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Esta é a história do dia da Rádio Observador. O fantástico plano de Trump vai trazer paz para a Ucrânia?
"Well, thank you very much. We had a terrific meeting. We discussed a lot of things."
"Dear colleagues, first of all, I would like to thank President Trump for a great meeting at this amazing place in his home in Mar-a-Lago."
Foi o sexto encontro entre Donald Trump e Volodymyr Zelensky este ano e foi um grande salto em relação ao encontro tenso de fevereiro na Casa Branca. Desta vez, o cenário foi a luxuosa casa de Trump em Mar-a-Lago, na Flórida. No final, na conferência de imprensa, os dois chefes de Estado apareceram lado a lado, cordiais, trocando cumprimentos e agradecendo mutuamente o papel do outro na procura de um acordo de paz que ponha fim à guerra na Ucrânia. Menos de 24 horas depois, a Rússia respondeu acusando a Ucrânia de tentar atingir Putin na sua residência oficial. Teme-se que esta acusação, negada por Kiev, possa anteceder uma intensificação nos ataques russos e deitar por terra as esperanças de um acordo. Mas o que foi dito em Mar-a-Lago? E o que é que podemos esperar da Rússia? Houve avanços desde que Trump chegou à Casa Branca prometendo acabar com a guerra na Ucrânia? Vou conversar com o major-general João Vieira Borges, coordenador do Observatório de Segurança e Defesa da SEDES. Eu sou a Teresa Arcassish e esta é a história do dia de terça-feira, 30 de dezembro. Bem-vindo, major-general João Vieira Borges.
Muito obrigado pelo convite.
Donald Trump considerou que a reunião com Zelensky foi excelente. O presidente ucraniano fala em grandes progressos, mas ainda não tinham passado 24 horas e ouvimos o Kremlin acusar a Ucrânia de tentar atacar a residência oficial de Putin, uma alegação que Kiev desmente. Isto já nos ajuda a ter uma ideia das reais possibilidades de se conseguir chegar a um acordo para acabar com a guerra na Ucrânia?
Sim, efetivamente, isto é a demonstração clara das dificuldades para tentar encontrar um acordo de paz, quer por um lado, quer por outro. Não temos ainda a confirmação de que efetivamente tenha havido esse ataque. Não sabemos se é um ataque de bandeiras, mas o que sabemos é que sempre que há qualquer aproximação para a paz, designadamente em reuniões em que o presidente Trump vem dizer que estamos mais próximos da paz, acontece qualquer coisa, um grande ataque da parte da Rússia, ou então ações de contrapropaganda ou de contrainformação, que é o caso, ou poderá ser este o caso. Agora, isto só vem demonstrar que, na minha perspectiva, nenhuma das partes está preparada para a paz nos moldes em que a outra parte apresenta. Ou seja, a Rússia não aceita, certamente, estes 20 pontos nos moldes em questão e a própria Ucrânia não aceita outras condições, designadamente as que se referem a questões territoriais. Saíram da reunião sempre com aquela linguagem de Trump muito positiva, mas, na realidade, os grandes problemas continuam a haver incompatibilidade das duas partes.
E já vamos falar de alguns desses problemas. Voltando ao encontro, no final da reunião, Trump disse também que só faltava resolver um ou dois problemas para se chegar finalmente ao acordo de paz. Tem visto reais avanços nesta negociação desde que Trump chegou à Casa Branca?
Sim, tenho visto a passagem dos 28 pontos, que no fundo era a capitulação da Ucrânia por parte da Rússia, negociada com os Estados Unidos, desses 28 pontos para estes 20 pontos, que temos agora conhecimento em pormenor, há uma evolução considerável, mas essa evolução considerável não é mais do que cedências da parte da Ucrânia. Não há qualquer cedência da parte da Rússia. Aquilo que houve foi, efetivamente, não só cedências, mas também um pensar o futuro. E é evidente que para a Rússia isso não interessa, interessa para a Ucrânia ter as garantias de segurança e ter o pensar o futuro em termos de sustentabilidade da Ucrânia enquanto um Estado de direito, independente, livre, o que vai contra, certamente, o pensamento de Putin. Portanto, em resumo, acho que houve uma evolução considerável, mas só de uma das partes.
Falando do plano de paz em concreto, os tais um ou dois problemas podem mesmo fazer muita diferença. Falamos, por exemplo, da criação de uma zona desmilitarizada na região do Donbass e noutras regiões ocupadas pela Rússia. Como é que funcionaria esta região?
As duas grandes questões, curiosamente, há pouco foram identificadas. As duas grandes questões que dá origem a que 90% dos 20 pontos estejam mais ou menos acordados e esses 10%, que eu acho que são importantíssimos, é a questão territorial, que referiu agora, mas também a questão da central nuclear de Zaporizhzhia.
Exatamente.
Vamos então à questão que me colocou. Não é fácil, até porque não há termos de comparação. O exemplo das Coreias não é um exemplo que se adeque aos dias de hoje neste cenário, neste teatro de operações, nestas condições. É uma referência, obviamente, da zona desmilitarizada, mas aqui a tentativa de um acordo de paz, e não de um sapo, é muito diferente. Não houve acordo de paz na Coreia. A Rússia não abdica Da cedência total dos territórios, ou seja, dos territórios do Donetsk, do Donbas, neste caso. E, portanto, não abdicando, o processo não avança. Por muitas propostas que se façam como esta que foi feita, que é de uma zona desmilitarizada, com X quilómetros para um lado e X para o outro, em que os territórios agora ocupados pela Ucrânia obviamente ficariam salvaguardados, e havia parte de territórios ocupados pela Rússia que fariam parte dessa zona desmilitarizada, que não percebemos bem ainda como é que funcionaria, se era à semelhança das Coreias, se era também de exploração por um interlocutor nessa zona, que pelos vistos é muito mais alargada do que é nas Coreias. E também depois as linhas defensivas, falou-se em três linhas defensivas, onde estariam forças, espero que se vier a concretizar através de uma resolução do Conselho de Segurança, para dar maior legitimidade e autoridade a essas forças. O problema é que desde a primeira hora, e hoje também confirmámos, a Rússia não concorda, minimamente, com a cedência destes territórios para essa zona desmilitarizada e muito menos que haja forças europeias ou da NATO nesse mesmo território. Estamos a negociar de uma das partes, sabendo que a outra considera isso uma linha vermelha. Portanto, estas duas questões, tanto esta territorial como Zaporizhzhia, pelos vistos são as mais difíceis e são aquelas que enquanto não forem resolvidas, não haverá paz, certamente.
Disse também que se falava da presença militar dos Estados Unidos e também da União Europeia depois do fim do conflito armado. O que é que isso poderia significar para Portugal, por exemplo?
Poderia significar que Portugal também tivesse forças nesse território, juntamente com forças da União Europeia ou juntamente com países da NATO. Tanto num âmbito como no outro, Portugal faz parte das duas organizações, dependeria depois das negociações. Obviamente que isso implica decisões e talvez num Conselho de Estado o senhor Presidente da República vá ouvir os seus conselheiros sobre essa questão. Vamos tê-lo logo no início do próximo ano. É uma situação que já vem sendo equacionada desde março. É uma situação que é equacionada no modelo da operação de paz, em que Portugal também já tem forças, designadamente na Roménia e também nos países bálticos, são forças com características diferentes, mas que no fundo estão na zona da frente para fazer de dissuasão relativamente à Rússia. Portanto, não é novidade. A novidade poderá ser o tipo de missão que é atribuído a essas forças e a probabilidade de um conflito ser maior. Nós também temos experiência nessas situações, designadamente na República Centro-Africana, em que a situação também é muito complexa para as forças militares portuguesas que se encontram no território. Mas isto são decisões, primeiro, a nível das organizações internacionais e depois decisão nacional. E depois da decisão nacional, também temos que saber se vai haver caveates, ou seja, se há restrições à utilização de determinado tipo de forças ou emprego das forças em determinado tipo de cenários. Portanto, todos os países vão estar envolvidos nisso. Espero que haja, se houver, depois uma posição mais ou menos idêntica ou análima relativamente à postura nesses mesmos territórios. Eu duvido que isso venha a acontecer. É uma probabilidade, é uma proposta que é feita por uma das partes, mas já vimos que a Rússia não aceita minimamente essa situação. Aceitará, porventura, aquilo que está atualmente, ou seja, as forças estariam prontas, com grau de prontidão mais elevado na fronteira da própria Ucrânia, é o caso de estarem mais forças na fronteira, caso da Polónia, por exemplo, ou mais forças nos territórios bálticos ou na Roménia.
Um dos outros pontos determinantes deste acordo de paz, como disse, é a central nuclear de Zaporizhzhia. É a maior central nuclear no continente europeu, neste momento está ocupada pela Rússia, mas a Ucrânia não quer perdê-la definitivamente.
Não, até porque ela constitui mais de 15% do fornecimento de energia da Ucrânia, é a maior central nuclear da Europa, a nona maior do mundo, é fundamental para a sobrevivência da Ucrânia. No plano de paz dos 20 pontos, é um dos aspetos que foi proposto e que pelos vistos não é aceite pela Rússia. Ou seja, há um intermediário, mais uma vez, a questão económica é fundamental para os Estados Unidos, e há um intermediário nesse aspeto que é os Estados Unidos. Ou seja, haveria uma gestão da central.
Uma gestão tripartida.
Era tripartida, Ucrânia, Rússia e Estados Unidos, cada país a controlar 33%. O supervisor, acho que é essa a tradução daquilo que lá está, o supervisor da central seria os Estados Unidos, com dividendos, naturalmente, como sempre, para os Estados Unidos. E digamos que a Rússia, a outra parte, já veio dizer que não aceita minimamente essa situação. Ontem no discurso até parecia que foi muito genérico, mas quando fizeram as suas observações os dois líderes, quer o Trump, quer o Zelensky, na sequência daquilo que aconteceu estes dias, que foi a Agência Internacional de Energia Atómica ter conseguido lançar fogo para reparação, pensávamos que esse era um caminho mais facilitado. Mas pelos vistos já veio a Rússia dizer que não. Ou seja, estes são os dois pontos, a parte territorial e a parte relativa à central, são dois pontos que estão de grande e difícil resolução para que haja verdadeiramente um acordo de paz.
Nos últimos meses, Zelensky mudou bastante a sua postura em relação a Donald Trump. Ainda no início do ano assistimos a um encontro bastante tenso entre Zelensky e Trump. Agora, em Mar-a-Lago, já foi um pouquinho diferente.
Foi muito diferente, mas também foi muito diferente porque a postura de Trump relativamente a Zelensky foi outra. Trump tem interesse, obviamente, em que haja um acordo de paz. Percebe que as pressões sobre Zelensky, em termos diplomáticos, têm funcionado. Como eu disse há pouco, há cedências, sobretudo do Zelensky. E, portanto, ele inclusivamente recebeu elogiando os ucranianos e a liderança de Zelensky. A resposta perante esta postura de Trump foi uma resposta também positiva e isso foi importante. Quer à entrada, quer à saída da reunião, houve uma concordância no sentido da busca da paz e houve também, em resposta à sua questão, um posicionamento diferente de Zelensky relativamente a Trump, percebendo que a paz só será conseguida naquela região se houver da parte dos Estados Unidos uma vontade política. Independentemente do apoio que possa dar a Europa no seu conjunto, muito mais do que a própria União Europeia, digamos que Zelensky já percebeu ao longo destes quase quatro anos de guerra, que o papel dos Estados Unidos em apoio à Ucrânia é fundamental, não só para a questão da guerra, mas também, sobretudo, depois para a garantia da paz.
Tem referido ao longo desta conversa alguns pontos em que a Rússia se mantém intransigente. Estamos no fim do ano, vai começar um ano novo. Acredita que possamos chegar em 2026 a um acordo de paz com a Rússia, um acordo de paz sustentável a longo prazo?
É uma pergunta que é uma resposta sempre conjuntural. Ou seja, estamos muito influenciados, como disse no início, até por contrainformação, que vamos confirmar, relativamente a ataques eventuais à casa onde estava Putin por parte da Ucrânia com 90 drones e com uma reação de que não vai haver qualquer concordância. Ontem estávamos mais esperançados em função daquilo que foi a conferência de imprensa. Como é que um acto como este pode alterar tudo e voltarmos novamente à guerra? Como dizia o Trump, eles vão continuar lutando, eles vão continuar morrendo. E é isso que é o mais provável, infelizmente. Ou seja, 2026, por aquilo que vamos vendo, independentemente da tentativa da busca de um acordo de paz, qualquer das duas partes já mostrou que tem uma visão incompatível com a outra. E os Estados Unidos não estão a conseguir ser o mediador ideal neste processo. Já percebemos isso há muito tempo, até porque é um mediador com interesses significativos em termos económicos na região e com maiores ligações a uma das partes do que a outra. A questão do poder é a única que funciona para tentativa resolução da questão, mas não acredito. E o que acredito é que infelizmente vamos continuar com esta guerra, que no terreno é uma guerra simultaneamente híbrida e uma guerra convencional, mas uma guerra convencional, como temos visto, em que a Rússia, como grande potência militar, tem grandes dificuldades em conquistar terreno. E portanto poderemos estar assim mais um ano, mais dois anos, numa guerra com mortandade enorme, com pouca evolução em termos de conquistas territoriais por parte da Rússia. E penso que nesse cenário, seja em 2026 ou 2027, só é possível depois negociar de outra maneira quando a Rússia atingir o seu objectivo. Já percebemos todos que o objectivo da Rússia é conquistar o Donbass na sua totalidade. Quando conquistar o Donbass na sua totalidade, obviamente que há melhores condições para depois haver um acordo de paz, mas haverá certamente piores condições depois, ou menos liberdade de ação para a Ucrânia negociar outros pontos que não esse ponto territorial.
Obrigada, Major-General João Vieira Borges.
Muito obrigado pelo convite.
João Vieira Borges é coordenador do Observatório de Segurança e Defesa da SEDES. Esta foi a história do dia. A sonoplastia da Mariana Sousa Aguiar, a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou a Teresa de Cassis. Até amanhã.