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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Quem é Yahya Sinwar, o novo líder do Hamas. Esta é a voz de Yahya Sinwar numa declaração pública. Aqui incita os palestinianos a atacar os israelitas com facas, carros ou cocktails Molotov, com aquilo que estiver à mão. Uma missão para todos os palestinianos. Sinwar foi o estratega dos ataques de 07/10, em que o Hamas matou cerca de 1200 pessoas e fez 250 reféns. Sinwar é agora o líder do Hamas, depois da morte de dois outros dirigentes, um político e um militar. Benjamin Netanyahu chamou-lhe o pequeno Hitler e as Forças Armadas israelitas apelidaram-no de a cara do Diabo. Quem é afinal este homem e o que nos diz a escolha de Sinwar sobre o futuro? Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia de 08/08. Bem-vinda, Inês.

Olá, Ricardo.

Inês, temos de começar esta história pela morte do antecessor de Yahya Sinwar. O que é que aconteceu?

De facto, é melhor começar pelo princípio.

É sempre uma boa forma.

Exato. Ismail Haniyeh foi assassinado a 31 de julho numa pensão na zona norte de Teerão. Era o então líder político do Hamas, estava a viver no exílio, no Qatar, e deslocou-se ao Irão para a tomada de posse do novo presidente. Israel ainda não assumiu publicamente a autoria deste atentado, mas é sabido que informou vários governos, incluindo o norte-americano, sobre a forma como Ismail Haniyeh foi eliminado. Uma investigação recente do jornal norte-americano New York Times, que cita sete fontes não identificadas.

Sete fontes.

Sete fontes não identificadas. Explica que foi colocada uma bomba no local há cerca de dois meses. A informação disponível aponta para uma ação da Mossad, porque tem um historial de atuação deste tipo.

Mas não está ainda oficialmente confirmado.

Ainda não está oficialmente confirmado. E como é que eles fizeram isto? De acordo com o New York Times, assim que houve uma confirmação que Ismail Haniyeh estava no edifício e numa zona em que poderia ser atingido, a bomba foi acionada por controle remoto. Israel consegue, desta forma, eliminar um dos piores inimigos na casa do próprio inimigo, Irão, e na capital do Irão, Teerão. E este facto levou à situação em que estamos agora, de uma escalada muito séria da situação no Médio Oriente. E de acordo com o Washington Post, Joe Biden e Benjamin Netanyahu tiveram uma conversa tensa ao telefone quando o primeiro-ministro israelita comunicou ao presidente dos Estados Unidos o que tinha acontecido em Teerão.

E isso já foi a posteriori, já foi depois do assassinato. E agora o Hamas anuncia esta escolha, a escolha de Yahya Sinwar.

Exato. E primeiro é importante perceber que Yahya Sinwar é a terceira cabeça do Hamas. Ele é muito importante. Assume o poder depois de outros dois homens muito importantes terem sido mortos. O primeiro foi Mohammed Deif, que era o líder militar do Hamas. Terá sobrevivido a sete tentativas de assassinato.

Sete.

Exato. Foi morto no mês passado num bombardeamento na Faixa de Gaza. Agora foi eliminado o líder político em Teerão, Ismail Haniyeh, como já explicámos, era líder político e estratega de várias ações armadas do Hamas. E esta terça-feira, através de um comunicado, a organização terrorista, que está no poder na Faixa de Gaza, anunciou que seria Sinwar o novo líder. Anunciaram isso num curto comunicado que diz o seguinte: "O Movimento de Resistência Islâmica, Hamas, anuncia a escolha do comandante Yahya Sinwar para chefe do gabinete político do movimento, sucedendo ao comandante mártir Ismail Haniyeh", e acrescentam que Deus lhe seja misericordioso. Esta decisão demorou alguns dias a ser anunciada e acabou assim com a dúvida de quem seria o novo líder do grupo Hamas.

No fundo, Inês, temos aqui três líderes do Hamas. Dois foram eliminados e sobra este, Sinwar, que é um líder que agora está escondido.

Escondido. Yahya Sinwar viverá no chamado Metro de Gaza. Já falaste sobre isso aqui na História do Dia. É uma rede de túneis na Faixa de Gaza, estende-se por quilómetros e quilómetros. É o que permite ao Hamas movimentar-se no território e será um dos locais onde podem estar cerca de 120 pessoas feitas reféns nos ataques de 07/10. Ele terá sido o cérebro dos ataques. Sinwar é uma das pessoas mais procuradas por Israel e se fosse eliminado, seria um duro golpe para o Hamas. Mas Sinwar não é visto em público desde outubro, está escondido nestes túneis e assim deverá continuar agora que lidera o movimento radical.

Já regressamos à conversa com a jornalista da Rádio Observador, Inês Batista, sobre quem é afinal esta figura e o que ela representa para o Hamas e para o futuro. Estamos de regresso à conversa com a jornalista Inês Batista, da Rádio Observador. Inês Vamos olhar para o lado mais biográfico, já vamos ver o lado mais político e militar, se quisermos, de Sinwar. Quem é este homem? Qual é a história dele?

Comecemos pela idade. Tem 61 anos, tem cabelo branco e umas sobrancelhas pretas muito carregadas, que contribuem para o forte carisma que é atribuído a Yahya Sinwar. Ele nasceu num campo de refugiados em Khan Yunis, uma cidade no sul de Gaza. Fugiu para lá com a família e milhares de outros palestinianos, o que influenciou depois a escolha de Sinwar quando foi tempo de se juntar ao Hamas. Ele foi preso por Israel aos 19 anos por atividades islâmicas. Foi na prisão onde escreveu um romance, chama-se "O Espinho e o Cravo", sobre um menino palestiniano chamado Ahmed. É sobre a guerra entre Israel e os territórios palestinianos, um livro em que o tema principal é o sacrifício necessário para a população palestiniana resistir ao inimigo.

Israel.

Exatamente. Durante os anos na prisão, aprendeu hebraico, estudou a cultura e a sociedade israelita e traduziu para árabe autobiografias de antigos chefes da Agência de Segurança Interna de Israel.

Ou seja, dos inimigos.

Com o objetivo de estudar os seus métodos de contraterrorismo. Sinwar casou, teve filhos quando foi libertado, mas não fala muito em público sobre a família. Disse uma vez que as primeiras palavras do filho foram pai, mãe e drone. Nestas poucas declarações públicas do agora líder do Hamas, Sinwar disse também que a prisão constrói e dá tempo pra pensar naquilo em que se acredita e no preço que se está disponível a pagar por isso.

E as Forças Armadas israelitas dizem que Yahya Sinwar é a cara do diabo e Netanyahu chama-lhe o pequeno Hitler. Por que estes epítetos?

Sinwar passou 23 anos em prisões israelitas.

23.

Uhum. Foi um dos mil palestinianos libertados em 2011 por trocas, neste caso, por uma troca de um soldado israelita, Gilad Shalit, que foi mantido refém pelo Hamas durante cinco anos.

Portanto, ele estava nesse grupo de mil presos palestinianos que foram trocados por um único soldado. Também já falamos aqui no História do Dia sobre este episódio, num episódio em que falamos também precisamente sobre a troca de reféns e troca de prisioneiros palestinianos e israelitas.

Uhum. Sinwar tinha sido condenado a quatro penas de prisão perpétua pela justiça israelita por vários crimes. E de acordo com um israelita citado pelo jornal The Guardian, ele recusava-se a falar com qualquer cidadão de Israel, claro, incluindo os carcereiros, e castigava com violência os outros presos palestinianos que o faziam. Este israelita citado pelo The Guardian classifica Sinwar como sendo muito violento. Logo no final dos anos 80, no Hamas, Sinwar teve como missão descobrir espiões e simpatizantes de Israel entre os palestinianos e puni-los. Foi o responsável pelo serviço de informações do Hamas e foi ele que criou o serviço de segurança interna.

Se era no final dos anos 80, 20 e tal anos, ainda é muito novo, não é?

Uhum. Deixa-me ainda contar-te esta história. Em Israel, foram divulgadas pelo Shin Bet, que é o serviço de informações domésticas, a Mossad ou o Mossad, que serve para ações no estrangeiro, foram divulgadas passagens dos interrogatórios a que foi sujeito Sinwar em 89, quando foi preso. Num deles, descreve como levou um homem para o cemitério de Khan Yunis e como o estrangulou dentro de uma cova, matou-o com as próprias mãos depois de o interrogar e concluir que se tratava de um traidor. Além das purgas internas, terá sido ele o grande estratega dos ataques de 7 de outubro. Terá levado meses ou mesmo anos a preparar a ação terrorista, que matou cerca de 1200 pessoas, fez cerca de 250 reféns. Ele é considerado pelos Estados Unidos como um terrorista. Já começamos a perceber o porquê das Forças Armadas israelitas o apelidarem de cara do diabo. É um homem que sempre viveu mergulhado em violência.

É então um homem de ação, diz-se que é um homem pragmático, é um radical.

É da linha dura. Já percebemos que ele cresceu no Hamas, esteve preso 23 anos. Vários analistas internacionais entendem que Sinwar não estará muito interessado num cessar-fogo com Israel, que permita a libertação dos mais de 100 reféns israelitas. Algumas fontes dos serviços de informações norte-americanas e israelitas dizem mesmo que Sinwar quer continuar a guerra para enfraquecer a reputação de Israel e do aliado Estados Unidos. De acordo com o New York Times, nenhuma decisão do Hamas é tomada sem passar por Yahya Sinwar. Defende uma Palestina unida, o fim do Estado de Israel, e pra isso até apoia uma liderança unida com a Fatah, que é quem governa a Cisjordânia, o que obrigaria a uma reconciliação entre os dois movimentos.

Exatamente.

A Fatah, que governa a Cisjordânia, o Hamas, a faixa de Gaza. O Hamas venceu umas eleições consideradas duvidosas, nunca deixou de ser visto pelas democracias ocidentais como uma organização terrorista que conta com o apoio do Irã.

Ou seja, Inês, por tudo isso, o Hamas, com a escolha de Yahya Sinwar No fundo, aposta na continuidade desta linha de ação. Não podemos esperar ou ter grandes expectativas ou esperar grandes mudanças.

Como já vimos, ele é o terceiro elemento da cabeça do Hamas, o único vivo depois dos dois assassinatos do mês passado. Sinwar contará com o apoio do Irão para prosseguir a guerra contra Israel. É um conflito que consegue unir o Hamas sunita e o Irão xiita contra o inimigo judeu, apoiado pelos Estados Unidos.

Essa questão religiosa é muito interessante. Odeiam tanto Israel que conseguem unir sunitas e xiitas. É isso mesmo.

E apesar da carnificina a que temos assistido na Faixa de Gaza, nenhum dos actores dá mostras de amenizar posições e de querer verdadeiramente um cessar-fogo. Antes pelo contrário, entramos aqui numa fase de ataque e contra-ataque a nível regional, uma fase muito perigosa para o Médio Oriente e também para o mundo. A escolha de Yahya Sinwar será uma aposta na continuidade por parte do Hamas, um líder que vive escondido nos túneis de Gaza, que deverá estar a ser superprotegido por um grupo restrito de pessoas e que, como percebemos, trata-se de um homem violento e carregado de ódio. Por isso, não, o novo líder do Hamas não deverá trazer mudanças no sentido que damos à mudança, como se fosse uma esperança.

Exato.

Neste caso, a mudança deverá ser vista como a continuidade da violência.

Obrigado, Inês.

Obrigada, Ricardo.

Inês Batista é jornalista da Rádio Observador. Esta foi a História do Dia. O som que ouvimos no arranque foi retirado de um trabalho da televisão canadiana CBC. Aproveito para deixar aquele pedido, que para nós faz mesmo a diferença: seguir a História do Dia na aplicação que habitualmente usa para ouvir os nossos episódios. E é muito fácil, basta clicar onde diz seguir. E já agora, partilhar este ou outro episódio com um amigo ou um familiar. A sonoplastia é da Beatriz Martelo Garcia, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã e bons férias.