Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Esta é a história do dia da Rádio Observador. A guerra em Israel poderá alastrar? "Azerzei Israel aikarin, kochot Hamas palshu haboquer leshet Israel, bebuqru shel yom ḥag, shabat, veratskhu ezrakhim temimin, yeladim uqshishim." Benjamin Netanyahu é o primeiro-ministro de Israel. Nesta declaração, no sábado, acusa o Hamas de lançar um ataque, um massacre que não poupa crianças nem idosos. Homicídios, raptos levados a cabo por operacionais do Hamas em território israelita. Entraram por mar, terra e ar. O primeiro-ministro israelita promete uma resposta muito dura àquele que será o pior ataque desde a Guerra do Yom Kippur, há precisamente 50 anos. Que ataque foi este lançado pelo Hamas e que consequências poderá ter? Vou conversar com Ana Santos Pinto, antiga Secretária de Estado da Defesa, professora universitária, especialista em Médio Oriente e em questões de segurança. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia. Bem-vinda, professora Ana Santos Pinto.
É um gosto. Muito obrigada pelo convite.
Podíamos começar pelo básico, se calhar. O que é o Hamas? Que organização é esta?
O Hamas é uma organização de revolta política. Foi criado em 1987, no contexto da Primeira Intifada, e tenta criar uma alternativa política e militar à Fatah, que é o partido tradicional de Yasser Arafat, que serve de base à estrutura da Autoridade Palestiniana, que é, de alguma forma, quem governa de acordo com os acordos de Oslo e a solução proposta a dois Estados, os territórios de Gaza e da Cisjordânia. E o Hamas sempre utilizou a sua ação do ponto de vista militar, recorrendo ao terrorismo, através de ações no território em Israel, mas também partindo, em particular de Gaza, para lançar rockets, mísseis, capacitar-se do ponto de vista militar para combater o Estado de Israel e para, no limite, porque não o reconhece, eliminar a tensão pela existência do Estado de Israel nas fronteiras. A grande diferença é que o Hamas, para além desta dimensão militar e terrorista, também se tornou um movimento político, porque passou a governar Gaza a partir de 2005, porque venceu as eleições e, portanto, isto cria um misto deste movimento na sua esfera militar, terrorista e política.
Estamos a falar de ataques lançados a partir da Faixa de Gaza, que é literalmente uma faixa. Como é que podemos explicar o que é a Faixa de Gaza?
A Faixa de Gaza tem cerca de 45 km de comprimento e é bastante estreita. Há zonas onde tem cerca de 11 km de largura em relação a Israel. A componente sul é mais larga, mas estamos a falar não só de um território exíguo, pequeno, mas sobretudo de um território que tem uma grande densidade populacional, que pode chegar aos três milhões de pessoas num espaço bastante mais pequeno, por exemplo, do que o distrito de Lisboa. Nós estamos a falar de cerca de 6500 pessoas por quilômetros quadrado, o que significa que qualquer intensidade militar, qualquer operação militar, causa, naturalmente, um número de baixas, seja de feridos ou de mortos do ponto de vista civil, que é muito significativo. E estas pessoas estão fechadas neste território, não só porque não podem circular para o território de Israel, mas também porque existe um bloqueio a Gaza e, portanto, seja do lado norte de Israel, seja no lado sul, por parte do Egito. Pondo de uma forma muito simples, desde 2007, este território está fechado pra si mesmo.
Há um bloqueio.
Há um bloqueio, que é um bloqueio econômico na sua base, ou seja, que impede a entrada e saída de produtos, com esta argumentação de que evitará aquilo que são as capacidades ou o reforço das capacidades do Hamas, mas apenas também nesta lógica de contexto, Israel retirou da Faixa de Gaza em 2005, portanto, não há presença militar e não há colonatos em Gaza desde 2005.
Isso é o contrário do que acontece na Cisjordânia? Só pra percebermos a diferença entre os dois territórios.
Isso. A diferença entre Gaza e Cisjordânia é que em Gaza, desde 2005, não há nem a presença permanente de forças militares e forças de segurança israelitas, nem há colonatos, ou seja, agrupamentos populacionais, bairros, casas de colonos, cidadãos israelitas no território de Gaza. Na Cisjordânia é diferente. Na Cisjordânia, para além das forças da Autoridade Palestiniana, forças de segurança, existe a presença permanente de Forças Armadas israelitas e existe num número cada vez mais significativo, colonatos, ou seja, bairros, agrupamentos populacionais de cidadãos israelitas, normalmente, para não dizer praticamente na sua totalidade, com uma interpretação identitária muito radical e muito extrema e que, portanto, não só se opõem como antagonizam e desafiam pelo comportamento e pela prática, aquilo que são as populações árabes ao seu redor.
E na manhã deste sábado, dia feriado em Israel, é lançado este ataque do Hamas. O que faz deste ataque algo de tão especial quando comparado com outros?
Eu creio que é importante primeiro separarmos a dimensão simbólica daquilo que torna este ataque especial. Ou seja, o Shabbat, que é a entrada de sexta para sábado e que é celebrada por toda a comunidade judaica, tem a particularidade de estar na semana das festividades do Sucot, que não são com simbolismo histórico, ou seja, não celebram a vitória numa guerra, não celebram uma dimensão mais concreta, mas celebram o êxodo dos judeus do Egito, implicam o contacto com a natureza, a dimensão da produtividade agrícola, a celebração da componente de relação com a natureza e com aquilo que a natureza nos pode dar. E esta celebração do Sucot prolonga-se durante toda a semana que passou e culmina, naturalmente, com o Shabbat, ou seja, com o sábado, o dia mais importante da semana judaica. E é exatamente nesse momento que o Hamas inicia a sua operação.
Allah Akbar! Allah Akbar!
E uma operação que tem um caráter terrorista claro, por quê? Porque tem como objetivo alvos civis e tem como objetivo lançar o medo e o terror.
Allah Akbar! Allah Akbar!
É isto que caracteriza uma ação terrorista e, neste caso, numa larga escala, porque não estamos a falar de um ataque isolado de um militante, mas sim de uma operação bastante mais alargada. E é isto que torna este ataque especial. Ou seja, não é um ataque que parte do território de Gaza com rockets ou com mísseis de maior alcance. É um ataque que implica a penetração, a entrada em território israelita, o assassinato e o rapto de cidadãos israelitas, o que se vai refletir numa maior vulnerabilidade e sentimento de insegurança da população, e que levanta uma questão que eu acho que é importante na avaliação do impacto, que é, por um lado, o número de vítimas mortais e feridos, que é muito significativo do lado israelita, em comparação com acontecimentos anteriores, e a ausência, pelo menos que nos seja clara, de antecipação, dissuasão, prevenção de um ataque desta natureza, que não me parece que seja planeado em 24 ou 48 horas. E, portanto, é isto que torna este ataque diferente, especial, e não obrigatoriamente o momento simbólico em que ele ocorre.
E já voltamos à conversa com a professora Ana Santos Pinto, investigadora especialista em Médio Oriente e também em segurança. E fica desde já aqui uma recomendação, porque é importante também para entender melhor este episódio da História do Dia, ouvir o mais recente episódio do podcast "E o Resto é História" sobre o Yom Kippur. Assinalam-se agora os 50 anos. As armas e os barões assinalados.
"E o Resto é História", com João Miguel Tavares e Rui Ramos, às quartas-feiras depois do "Jornal do Meio Dia" e sempre em podcast.
Regressamos à conversa com Ana Santos Pinto, investigadora e professora universitária. Professora, a Faixa de Gaza está cercada por um muro que previne que sejam até escavados túneis. Há sistemas de defesa muito avançados. Israel tem serviços de informações muito conceituados, muito reputados, e a professora falava nisso agora mesmo. Como é possível que isto tenha acontecido? Como é que uma ação destas, com operacionais no terreno, escapa ao radar israelita?
Essa é uma questão que certamente gerará um debate interno no momento em que ele puder ocorrer, porque estar neste momento em situação e em estado de guerra implica um conjunto de particularidades e de atenção particular à resposta imediata que é dada. Mas eu imagino que a sociedade israelita, que é muito plural no debate e participada, levantará certamente essa questão, particularmente face a um governo liderado naturalmente por Netanyahu, mas que é um governo de coligação que tem uma representação de nacionalistas radicais, por um lado, e por outro, de ortodoxos religiosos, e portanto, são muito dedicados à componente da segurança interna e da dimensão de Forças Armadas e o papel da segurança da comunidade israelita. Eu creio que isso lançará um debate interno muito significativo. A questão que coloca de como é que acontece, permita-me que remeta para o início da sua questão, que é o muro que previne que sejam escavados túneis e a dimensão tecnológica muito avançada da defesa Aquilo que o Hamas procurou também demonstrar com esta tipologia de ataque é que não é pela construção do muro, não é pela destruição destes túneis, que não passam só armamento, passa claramente uma questão de apoio à capacidade militar, mas também passam produtos alimentares e muitos outros produtos que garantem a sobrevivência da comunidade. Portanto, estes túneis têm uma utilização muito mais alargada do que apenas a dimensão militar. Nem todos são destruídos e nem os sistemas mais avançados do ponto de vista tecnológico têm a capacidade de contornar aquilo que é uma dimensão de relação humana muito mais tradicional, muito mais centrada no papel de cada um dos militantes e que permite que cada um deles vá realizar uma operação de assassinato, de rapto, de revolta do ponto de vista da ação militar e terrorista. E isso faz-nos também pensar como é que uma desproporcionalidade tão grande entre aquilo que é o exército, as Forças Armadas israelitas, tão avançadas tecnologicamente, e aquilo que o Hamas utilizou, para além de rockets e mísseis, mas essencialmente pessoas, como é que esta desproporcionalidade se reflete numa efetiva capacidade de resposta. Como é que escapa ao radar? É exatamente essa a questão que se coloca. Como é que não há a capacidade de antecipação e prevenção, quando existem recursos num Estado, como é o caso de Israel, tão tecnologicamente avançados e com investimento tão significativo em matéria de recolha de informações e preparação do ponto de vista militar e tecnológico.
E o primeiro-ministro israelita já prometeu uma resposta muito dura. Foram chamados 300 mil reservistas. Não temos aqui tempo para explicar como funciona o exército israelita, mas só isso daria uma história do dia, é muito interessante. Entretanto, o ministro da Defesa anunciou uma intensificação do bloqueio à Faixa de Gaza. Bloqueio que passa por restringir eletricidade, alimentação, combustível, até água. Israel, professora, poderá invadir a Faixa de Gaza? As experiências passadas não correram bem e há pouco falava quase que dessa retirada em 2005.
Não, essa retirada ocorreu do ponto de vista efetivo e gerou um debate interno muito significativo em Israel, porque implicou a retirada à força de Gaza, cidadãos israelitas dos colonatos, porque eles não queriam sair de Gaza e, portanto, houve momentos, até do ponto de vista do debate público, de uma grande intensidade, porque vimos forças de segurança e Forças Armadas israelitas a retirarem à força colonos do território de Gaza, porque eles não queriam sair. Ora, o que acontece hoje e por estes dias, naturalmente, vai dar um argumento muito sólido àqueles que contestaram a retirada de Gaza. Vai dizer: "Não deveríamos ter saído de Gaza." Foi uma iniciativa do então primeiro-ministro Ariel Sharon e que foi uma posição de força, porque Gaza, de facto, não tem qualquer tipo de recurso do ponto de vista natural ou mesmo do ponto de vista socioeconômico que fosse útil a Israel. E, portanto, vai dar, de facto, uma base de argumentação àqueles que contestaram a retirada de Gaza e que assumem que dominar Gaza, fazer de Gaza uma parte de Israel, retirando daí qualquer direito de exercício sobre o território por parte da comunidade palestiniana, será talvez a única forma, nesta linha de argumentação, para manter a segurança de Israel. E aquilo que está a dizer agora o ministro da Defesa é que essa é a dimensão que vai começar, que é esmagar a população civil que lá está e que vive no mesmo território dos militantes do Hamas, do ponto de vista das suas necessidades mais básicas, na questão da água, da eletricidade, da alimentação e, portanto, aquela população que vive cercada pelo muro que tem o Mediterrâneo como linha de saída e tem um bloqueio nas fronteiras norte e sul, vai agora sofrer aquilo que é um esmagamento pela ausência de condições básicas de sobrevivência, que já por si, do contexto anterior, não são as mais positivas para manter uma população a sobreviver.
Porque a população de Gaza não tem para onde escapar. Quer dizer, tem o bloqueio no Egito, tem bloqueio israelita e tem o mar. Não há para onde escapar, não é?
Mas é assim desde 2007 e, portanto, nem à capacidade dos títulos de viagem, estas pessoas podem aceder. O que é importante explicar é que este facto, que agora nos parece claro, que estas pessoas não têm para onde ir, é assim desde 2007 com o bloqueio, com intermitências em casos absolutamente excepcionais. O que agora se coloca é que, para além dessa população que está fechada naquele território exíguo e com uma densidade populacional muito elevada, é que sofrerá um ataque militar muito significativo, provavelmente mais duro, mais violento do que os anteriores, como forma de resposta a este ataque do Hamas. E é com isso que nós provavelmente teremos de lidar e de ver e de assistir nas próximas semanas.
Isto ocorre num período especialmente conturbado do ponto de vista político em Israel e no final de março contámos com a sua ajuda, professora Ana Santos Pinto. Conversámos aqui na História do Dia precisamente sobre o problema político que Israel atravessa, um país que tem um governo que junta forças extremistas. Nesta altura, fala-se agora na hipótese de um governo de unidade nacional. Há uma questão política também interessante, mas até que ponto é que este ataque agora lançado pelo Hamas pode estar relacionado com este período de uma certa fragilidade que Israel atravessa e até já alimenta algumas teorias da conspiração de que o primeiro-ministro poderá ter facilitado, até porque ajuda sempre ter um inimigo, ajuda sempre à popularidade do governo.
Eu, enquanto investigadora e baseando aquilo que é a minha experiência e o meu conhecimento na validação empírica, poucas vezes ou nenhuma, consigo concordar com teorias da conspiração.
Geralmente não se confirmam.
Exato. Aquilo que lhe posso dizer é que a dimensão de discussão interna em Israel decorre daquilo que é também uma polarização na sociedade israelita e que tem uma relação estreita com aquilo que a sociedade israelita é: uma sociedade democrática, participada, que valoriza o regime democrático e que não simpatiza com uma alteração da divisão de poderes e uma confusão, neste caso, entre o poder executivo do governo e o poder judicial dos tribunais. E esse é um debate interno à sociedade israelita, que na sua maioria não quer deixar de ser democrática, pluralista, participada. O que acontece é que há uma polarização entre os movimentos políticos em Israel, em particular aqueles que recorrem à chamada política identitária, sejam eles nacionalistas, sejam eles religiosos, que estão, aliás, presentes e dominam a coligação que faz parte e que compõe o governo hoje liderado por Benjamin Netanyahu, e de alguma forma isso altera significativamente aquilo que tem sido a história do exercício do poder executivo e da forma de governo em Israel. E uma coisa muito diferente, e que também é importante recordar, é que este ataque do Hamas não surge esta semana. Há dois anos que nós estamos a assistir a um aumento da tensão entre as forças israelitas e em particular a população de Gaza, mas também a Cisjordânia e especialmente no caso de Jerusalém. Provavelmente, boa parte das pessoas já não se recorda dos elementos de contestação e da violência que assistimos na cidade velha de Jerusalém, na Esplanada das Mesquitas, onde se encontram um dos lugares mais sagrados do Islão. Esquecemos isso e achamos que este ataque vem do nada. Ora, aquilo que se foi assistindo ao longo dos últimos dois anos foi um posicionamento por parte de Israel em relação à comunidade palestiniana e que foi crescendo em violência e em tensão, a par do debate interno que acontece em Israel. Por quê? Porque a sociedade israelita passou a dar uma maior prioridade àquilo que é a sua estrutura social e econômica, àquilo que é a sua dimensão política e menos ao conflito que tem com os palestinianos, porque é essa solidez da sociedade israelita que faz o seu dia a dia. E, portanto, este é o momento em que voltamos atrás no tempo e voltamos a colocar como prioridade a questão da segurança e a ameaça existencial ao Estado de Israel, que é colocada por um movimento com ações terroristas como o Hamas.
E há aqui ou não influência estrangeira neste ataque, nomeadamente do Irão?
Aquilo que fomos assistindo ao longo dos últimos 15 anos, até porque isto começa em 2006, 2007, com o conflito que tem ao mesmo tempo uma intervenção militar do Hamas e uma intervenção militar do Hezbolah, uma a norte de Israel, outra a sul a partir de Gaza, que sabemos que o Irão está presente na região. O Irão é o principal financiador e elemento de fundação do Hezbolah, um movimento no Líbano que contesta a existência de Israel, e passou a ser também um patrocinador do Hamas, não por uma razão religiosa, porque eles estão em duas dimensões diferentes do Islão, mas essencialmente por uma razão pragmática e financeira e de destabilização. E reconhecemos depois, nas declarações políticas, o apoio que o Irão dá à causa palestiniana e à dimensão da revolta, da oposição, do elemento de contestação militar que Gaza tem assumido e que o Hamas tem assumido. Portanto, esta influência parece-me ser até empiricamente verificável pelas declarações políticas e pelas visitas mútuas que têm acontecido. Mas aqui o impacto é um pouquinho maior que esse. Ou seja, não é só a relação com o Irão, é aquilo que assistimos desde a assinatura dos Acordos de Abraham, a proximidade de Israel com países do Golfo, como é o caso dos Emirados e do Bahrain, e a aproximação em relação à Arábia Saudita, como ficou evidente, aliás, numa entrevista recente do príncipe reinante Mohammed bin Salman, da Arábia Saudita, falando sobre essa possibilidade, mas salientando que a causa palestiniana é um elemento central às relações da Arábia Saudita com Israel. E, portanto, uma intervenção militar dura, violenta, de Israel no território palestiniano provavelmente implicará uma alteração, um congelamento ou, quem sabe, uma reversão naquilo que é esta aproximação não só com a Arábia Saudita, com os países do Golfo e o caso de Marrocos, por exemplo, também, que é um dos países com quem esta aproximação ocorreu ao longo dos últimos anos.
E isso leva a uma grande pergunta para a qual ainda não teremos resposta. Perante este cenário, se me permite recorrer a uma imagem bíblica invertida, em que temos um David árabe e um Golias judeu, aqui o David árabe consegue infligir um duro golpe num Golias judeu. Na Bíblia, obviamente, isto é tudo ao contrário. Até que ponto é que este conflito pode arrastar outros protagonistas ou mesmo ultrapassar fronteiras no Médio Oriente?
Aquilo que a história da relação israelo-palestiniana nos mostra é que independentemente de quem seja o David e o Golias, enquanto não existir uma solução estruturada para a divisão territorial e a existência de duas comunidades políticas, esta oposição entre o mais forte e o mais fraco vai permanecer, a revolta vai se desenvolvendo e o potencial de recrudescer, mais cedo ou mais tarde, acontecerá. E aquilo que significa arrastar outros protagonistas ou ultrapassar fronteiras é, de facto, o impacto regional e internacional que isso possa ter. Ou seja, envolver do ponto de vista político, económico e espero que não do ponto de vista militar, parceiros e Estados da região. Tivemos vários conflitos assim ao longo dos últimos 70 anos, que acabaram sempre com a vitória de Israel e com a conquista de mais território, mas mantendo a revolta palestiniana e avolumando aquilo que é a dimensão de insegurança e de ameaça da comunidade política israelita. E sabemos o que é que significa uma guerra naquela área do mundo, porque já a vivemos várias vezes ao longo das últimas décadas, com impacto, para ser muito concreta, do ponto de vista económico e do ponto de vista social. Portanto, nós sabemos o que a história nos mostra. Aquilo que não sabemos é como é que se consegue implementar uma solução que nem um nem outro quer. Nem Israel, nem a comunidade palestiniana, neste momento, dispõem de liderança e de apoio para implementar uma solução. É provavelmente dos momentos da história em que menos existem condições para que isso aconteça, tanto por parte da pressão internacional como das próprias lideranças e contextualização das sociedades. Portanto, estamos perante um momento muito difícil para israelitas e palestinianos.
Obrigado, Ana Santos Pinto.
Obrigada, uma vez mais foi um gosto.
Ana Santos Pinto é antiga Secretária de Estado da Defesa, é professora universitária, especialista em Médio Oriente e em questões de segurança. Esta foi a história do dia. Os sons que ouvimos foram retirados das contas oficiais do governo israelita no X e de agências internacionais de notícias. A sonoplastia é do Diogo Casinha, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.