Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
Esta é a história do dia da Rádio Observador. Israel e Hamas chegaram a um acordo de cessar-fogo. E agora?
"Well, we have faith, Becky, that brought us to this moment and I think that's the most important part, that we are committed. We will continue to do everything we can, everything possible, together with our partners to ensure that this deal is implemented as it's agreed."
Depois de 15 meses de guerra, Israel e Hamas chegaram a um acordo para um cessar-fogo em Gaza a partir de domingo, 19 de janeiro. Donald Trump celebrou a vitória nas redes sociais. Joe Biden congratulou-se num discurso na Casa Branca.
"Good afternoon. It's a very good afternoon, because at long last I can announce a ceasefire and a hostage deal has been reached between Israel and Hamas."
O acordo foi festejado nas ruas de Gaza e de Tel Aviv. Que acordo é este e o que prevê? É uma vitória de Trump ou de Biden? Vou falar com o major-general Arnaut Moreira, especialista em geopolítica e autor do podcast da Rádio Observador, o "Domínio da Guerra". Eu sou a Teresa Bacacis e esta é a história do dia de quinta-feira, 16 de janeiro. Bem-vindo, senhor general.
Olá.
Israel e o Hamas chegaram a um acordo para o cessar-fogo em Gaza. Como é que vê esta notícia?
Depois de 15 meses de conflito, depois daquilo que foi aquele horrível massacre de 7 de outubro, que incluiu também a tomada de reféns, e depois de uma invasão das forças israelitas à Faixa de Gaza, da qual resultou uma imensa destruição no território e milhares de mortes palestinianas, entre civis e militantes do Hamas, naturalmente que todos estávamos à espera deste momento. E quando eu digo todos, isso inclui também quer a comunidade internacional, quer os familiares dos reféns, quer as muitas famílias palestinianas que, por motivos da guerra, foram deslocadas dentro do território da Faixa de Gaza, quer também as partes. Havia também uma enorme pressão política já no interior de Israel para que este acordo fosse alcançado e havia também por parte do Hamas a consciência de que depois daquilo que tinha sido o cessar-fogo no Líbano e a degradação do Hezbollah, que a continuação da luta armada dentro da Faixa de Gaza também não iria produzir os resultados desejáveis pelo Hamas. E, portanto, chegámos no final desta tragédia, chegámos ao momento em que, depois podemos discutir que momento, na verdade, é este, mas chegámos ao momento em que as partes consideraram estarem reunidas as condições para um cessar-fogo, que não é ainda a paz, também podemos falar sobre isto, mas é já o fim das hostilidades. E o fim das hostilidades é o passo talvez mais importante para que agora, de novo, os mecanismos de natureza negocial e diplomática encontrem condições para se encontrar um acordo de paz que seja durável e justo.
Como disse, este acordo está previsto durar seis semanas. O cessar-fogo inclui a libertação faseada de 33 reféns israelitas, bem como de prisioneiros palestinianos em Israel, o regresso de milhares de deslocados a Gaza, a entrada de ajuda humanitária e a retirada gradual de soldados israelitas. Mas como disse, isto não é o fim do conflito. Ainda há muitas pontas soltas por resolver, mas pode ser o início do fim.
É o início, pode ser o início do fim. Era talvez este o grande sinal que todos estávamos à espera de que podíamos acabar aquilo que nesta guerra era a fase do conflito armado e criar as condições para a discussão de natureza política. As guerras têm que terminar não com aspetos de natureza militar, mas os aspetos de natureza militar são para criarem condições para que os acordos de natureza política se possam verificar. É claro que este é o início de um caminho, até porque o próprio acordo prevê aqui pelo menos três fases distintas. Esta primeira fase, cuja parte mais simbólica são duas coisas: a cessação das hostilidades, digamos, das operações militares conduzidas pelas forças israelitas no interior da Faixa de Gaza e a libertação dos reféns. Este era um aspeto que tinha enorme importância também para a gestão política dentro de Israel. E também, desde já, o início do retorno das famílias palestinianas deslocadas que possam regressar aos seus territórios, às suas regiões de origem dentro da Faixa de Gaza. A fase dois É uma fase mais complicada e nós talvez não tenhamos aqui uma noção ainda aproximada do tempo que ela pode levar, porque ela corresponde, por um lado, àquilo que é a consolidação da primeira fase, isto é, para centrar na segunda fase é preciso que a primeira fase, que é a fase da cessação das hostilidades, efetivamente esteja a ser cumprida. Mas na fase dois, entramos na fase da negociação política. E o que é a negociação política para a questão da Faixa de Gaza? É encontrar basicamente quem é ou quem são os administradores da Faixa de Gaza para o processo de reconstrução da Faixa de Gaza. Isto é, é preciso encontrar agora a quem, e isto não é fácil, e provavelmente terá que envolver também um enorme contributo internacional, quem é que faz esta administração territorial. Porque para poder haver a fase três, que é a fase em que serão libertados os últimos reféns e será elaborado o plano de reconstrução de Gaza, é preciso que na fase dois sejamos capazes de olhar para o futuro da Faixa de Gaza e dizer uma das seguintes hipóteses: o Hamas conseguirá ser reconhecido como a entidade a quem cabe administrar Gaza? Será muito difícil que do ponto de vista político de Israel, isto possa vir a acontecer. Isto é, que Israel, depois de todos estes 15 meses, aceite que o Hamas continue a ser a entidade que administra Gaza.
Aliás, este acordo nem sequer é consensual dentro do governo israelita.
Exatamente. A mim parece-me que se fez bem em deixar a questão mais complicada, que é daquilo que são as negociações e, portanto, as cedências também, que o processo negocial também tem cedências políticas para uma fase posterior. Isto é, deixar primeiro aqueles ganhos, que são ganhos de natureza imediata e que consubstanciam um enorme alívio para a comunidade internacional, e deixar depois esta fase da discussão política, que é uma discussão que no interior de Israel também não é consensual, sobre quem vai administrar, porque quem vai administrar, como eu disse, Israel não vai aceitar que seja o Hamas. O Hamas não quererá que seja a autoridade palestiniana por si próprio e não sei se não teremos que ir encontrar outras entidades dentro daquilo que são os países moderados da zona, que estejam disponíveis para encontrar uma solução, nem que seja apenas uma administração de natureza transitória até se encontrar a solução final. Mas Gaza tem que ser administrado, nós não temos dúvida nenhuma. E a fase dois, que é talvez a fase ainda mais difícil do que foi esta fase um. Mas não há fase dois sem haver fase um, é importante que se tenha para já chegado à fase um.
Já voltamos à conversa com o major General Arnaud Moreira. Na segunda parte, olhamos para a influência norte-americana nas negociações. Isto é uma vitória de Trump ou de Biden? Estamos de regresso à conversa com o major General Arnaud Moreira, especialista em geopolítica. Senhor General, ainda antes de qualquer reação por parte da administração norte-americana, foi uma mensagem de Donald Trump, na rede social Truth, que revelou a existência de um acordo para o regresso dos reféns às suas casas. Pouco depois, Joe Biden, numa declaração na Casa Branca, sublinhou que este acordo foi apresentado por si em maio, há sete meses. As negociações em Doha, no Qatar, contaram com a presença de representantes tanto de Biden como de Trump. Podemos dizer que este acordo é uma vitória de Trump, ou de Biden, ou dos dois?
Eu julgo que dos dois. Eu julgo que nós não podemos nem dar crédito completo a Donald Trump, nem podemos retirar qualquer tipo de mérito a Joe Biden. Aliás, se alguém merece até este acordo, esta consagração de um imenso esforço negocial, é sobretudo até Antony Blinken. Antony Blinken foi incansável durante este período todo. Nós temos que nos recordar a quantidade imensa de visitas que Antony Blinken fez. Aquele vai e vem. Nos bons momentos e nos maus momentos, sem nunca ter desistido. Porque houve alturas em que estivemos já muito perto do acordo e depois um obstáculo final qualquer que apareceu intransponível naquilo que é um processo negocial em que tem que haver sempre cedências, acabou por impedir que esse acordo se concretizasse em tempo. E, portanto, eu dou muito mérito, sobretudo a este acordo, à insistência de Antony Blinken nisto, acompanhado dos dois mediadores árabes, que são, e temos que os citar, o Egito e o Qatar. O Egito e o Qatar foram também incansáveis e a eles também tem que ser atribuído mérito por esta solução a que chegamos hoje. E, portanto, há aqui um esforço diplomático intenso levado a cabo por Antony Blinken, que naturalmente é um elemento destacadíssimo da administração norte-americana. Mas também não devemos excluir Trump desta equação de vitória final É natural que, em face do peso que estas questões da Faixa de Gaza e do apoio a Israel têm naquilo que é a política interna norte-americana, surja agora uma disputa interna sobre quem é o pai ou a mãe deste acordo. Isso é absolutamente normal. Não temos dúvida que foi na administração Biden que o principal actor foi Antony Blinken, mas há também aqui o peso da chegada de Donald Trump com a sua vitória nas eleições.
É um momento único este da saída de Biden e entrada.
É, e não é por acaso que o acordo é para entrar em vigor, aparentemente no dia 19.
Um dia antes de Donald Trump tomar posse.
Que é domingo, dia antes da tomada de Trump. Tudo isto é simbólico, tudo isto é significativo. Trump trouxe, talvez, do meu ponto de vista, também tem algum mérito nisto, porque Trump foi muito assertivo relativamente ao seu desejo de que o acordo fosse alcançado antes de ele tomar posse. E, portanto, que a questão dos reféns estivesse desde já alinhada e que pudessem começar a ser libertados os reféns, coincidindo com a sua tomada de posse. E, portanto, esta pressão adicional que o fator Trump trouxe mostrou, por um lado, uma América unida no desejo de haver aqui um acordo, não de paz, mas um acordo de cessar-fogo, que entrasse em vigor nesta altura. E Trump também pôs pressão para que isso acontecesse. Mas julgo que esta disputa é uma disputa um bocadinho interna, que talvez até nem fique muito bem a nenhum dos líderes. O que temos que reconhecer é que o resultado foi bom. Demorou 15 meses a atingir este resultado, mas as condições estavam extraordinariamente extremadas desde o massacre de 7 de outubro e, portanto, conseguir que as duas partes acordassem num texto escrito e naquilo que é o delinear de um eventual acordo a prosseguir em três fases. Isso, sim, é um enorme mérito que cabe também à diplomacia norte-americana, mas também àquele conjunto muito coeso de negociação que incluiu o Qatar e o Egito.
Sublinhou as negociações no Qatar, que envolveram também o Egito e os Estados Unidos. Mas que papel é que a União Europeia pode ainda ter neste conflito ou na resolução deste conflito?
Eu não sei se a União Europeia esteve bem do ponto de vista político, porque a própria União Europeia mostrou alguma divisão relativamente àquilo que eram as causas e aquilo que eram os seus interesses. E, portanto, a União Europeia passou um bocadinho ao lado da resolução. Por quê? Porque por um lado, sempre que as causas vinham ao de cima, isto é, era atacado Israel pelo uso excessivo da força em Gaza. Portanto, aqui era a questão das causas. Mas do ponto de vista dos interesses, também não é do interesse da União Europeia que um país que é democrático, é uma democracia liberal, que está numa situação muito difícil, complicada e sendo permanentemente ameaçada no Médio Oriente, que sofresse uma derrota neste processo, neste conflito. E, portanto, a União Europeia andou um bocadinho aqui dividida entre estas duas águas. Os Estados Unidos andaram menos divididos. Os Estados Unidos andaram divididos do ponto de vista da sua opinião pública, mas estiveram praticamente sempre alinhados com Israel. E, portanto, não obstante aquelas discussões telefónicas que fomos tendo conhecimento entre Netanyahu e Joe Biden, a posição oficial dos Estados Unidos esteve sempre mais alinhada com Israel. E é, portanto, que no dia a que agora chegamos, a União Europeia está satisfeita, como estamos todos satisfeitos, mas a União Europeia não fez grande parte deste processo.
Mas pode vir ainda a ter um papel, por exemplo, na reconstrução de Gaza ou no apoio humanitário? Diga.
Normalmente, é o que sobra para a União Europeia. Quer dizer, é que a União Europeia, depois, alguém vai ter que pagar esta reconstrução. Isto é, se não se pensar na reconstrução de Gaza, o que nós vamos ter aqui é um foco de instabilidade permanente para alimentar o Hamas, todos os extremismos, etc. Portanto, é preciso também devolver alguma normalidade à vida dos palestinianos no interior da Faixa de Gaza e, portanto, a União Europeia será certamente alguém que estará presente à volta da mesa quando aquilo que eu penso que será, eventualmente, a organização de uma conferência de doadores que permita o processo de reconstrução. Simplesmente, a União Europeia desta vez não vai atirar dinheiro para a Faixa de Gaza, como o fez anteriormente. Vai ter que ter aqui um conjunto de filtros Para que o dinheiro que vai ser empregue na Faixa de Gaza não seja para a reconstrução do Hamas e do seu dispositivo militar, mas seja efetivamente colocado ao serviço das populações e das suas necessidades.
Só para terminar, senhor general, voltando à América e a Donald Trump. Trump toma posse na próxima segunda-feira e vai ser um início de mandato mais leve, pelo menos.
Sim, porque Donald Trump queria muito iniciar o seu mandato com um acordo e o acordo que lhe parecia mais simples de obter era este acordo no Médio Oriente. Naturalmente que os olhos vão estar muito centrados em Trump e no seu discurso. Por quê? Porque Trump tem feito poucos discursos e muitas intervenções esporádicas, pouco organizadas. O seu pensamento, a sua visão global para a América é conhecida, mas é menos bem perceptível aos olhos da opinião pública internacional, como é que Trump olha para o sistema internacional. Vamos todos estar à espera, porque Donald Trump vai ter, certamente, um discurso escrito e o fato de ter um discurso escrito agarra-o também e obriga-o a ter um pensamento mais consolidado, mais estruturado, que nos possa de alguma maneira também servir como uma espécie de guião para aquilo que podemos esperar de Trump naquilo que é a arena do sistema internacional.
Obrigada, senhor general.
Nada, foi um prazer. Muito obrigado.
O major-general Arnaut Moreira é especialista em geopolítica e autor do podcast da Rádio Observador, "O Domínio da Guerra". Esta foi a história do dia. A sonoplastia é do Bernardo Almeida. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou a Teresa Bacasis. Até amanhã.