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Esta é a história do dia da Rádio Observador: a geringonça das presidenciais.
Um candidato que está em palco e que diz que não será por ele que o outro candidato não será presidente da República, então a candidatura é uma fraude, não devia estar aqui.
Diz o dicionário que uma geringonça é uma coisa mal encaixada, improvisada, um conjunto de peças que funcionam com dificuldade, e é quando funcionam. Quem está a ouvir isto, eu sei, está a lembrar-se da outra geringonça, a do primeiro mandato de António Costa. Mas essa, fosse lá como fosse, tinha pernas e andava. Eu estou a falar da geringonça que se instalou nestas presidenciais. Temos um corpo central, digamos assim, o candidato que lidera as sondagens e que agora já se assume como representante da esquerda.
Quer dizer, eu não vou desistir.
Mas que nem os seus conseguiu agregar na totalidade. Depois temos uma perna que se começou a acoplar.
No que de mim depender, não será por mim que António José Seguro não será presidente da República de Portugal.
Com esta frase, Jorge Pinto dava a entender que só lhe faltava apelar diretamente ao voto em Seguro. Mas ontem veio dizer que a candidatura, que apoia outro candidato, afinal é mesmo para levar até o fim. E depois temos Bloco e PCP, ambos a dar sinais de fadiga com as perguntas sobre eventuais desistências.
A minha candidatura é para levar até ao fim. Ponto final. Parágrafo.
Portanto, um corpo central, uma perna mal atarrachada e dois membros que não encaixam nem por nada.
Eu confesso que acho tudo isto muito confuso.
Eu também, Catarina Martins. Por isso, hoje vou conversar com o Miguel Santos Carrapatoso, editor adjunto de política do Observador, sobre estas geometrias variáveis à esquerda, se alguma destas tomadas de posição faz sentido e o que teria a ganhar Seguro, ele que parece estar numa trajetória ascendente com a eventual desistência de um candidato que nunca contou muito para o campeonato. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de quinta-feira, 08 de janeiro. Bem-vindo, Miguel.
Olá, Pedro.
Vamos começar por este resultado do António José Seguro nas sondagens. Ficaste surpreendido que comecemos a campanha a olhar para ele como o provável vencedor?
Honestamente, temos que dizer que sim, tendo em conta a trajetória que António José Seguro estava a seguir.
Nem só ele. Tínhamos outros candidatos que até parecia que tinham mais hipóteses e que agora têm derrapado um bocadinho.
Certo. Agora, por que não é estranho? Porque é aritmética. Estas eleições são, sobretudo, sobre quem passa à segunda volta. O espaço da direita está altamente fragmentado. À partida, em teoria, o candidato do Partido Socialista, por muito que o Partido Socialista esteja a atravessar uma má fase, o candidato do Partido Socialista teria condições de passar à segunda volta. O que é que estava a acontecer? Henrique Gouveia e Melo estava a segurar muito do eleitorado socialista que poderia cair para António José Seguro. Parece-me que a campanha de Henrique Gouveia e Melo assumiu um tom e uma estratégia que acabou por assustar alguns potenciais eleitores do almirante, que se identificam mais com o Partido Socialista e que os fizeram regressar à base, à casa mãe, e a casa mãe acaba por ser António José Seguro. Tudo isto é do domínio da leitura dos dados que vamos tendo e da dinâmica que vai existindo.
Sempre. Depois tinhas esta questão de identificação política, em que houve uma fase em que o próprio almirante se identificava mais com o eleitorado de esquerda do que António José Seguro. Parecia um bocadinho...
Aliás, no debate entre os dois, Henrique Gouveia e Melo disse que ele sim representava o Partido Socialista e creio que essa frase também pode ter ajudado a desbloquear algum sentimento de pertença dos eleitores socialistas. Tendencialmente, quem é de facto de um partido, quem é militante, quem é simpatizante, quem votou uma vida toda num partido, não gosta muito de apropriações. E aquela frase de Henrique Gouveia e Melo pode ter prejudicado o almirante e pode ter provocado um movimento de desbloqueio de eleitores e também do próprio candidato, que depois começou a fazer um discurso, a assumir-se mais como um homem de esquerda.
Em todo caso, tu falas de aritmética, isso quer dizer que achas que este resultado, e atenção, temos que também fazer esta ressalva, que as sondagens, designadamente aquela que temos mostrado na TVI e na CNN Portugal, mostra que estão todos empatados. Temos aqui tendências e António José Seguro tem liderado desde o primeiro dia, o que é interessante. Mas achas que isso é mérito dele ou demérito dos adversários?
Acho que as duas coisas. António José Seguro não conseguiria estar onde está hoje se não tivesse mérito e acho que tem feito uma campanha em crescendo. Os primeiros debates não lhe correram de forma espantosa. As primeiras entrevistas também não. E creio que António José Seguro foi afinando as suas prestações e a forma como se apresenta em público. Basta ver o momento positivo e o momento negativo. O momento negativo é a entrevista ao público em que comete aquela gafe.
Depois da insistência várias vezes da Ana Sá Lopes sobre se ele era um homem de esquerda ou não.
E essa foi uma frase que pesou, o próprio depois veio corrigi-la e o momento mais positivo, o debate com Gouveia e Melo, em que aí sim, puxou para si o patrimônio do Partido Socialista. Deméritos dos adversários? Claro que existe. E aqui acho que podemos assumir que O bate-boca permanente entre Henrique Oliveira e Melo e Luís Marques Mendes prejudicou ambos. Pelo menos é essa a dinâmica que se vai verificando. Quer Luís Marques Mendes, quer Henrique Oliveira e Melo estão a descer. E depois há o fenómeno Cotrim, mas Cotrim nós não podemos esquecer que parte de uma base muito mais curta do que qualquer outro candidato dos grandes partidos. A Iniciativa Liberal representa muito pouco e Cotrim Figueiredo está a ultrapassar em muito as fronteiras do próprio partido.
Se ele tiver nas eleições o resultado que as sondagens lhe apontam é um crescimento enorme e prova que será um homem que vale mais do que o seu próprio partido, provavelmente. Mas há um dado curioso deste último dia. Alguns jornalistas olharam para isso como um dado curioso, que foi, por exemplo, ver Duarte Cordeiro e Ana Catarina Mendes na campanha de António José Seguro, eles que são tidos como sendo mais próximos de António Costa, uma ala que não está tão entusiasmada com a candidatura de António José Seguro. Tu fazes alguma leitura disso ou achas que não tem particular significado?
Tem significado, seguramente. Houve gente do Partido Socialista que decidiu não apoiar António José Seguro. Houve gente que o apoiou quase com uma corda ao pescoço. Estou a pensar, por exemplo, em Augusto Santos Silva, que chegou a dizer que António José Seguro não preenchia os mínimos e agora, enfim...
Tal como outros candidatos não preenchiam os mínimos, mas era o melhor que lá se arranja.
E agora decidiu dizer que era o melhor que se arranja. Há, de facto, militantes e simpatizantes do PS que estão nesse comprimento de onda. E depois há outros que perceberam que é uma questão pragmática. O Partido Socialista não ocupa o Palácio de Belém desde Jorge Sampaio, há mais de 20 anos. Desperdiçar uma oportunidade destas pode colocar também em risco, não quero exagerar, mas a sobrevivência do Partido Socialista. O Partido Socialista arrisca-se a ter um período muito longo no deserto da oposição. Se o PSD juntasse o Palácio de Belém a tudo aquilo que já controla politicamente, tornaria ainda mais difícil a vida do PS. E portanto, há muito boa gente que, não morrendo de amores por António José Seguro, até pensando no dia a seguir a José Luís Carneiro, que é dentro do PS visto por muita gente como um líder de transição. Começam-se a fazer contas. É melhor ou pior ter um presidente da República do PS ou Luís Marques Mendes, ou Henrique Oliveira e Melo, ou pior ainda, André Ventura.
Ou então onde é que eu estava quando isso se decidiu e de que lado é que eu estava da barricada. Isso tem alguma curiosidade, porque isso que se aplica ao PS também se pode aplicar à esquerda como um todo. Ou seja, a esquerda podia olhar para António José Seguro como o único homem que tem reais possibilidades neste contexto político para chegar a uma segunda volta e eventualmente vencer essas eleições. No entanto, aquilo que vemos é um candidato do LIVRE que fez um número no debate que deu a entender que a sua candidatura tinha terminado, depois afinal voltou atrás. Já agora, o que tu interpretas dessa frase, desse gesto, desse momento?
É uma precipitação de alguém que não tem experiência política. Para recapitular muito rapidamente, houve uma notícia no Observador citando fontes próximas da candidatura de Jorge Pinto que sugeriram isso mesmo. Se os outros candidatos à esquerda também desistissem, se António José Seguro se aproximasse de algumas das bandeiras do LIVRE, então Jorge Pinto admitiria desistir da candidatura. Isso obviamente foi tema do debate e num primeiro momento Jorge Pinto diz-se chocado com essa notícia, depois confirma e depois termina dizendo que o voto útil é na candidatura dele no dia 18 de janeiro. Portanto, há aqui uma enorme baralhação que só pode ser justificada por inexperiência. Catarina Martins aproveitou logo no dia seguinte para fazer croquetes com Jorge Pinto, dizendo que se ele queria falar comigo, que me telefonasse. É uma resposta de alguém que tem muitos anos de política, que Jorge Pinto não tem.
Aliás, ela disse isso logo no próprio debate. Quando ele falou do discurso que tinha feito e Catarina Martins disse, e bem, podia ter falado comigo se queria consertar alguma posição. Mas quer dizer, essa é uma candidatura que morreu na praia já.
Que nasceu morta, aliás. Jorge Pinto foi o último a apresentar-se como candidato. Todo aquele processo foi tirado a ferros do LIVRE.
Que tentou até à última hora criar uma convergência para uma candidatura de esquerda.
E depois convenceu-se que tinha de fazer prova de vida nestas eleições presidenciais, porque é o maior partido à esquerda do PS neste momento e tem sondagens que lhe dão 7% nas intenções de voto, portanto, já tem um peso considerável e achou que estas eleições presidenciais poderiam ser mais uma oportunidade de continuar o bom momento que o partido atravessa. Agora, os eleitores não são desprovidos de senso. Percebem que está em causa muito mais do que a sobrevivência do partido A, B ou C, está em causa a eleição de um presidente da República e isso está a refletir-se.
Achas que isso explica o fraco resultado dos partidos à esquerda, tirando o António José Seguro, nas sondagens?
Há uma crise estrutural da esquerda que já se verificou noutras eleições e seguramente está a contribuir para isso. Mas sim, quando se coloca a hipótese de haver uma segunda volta com dois candidatos do espaço da direita, parece-me evidente que qualquer eleitor que tenha alguma simpatia pelo espaço da esquerda, junte um mais um e perceba que é muito difícil não votar em António José Seguro nestas circunstâncias. Portanto, o candidato apoiado pelo Bloco, o candidato apoiado pelo PCP, o candidato apoiado pelo LIVRE, estão a ser prejudicados por um apelo ao voto útil que era mais do que evidente que se iria colocar nesta eleição.
E ainda assim faz sentido que não desistam, no caso de Catarina Martins e António Filipe, que já disseram várias vezes que não vão desistir a favor de nenhum outro candidato?
Aqui, fazer alguma justiça A Catarina Martins e António Filipe. Percebo que seja muito difícil para eles apoiar alguém com as características de António José Seguro. Sabemos o percurso que António José Seguro teve durante a intervenção da troika, a forma como muitas vezes, concorde-se ou não, tentou ser uma solução para o governo de Pedro Passos Coelho. Esse momento deixou feridas à esquerda. A geringonça foi uma resposta a esse período da troika e portanto, consigo compreender que fosse muito difícil para Catarina Martins e para António Filipe, para o Bloco e para o PCP, encaixarem um apoio a António José Seguro. Isso é a parte em que podemos todos empatizar com o Bloco e com o PCP. A parte mais difícil de explicar é que o grande objetivo dessas duas candidaturas era provar que os partidos estão bem, vivos e recomendam-se. Ora, não há nenhum dado, não havia antes e não há agora, que aponte para um crescimento do eleitorado do Bloco ou do PCP nestas eleições. Não está a resultar. Catarina Martins, nas últimas vezes que foi a votos, numas legislativas e numas europeias, teve 5%, perto disso. Está abaixo desse valor. António Filipe está muito perto do score mínimo do PCP e portanto isto, em vez de dar um sinal de vitalidade desses dois partidos, vai provar que a crise é bem maior do que aquela que eles porventura gostariam que fosse.
Portanto, vai ser uma noite interessante em todos os sentidos, aquela das eleições presidenciais, que tudo indica será a noite da primeira volta das presidenciais. Obrigado, Miguel.
Obrigado, Pedro.
Miguel Santos Carrapatoso é o editor adjunto de política do Observador. Ajudou-nos a olhar para estas movimentações à esquerda. Já que falamos de presidenciais, já se vota nestas eleições. Hoje é o último dia para os eleitores deslocados no estrangeiro poderem votar, esses eleitores e os que estão internados e os que estão presos. Também termina hoje o prazo para a inscrição no voto em mobilidade. Noutra frente política, o primeiro-ministro vai ao Parlamento para o primeiro debate quinzenal do ano. Tem várias crises em mãos, desde logo a morte de uma pessoa por atraso do INEM. Luís Montenegro enfrenta a oposição com a ministra da Saúde novamente fragilizada. E agora que se sabe que a Dinamarca e os Estados Unidos vão reunir-se por causa da Gronelândia e que se sabe que a intenção dos norte-americanos é comprar o território, que surpresas nos reservará hoje Donald Trump? Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.