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Esta é a história do dia da Rádio Observador: a megaoperação da PJ que abalou o PS.
Como é do conhecimento público, houve várias diligências hoje das autoridades judiciárias na sede nacional do Partido Socialista.
Imagine que é o líder de um partido político que está na oposição. É líder naquele período que se costuma chamar de travessia do deserto e está à espera de uma oportunidade para conquistar o poder. Imagine que é José Luís Carneiro e imagine que de repente acontece isto.
Tudo farei para que a legalidade seja defendida e promovida em todos os níveis de responsabilidade do Partido Socialista.
Carneiro reage à megaoperação da Polícia Judiciária que faz buscas na cidade de Lisboa numa investigação sobre ligações entre empresas e o poder autárquico do PS. Os contratos investigados rondam os € 2 milhões. As buscas incluem a sede nacional do Partido Socialista e no centro desta operação estão um assessor e um ex-diretor de campanha do atual líder do PS. Imagine que é José Luís Carneiro. Imagine o dia terrível que lhe rebentou ontem em cima. Eu vou falar hoje com o redator principal do Observador, Luís Rosa, para perceber os detalhes desta megaoperação, perceber quem fez o quê e quem são os principais visados. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de sexta-feira, 29 de maio. Olá, Luís Rosa.
Olá, Pedro.
Bem-vindo mais uma vez. Andas a trabalhar muito esta semana e nós andamos a falar muito os dois. É verdade, mas isso é um gosto que eu tenho e também o trabalho que tu fazes.
É, ergue-se e furou.
Luís, para quem percebeu que havia esta história, mas não a tem acompanhado ao pormenor, vamos começar por dizer que operação é esta, a Operação Emergente.
Ora bem, a Operação Emergente é uma operação com alguma dimensão. Estamos a falar de uma operação em vários concelhos, Lisboa, Oeiras, também Escola Coimbra, 31 mandatos de buscas domiciliares, 58 mandatos de buscas não domiciliares, cinco detidos e 37 arguidos. São números com alguma dimensão. E acima de tudo, buscas na sede nacional do Partido Socialista, uma coisa bastante incomum. Eu não sei se é a primeira vez, nós no jornalismo nunca devemos dizer que foi a primeira vez, temos que verificar bem, mas é bastante incomum.
E porquê? Porque de facto o alvo desta operação é efetivamente o poder autárquico, sobretudo do Partido Socialista, mas houve aqui ligações também à sede nacional, porque há figuras nacionais do partido também envolvidas nesta operação.
Exatamente. Ou seja, temos aqui duas linhas de investigação. Uma, como acabaste de dizer, é o facto da contratação de militantes do Partido Socialista para prestar serviços a várias Juntas de Freguesia socialistas em Lisboa. Estamos a falar de contratação de recursos humanos, nomeadamente feitos através de sociedades unipessoais ou através de sociedades por quotas, mas também para os quadros destas Juntas de Freguesia.
Portanto, uma forma de dar negócio a militantes do Partido Socialista através de organismos do Estado que estavam politicamente dominados pelo Partido Socialista.
Aquela velha frase, "jobs for the boys" é um pouco isso. Ou seja, pessoas que são contratadas simplesmente pelo cartão partidário. Isso tem a ver com a Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, liderada por Miguel Coelho, e essa é uma das linhas de investigação. Mas também há outra, nomeadamente na Junta de Freguesia da Misericórdia, em que houve buscas que nós conseguimos confirmar ao final da tarde de ontem, conseguimos confirmar que houve busca na Junta de Freguesia da Misericórdia.
Também do Partido Socialista.
Também do Partido Socialista, também liderada pelo Partido Socialista e que contratou a empresa do Duarte Morais, mas já lá vamos. E precisamente a outra linha de investigação é Duarte Morais. Ora, Duarte Morais é uma figura que nós jornalistas conhecemos bem, foi assessor de imprensa de António Costa desde o tempo em que António Costa foi Ministro da Justiça, de António Guterres, ou seja, ainda no século passado. E Duarte Morais acompanha sempre António Costa no Ministério da Administração Interna, na Câmara de Lisboa, e depois, quando o Costa ganha as eleições em 2015, Duarte Morais fica no PS, mas fica a trabalhar no back office do PS.
Ou seja, não vai com António Costa para São Bento, fica no Partido Socialista.
Trave de um arrufo, trave de uma quebra de confiança entre os dois, mas António Costa não o deixou cair e ele ficou no Partido Socialista a trabalhar com Ana Catarina Mendes, que era a secretária nacional adjunta do Partido Socialista.
Exatamente, a geral adjunta do Partido Socialista.
Ora bem, e foi um cargo que foi criado por Costa na altura. Ora, Duarte Morais tem aqui uma situação que, em primeiro lugar, pode-se falar aqui num conflito de interesses. Por quê? Porque Duarte Morais foi funcionário do Partido Socialista, foi durante este tempo todo de Costa, o mandato de Costa. Pedro Nuno Santos cortou com ele, portanto, ele saiu, mas José Luís Carneiro recupera-o. Ontem, José Luís Carneiro falou numa expressão que é o problema com um funcionário do PS é Duarte Morais, e portanto, ele voltou a ser funcionário do PS, mas ao mesmo tempo, Duarte Morais tem uma empresa. Tem uma empresa com um sócio, que já vamos falar dele, e essa empresa Duarte Morais é contratada por várias autarquias do Partido Socialista, seja aqui em Lisboa, Juntas de Freguesia, seja também Câmaras Municipais, ou seja, trabalhos de comunicação política, de campanha eleitoral, também com estruturas do Partido Socialista a nível autárquico, como por exemplo, em Mafra. E, portantoHá aqui um conflito de interesses que é um assessor do secretário-geral do Partido Socialista, que ainda é neste momento e foi com António Costa, ter uma empresa que presta serviços a câmaras municipais do Partido Socialista. As câmaras municipais são fundos públicos e estão com a contratação pública, não são fundos do Partido Socialista. É esse conflito de interesses que acaba por estar aqui na origem da situação. Um conflito de interesses automaticamente não leva à prática de crimes, mas os crimes que estão aqui sob investigação podem levar a essa situação, nomeadamente crimes de prevaricação, crimes de abuso de poder, crimes que têm a ver muito com contratação pública por as regras não terem sido respeitadas.
Luís, tu falaste de Duarte Moral como um dos funcionários da sede nacional do Partido Socialista, mas sabemos que há outros elementos que trabalhavam na sede nacional que também estão envolvidos aqui, alguns deles até em associação com Duarte Moral. Queres explicar um pouquinho como é que isso funcionava?
Sim, estamos a falar, por exemplo, e essa é uma das informações que nós também contamos em pormenor na nossa peça. Duarte Moral quando vai trabalhar para o Partido Socialista com António Costa, secretário-geral do PS, depois de 2015, depois de Costa ganhar as eleições, ele trabalha nas redes sociais do Partido Socialista. O Duarte Moral está a produzir conteúdos, está a trabalhar no back office do Partido Socialista, não está a trabalhar no front office, ou seja, não era assessor de imprensa, como é agora com José Luís Carneiro. Estava a trabalhar também com ele nas redes sociais Rui Pé de Nascimento e Dimas Pestana. Essa é a informação que nós temos e Rui Pé de Nascimento é precisamente o sócio Duarte Moral na empresa Diálogo Emergente. Estas pessoas têm um percurso semelhante, porque Dimas Pestana, por exemplo, vai ser uns anos mais tarde, presidente de uma empresa municipal de mobilidade em Almada, uma câmara também do PS, liderada por Inês de Medeiros, e Rui Pé de Nascimento vai para a administração dessa mesma empresa. E o que acontece? Acontece que essa empresa municipal contrata Ruth Raimão, mulher do Duarte Moral, que por sua vez também tinha um contrato de prestação de serviços com a Junta de Freguesia de Santa Maria Maior, liderada por Miguel Coelho. Há aqui uma espécie de fechar de círculo ou pelo menos um círculo de relações em que se misturam cargos partidários com gestão de fundos públicos, o que às vezes é sempre uma mistura um pouquinho explosiva. E acaba por ter estas relações que estão aqui na base desta investigação também. Estamos a falar no total de contratos de dois milhões de euros, que não serão sido só para estas pessoas, nada disso. Estamos a falar de 36 arguidos, portanto haverá contratos de dois milhões de euros.
Sim, sim, muita gente envolvida, claro.
Muita gente envolvida, não é só para estas pessoas. Nós conseguimos identificar no portal base.gov.pt, por exemplo, cinco contratos da Cidade Etérea, que é a empresa da mulher de Duarte Moral, Ruth Raimão, que terá tido seis contratos públicos, cinco contratos com a Junta de Freguesia de Santa Maria Maior no valor de 96 mil euros e um lá está com a empresa de mobilidade da Câmara de Almada no valor de oito mil euros. A empresa de Duarte Moral tem montantes mais significativos. Tem um ajuste direto com o município de Oeiras, de um valor de 19.990 euros, já te expliquei este contrato, dois com a Freguesia da Misericórdia, um por 32 mil euros e outro por 22 mil euros, e um concurso público que ganhou no INEM. Este contrato com o INEM e um dos contratos com a Junta de Freguesia de Misericórdia são muito recentes, são de fevereiro de 2026. Estes contratos estão a ser investigados e estão sob suspeita nesta investigação.
Deixa-me já agora perguntar-te sobre esse contrato com a Câmara de Oeiras, porque nós sabemos que essa câmara não é do Partido Socialista.
Não. E já lá vamos ao Partido Socialista, já vamos voltar, mas sobre a questão da Câmara de Oeiras. Houve um acordo, não neste mandato, mas no mandato anterior, entre o movimento de Isaltino Morais e o Partido Socialista, e o Partido Socialista ganhou um vereador. Ora, Rui Pé de Nascimento, que era ex-deputado municipal do PS de Oeiras, mudou de cargo, desistiu de ser deputado municipal e foi para assessor de vereador do PS quando o PS faz um acordo com Isaltino Morais, com o movimento de Isaltino Morais. E Rui Pé de Nascimento utiliza precisamente a Diálogo Emergente para prestar serviços à Câmara de Oeiras, nomeadamente à vereação do Partido Socialista. E utiliza precisamente esta empresa, a empresa dele e Duarte Moral, daí este contrato que está aqui em causa na investigação. Agora, há aqui um pormenor muito importante, Pedro, se me permites, que é voltando aqui ao Partido Socialista. O que eu vou citar é uma parte do comunicado do Diário Regional de Lisboa e que aqui envolve o Partido Socialista. Havia alguns rumores, que para já não se confirmam, de que poderia estar a ser investigado o crime de financiamento partidário ilícito do Partido Socialista, porque houve uma reportagem, nomeadamente no Expresso, em 2022, em que se referiu que o Partido Socialista de Mafra tinha contratado a empresa Duarte Moral para fazer campanha política, a campanha autárquica, e depois as contas seriam pagas pela sede nacional do Partido Socialista. Mas o que está a ser investigado é outra questão, e aqui vou citar o comunicado do Diário Regional de Lisboa, que é, citando: "Emissão de faturas para recebimento indevido por dois suspeitos de quantias de partido político". Ou seja, o que está aqui a ser escrutinado é que o PS terá pago indevidamente quantias a duas pessoas. Uma delas será Duarte Moral, por via de quê? Por via de faturas que teriam sido emitidas.
O PS, o partido político, e não uma câmara, uma autarquia, uma junta de freguesia.
Ou seja, a sede nacional do Partido Socialista, vamos colocar a coisa assim.
Isso tornaria o próprio partido alvo de investigação
Sim, o José Luís Carneiro diz que o Partido Socialista não está a ser investigado, mas o que está a ser investigado é o pagamento indevido por parte do PS a dois sujeitos que o DIAP regional do Porto não identifica, mas a informação que nós temos é que um deles é Duarte Mural.
Já percebemos que é difícil, de facto, para José Luís Carneiro sustentar que não é o PS que está a ser envolvido, que está a ser investigado. Ainda assim, a questão das Juntas de Freguesia. Isto não é uma coisa nova. Na verdade, o caso Tutti Frutti, por exemplo, tinha muitas semelhanças e era mais ou menos um esquema parecido, mas com o PSD.
Sim.
Por que isso acontece?
A pergunta leva-me a outras discussões e outros assuntos. Por que isso acontece? Em primeiro lugar, vou começar por este caso, que é um caso muito concreto. Estamos a falar de um assessor de um partido a nível nacional. No caso, por exemplo, do Tutti Frutti, estamos a falar de assessores a nível das Juntas de Freguesia, por exemplo, em que misturam questões públicas com questões privadas. Aquilo que eu estava a dizer há pouco, que é um conflito de interesses que me parece óbvio. Um assessor do Partido Socialista, vamos supor do PSD, vamos dar o exemplo do PSD, um assessor do PSD, um assessor do líder nacional do PSD, não pode ter uma empresa que ao mesmo tempo preste serviços à Câmara e às Juntas de Freguesia do PSD, porque isso, esta segunda parte, já é contratação pública, tem regras bastante claras. Mesmo que seja por ajuste direto, mesmo que seja por consulta prévia, pode haver uma suspeita de que há aqui um favorecimento, porque está-se a contratar uma pessoa que é do mesmo partido e trabalha para o partido a nível nacional. Ou seja, o PS não fez aqui um trabalho de vetting interno. Eu não sei se o código de conduta do PS se aplica, se existe, se cobre estas situações.
Sim, exato.
Mas o que é certo é que é a mesma coisa que um assessor de um governo. Um assessor de um governo não pode ter uma empresa em que vá trabalhar ao mesmo tempo para a Câmara do mesmo partido do governo.
Exato.
Portanto, há aqui uma dupla condição e um conflito de interesses que me parece que é bastante claro. E não houve aqui um vetting interno para dizer: "Não, vocês não podem ter empresas que vão trabalhar para Câmaras do nosso partido", por exemplo. Isto aplica-se ao PS como se aplica ao PSD. E depois também tens outra questão, porque perguntavas-me porque isto acontece. Há também, embora isto não esteja aqui sob investigação, neste caso concreto, mas no caso do Tutti Frutti esteve, que era a questão do financiamento partidário ilícito também. Muitas vezes está ligado a questões de financiamento partidário, muitas vezes ao financiamento das campanhas eleitorais. Nesta investigação, há questões que têm a ver com isso. Repito, não está aqui nesta investigação que tem a ver com o PS, não está aqui em questão, porque a Polícia Judiciária e o DIAP regional do Porto não divulgaram que o crime de financiamento partidário ilícito, que é um crime, esteja a ser investigado, mas eu sei que há matérias que têm a ver com o financiamento de campanhas eleitorais. Ou seja, campanhas eleitorais autárquicas que estão a ser pagas pelo PS, mas que ao mesmo tempo, numa grande misturada, também metem empresas de assessores do PS, nomeadamente esta empresa.
E que acabam por servir de cortinas de fumo.
Por exemplo. Não é a primeira vez, eu acho que aqui o PS, confesso que tem, se nós nos lembrarmos de Vítor Escária, também o próprio António Costa não fez um processo de vetting sobre o Vítor Escária, quando ele já estava mais que identificado em termos de promiscuidade de negócios públicos e privados. Olha uma coisa muito atual, era o responsável do gabinete de Sócrates, era o assessor económico de Sócrates, responsável por que pasta? Imagina tu, a Venezuela. Isso devia acender todas as luzes vermelhas em simultâneo. As luzes vermelhas se se levantaram para António Costa, eu tenho a informação que de facto António Costa foi informado por algumas pessoas sobre o percurso de Vítor Escária. Se essas campainhas abriram e fizeram o seu barulho, António Costa fez como eu às vezes faço, que desligou a máquina e não ouviu. E portanto aqui, José Luís Carneiro, quando vai buscar Duarte Mural, por exemplo, que é uma figura polêmica, nós jornalistas que lidamos com ele sabemos que ele é um assessor particularmente agressivo a falar com os jornalistas, é uma figura que é polêmica e José Luís Carneiro se calhar não fez o seu trabalho de vetting que devia ter feito e agora tem um problema.
O problema é às vezes os líderes andarem distraídos dá nisto, Luís Rosa. Obrigado.
Obrigado, Pedro.
Eu conversei com o Luís Rosa, redator principal do Observador. Por mais que o alvo seja o poder autárquico, por mais que José Luís Carneiro diga que o PS não está a ser investigado, é difícil não encontrar algumas pontes que liguem a operação da PJ ao Largo do Rato. O secretário-geral do PS, que já agora não é alvo de qualquer investigação, fez o que lhe compete e garantiu cooperação de forma leal com as autoridades judiciais. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Bernardo Almeida, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Gonçalves. Bom fim de semana.