinex. Episódio quatro: a perigosa reacionária.

Na Kia, acreditamos que o movimento inspira ideias e é a partir das histórias do passado que estamos a escrever a história do futuro. Descubra a mais recente provocação da Kia, o novo EV3, um SUV elétrico compacto com autonomia até 605 km. Kia, movement that inspires.

É dia 30 de abril de 1974, mais de um ano antes de Vera Lagoa quase ser presa. O avião da Air France acaba de tocar na pista. No aeroporto de Lisboa, estão milhares de pessoas à espera. Álvaro Cunhal esteve 14 anos exilado na União Soviética.

Que conduzirão o nosso país no caminho da liberdade, da democracia e da paz.

O secretário-geral do Partido Comunista é recebido em êxtase. Toda a gente quer tocar-lhe, dar-lhe um beijo de boas-vindas. Na portela, Vera Lagoa junta-se aos gritos da multidão. Vê Álvaro Cunhal de pé, em cima de um carro de assalto, rodeado de soldados cobertos de flores. Ouve as primeiras palavras que o líder do PCP profere em Portugal. Os votos de paz, democracia, liberdade e de uma imprensa livre. Mário Soares tinha chegado a Santa Apolónia dois dias antes.

O essencial para nós é mantermos a unidade das forças democráticas.

E ela também esteve lá, com todos aqueles que conhece há décadas. Como Varela Gomes, com quem fez campanha em plena ditadura. Ou o capitão Carlos Vilhena, que conhece desde criança e esteve preso com o pai dela. São os primeiros dias do pós 25 de abril e uma das primeiras coisas que Vera Lagoa faz é tornar-se militante do Partido Socialista A 1 de maio, alistam eles outra vez. Os homens que, por esta altura, Vera Lagoa ainda considera heróis. Demorou cinco horas a fazer o caminho entre o Arco do Cego e o estádio que há de receber o nome daquele dia. Acena aos lisboetas que estendem colchas à janela, aos soldados que levam jarros brancos na cintura e jasmins no cano da espingarda, aos estivadores de cravo na mão, e lamenta os que preferiram ficar escondidos. 2 de maio. A primeira crônica sem cortes. Vai ter de aprender a escrever sem censura. "Como será a liberdade?", pergunta a autora das Bisbilhotices do Diário Popular. Está prestes a descobrir que não vai ser nada como ela imaginou. O convite para a estreia de hoje no São Carlos traz uma novidade: a partir de agora, não é preciso vir trajado a rigor. Em cena, está a ópera O Urso, do William Walton. Vera Lagoa sobe a escadaria do São Carlos de vestido de noite e cabelo arranjado, como sempre. É a única. Não só o teatro está quase vazio, como quem veio escolheu outro tipo de traje mais modesto. Percebe que está a ser observada, que falam dela com desdém. A provocadora, a mulher que em maio de 1974 se atreve a exibir os tiques da aristocracia, a que até há bem pouco tempo organizava os concursos de misses. Mas Vera Lagoa não se importa. Acha que agora pode escrever em liberdade. E escreve o que encontrou no São Carlos. Os novos democratas, que sentiram necessidade de afirmar pela roupa o que nunca afirmaram de outra forma. Ao contrário dela, conta José Miguel Judice, que foi um dos advogados de Vera Lagoa.

Festas, eu não sei o que. Isso passou a ser pouco chique, sobretudo pra aqueles que iam às festas, porque é o mesmo problema. Quem ia às festas, depois a última coisa que queria era que soubesse que eles iam às festas. Quem pactuava com o regime marcelista, a última coisa que queria era que soubesse que pactuava. E a Vera Lagoa, que conhecia as pessoas, e era corajosa e era provocadora, muitas vezes contou histórias dessas conversões súbitas, sobretudo de elites, e que, portanto, não se lhe perdoa. E não lhe perdoaram.

Aos poucos, Vera Lagoa percebe que não é só a roupa. Nesta fase, ainda está no Diário Popular, mas algumas das crônicas que escreve nem são publicadas. Dizem que não há espaço no jornal. Nos constantes plenários do Diário Popular, atreve-se a discordar das decisões tomadas pela comissão de trabalhadores. É contra os saneamentos. Pede cuidado com a caça às bruxas. Chamam-lhe reacionária e Vera Lagoa percebe que não é considerada um deles. No dia 26 de junho, é surpreendida quando abre as páginas do jornal. Nem Vera Lagoa, nem Bisbilhotices. Sem aviso, a rubrica passou a chamar-se Crônica de Maria Armanda Falcão. Vera Lagoa iria recordar esse episódio, anos mais tarde, numa entrevista à RTP.

Depois do 25 de abril, tiraram o meu nome, passaram por Maria Armanda Falcão, porque acharam que Vera Lagoa era fascista. O curioso é que quem dizia essas pessoas estava sempre à minha direita em tudo quando se passava em Portugal. A esquerda era eu e essas pessoas estavam todas aqui. Depois veio 25, passaram pra aqui e fiquei eu na direita. Como não havia mais ninguém pra ser da direita, tinham que enfiar a carapuça em alguém.

Já tinha percebido que os dias no Diário Popular estavam no fim. Os colegas começaram a deixar-lhe um recado. A partir da entrada, há um rastro de papelinhos amarelos que só terminam na secretária dela. Têm escrito: vigilância. Eles são os vigilantes e ela está a ser vigiada. Como é sempre a primeira a chegar à redação, arranca os papéis e deita-os no lixo. Até ao dia em que não aguenta mais. Em setembro de 1974, Vera Lagoa pega na máquina de escrever, arruma a secretária e vai-se embora sem se despedir de ninguém. É uma mulher livre. O que não esperava era que a revolução trouxesse um poder semelhante, em algumas coisas, a uma nova ditadura.

Mas o que aconteceu com o 25 de abril é que aquilo que era os meus valores, que eu tinha admirado toda a vida e que eu vivia, de fato, para admirar essa gente, as pessoas ao tomarem o poder, transformaram-se. As pessoas tornam-se diferentes, quer queiram, quer não.

Maio de 1975. Portugal está sob o comando do Conselho da Revolução. O primeiro-ministro, Vasco Gonçalves, é apoiado pelo Partido Comunista. Casas, fábricas e latifúndios são ocupados por trabalhadores. As ruas são tomadas por protestos, greves e violência. Os bancos e as grandes empresas são nacionalizados. A imprensa também. Vera Lagoa procura então refúgio no jornal O Tempo, um dos poucos que não prestam vassalagem ao poder dos militares. As novas crônicas não são bisbilhotices São páginas em que denuncia os abusos e as injustiças cometidas pelo poder revolucionário. Lembra Daniel Proença de Carvalho, que também foi advogado de Vera Lagoa.

Eram períodos onde o exercício da liberdade era muito difícil, aquele período do PREC, onde, na verdade, os revolucionários não aceitavam críticas. Era muito difícil, na altura, ser contra aquela onda avassaladora revolucionária dos militares do MFA, do Conselho da Revolução. Portanto, houve uma grande pressão contra ela e sobre ela.

José Miguel Júdice também se lembra deste período.

Houve muitos que quiseram tomar conta da revolução e transformar o que tinha sido um momento de libertação no momento da construção de um Estado radicalmente de esquerda, radicalmente socialista. E portanto, começou muito rapidamente a haver abusos, não respeitando a liberdade e a democracia. Ora, essas pessoas, como a Vera Lagoa e muitos outros, revoltaram-se depois do 25 de Abril, como se tinham revoltado antes do 25 de Abril. E penso que ela era genuinamente uma mulher revoltada.

Vera Lagoa decide pegar nessa revolta e criar um jornal. Não será um jornal qualquer. O jornal O Diabo tinha sido publicado pela última vez em 1940, mas mesmo assim tinha um dono, que por lei precisava de renovar periodicamente o direito de propriedade. Em fevereiro de 1976, o dono do Diabo cometeu um erro. Esqueceu-se de fazer o registro desse pedido. Vera Lagoa estava atenta. Por causa dessa distração, conseguiu tomar conta do título.

Sim, o que prova que eles eram muito organizados, mas não tanto como pareciam. Era preciso renovar. Como sabe, todos os jornais têm que renovar os seus títulos quando não estão em ação. E o jornal sabia que expirava o prazo para a renovação do título num dia tal, e no dia seguinte, às 9h00, ao abrir o Palácio Foz, que continua a ser o Palácio Foz e o Sinigal na Praça de Lisboa é a mesma, lá estávamos nós a tomar conta do título Diabo, que foi dado à nossa editorial, o Diabo.

Havia um detalhe. O dono do Diabo, que se distraiu com os prazos, era o novo inimigo de Vera Lagoa, o Partido Comunista Português. Vera Lagoa escolhe o Mercado do Bolhão, no Porto, para apresentar o novo Diabo. Vai de banca em banca oferecer exemplares do jornal. A redação do Diabo é composta, em parte, por um grupo de jornalistas saneados do Diário de Notícias. Chamavam-lhes o grupo dos 24. Tinham questionado a orientação comunista do DN e acabaram afastados pelos dois diretores, Luís de Barros e José Saramago. A 10 de fevereiro de 1976, sai o novo Diabo. A intenção da diretora é clara logo no número um. Quer criar uma tribuna de denúncia e combate às injustiças, especialmente se forem cometidas por homens com poder. Vera Lagoa não estava sozinha. Dizia-se na época que havia em Portugal quatro homens de saias. Vera Lagoa, Natália Correia, Fernanda Leitão e Dom António, o bispo do Porto. Três escrevem na primeira edição do Diabo. Fernanda Leitão tinha sido diretora do jornal O Templário. No primeiro número do Diabo, avisa Vera Lagoa para os ataques que vai sofrer por parte daqueles que um dia visitou na prisão e ajudou a fugir para a clandestinidade. Natália Correia tinha tido uma crônica censurada no jornal A Capital, três meses depois do 25 de Abril. Na primeira edição do novo jornal, diz que Vera Lagoa é um diabo de saias e que veio causar desconforto e susto a muitas consciências intranqüilas.

Mas o pior, o mais grave, o que surgiu depois do 25, foram os arranjismos. Foram as pessoas que eram verdadeiramente de direita, alguns até da PIDE, e que passaram a ser comunistas ferrenhos porque tinham que apagar alguma coisa do seu passado. Ora aí está, o que me acontecia a mim, não estou a gabar-me, a elogiar-me, que eu me disse sempre feia das pessoas ao bagarem-se, mas eu não tinha nada a apagar.

É a própria Vera Lagoa quem admite que o primeiro número do jornal é assim, assim. Por isso, o segundo é decisivo. É Fernando Peres, o dono da gráfica, quem lhe diz. É para matar ou morrer. Vera Lagoa decide matar. O alvo do segundo número do Diabo é Francisco da Costa Gomes, o presidente da República. Costa Gomes não tinha sido eleito. Estava no cargo por nomeação da Junta de Salvação Nacional, explica o advogado Daniel Proença de Carvalho.

O Costa Gomes teve um percurso de tal maneira colaboracionista com a União Soviética, que às tantas, há quem ache, enfim, pode ser uma teoria da conspiração, que ele inclusivamente terá sido um agente De Moscovo. Acho que não vou tão longe. Agora, que foi uma pessoa, ou por convicção ou por oportunismo, que na verdade foi também das tais pessoas que não teve um comportamento linear e coerente. E isso, por exemplo, para a Vera Lagoa, era o defeito dos defeitos. Uma pessoa que não teve verticalidade, que permitiu, enquanto Presidente da República, o Vasco Gonçalves e tudo aquilo, aquele período, toda aquela barbaridade que se viu.

No artigo do jornal "O Tempo", que já tinha provocado a ira do chefe de Estado, Vera Lagoa chamava-lhe o rolha, por conseguir manter-se sempre à tona. Mas agora ela é dona de um jornal e vai ainda mais longe. Pergunta ao Presidente da República se não tem vergonha de ter mantido os PIDs durante dois anos na cadeia sem julgamento. Depois de ele próprio ter recebido uma medalha de ouro da Polícia Política pelos serviços prestados. Acusa o Presidente da República de receber ordens do Partido Comunista e do Primeiro-Ministro Vasco Gonçalves, e de ter deixado que o gonçalvismo destruísse Portugal. A crítica mais feroz guarda para o fim. Há um grande defeito que Vera Lagoa não perdoa ao general Costa Gomes e escreve: "O senhor é muito feio."

Eram tão poderosos, nas monarquias absolutas era assim, faziam-se aliás os retratos dos reis e das rainhas falsos, para que ficassem muito mais bonitos do que eram. Portanto, viveu-se o momento de que os revolucionários, de repente, tomaram-se a sério. Acharam que eram pessoas muito poderosas e não podiam ser criticados. Portanto, você dir-me-á: "Mas hoje em dia toda a gente pode fazer isso?" Com certeza. Chamar feio uma pessoa hoje em dia é politicamente incorreto. Com certeza. Na altura não sei se era ou não era, não sei qual era o código aplicável, mas manifestamente que chamar feio a uma pessoa não é suficiente para apresentar um processo-crime. Mas naquela altura, chamar feio a alguém era um ato de enorme coragem, se fosse um poderoso membro do MFA.

A 18 de fevereiro de 1976, o Conselho da Revolução reúne-se de emergência e decide: pela publicação de ofensas a algumas figuras militares e às Forças Armadas, o jornal "O Diabo" encontra-se suspenso. Nunca em Portugal um jornalista tinha sido processado pelo Presidente da República. Para Costa Gomes, os insultos, injúrias e afrontas feitos quase permanentemente às Forças Armadas e à própria nação na imprensa, era um problema gravíssimo. Disse-o numa reunião do Conselho da Revolução. Pelas crônicas sobre Costa Gomes, Vera Lagoa vai a tribunal duas vezes, acusada do crime de injúrias ao chefe de Estado. Estamos em julho de 1976. O caso é uma bomba mediática, mas os fotógrafos ficam cá fora. O julgamento vai ser à porta fechada. Daniel Proença de Carvalho é o advogado de defesa.

Eu acho que, na altura, quem tinha tomado a rua completamente era a extrema-esquerda. E, portanto, eu acho que aquela lá à porta fechada foi mais para não se poder ouvir cá fora a voz dela e os argumentos dela. Aliás, eu tenho ideia que foi logo a primeira coisa com que eu me rebelei no tribunal e dirigi-me aos juízes em termos muito duros, foi exatamente porque a que título é que um caso daqueles era julgado sem o público. Porque, na verdade, o objetivo disso, na altura, penso que foi esse, foi que a voz dela não pudesse ser ouvida cá fora. É preciso ter a noção, por exemplo, de que os media naquele período, praticamente sem exceção, estavam controlados pelas forças de extrema-esquerda, nomeadamente o Partido Comunista.

Na primeira instância, Vera Lagoa é absolvida, mas o Ministério Público recorre da sentença. Para a acusação, a então diretora do Diabo teve a intenção de amesquinhar, ridicularizar e humilhar o Presidente da República. Deve, por isso, ser condenada.

Mas foi um julgamento muito interessante, porque sendo ela considerada uma perigosa direitista, fascista, na verdade, ela foi defendida por gente da esquerda. Eu agora talvez não me recorde de todas as testemunhas que ela teve, mas recordo-me perfeitamente da Maria Barroso, por exemplo, mulher do Tomás Soares. Recordo-me da Natália Correia, recordo-me de Salvador Vitorino Nemésio. Acho que até o próprio Manuel Alegre. Portanto, ela foi defendida por pessoas que bem conheciam o passado dela, que era um passado que vinha da esquerda, inclusive perseguida pelo então regime deposto no 25 de Abril, e portanto ela teve a solidariedade de muita gente da esquerda. Pessoas com coragem, na altura, porque ser testemunha dela também era uma coisa.

A defesa insiste que com a crônica, Vera Lagoa cumpriu o dever de jornalista: denunciar o passado e o presente de Costa Gomes, alertar o povo português para os perigos que espreitavam. É certo, diz a defesa, que poderia, porventura, tê-lo feito com outro estilo e noutros termos No Tribunal da Relação, Vera Lagoa ouve a sentença. A senhora, que é uma escritora e uma jornalista, que com a sua vivacidade e cultura tem combatido a opressão, deve continuar a pôr a sua pena ao serviço do processo democrático português, do povo e do país. A sessão está encerrada. Declara-se que Vera Lagoa é inocente. Foi só o primeiro processo. Quando recupera o Diabo, ao fim de quase um ano suspenso, Vera Lagoa continua a ter os homens do poder atrás dela. Todos os números do jornal acabam nos tribunais. Chega a ter dois julgamentos marcados pra o mesmo dia, à mesma hora. Ao todo, vão ser mais de 200. O crime é sempre o mesmo: abuso de liberdade de imprensa. Ir a tribunal passou a ser a rotina, recorda Carlos Piçarra, sobrinho-neto de Vera Lagoa.

Não, entrava-lhe uma pica, ela adorava isso tudo. Adorava isso tudo e desligava. Ela punha os óculos de sol no tribunal, punha os óculos escuros e dormia. Eles estavam ali todos a dizer coisa, e depois perguntava ao advogado o que é que tinha acontecido.

Um dos alvos preferidos de Vera Lagoa é o major Melo Antunes. É um dos ideólogos do 25 de Abril.

Eu acho que também é uma daquelas personalidades que, por ter um discurso, é um bocado confuso. A gente nunca percebeu bem se ele era democrata, se não era democrata.

Em 1977, Vera Lagoa acredita que é Melo Antunes que controla o todo-poderoso Conselho da Revolução. Dedica-lhe vários editoriais. Fala no major em entrevistas. Descreve-o como uma personagem sinistra e que deve ser explicada ao povo português. Acusa até Melo Antunes de se passear com um avião da Força Aérea com gasolina paga pelo povo sobre as praias do Algarve. E pior do que isso, tal como o presidente da República que a processou, também Melo Antunes tem um grave defeito. É um homem horroroso, diz a cronista, e comparado com ele, até o Costa Gomes parece a Sophia Loren. Resultado: mais dois processos em tribunal, com um novo desfile de notáveis como testemunhas de defesa. O escritor Vitorino Nemésio depõe a favor de Vera Lagoa. O Ministério Público pergunta-lhe se sabe o significado da palavra injúria. E Nemésio não só sabe, como o explica em detalhe. Perante a incredulidade da sala, acrescenta um pormenor: pode substituir-se a palavra injuriado por enxofrado. E é assim que no Diabo de Vera Lagoa, Melo Antunes nunca mais deixará de ser referido como o enxofrável major. Os títulos estão cada vez mais violentos e Vera Lagoa cada vez mais revoltada. Cada crônica é uma denúncia. Álvaro Cunhal, Vasco Gonçalves ou Otelo Saraiva de Carvalho são alvos recorrentes desde o 25 de Abril. Mas a desilusão de Vera Lagoa estende-se agora também a homens como Mário Soares, Manuel Alegre e Ramalho Eanes, em quem ela até votou nas presidenciais de 1976. Deixa de ser militante do PS, mas o grande inimigo continua a ser o PCP. Como confessaria mais tarde Vera Lagoa numa entrevista à RTP.

Sou anticomunista de primeira. Quando se vê no mundo inteiro o que passou. Você com este exemplo da União Soviética, você vem me perguntar o que é que se passa com o comunismo. O comunismo, teoricamente, será uma coisa muito bela, mas posta em ação, uma desgraça. Quando eu preconizava que aquilo tinha que acabar, toda a gente achava que eu era fascista.

O rótulo que a persegue desde os papelinhos amarelos do Diário Popular. Fascista. No final dos anos 70, o Diabo é um jornal assumidamente de direita. Explica o advogado Daniel Proença de Carvalho.

Houve ali um percurso em que, a partir de uma certa fase, houve ali um radicalismo de direita, do meu ponto de vista. Mas isto é a minha apreciação subjetiva e pessoal. Portanto, ela vem da esquerda. No período da revolução, ela manteve uma posição de esquerda, defendendo a liberdade contra a nova opressão que estava a surgir. Mas depois, decorridos bastantes anos com o Diabo, houve realmente um lento, mas sistemático percurso para posições mais de direita. E de uma direita mais pronunciada.

Na redação, Vera Lagoa tem duas pessoas em quem confia absolutamente. A primeira é Lígia Baltazar, a secretária que a vai acompanhar por décadas. Quando a conheceu, Lígia usava um alfinete de peito com imagem de Salazar, que Vera Lagoa lhe pediu pra tirar. A segunda é José Rebordão Esteves Pinto. Trabalhou na Emissora Nacional e na RTP e é diretor-adjunto do Diabo. Calha também ser o terceiro marido de Vera Lagoa. A relação tinha começado às escondidas no final dos anos 60, ainda antes da revolução. Nessa altura, Jaime Nogueira Pinto frequenta uma tertúlia na Pastelaria Dionne, em Lisboa. Um grupo de gente de direita. Rebordão Esteves Pinto é presença assídua Mas naquele dia não apareceu. É um elemento do grupo quem dá a novidade.

Disse: "Vocês sabem que isto ainda é segredo, mas o José Rebordão agora tem um namoro, ou anda, como se diz, com a Vera Lagoa". E nós ficamos espantadíssimos até por razões políticas, porque ela era bastante do outro lado, político, nesse tempo, pelo menos. E foi assim a primeira vez. Isto passou-se antes do 25 de abril.

A revelação é recebida com espanto por todos os que rodeiam Vera Lagoa. Antes e depois do 25 de abril, José Rebordão Esteves Pinto não é só um homem de direita. Tinha feito parte da Legião Portuguesa e era assumidamente salazarista, recorda José Miguel Judice.

Mas para ver a loucura que ele era, ele trabalhava numa televisão e toda a gente sabia que ele era muito de direita. Eu só o conheci muito depois do 25 de abril, quando conheci a Maria Armanda. E ele contava, a rir à gargalhada, que pouco antes do 25 de abril tinha estado numa discussão com outros jornalistas, na redação da RTP, em que ele defendia que o Hitler tinha bom coração. É uma coisa que não entra na cabeça de ninguém.

A própria Vera Lagoa contava que o marido tinha gravações de discursos de Mussolini. Era um radical de extrema-direita, que não fica parado depois da revolução. Enquanto Portugal vive sob o domínio dos militares e da doutrina marxista, em Espanha, o franquismo ainda sobrevive. É lá que se juntam salazaristas, ex-agentes da PIDE, antigos membros da Legião Portuguesa, simpatizantes do Estado Novo, mais ou menos radicais. É em Espanha, na clandestinidade, que preparam a luta armada. E José Rebordão Esteves Pinto está entre eles. Eurico Curvacho é o mais alto representante dos militares revolucionários no norte de Portugal. A 23 de março de 1975, convoca uma conferência de imprensa para fazer uma revelação ao país. Foi descoberta uma organização fascista chamada ELP, Exército para a Libertação de Portugal. Segundo Curvacho, visa espalhar o sangue e o luto no seio do povo português. A fotografia do ELP que sai na imprensa mostra um grupo de encapuzados identificados como terroristas de extrema-direita. Um dos encapuzados é o marido de Vera Lagoa, como recorda Jaime Nogueira Pinto.

A rede de bombistas, por exemplo, matou 10 pessoas, cinco eram bombistas, portanto, mostra uma grande incompetência também da parte dos bombistas. Ele esteve ligado àquele famoso grupo do ELP, aqueles que aparecem, os encapuzados. Nunca foi bombista pessoal, mas esteve ligado à fundação do ELP. Apareceu depois uma reportagem num jornal do norte, em 75, que um deles é o José Rebordão Esteves Pinto.

Em Portugal, o ELP detonou a antena de um radar militar para permitir a passagem de dois aviões com bombistas a bordo. Resgatou do hospital da Marinha o filho do antigo subdiretor da PIDE. Rebentou sedes de partidos de esquerda, invadiu casas, provocou incêndios, atacou pessoas a tiro. Nos próximos meses, até 1976, os terroristas do ELP vão ser responsáveis por, pelo menos, 30 atentados à bomba em Portugal. O verdadeiro número de ataques nunca vai ser conhecido. Até porque naquela época havia muita gente a pôr bombas. Estamos a 9 de março de 1976. Passam 10 minutos da 13h00. Vera Lagoa está sentada no gabinete que tem na redação, na Rua Rodrigues Sampaio, no centro de Lisboa. Já começou a preparar o próximo número do jornal. Os minutos passam e na máquina de escrever começa a ganhar forma um editorial dedicado a Moçambique. É hora de almoço. Os jornalistas vão saindo da redação, que fica praticamente vazia. Além da diretora, só as duas secretárias e o subchefe de redação continuam a trabalhar. Nenhuma destas quatro pessoas sabe que por baixo de uma das mesas há um objeto preso com fita-cola. Vera Lagoa continua a escrever. Dentro de segundos, a bomba vai explodir. Mas essa é uma história para o último episódio. No próximo episódio. Depois da manifestação no Porto, o telefone toca. Do outro lado, o tom é de provocação. "Por que a Vera Lagoa não organiza uma manifestação em Lisboa? É por medo?"

"Tens medo de Lisboa, tens medo. Medo, é claro, essa é a palavra-chave para me levar para a rua de pedras na mão, se for preciso."

"A Grande Provocadora" é uma série para ouvir em cinco episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, José Mata, e tem banda sonora original de Moullinex. O guião e as entrevistas são de Ana Sanles. A sonoplastia é de Artur Costa. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Neste episódio ouvimos sons do arquivo da RTP. Se gostar desta série, pode seguir, dar cinco estrelas e comentar o episódio no Apple Podcasts ou no Spotify. Pode subscrever e gostar no YouTube. Assim, recebe uma notificação sempre que houver um novo episódio. Podcast Plus, do Observador. É mais do que um podcast.