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Esta é a história do dia da Rádio Observador: André Ventura passou a ser o adulto na sala?
O Chega deu entrada hoje no Parlamento de uma moção de censura.
Faltavam poucos minutos para as 17h de ontem, quando André Ventura desfez o mais recente tabu da política portuguesa.
Censurar o primeiro-ministro e o governo pela manutenção de Luís Neves no cargo de Ministro da Administração Interna.
Ministério desfeito num longo, sério e grave discurso, onde Ventura aproveitou o palco mediático para se mostrar como um homem de Estado que avança com a moção de censura, mas recusa o duelo ao pôr do sol com Luís Neves.
Tenho hoje uma motivação adicional pra continuar neste governo: contribuir para derrotar politicamente o populismo e a ideia que vale tudo pra conquistar o poder.
Um ministro que garante que não se intimida, mas que se mantém enredado em polêmicas, umas atrás das outras, e que elegeu André Ventura como inimigo número um. Que leitura fazer disto tudo? É isso que eu vou perguntar hoje ao editor-adjunto de política do Observador, o Miguel Santos Carrapatoso. Vamos analisar as consequências desta moção e as motivações do líder do Chega, olhar pro papel do presidente da República e perceber se este caso, que não se apaga, está ou não a queimar o próprio Luís Montenegro. Eu sou o Pedro Benevides e esta é a história do dia de quinta-feira, 03 de setembro. Olá, Miguel, bem-vindo.
Olá, Pedro.
Olha, eu vou começar esta nossa conversa por te citar a ti próprio, porque eu ontem ouvia-te no "Vence ou morre" e tu dizias qualquer coisa como: "Quando André Ventura parece um estadista, é porque Luís Neves fez, de facto, muitas asneiras".
É uma excelente citação.
É uma excelente citação, acho que vai ficar nos livros. Mas olhando para aquela declaração de André Ventura, é uma declaração muito diferente daquela que nós estamos habituados, aquelas mais incendiárias. Foi efetivamente como um homem de Estado, uma declaração séria e grave. Aquilo correu-lhe bem.
Correu. Era difícil fazer muito melhor do que aquilo que André Ventura fez, mas importa dizer, e esse é o meu ponto, André Ventura só consegue fazer aquele brilharete porque do outro lado, Luís Neves fez tudo aquilo que não se deve fazer ou não se devia fazer, enquanto representante de um governo, enquanto membro integrante de um governo, enquanto ministro que tutela uma pasta tão sensível como a administração interna. Portanto, com um exemplo tão mau, André Ventura, como político inteligente e profissional que é, fez aquilo que tinha de ser feito, uma declaração com tom grave e sério, evitando levar a questão para uma disputa pessoal com Luís Neves, coisa que Luís Neves tentou fazer. André Ventura diz que não, enquanto líder da oposição, não se vai travar de razões com o ministro A ou o ministro B. Apresentou uma moção de censura e o primeiro-ministro, enquanto chefe de governo, tem de responder por ela. Tão simples quanto isto. Quase sempre a simplicidade é a receita para o sucesso. André Ventura fez um excelente número político.
Vinha aqui pro Observador e vinha a guiar e vinha a ver cartazes aqui na zona de acesso ao Observador. Há muitos cartazes do Chega que dizem: "PSD e PS atrelados a Luís Neves". Ou seja, tudo isto está bem montado. E é verdade, e como tu dizes, é que o próprio alvo de André Ventura, Luís Neves, tem dado de borla vários trunfos a André Ventura, desde logo aquele discurso um bocadinho inusitado, onde falou sobre si próprio e sobre o seu caso. Estou a tentar ser simpático. Agora, o que tu achas que são as verdadeiras motivações de André Ventura? Nós ouvimos aquilo que ele explicou durante aquela longa conferência de imprensa, mas achas que o objetivo dele é garantir que Luís Neves saia, ou obrigar o presidente da República a falar, ou simplesmente capitalizar com tudo isto que está a acontecer?
Acho que são os três em simultâneo e a vários tempos, os três objetivos que tu enunciaste. Obviamente que num primeiro momento vai criar um embaraço ao Luís Montenegro, mas esse já está criado. Mas também a José Luís Carneiro, que terá que tomar uma decisão que é sempre delicada: chumbar uma moção de censura, explicando ao mesmo tempo que até censura os comportamentos do ministro que é criticado e que é censurado neste caso. Portanto, José Luís Carneiro vai passar os próximos dias a fazer uma espargata. André Ventura vai mais uma vez, de forma bastante talentosa, dizer que o Partido Socialista está atrelado ao governo. É preciso só fazer um parêntese muito rápido. De facto, o Partido Socialista teve muitas dificuldades em lidar com este caso, o caso Luís Neves. Surgiu mais ou menos no mesmo tempo em que havia um caos nos exames nacionais e comparar a violência das primeiras críticas a Fernando Alexandre com reações algo tímidas a este caso Luís Neves, fica demonstrada a dificuldade com que o Partido Socialista lidou com este caso, por várias razões. Não vou ser muito exaustivo, mas obviamente Luís Neves tinha sido uma escolha de António Costa para diretor da PJ, tem um discurso que combate, na prática, a narrativa do André Ventura sobre imigração e criminalidade É apreciado nos setores socialistas e, portanto, José Luís Carneiro, que tinha trabalhado com Luís Neves enquanto Ministro da Administração Interna, deu-lhe alguma tolerância que depois se foi tornando bastante incômoda. Dessa parte até aos dias de hoje, José Luís Carneiro vai criticando, mas sempre com ar muito comedido, o que não joga a favor do que vocês-
O que, aliás, André Ventura também explorou atempadamente.
Esse objetivo, embaraçar o Partido Socialista, vai ser aquele que se coloca a curto prazo. Obrigar, talvez pressionar António José Seguro a agir e a pronunciar-se de forma mais assertiva sobre o caso Luís Neves. Já não estamos a falar só de um conjunto de episódios algo rocambolescos, estamos a falar de uma moção de censura e, portanto, André Ventura, na intervenção que faz, diz ou sugere claramente que chegou o tempo do Presidente da República se posicionar de forma mais assertiva, ainda que António José Seguro tenha feito muitas declarações críticas em relação a Luís Neves. Portanto, vai obrigar ou vai tentar obrigar António José Seguro a agir e, no longo prazo, é o caos. Nós sabemos que André Ventura reina no caos. Se os outros seus adversários permitem que o caos exista, é o caldo perfeito para André Ventura. Estamos a falar, só fazendo umas contas rápidas, de pelo menos havendo moção de censura, depois havendo também a Comissão Parlamentar de Inquérito, estamos-
Porque é importante também dizer isso.
Vai existir. Acabou.
André Ventura deixou claro que se for chumbada, como tudo indica que será, a moção de censura, vai haver uma comissão de inquérito.
Mesmo que Luís Neves se demita. André Ventura vai perseguir Luís Neves até ao quinto dos infernos. Estamos a dizer, pelo menos, que até ao primeiro trimestre de 2027 vamos estar a falar de Luís Neves. Ora, há uns dias, no Pontal, Luís Montenegro queixou-se ser vítima de censura moderna, de que as boas notícias que tinha para dar ao país não estavam a passar na comunicação social. É uma crítica legítima que todos os seus antecessores também fizeram. Não estou a rasgar as vestes por causa das palavras de Luís Montenegro, mas estou a notar uma questão importante: se Luís Montenegro se queixa agora de não conseguir transmitir boas notícias, o que fará se estiver até março ou até abril a falar sobre e a ter de responder sobre Luís Neves?
E essa é uma boa deixa para a minha pergunta seguinte, que é: como é que tudo isto deixa Luís Montenegro? Porque deu sinais claros de que está a proteger o seu ministro, mas entretanto, há dois dias, ouvíamos o próprio ministro a garantir que não iria sair e como se fosse uma decisão dele. Como é que tu achas que está o primeiro-ministro neste momento?
Aquela intervenção de Luís Neves só aconteceu com o respaldo de Luís Montenegro. Eu não vou dizer, até porque não tenho essa certeza, que o discurso de Luís Neves foi revisto frase a frase pelo gabinete do primeiro-ministro, mas tenho a certeza absoluta que o teor, o contexto, a mensagem final, teve o aval do gabinete do primeiro-ministro. Aquilo só acontece com o respaldo de Luís Montenegro. Luís Montenegro está investido e empenhado em manter Luís Neves como Ministro da Administração Interna. Consigo compreender algumas das motivações. Estamos a falar do terceiro ministro da Administração Interna de Luís Montenegro. Estamos a falar de um ministro que foi claramente escolhido como alvo de André Ventura. Abdicar de Luís Neves seria entregar uma vitória em toda a linha a André Ventura, um partido e um líder que querem substituir o PSD no poder e até no regime, se quisermos. Tudo isto implica uma gestão muito difícil. Percebo e acho que devemos também fazer essa reflexão. Não se afasta o ministro da Administração Interna, sobretudo nestas condições, de ânimo leve. Luís Montenegro está numa posição obviamente difícil, mas Luís Montenegro ainda é primeiro-ministro. Era importante que exercesse a sua autoridade. Se aquilo que Luís Neves, como eu acho que fez, como eu tenho a certeza que fez, teve o respaldo de Luís Montenegro, é sinal que o primeiro-ministro não está também a ver bem o filme e não está a perceber a dimensão do estrago que uma intervenção daquelas, como a que Luís Neves fez, vai trazer para o governo, porque Luís Neves, num discurso, ainda por mais escrito, conseguiu fragilizar ainda mais a Polícia Judiciária, fragilizou e trouxe desgaste à Polícia de Segurança Pública, fragilizou o governo, fragilizou o primeiro-ministro, respondeu indiretamente a António José Seguro, que tinha pedido que todos assumissem as responsabilidades, que tinha pedido que se protegessem ou que se protegesse a dignidade das instituições. Luís Neves fez tudo menos proteger a dignidade das instituições e ainda comprou uma bravata com André Ventura, que é líder da oposição, mas é também outra coisa, é um possível parceiro de negociações de Luís Montenegro.
Aliás, Luís Neves transformou quase como se fosse o seu objetivo político.
Não é quase. Disse mesmo.
Precisamente com esta missão de combater os populismos, falando de André Ventura.
Tanto quanto eu sei, o governo de Luís Montenegro continua ultraminoritário no Parlamento, continua a depender ora do Partido Socialista, ora do Chega. Luís Montenegro permitiu que um ministro seu elegesse André Ventura como o seu principal adversário e como alvo a abater. Se permitiu que isto acontecesse, é sinal também de que Há aqui uma subvalorização do desgaste que ter alguém com as características de Luís Neves no governo pode trazer.
E nós sabemos que Luís Montenegro tinha a ideia de que nestas coisas, às vezes não fazer nada é o melhor remédio, porque as coisas acabam por passar com o tempo. Só que neste momento nós temos uma moção de censura entregue no Parlamento e uma comissão de inquérito que provavelmente vai também arrancar no Parlamento nos próximos-
Mais todas as outras investigações que estão em curso.
Mais tudo aquilo que está em curso.
Há umas seis.
Exatamente. Portanto, aquilo que eu não consigo perceber é como é que o primeiro-ministro pode achar que a situação tal como está, lhe pode vir a ser favorável de alguma forma.
Aqui entramos num universo já antes explorado, que é a mundividência montenegrista, que é a ideia de que existem, e eu acho uma ideia perfeitamente válida, digo isto sem qualquer ironia, que existem dois mundos, duas realidades, a realidade da bolha político-mediática e a realidade do povo. Vamos traduzir assim a questão. E eu acho, e admito, que este caso de Luís Neves tem um impacto muito reduzido junto das pessoas que não têm os nossos hábitos de consumo de informação. Diria genericamente, as pessoas não estão propriamente muito preocupadas com o atrelado, com o tanque, e até acham alguma graça, porque é esse o ar dos tempos, é esta testosterona política. Temos um ministro a fazer uma pega a André Ventura. Eu admito que isso possa acontecer e admito que seja também essa a convicção de muita boa gente no governo, que isto no final do dia tem um impacto muito reduzido. Mas volto ao meu ponto anterior. É que não é só este caso e não é só este episódio. Há 30 meses que Luís Montenegro é primeiro-ministro e há uma sucessão de casos e casinhos que impossibilitam ou tornam muito difícil que o país político ou mediático fale de outra coisa que não os casos e casinhos. Portanto, Luís Montenegro, que há uns dias se queixou de não estar a conseguir passar a sua mensagem, as notícias boas ao país, está há demasiado tempo a lidar com um caso tão problemático como o de Luís Neves. Se continuar a permitir que isto se arraste, daqui a seis meses, vai ser ainda mais difícil ter força política para mudar a página, para virar a página. E, portanto, é esse risco que eu acho, que é meu ver, que Luís Montenegro está a subvalorizar, o efeito cumulativo destes casos e casinhos.
Miguel, obrigado.
Obrigado.
Eu conversei hoje com o editor adjunto de política do Observador, Miguel Santos Carrapatoso, sobre as consequências deste anúncio da moção de censura ao governo por causa de Luís Neves. Ventura garante que o documento já foi entregue no Parlamento, mas a moção deverá ter chumbo garantido. Só que o Chega também tem na carteira uma comissão de inquérito à gestão de Luís Neves na PJ. E portanto, se depender de André Ventura, o ministro vai continuar a coser em lumbrando. Isto se se aguentar até lá. Esta foi a história do dia, a sonoplastia do Rafael Pego, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.