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Mandaram a artilharia pesada. O barulho chama a atenção dos vizinhos. Na rua sem saída, está um carro com oficiais, um jipe com militares e uma carrinha celular. Os homens que saem dos carros entram no prédio em passo apressado e sobem as escadas até ao segundo andar. Vieram prendê-la. Uma crónica no jornal é só o começo.
Ela conseguia, numa crónica de costumes, fazer críticas ao regime, veladas.
O início de anos de combate contra eles, os homens do poder.
Chamar feio a alguém era um ato de enorme coragem, se fosse um poderoso.
Eles que vão enfurecer-se quando ela enfrentar Salazar e esconder comunistas em casa durante o Estado Novo.
Ela apoiou os presos políticos de uma forma incansável, o que era intolerável para a PIDE.
Eles, que depois vão chamá-la de fascista.
É considerada uma perigosa direitista, fascista.
Vão tentar impedi-la de falar e escrever. E quando não conseguirem, vão levá-la a tribunal. Centenas de vezes.
No tribunal, punha os óculos escuros e dormia. Eles estavam ali todos a dizer coisas e depois perguntava ao advogado o que é que tinha acontecido.
Vão atacá-la com uma bomba. Ou duas. Ou quatro. É dela que todos têm medo. Ela é Vera Lagoa.
"Tens medo, tens medo mesmo. É claro, isso é a palavra-chave para me levar para a Rua de Pedras, na mão, se for preciso".
Não havia mulheres assim, ou havia muito poucas mulheres assim em Portugal.
Não era uma senhora de ficar em casa a cozinhar. No frigorífico ela tinha os batons, os vernizes.
Ela era genuinamente uma mulher revoltada. Eram manifestações impressionantes, que enchiam a Avenida da Liberdade.
O Diário é um jornal assumidamente de direita.
É um jornal pobre, é um jornal onde eu ganho muito pouco, onde o meu marido, que é director adjunto, ganha muito pouco.
A certa altura, tem a fama de ser alcoólica e lésbica, que não era nem uma coisa nem outra. Nunca bebeu um copo de vinho e gostava muito de homens.
"Porque é que estás com ele?" E ela dizia: "Vocês sabem o que é solidão?"
Esta é a história de Vera Lagoa, a mulher mais temida pelos poderosos de todos os regimes. Afrontou Salazar, desafiou os militares de Abril e ridicularizou os que se achavam donos do país.
Foram as pessoas que eram verdadeiramente de direita, alguns até da PIDE, e que passaram a ser comunistas ferranhos porque tinham que apagar alguma coisa do seu passado. Eu não tinha nada a apagar.
Esta é a Grande Provocadora, uma série para ouvir em cinco episódios, que faz parte dos podcast plus do Observador. É narrada por mim, José Mata, com banda sonora original de Moulinex. Pode acompanhar todas as semanas no site do Observador, nas plataformas de podcast e no YouTube. Os assinantes do Observador têm acesso antecipado a todos os episódios desta série. Para assinar, vá a observador.pt/premium. Estreia a 1 de Outubro.
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