Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
O espetáculo está quase a começar. No átrio do Teatro Nacional de São Carlos, todos os olhos estão postos na mulher que acabou de entrar. A madeixa branca que lhe cai sobre a testa é inconfundível. O vestido foi feito à medida para ela. A maquiagem está impecável e até os brincos parecem de diamantes verdadeiros. Quando ela passa, toda a gente a cumprimenta. Toda a gente quer cair nas graças dela. É sexta-feira, dia 15 de abril de 1966. A soprano Gianna d'Angelo prepara-se para subir ao palco do São Carlos, mas a alta sociedade lisboeta, que se veste de gala para vir à ópera, não está assim tão interessada na "Lucia di Donizetti". Vieram para ver e ser vistos, como sempre fizeram. É quase um ritual e, sobretudo, um jogo de poder. Só que nos últimos tempos, tudo mudou na feira de vaidades dos salões lisboetas. E a culpa é dela, a mulher da madeixa branca, de quem meio país tem medo. O país que tem uma reputação a manter, porque ela só atira a matar a quem pode cair com estrondo: os milionários, os políticos, os empresários, os artistas. O primeiro ato da ópera ainda não vai a meio, quando começa o barulho. Não é a primeira vez. Carlos Pimentel, que vigia o São Carlos em busca dos que não se sabem comportar, já tinha dado por ele. O barulhinho vem dos papéis de rebuçados que um conde e uma condessa acharam por bem trazer à noite de gala do São Carlos. Mas Carlos Pimentel está preparado. Assim que ouve o primeiro rebuçado a ser desembrulhado, aproxima-se do casal e diz: "Senhor Conde, não se incomode, tem aqui amendoins já descascadinhos". O que o Conde não esperava é que estivesse também a ser observado pela mulher dos olhos carregados de rímel, que na abertura do São Carlos soltam faíscas sobre aquilo a que ela chama a enorme procissão de gente pindérica, que só quer aparecer. A humilhação virá dias depois, nas páginas do jornal, para todo o país ler. Nem será preciso dizer nomes para que se saiba de quem se fala. No São Carlos, tal como na política ou nos negócios, qualquer um pode ser a próxima vítima. A arma dela está à vista de toda a gente. Uma crônica num jornal, que corta como uma guilhotina. Três ou quatro parágrafos, não precisa de mais para fazê-los tremer. E ela vai fazê-los tremer, durante décadas. Uma crônica num jornal é só o começo, o início de anos de combate contra eles, os homens do poder. Eles que vão enfurecer-se quando ela enfrentar Salazar e esconder comunistas em casa durante o Estado Novo. Eles, que depois vão chamá-la de fascista, que depois da Revolução do 25 de Abril, vão tentar impedi-la de falar e escrever. E quando não conseguirem, vão levá-la a tribunal. Centenas de vezes. Vão atacá-la com uma bomba, ou duas, ou quatro. Para já, ela é só uma mulher com uma crônica num jornal, que sabe como provocar. Em 1966, só ela tem coragem de dizer e escrever que os ministros de Salazar não são homens feios, são horríveis. E ela sabe que todos leem o que escreve, que lhe chamam profissional de morte. A mulher que pode enterrar reputações num ápice. A mulher que tem um bisturi no lugar da caneta. É dela que todos têm medo. Ela é Vera Lagoa. Esta é "A Grande Provocadora", uma série para ouvir em cinco episódios, que faz parte dos podcast plus d'O Observador. É narrada por mim, José Mata, com banda sonora original de Moulinex. Episódio um: a bisbilhoteira que faz tremer o país.
Na Kia, acreditamos que o movimento inspira ideias e é a partir das histórias do passado que estamos a escrever a história do futuro. Descubra a mais recente provocação da Kia, o novo EV3, um SUV elétrico compacto com autonomia até 605 km. Kia, movement that inspires.
É uma das mulheres mais populares do país e uma das mais cobiçadas. Em maio de 1966, a cantora Simone de Oliveira recebe um convite: participar na entrega dos prêmios Limão e Laranja, uma iniciativa do Diário Popular, que distingue as figuras que se destacaram pela positiva e pela negativa durante o ano. Ao restaurante Tavares começam a chegar os premiados, o radialista Arthur Agostinho e as atrizes Laura Alves e Maria Barroso, mulher de Mário Soares. Veio até o Ministro das Finanças, Ulisses Cortez. Mas é Simone que atrai todas as atenções, mais concretamente os olhos de Simone. Convidado a dizer umas palavras, o Ministro das Finanças não resiste. "Tenho na minha frente os lindos olhos de Simone de Oliveira. Perdão, os lindos olhos das senhoras presentes". Quem também está neste almoço é Vera Lagoa, ou a Terrível, como lhe chama o maître do restaurante Tavares. E a Terrível não perdoa. Nos dias seguintes, todos os leitores do Diário Popular vão ficar a saber da queda do ministro por Simone de Oliveira. Vera Lagoa não tem problemas em tratar um membro do governo de Salazar por Marialva. E o que o clube dos poderosos começa a perceber, é que para Vera Lagoa, não há intocáveis. "A partir desta hora, não morre mais ninguém". Assim que atendem o telefone no Rádio Clube Português, é esta a ordem dada pela voz que surge do outro lado da linha. É a voz da censura. Estamos na madrugada de 25 para 26 de novembro de 1967. Lisboa vive uma das piores cheias de sempre. Vai ser mesmo a maior tragédia na capital desde o terramoto de 1755. Ao fim de três dias, os jornais dão conta de 427 mortos. Salazar quer suavizar a dimensão da catástrofe. Ordena que as notícias parem de falar em mortos. Mas no Diário Popular, Vera Lagoa escreve sem medo. E a crônica escapa aos serviços de censura. Elogia a equipa do Rádio Clube Português por ter ajudado a salvar vidas ao contar o que realmente estava a acontecer, sem autorização e arriscando um castigo. Ataca o senhor do ponteiro, que apresenta a meteorologia na televisão e que à hora a que as maiores desgraças ocorriam, prosseguia, imperturbável, a falar de ligeiros aguaceiros. E termina com uma denúncia. Enquanto por todo o país decorrem peditórios para os feridos e para os desalojados, no Rossio, começam a ser enfeitadas as árvores de Natal. O dinheiro das luzes deve ir inteiramente para as vítimas das cheias, defende Vera Lagoa.
Ela falava de tudo, falava da pobreza, falava da situação da mulher, falava da violência doméstica. Depois, eu acho que ela era muito inteligente a escrever, porque conseguia, numa crônica de costumes, fazer críticas ao regime, veladas, que toda a gente percebia que era ao regime, sem sofrer depois as consequências, que supostamente deveria sofrer. E houve uma curiosidade crescente, enorme, sobre a própria pessoa.
Maria João Câmara é autora do livro "Um Diabo de Saias", a biografia de Vera Lagoa. Só naquela noite, morreram em Lisboa mais de 700 pessoas e mais de 20 mil casas ficaram destruídas. O regime tentou esconder a verdade sobre a tragédia, mas esqueceu-se da mulher que não tem medo. Três crônicas por semana, com destaque de primeira página no jornal. O título da coluna? Bisbilhotices. Estava criado o fenômeno Vera Lagoa, um pseudônimo para esconder a verdadeira identidade da autora. Para o grande público, a bisbilhoteira é um mistério. Fora do circuito das elites, ninguém sabia quem era a mulher que se escondia atrás de um nome falso e de uma escrita assassina. Mais, no início, havia até quem duvidasse de que a autora das crônicas fosse sequer uma mulher. À medida que os textos vão sendo publicados, as cartas começam a chegar à redação. São às dezenas e vêm de todo o país. Os leitores querem saber quem é, afinal, a cronista secreta do Diário Popular. Começa a bolsa de apostas e há três nomes que ganham força. Candidata número um: Eugénia Maria, locutora do programa Talismã, do Rádio Clube Português. António Torres, leitor do Porto, é um dos que têm a certeza de que é ela. Discutiu a resposta em casa com os pais e os irmãos. E o que não lhe faltam são provas para dar corpo à teoria Numa entrevista à revista Eva, Vera Lagoa tinha revelado que foi a primeira locutora da RTP. Ora, segundo uma outra revista, a Flama, quem foi a pioneira das locutoras da RTP? Nada menos do que Eugénia Maria. Isso só pode querer dizer que as duas são a mesma pessoa, garante o leitor detetive, que se apresenta como estudante de medicina e bisbilhoteiro de provocação. Sim, admite na carta. Publicamente até falam uma na outra, mas há uma explicação. Isso só pode ser para disfarçar. Candidata número dois: Virgínia Ramos, mulher de Jacinto Ramos, conhecido pelas noites de teatro em direto na RTP. O ator foi elogiado recentemente numa crônica e a leitora e admiradora Maria Clara Silva acha que não foi por acaso. E deixa um último pedido à cronista: continuo a dizer que o rei vai nu quando o vir? Candidata número três: Agustina Bessa Luís, autora premiada de romances e colaboradora frequente do Diário Popular. A tese é de João Corte-Real, que também garante ter provas. Encontrou-as num artigo do jornal. Que artigo? Não diz. Que provas? Também não, mas tem a certeza de que as bisbilhotices só podem ser escritas pela famosa autora da Sibila. Descobrir a verdadeira Vera Lagoa tornou-se numa missão de interesse nacional. Nem a própria resiste ao jogo, responde aos leitores em notas de rodapé e desmonta todas as teorias. Não é Eugénia Maria quem escreve, não é Virgínia Ramos e muito menos Agustina Bessa Luís. Todas as apostas estão erradas. Ninguém faz a mais pequena ideia, mas o segredo não vai durar para sempre. Vera Lagoa não foi sempre Vera Lagoa, a mulher que agora faz tremer os donos do país. É a necessidade que a leva, num dia de inverno de 1966, a subir a rua Luz Soriano, no Bairro Alto, e a bater à porta do administrador do Diário Popular, um homem chamado Francisco Pinto Balsemão. Tinha sido despedida do emprego como secretária da Companhia Nacional de Navegação e era casada com um jornalista perseguido pelo Estado Novo, que estava impedido de exercer a profissão. Viviam de traduções. Balsemão acha-lhe graça. Percebe que há ali potencial. A ideia dela é escrever uma crônica de costumes sobre os bastidores da alta sociedade e da cultura, que ela conhece bem. Uma crônica como nunca foi feita em Portugal. Mas a mulher que Balsemão tem à frente não se chama Vera Lagoa. Ele acha que o nome verdadeiro não vende, não vai dar resultado. É preciso uma coisa mais curta, mais comercial. E ela sabe quem pode ajudar. Algumas ruas abaixo do Diário Popular, num restaurante na Travessa dos Fiéis de Deus, o almoço está servido. À volta da mesa marcada no Rina, um clássico do Bairro Alto, a nova cronista do Diário Popular senta-se com um grupo de amigos. No almoço de hoje, são todos jornalistas. Luís de Sttau Monteiro, Renato Boaventura e Joaquim Letria discutem em voz alta. É preciso um nome forte pra amiga começar a assinar as crônicas. Joaquim Letria recorda como o último nome acabou por ser o primeiro a nascer.
O Lagoa vai pelo vinho, que era a marca do vinho que estava na mesa. E foi por acaso, mas foi ele, o Luís, é que criou isso.
Luís de Sttau Monteiro inventou o apelido e depois o primeiro nome, mas esse não foi um acaso.
E o Vera pelo adjetivo, por ser verdadeira, pela verdade e por aquilo que ela no fundo era e a maneira como ela fazia aquilo, como criticava a sociedade. No fundo, era o que ela fazia e fazia-o com muita graça.
Tinham acabado de criar a identidade de uma das mulheres mais controversas da sociedade portuguesa das próximas décadas. Março de 1966. Nasce Vera Lagoa e nascem as bisbilhotices. A autora é surpreendida pelo título da crônica quando abre o jornal naquele dia. Foi a única coisa que se tinha esquecido de combinar. Não foi ela que escolheu o nome Bisbilhotices para encabeçar os textos que vai passar a escrever. O título desperta-lhe mesmo um ódio profundo. Acha-o básico e redutor. Até porque Vera Lagoa vai fazer muito mais do que simplesmente bisbilhotar. Por exemplo, também escreve obituários. Logo na primeira crônica, revela que se a famosa pintora Estrela Faria recusou o convite pra o aniversário de um dos amigos mais próximos, foi porque estava de luto e em sofrimento profundo. Dias antes tinha-lhe morrido o papagaio. Também faz crítica de teatro. Num outro texto, há de escrever que a muito aplaudida estreia da peça "Uma Noite de Verão", no Teatro Vasco Santana, não passou de um espetáculo péssimo, num teatro que vive de subsídios e em que nem os atores se aproveitam. A autora de bisbilhotices escreve ainda sobre relações e até separações de bens, como a que aconteceu depois da cozinheira Maria de Lourdes Modesto ter casado a cadela Tucha com o cão Godot, do radialista Igrejas Caeiro. "Do enlace nasceram cachorrinhos", conta em mais uma crônica e revela: "Sabem o que fez a Lourdes? Não, não acertaram. Não fez hot dogs, mas foi muito feio. Vendeu-os todos e não deu nada ao Caeiro". Vera Lagoa escreve sobre tudo o que lhe apetece, até sobre os amigos. Num coquetel na embaixada de França, não são só as senhoras que escondem bombons nos bolsos que lhe chamam a atenção. É também a aflição de Luís de Sttau Monteiro. Esse mesmo, o amigo que lhe inventou o nome, por ter deixado dois dentes postiços dentro de um guardanapo. Ninguém escapa ao ridículo e à humilhação. Os leitores deliram. A correspondência acumula-se. É impossível responder a toda a gente. Mas há uma inconfidência que ao longo de quase um ano e meio de bisbilhotices, a cronista ainda não cometeu. Quem se esconde, afinal, atrás do pseudônimo Vera Lagoa? Essa revelação não vai acontecer numa festa, numa recepção ou numa vernissage. Vai ser feita onde menos se espera. No último dia de 1967, o Sporting vence o Benfica por 3 x 1, no Estádio José de Alvalade. Mas não é o jogo que desperta a curiosidade dos leitores do Diário Popular. A grande bisbilhotice do Sporting x Benfica vem assinada por um jovem fotógrafo chamado Correia dos Santos. A imagem mostra uma mulher de madeixa branca, olhos pintados, anel no dedo mindinho. "O futebol faz mais um milagre", escreve o jornal. Pela primeira vez, o grande público fica a saber quem ela é. Vera Lagoa ganha finalmente um rosto. E com um rosto, vai ser fácil chegar ao nome. A mulher que aterroriza a elite lisboeta chama-se Maria Armanda Falcão. Num dia, estava desempregada. No outro, já era a mulher mais lida do país. A fama chegou tarde. Tem quase 50 anos quando começa a escrever as crônicas do Diário Popular. No bilhete de identidade, surge como doméstica, apesar de trabalhar desde os 16 anos, quando conseguiu o primeiro emprego como secretária. E doméstica é tudo o que Maria Armanda não era, recorda Carlos Piçarra, o sobrinho-neto.
Ela não era uma senhora de ficar em casa a cozinhar, percebe? E a bordar. Ela não cozinhava. No frigorífico, ela tinha os batons, os vernizes, era o que ela punha no frigorífico.
Muito em breve, o bilhete de identidade vai servir pra muito pouco. Vera vai sobrepor-se a Maria Armanda.
Ela era Vera Lagoa pra tudo, porque ela chegou ao ponto de que aquele pseudônimo, ela assinava cheques e tudo.
Carlos Piçarra conviveu de perto com a tia já depois do 25 de abril, numa época em que as bisbilhotices deram lugar à luta política. Mas no final dos anos 60, são as festas, as inaugurações e os coquetéis que lhe dão trabalho. Vera Lagoa é tão temida como venerada. O nome dá-lhe carta branca pra entrar onde quiser. E ela quer entrar onde mais ninguém consegue. Na primeira semana de setembro de 1968, um francês, um português e um boliviano transformam Portugal no centro mundial do jet set. Vão chegar ao país as atrizes mais conhecidas de Hollywood, as figuras mais admiradas da realeza europeia, os homens mais ricos do mundo e os playboys mais cobiçados do planeta. Cascais não é suficiente pra tantos iates de luxo. O aeroporto de Lisboa enche-se de jatos privados. E na Portela, chega mesmo a ser criado um espaço exclusivo para as celebridades que por esses dias vão aterrando no país, para marcarem presença nas festas de que até os jornais internacionais falam. Nessa semana, o Casino Estoril vai ficar aberto pela madrugada adentro, tal é a concentração de estrelas com dinheiro pra gastar. São três os acontecimentos de arromba em três dias consecutivos. 4 de setembro, quarta-feira. O primeiro destino dos milionários acabados de chegar a Portugal é a Quinta do Vinagre, em Colares. O casal Schlumberger mandou construir de propósito para a festa um portão novo que dá pra estrada de Sintra. Há 1.400 convidados, mais de metade não são portugueses. Antes de os receber, os Schlumberger oferecem um jantar para 72 amigos íntimos, como os duques de Windsor ou o rei de Itália. A festa começa às 11 da noite em ponto. Em duas horas, são arrumados 728 carros. Os donos da casa recebem os convidados no cimo da escadaria que dá acesso ao palácio. Vera Lagoa é pontual, traz um vestido da Carman Modas e um casaco de peles emprestado, e 47 gramas de cabelo postiça platinado, arranjado pela Odete, do cabeleireiro Amaro. É a própria cronista que diz: "Faz um vistão". Ao contrário de outras convidadas, a começar pela anfitriã, com um Givenchy azul, que aos olhos de Vera Lagoa, não a favorece muito. A dona da casa é Maria da Conceição, nascida no Porto, filha de uma alemã e de um português. É casada com Pierre Schlumberger, magnata do petróleo. O baile serve para o casal exibir o resultado de três anos de obras sumptuosas na Quinta de Colares. Para a decoração, foram trazidas centenas de flores da Holanda. Num pavilhão, tocam duas orquestras alternadas. Os empregados vestem azul-celeste e a ceia é servida pelo Ritz. Até os militares da GNR, que controlam as entradas, estão vestidos de gala. Nada escapa a Vera Lagoa, a terrível. Chegou há poucos minutos e já reparou que há três vestidos roxos iguais. E que Gina Lollobrigida, estrela de cinema italiana e uma das mulheres mais bonitas do mundo, está "pirosíssima". Diz que a atriz parece um reclame a produtos para o desenvolvimento de certas glândulas. Há de elegê-la ainda como a mais antipática da noite. Tudo porque se recusa a dançar com quem não conhece. Já o prêmio de Miss Simpatia vai para outra estrela internacional, Audrey Hepburn. A festa continua pela madrugada. Vera Lagoa só há de chegar à casa pelas sete da manhã, mas nem por isso vai dormir. Tem de escrever a crônica para o jornal desse mesmo dia. Praticamente nem olha para as notas que tirou. Tem tudo bem fresco na memória. Às nove da manhã, a crônica está entregue e pronta a sair ao final do dia. Mas Vera Lagoa não tem muito tempo para dormir, tomar um ducha e montar uma nova toalete. Às 17h desse mesmo dia, há outra festa para ir. O convite vinha endereçado à Excelentíssima Senhora dona Vera Lagoa, em nome de Maria Alice e Manuel Vinhas. No verso, traz um mapa para a Herdade do Zambujal, em Setúbal. Nestes dias, em que Lisboa foi o destino das grandes estrelas internacionais, Manuel Vinhas prometeu uma festa portuguesa, com um pormenor: a ideia foi de Salazar. O presidente do Conselho tinha proibido os ministros de qualquer ida às festas dos milionários estrangeiros, mas o ditador achou que ficava mal vir tanta gente importante de fora e não haver uma festa à portuguesa. E é através do sogro de Manuel Vinhas, que também é amigo de Salazar, que a festa começa a tornar-se realidade. Estamos a 5 de setembro de 1968. Vera Lagoa apanha boleia para a festa no Maserati de outro dos convidados. Há de escrever mais tarde que se sentiu uma provinciana ao vê-lo carregado nos botõezinhos do carro, moderno e de luxo. Os convidados começam a chegar aos 1700 hectares da Herdade do Zambujal. Lá está de novo Audrey Hepburn, a dançar de minissaia, o ator Douglas Fairbanks Jr. e a atriz francesa Capucine, conhecida pelos filmes da Pantera Cor-de-Rosa. Fazem uma parte do caminho a reboque de tratores. Está montado um verdadeiro arraial português, com cavalos e campinos, pauliteiros de Miranda e um rancho folclórico. Há barracas de tiro e farturas e desfila a Marcha da Mouraria. O menu está nos antípodas das iguarias do Ritz, que marcaram o baile anterior, na Quinta de Colares. Aqui há sardinhas assadas, croquetes e caldo verde servido em tigelas de barro. E o vinho é de jarro. Gina Lollobrigida também veio à festa, mas está pouco interessada nas danças. A estrela italiana decide fazer telefonemas de uma hora para a Califórnia. E Manuel Vinhas é que há de pagar a conta. Para Vera Lagoa, que não gosta de caviar e nunca bebe champanhe, Manuel Vinhas dá a festa das festas. O êxito é tanto que, passado menos de um ano do arraial das estrelas, o Zambujal vai servir de cenário ao casamento de James Bond, no filme "007: Ao Serviço de Sua Majestade". Mas na semana dos eventos mais extravagantes que a sociedade portuguesa já viu, o melhor está guardado para o fim. Aquele que ficaria conhecido como o baile do século. A 6 de setembro, o milionário boliviano Antenor Patinho dá a terceira festa A mais grandiosa de todas. A revista Vogue tem o exclusivo internacional do baile Patinho, em Alcoitão, onde são esperadas 1.500 pessoas. Só há dois jornalistas portugueses na lista de convidados: João Coito, do Diário de Notícias e, claro, Vera Lagoa. Todos os outros repórteres estão proibidos de entrar. Às 23h em ponto de uma noite amena de lua cheia, o banquete do chefe Luís Carolino começa a ser servido no Pavilhão Árabe, decorado de vermelho e verde, onde todos os convidados têm um lugar sentado. Cascatas de lagostas dominam o centro das mesas. No buffet frio montado no pavilhão da Quinta de Alcoitão, não faltam trutas salmonadas do rio Minho, filetes de linguado com espargos glacés e uma ballotine de galinha au homard. Para a mesa dos doces estão guardadas 20 especialidades, entre charlottes, sorvetes e dom rodrigos. Num vestido Dior branco e dourado e colar de diamantes ao pescoço, Beatriz Patinho recebe os empresários Henry Ford II e Paul Getty, o homem mais rico do mundo, e as atrizes Zsa Zsa Gabor e Brigitte Bardot. Amália Rodrigues, de vestido vermelho, é a ilustre portuguesa entre os convidados, mas não vai cantar. Quatro orquestras, todas de países diferentes, estão encarregues da música. A festa só acaba de manhã, depois de os convidados tomarem o pequeno-almoço à beira da piscina. O baile é um estrondo. Quando finalmente se senta para escrever a crónica, por uma vez, Vera Lagoa não consegue ser terrível. As crónicas no Diário Popular são um sucesso tão grande que rapidamente dão origem a um livro. A primeira edição de Bisbilhotices esgota em tempo recorde. E os leitores querem mais. "Que haja alguém nesta terra de pessoas que usam o rabo entre as pernas, que tenha coragem de dizer tantas verdades", pedem-lhe por carta. Mas Vera Lagoa não tem só admiradores. Junho de 1968. O Teatro Monumental, em Lisboa, prepara-se para a estreia da revista "Lisboa é sempre mulher". A lotação está esgotada. Desta vez, Vera Lagoa não recebeu convite. Assim que as cortinas se abrem, a atriz Florbela Queiroz, coberta de plumas e rodeada de bailarinas, arranca o primeiro aplauso. Só que o ponto alto do espetáculo é outro. Vem de vestido rendado, casaco de peles e saltos altos. Na cabeça, traz uma peruca com uma madeixa branca. Nicolau Breyner sobe ao palco do Monumental como Vera Lagoa, a cronista do reino que come de borla em todos os restaurantes da cidade. A personagem é um sucesso na bilheteira e na imprensa, mas há uma pessoa que não lhe acha graça. Quando assiste ao espetáculo e vê finalmente a caricatura, Vera Lagoa fica furiosa. Nos bastidores não tardam a surgir os boatos. Diz-se que Vera Lagoa faz tudo para deitar o número abaixo ou, pelo menos, para que sejam cortadas as passagens mais achincalhantes. Fala-se num pedido de indemnização a Vasco Morgado, dono do Teatro Monumental. A polémica chega até aos jornais espanhóis, mas a peça vai continuar em cena. Vera Lagoa perdeu. Percebe, pela primeira vez, que não é intocável. Estão os dois em silêncio. Ela sabe o que está a fazer. Sentado numa cadeira de frente para o espelho, o homem assiste à transformação à medida que ela lhe vai espalhando a tinta negra pelos cabelos brancos. Ainda não tem 30 anos, mas parece mais velho. Conhece de cor os calabouços da PIDE e a tortura do sono. Foi ter com ela porque vai precisar de fugir. Tem a certeza de que no segundo esquerdo do número oito da Praça das Águas Livres, em Lisboa, está em segurança. Já por ali passaram tantos camaradas do partido. Maria Armanda Falcão é a mulher em quem todos confiam. A quem pedem ajuda quando saem da prisão. De repente, o homem é tomado pelo medo. E se o disfarce desaparece com a água? Ela diz-lhe que pode estar descansado. A tinta só sai quando cortar o cabelo. Estamos em 1961, cinco anos antes de Maria Armanda Falcão se transformar em Vera Lagoa, a cronista mais temida do país. Em plena ditadura do Estado Novo, é perigoso ser comunista e também é perigoso protegê-los. Em cima da cama estão as roupas que ele deve vestir. Puxa para trás a última madeixa do cabelo, agora negro, e levanta-se. Não pode esperar mais. Foi Alvar Cunhal, o líder do partido, quem deu a ordem. E ele vai cumpri-la. Chegou a hora de passar à clandestinidade. Mas essa é uma história para o próximo episódio. No próximo episódio: as provocações da PIDE são constantes. Os agentes estão em toda a parte, a espiar. Escondem-se na rua para ver quem entra. Tentam passar despercebidos nos andares vizinhos. Num desses dias, Varela Gomes ouve um estrondo no corredor. Corre para a porta a temer o pior. Vê um agente da PIDE tombado no chão. Foi atirado pela escada abaixo por Maria Armanda. "A Grande Provocadora" é uma série para ouvir em cinco episódios e faz parte dos Podcast Plus do Observador. É narrada por mim, José Mata, e tem banda sonora original de Moullinex. O guião e as entrevistas são de Ana Sanles. A sonoplastia é de Artur Costa. A edição é de João Santos Duarte e Tânia Pereirinha. A coordenação é de Miguel Pinheiro, Filomena Martins, Pedro Jorge Castro, Ricardo Conceição e Sara Antunes de Oliveira. Se gostar desta série, pode seguir, dar cinco estrelas e comentar o episódio no Apple Podcasts ou no Spotify. Pode subscrever e gostar no YouTube. Assim, recebe uma notificação sempre que houver um novo episódio. Podcast Plus do Observador. É mais do que um podcast.
