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Esta é a história do dia da Rádio Observador: o enigma que o PS não conseguiu resolver.

Somos hoje um partido de oposição responsável, construtiva, mas firme para dizer não àquilo que há que dizer não.

Durante dois dias, o PS tentou responder a uma pergunta simples: quer ser uma oposição dura com o governo ou uma oposição disponível para negociar? E Carneiro respondeu, mas ficou assim tão claro se vão ser uma oposição dura ou disponível? É isso que vamos tentar perceber hoje, o que saiu e o que não saiu deste congresso. E é precisamente por isso que vou falar com a Rita Tavares, jornalista de política do Observador, a quem se recorre de cada vez que há perguntas a fazer sobre o Partido Socialista, tal é a quantidade de anos que já leva a cobrir o partido. Eu sou o Pedro Ben vides, e esta é a história do dia de segunda-feira, 30 de março. Olá, Rita.

Olá, Pedro.

Vamos só esclarecer aqui quem nos está a ouvir que são neste momento 10h da noite de domingo. Tu acabaste de regressar de uma longa viagem de Viseu, de um longo congresso de Viseu. Como é que te sentes neste momento?

Está tudo bem.

Pronto, é isso que queremos saber.

Fresca.

É isso. Então, se estás fresca, estás em condições de responder aqui a minha primeira pergunta, que é: o que é que correu bem a José Luís Carneiro neste congresso?

Que foi um congresso tranquilo. Não houve um problema de maior nestes dias, foi calmo.

No sentido em que não houve vozes da oposição a contestar.

Não houve sangue, houve algumas vozes críticas, sim, mas são críticas ainda muito ténues. E José Luís Carneiro até pareceu encaixar algumas dessas críticas quando prometeu que a partir de agora fará uma oposição mais firme. Isto não foi um daqueles congressos que se tornou um daqueles almoços de família chatos, que acaba toda a gente zangada e a discutir. Saíram de cabeça baixa, é certo, porque o momento ainda é difícil para o Partido Socialista, que ainda não se habituou, de fato, a estar na oposição, mas não sai propriamente com feridas em sangue entre socialistas e com facas nas costas.

Então podemos dizer que José Luís Carneiro saiu reforçado deste congresso.

Não diria reforçado, mas não saiu pior do que estava.

Enfim, não é um elogio, mas não perdeu grande coisa, é isso.

O que me estás a dizer é que o meu "correu bem" já começa a roçar o negativo, não é?

Se tu o sentires, talvez.

Nem sabes o que vem aí com o correu mal.

Então vamos a isso. O que é que correu mal então a José Luís Carneiro?

É que foi um congresso tranquilo. Foi um congresso pouco interessante, pouco entusiasmante. Nota-se que esta liderança não entusiasma de forma muito significativa o Partido Socialista. A participação não foi muito efusiva. Percebia-se na sala, não há aquelas palmas em pé, aqueles discursos que levantam o partido. O partido também é verdade que não está na sua melhor fase.

A oposição é sempre difícil, mas falavas aí de não entusiasmou a sala. Eu, que estava de fora, via muitas vezes na televisão imagens de um congresso praticamente às moscas, muitas mesas vazias.

A própria sala foi concebida como se o PS fosse aquele partido do governo. E depois foi difícil, se calhar, compor aquele cenário todo com militantes aguerridos e completamente empenhados na batalha que têm pela frente, até porque a batalha que têm pela frente não é a melhor batalha do mundo, é uma batalha de deserto, dessa travessia difícil. E depois houve aqui algumas questões, também neste congresso, que é a diminuição do número de delegados para metade, daqueles que participam no congresso, porque foi uma decisão que foi tomada. A justificação da direção é que não havia espaço para mais, com tudo o que aquilo queriam fazer à volta, de painéis com independentes a discutirem ao mesmo tempo em salas à margem do congresso, políticas e propostas políticas que o partido poderia apresentar no futuro. Mas o que isto faz, esta diminuição do número de delegados, é que acaba por mobilizar menos o partido em si, a estrutura do partido, e isso notou-se muito, que foi um congresso mais apagado e quase assim um congresso de partido pequeno, mais pequeno do que o Partido Socialista, que também por si, neste momento, já está um bocadinho mais reduzido, pelo menos na Assembleia da República.

E talvez por isso que o congresso fosse importante que desse outra imagem.

Eu acho que foi tentado, até por aquela dimensão daquela sala, com aquele ecrã a todo o comprimento.

Sim, cenicamente estava impecável.

Certo, mas depois é difícil para os militantes corresponderem por variadíssimas razões. Seja porque o tempo é difícil, porque vêm de um período traumático, seja porque o líder provavelmente não os entusiasma como entusiasma outros, seja porque o que têm pela frente é a tal travessia do deserto e que se calhar preferem guardar-se para outro tempo. Tudo isso cruzado, acho que deu este desânimo assim geral que saiu deste congresso.

E sobre o PS do futuro. Havia uma grande dúvida nos dias que antecediam este congresso, que era: afinal, que oposição é que o PS vai fazer daqui pra frente? Porque estamos num quadro político inédito. O PS está reduzido a terceira força política, ali quase empatado com o Chega Na questão dos cargos externos da Assembleia da República, vemos uma negociação que tem aparentemente sido feita mais com o Chega do que propriamente com o Partido Socialista. E então colocou-se a questão: que lugar de oposição é que o PS vai ocupar? Se seria mais agressivo com o governo ou se seria um parceiro fiável de negociações quando elas fossem necessárias. Havendo essa dúvida antes do congresso, que resposta é que saiu depois destes dias?

Saiu uma resposta, e há pouco eu dizia que parece que ouviu e que até acatou alguns dos reparos que lhe foram sendo feitos por alguns dos socialistas mais notáveis no palco do Congresso e mesmo antes do Congresso. Estou a falar de nomes como Mariana Vieira da Silva, Duarte Cordeiro, Fernando Medina, Alexandre Leitão, Ana Catarina Mendes, enfim, foram vários que falaram tanto no Congresso como fora dele, e que deram aquele impulso ou tentaram dar aquele input para que a liderança do partido tivesse ali um pouco mais de dinâmica e mais firmeza na apresentação das suas ideias e até na oposição que faz na Assembleia da República ao governo. Menos parceria, houve até uma moção setorial que foi muito falada, que pediu isso, menos parceria com o governo e mais proposta de uma alternativa. E José Luís Carneiro, que entrou no Congresso, eu diria que até numa mensagem muito confusa, porque é a mensagem do quem semeia vento, colhe tempestades, que não percebemos muito bem até onde é que poderia ir o Partido Socialista na relação com a AD, se aquilo significava que podia vir aí uma rutura ou se não havia uma rutura. A verdade é que quem lhe pedia para ter uma oposição mais firme, também dizia que era importante que o partido não virasse costas ao governo, porque é um partido de poder e não pode desresponsabilizar-se pelas grandes reformas do país, tem que estar disponível para participar nelas e não ficar acantonado na oposição a um lugar de partido de protesto. Portanto, o PS tem que ocupar o espaço do Partido Socialista na oposição e tem que se habituar a esse lugar com naturalidade. E perante isto, perante o que lhe foram dizendo no concreto, o José Luís Carneiro saiu a dizer que vai fazer uma oposição mais firme, a prometer isso mesmo, mas ao mesmo tempo a prometer também que não vai ficar em silêncio perante os erros do governo. Há pouco estava a pensar nisto e pensei que o PS entrou no meio-termo e saiu em meio-termo também, porque não rasgou e isso foi fruto também de algumas coisas que José Luís Carneiro foi ouvindo. O que também é curioso, porque nós não imaginámos até hoje ouvir de José Luís Carneiro que ele ia rasgar com o que quer que fosse. Porque ele é o socialista moderado e era o socialista que fez oposição a Pedro Nuno Santos em 2023 naquelas diretas, dizendo que ele era a alternativa que podia construir pontes com a direita, ao contrário do radical que estava do outro lado, que só sabia entender-se com a esquerda. E portanto, até foi engraçado, de alguma maneira, percebermos que havia aqui a dúvida se José Luís Carneiro poderia romper. E foi irônico ver alguns dos nomes que antes estiveram do lado de Pedro Nuno Santos dizerem a José Luís Carneiro: "Calma, é melhor não romper". E José Luís Carneiro saiu a dizer: "Então não vou romper, mas vou ser firme na oposição". O que isto quer dizer? No que isto se vai materializar? Neste momento, ainda ouvimos muito pouco sobre isso. Ouvimos algumas propostas que o José Luís Carneiro fez e percebemos que ele vai deixar de enviar cartas ao primeiro-ministro quando disse ao longo da sua última intervenção que agora vai apresentar propostas, mas é aos portugueses. Para maio prometeu já uma reforma da Justiça, uma visão do PS sobre a reforma da Justiça, e está mais virado para fazer as suas propostas perante os portugueses e menos nessa troca de correspondência. Troca de correspondência, não, essa correspondência não correspondida, que vai para São Bento, mas que nunca vem para o rato.

Então, basicamente, este enigma de qual é que vai ser o lugar do PS, na verdade, a resposta é talvez o meio caminho, seja aquilo que parece ser o rumo que sai deste Congresso do Partido Socialista.

Mas se repararmos, sai exatamente no mesmo sítio que entrou, mas com José Luís Carneiro a parecer que ia fazer uma coisa que afinal não fez e ficou tudo bem. Portanto, aí até houve alguma arte em conseguir aplacar essas críticas e até fazer parecer que foram incorporadas no discurso de José Luís Carneiro, quando, na verdade, ele está exatamente no mesmo sítio, que é continua colaborando com o governo, continua a querer convergir. Falou em duas áreas muito sensíveis, que é a saúde e também a reforma laboral, onde disse que está aberto a alterações e onde está aberto a fazer propostas, desde que cumpram as condições que o Partido Socialista coloca em cima da mesa, que são genericamente aquelas que já são conhecidas nas áreas sociais. E, portanto, desse ponto de vista, José Luís Carneiro continua a ser o mesmo moderado e o mesmo político previsível nessa relação com o governo. Mesmo com esta questão dos juízes aqui ao virar da esquina, porque esta semana que vem, com certeza vai haver uma definição sobre isso, porque as listas de candidatos aos vários órgãos externos à Assembleia da República têm de ser entregues até quinta-feira, e acho que tudo se vai definir. Mas já se percebeu que o Partido Socialista não vai virar a mesa se for colocado fora Dessa equação, dessa negociação, vá para os juízes do Tribunal Constitucional. Vai engrossar a voz, talvez, dizer que agora acabou PSD, e foi o PSD que quis romper e não o Partido Socialista, mas vai continuar a fazer propostas e se o Luís Montenegro lhes disser: "Precisamos do PS para isto, o que é que o PS pode pôr aqui, que cedências é que podemos fazer que possam convencer o Partido Socialista?", ele estará lá para negociar.

O PS não se vai pôr de fora. Rita, só para terminarmos, na constituição das equipas, porque os congressos também formam muitas equipas de trabalho dentro dos partidos, o que tu destacarias daquilo que José Luís Carneiro quis fazer?

Acho relevante a construção que fez da Comissão Nacional. Apresentou uma lista, que foi a lista única, portanto, foi a lista que ganhou, e a Comissão Nacional de José Luís Carneiro, que é presidida por uma autarca, que é a Inês de Medeiros, presidente da Câmara de Almada, e é um órgão que se reúne no Partido Socialista sempre que há grandes decisões a tomar neste período entre os congressos, porque só volta a ver um congresso daqui a dois anos. E o que nós vimos foi que foram escolhas feitas muito com base naquilo que são as pessoas que fazem parte do tecido autárquico, das estruturas do partido pelo país, tudo isso está lá representado. Isto, por um lado, pode mostrar a vontade de José Luís Carneiro em construir ali uma base que seja o mais aberto possível à sociedade para relançar a partir daí o partido, com pessoas que estão implantadas nos conselhos e que depois têm essa relação de proximidade com as populações e conseguem levar-lhe mais informação e fazer um trabalho de campo mais preciso. Mas também pode ser aquela tentação muito básica de ter uma muralha à sua volta e em vez de ser uma abertura, isto ser um fechamento dentro daqueles que lhe dão maior segurança e que são pessoas mais próximas. Ou então as duas coisas ao mesmo tempo, que também claro que é possível e que se consegue fazer. Depois disto, ainda vai escolher a comissão política e aí já vai ter outros nomes, que é aquele órgão da direção política permanente que se reúne com mais frequência e já sabemos que vão estar lá alguns dos mais notáveis e até críticos e que ele sabe que são adversários futuros claros à sua direção, como Fernando Medina e Eduardo Cordeiro, e depois provavelmente terá outros também na sua direção mais próxima ao secretariado nacional. A partir daqui, José Luís Carneiro já não se pode queixar de nada, tem os órgãos do partido construídos à sua imagem.

Vamos ver como é que corre. Rita, obrigada.

De nada, obrigada.

Eu conversei com a jornalista do Observador, Rita Tavares, que conhece toda a gente no Partido Socialista, dos dirigentes históricos aos novos rostos que surgiram nos últimos tempos. E como tem memória, no texto que publicou no jornal sobre as entrelinhas do discurso de Carneiro, a Rita lembrou uma questão importante. Já no fim do discurso, o reeleito secretário-geral do PS diz que pretende ser o candidato do partido às próximas legislativas. Só que isso não era coisa a definir neste congresso. Se o calendário se cumprir, as eleições estão a mais de três anos de distância e entretanto o PS terá outro congresso. Falta saber se Carneiro chega até lá, porque a história política está carregada de líderes aclamados quando o partido está no deserto da oposição, que passam a descartáveis quando começa a cheirar a poder. Esta foi a história do dia. A sonoplastia é da Mariana Sousa Aguiar, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.