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Esta é a história do dia da Rádio Observador. O que são leitores de sensibilidade?
But readers of the new editions are in for a surprise after Puffin Books adjusted the author's words to make them more inclusive. A few examples: Charlie and the Chocolate Factory's Augustus Gloop was enormously fat. Now he's just enormous. The Cloud Men from James and the Giant Peach, now Cloud People. A witch who works as a cashier in a supermarket now works as a top scientist.
Estamos a ouvir uma peça da televisão norte-americana CBS, divulgada em fevereiro deste ano, e que nos dá conta das alterações feitas em livros do escritor britânico Roald Dahl. Por exemplo, na obra Charlie e a Fábrica de Chocolate, Augustus Gloop era enormemente gordo e agora é apenas enorme. E em James e o Pêssego Gigante, os Homens das Nuvens passaram a ser Pessoas das Nuvens, e uma bruxa que trabalhava como operadora de caixa no supermercado é agora uma cientista de topo. São alterações para não ofender leitores. Algumas editoras aceitam alterar textos novos e antigos, e há pessoas que têm como função detectar passagens que podem ser mais ou menos polêmicas, são os chamados leitores de sensibilidade. De que forma estes leitores de sensibilidade podem ou não condicionar a criação artística e também a forma como lemos o mundo? Vou conversar com a jornalista da seção de cultura do Observador, Joana Moreira. Eu sou o Ricardo Conceição, e esta é a história do dia. Bem-vinda, Joana.
Olá, Ricardo.
Joana, o que são leitores de sensibilidade?
No fundo, são pessoas que leem livros para tentar assegurar que não há passagens potencialmente ofensivas para determinados grupos de pessoas. Ou seja, é alguém que lê uma obra com olhar incrivelmente focado em tentar prevenir que certas comunidades sejam expostas ou utilizadas na narrativa de uma forma que pode ser considerada ofensiva ou pejorativa, digamos assim.
E onde é que essa prática começou?
Na verdade, é difícil precisar, até porque ainda não há grande literatura sobre o assunto. Aparenta ser um fenômeno relativamente embrionário, mesmo no mundo anglo-saxônico. Uma das pessoas que entrevistamos para a reportagem que está no Observador é uma norte-americana que faz leitura de sensibilidade desde 2017, ou seja, há seis anos, mas não há indicações de quando é que pode exatamente ter começado esta prática.
Mas consegues dar-nos uns exemplos de alterações que tenham sido feitas, também para nos ajudar a perceber quais são as fronteiras dessas sensibilidades de que falas?
Claro. As mais sobejamente conhecidas e que mais inflamaram as redes sociais e os espaços de opinião dos jornais prendem-se com obras já escritas, como o caso das edições britânicas dos livros do Roald Dahl, em que a palavra gordo foi substituída por enorme, por exemplo. Há outras alterações comuns, como a forma como uma comunidade é descrita, muitas vezes de uma forma completamente inverosímil. Um dos exemplos que falamos também na reportagem do Observador é uma leitora de sensibilidade que é especializada na comunidade surda, porque ela própria faz parte da comunidade. Não nasceu surda, mas perdeu a audição na adolescência e que conta que, por exemplo, quando ela está a ler um livro que retrata uma personagem surda, há situações estereotipadas e às vezes completamente incorretas, como achar-se que todas as pessoas surdas, por exemplo, conseguem ler os lábios. Isto não é verdade, mas é uma ideia feita e comumente reproduzida em personagens e em histórias.
Ou seja, Joana, por aquilo que estás a explicar, isto são sobretudo questões ligadas à raça, gênero, pessoas com deficiência. É por aí que andam as fronteiras da sensibilidade?
Não são só estas questões, na verdade, mas uma vez que são assuntos que estão no debate público, no caso de questões raciais, por exemplo, desde o movimento Black Lives Matter, obviamente, estas questões estão muito mais presentes no debate público. Portanto, é natural que quando falamos da leitura de sensibilidade, estas são as questões que nós usamos como exemplo.
Mas isso aplica-se a toda a literatura? Ou melhor, isso aplica-se a clássicos e modernos, a clássicos e contemporâneos, ou é só mais para contemporâneos?
É curioso, porque foi isso que nós percebemos ao conversar com alguns leitores de sensibilidade e com editores e grupos editoriais que já recorrem a estes serviços. Que sim, por um lado, há casos de editoras que estão a recorrer a leitores de sensibilidade para rever obras clássicas, como da Agatha Christie ou do Ian Fleming, e a rasura e a reescrita destes clássicos deixa muita gente a ferver. É normal que estes casos sejam os mais visíveis, mas na verdade, aquilo que nós percebemos foi que o grosso da atividade destes profissionais é na produção contemporânea.
Joana, isso é mais um sinal de que uma certa hipersensibilidade vai ganhando cada vez mais terreno no mundo artístico, naquilo que consumimos, quer na literatura, nos filmes, até na música.
Pode ser visto dessa forma. Aquilo que os leitores de sensibilidade alegam é que aquilo que fazem, na verdade, tem muito pouco de censório, porque a censura não é propriamente facultativa e o que eles fazem, dizem eles que se limita a ser sugestivo, ou seja, eles fazem sugestões aos escritores que decidem depois se querem utilizar a versão.
São consultores?
Quase como isso, na verdade, porque se pensarmos em séries históricas, por exemplo, é evidente que há sempre um consultor histórico na produção. Portanto, aqui o que alegam é que o seu trabalho é um bocadinho equiparado a isso, até porque de forma prática, aquilo que nós percebemos e que evidenciamos na reportagem do Observador, é que raramente estes leitores de sensibilidade atuam sobre o texto propriamente dito, ou seja, eles não rasuram o texto. Eles fazem um documento à parte, grande parte deles, em que fazem anotações e recomendações sobre como explorar determinadas temáticas de outra forma.
Já voltamos à conversa com a jornalista da secção de cultura do Observador, Joana Moreira. Sim, já há leitores de sensibilidade por cá e vamos saber quem são.
Pop Up.
O programa de cultura pop da Rádio Observador, que olha para o presente, tem dias em que aposta no futuro, mas também aprecia bastante olhar para o passado.
Com Maria Ramos Silva. Aquelas séries curtinhas de 20 e tal minutos, 30. Aquilo era tudo muito ao osso e tu numa noite, sem crer, podias ver dois a três episódios. Bruno Vieira Amaral.
É para dar já a minha opinião?
Pedro Buxerri Mendes.
É mais uma série em que eles estão no fundo do robe, tem umas espadas, há uns venenos, há uns feiticeiros.
E Tiago Pereira.
Se calhar muita gente agora de repente quer mudar de estação. Não façam isso, por favor.
Pop Up. Às quintas-feiras depois do meio-dia na Rádio Observador e sempre em podcast.
Estamos de regresso à conversa com a jornalista da secção de cultura do Observador, Joana Moreira. Joana, estivemos a falar essencialmente de editores, ou seja, das preocupações de quem edita livros, de quem tem um negócio e quer vender livros e por isso quer chegar ao maior público possível. E os autores? Na parte da criação, já há aí uma preocupação com as sensibilidades também?
Absolutamente. Um dos casos mais flagrantes é o do autor Irvine Welsh, autor do famoso "Trainspotting", que para o seu último livro, "The Long Knives", que não está publicado em Portugal, recorreu a um leitor de sensibilidade por incluir personagens trans na história. Ora, sendo ele um homem cisgénero, ou seja, que se identifica com o gênero que lhe foi dado à nascença, procurou um leitor de sensibilidade que fosse especialista em questões trans, para não cair em estereótipos, e no fundo, conhecer mais profundamente quem está a tentar retratar na sua história.
Mas aí, Joana, somos postos naquela encruzilhada, que é saber até que ponto essa consulta é uma consulta a um consultor que nos diz: "Não faz sentido dizer isto, porque na realidade isto não acontece", ou alguém que nos molda a criatividade, ou seja, que nos encaminha a criatividade para um certo ponto. Como é que se descalça esta bota?
É curioso, porque o próprio autor relatou esta história no Twitter. Ele era bastante cético relativamente à utilização de leitor de sensibilidade. A conclusão dele é que foi um processo magnífico e que ele acha que o livro ficou infinitamente melhor. Que é uma forma de condicionar a criatividade, será certamente um argumento sempre dos críticos deste tipo de profissão.
Porque imagina que alguém quer descrever uma pessoa, a criatividade não tem limites, em que no lugar dos braços tem as pernas e no lugar das pernas tem os braços. Um leitor de sensibilidade dirá: "Atenção que isso assim não pode ser, porque pode ofender alguém", ou não?
Depende. Esse leitor de sensibilidade seria especialista em exatamente o quê? Em biologia?
Em qualquer coisa dessas, por exemplo.
Por exemplo, sim, é uma crítica possível.
Mas era possível que isso acontecesse.
Era possível que acontecesse, claro.
E depois ainda temos o lugar de fala. Joana Moreira, o que é isso do lugar de fala?
Essa é uma questão pertinente, porque na verdade, um leitor de sensibilidade pode ser utilizado para contornar o lugar de fala, que genericamente procura chamar a atenção para o facto de só uma pessoa numa determinada condição, por exemplo, só uma pessoa negra vai saber falar da sua condição, porque esse é o seu lugar, o lugar de quem sofre racismo, ou uma mulher falar sobre feminismo, porque é apenas ela que sente na pele aquilo que é discriminação de gênero. E toda esta questão do lugar de fala disseminou-se nos últimos anos para reivindicar a representação de determinados grupos no discurso do espaço público e dar-lhes legitimidade. Agora, como é que isto se liga com os leitores de sensibilidade? Liga-se na medida em que muitas vezes os autores não partilham do lugar de fala das suas personagens. Ou seja, um homem cisgénero pode escrever sobre uma mulher trans, por exemplo, mas recorrendo a um leitor de sensibilidade, pode ser uma forma de garantir que há maior fidelidade na descrição de uma realidade que ele na verdade desconhece. Aliás, essa é a principal crítica que é feita ao Afonso Reis Cabral, relativamente ao Pão de Açúcar.
Já agora, relembra-nos um pouco do que foi essa polêmica com o livro do Afonso Reis Cabral.
Sim, o caso do livro do Afonso Reis Cabral. O autor foi para o Facebook falar sobre o facto de uma editora norte-americana ter recusado publicar uma das suas obras, nomeadamente a Pão de Açúcar, por não terem encontrado nenhum leitor de sensibilidade em português que pudesse aferir se de facto havia sensibilidade no tratamento desta personagem, que não partilha lugar de fala com o Afonso, que é um homem cisgénero, e a editora norte-americana não terá encontrado ninguém que estivesse disponível para o fazer em português, para aferir essa sensibilidade. Agora que leram a reportagem do Observador, que fala da existência do leitor de sensibilidade em Portugal, certamente já saberam que eles existem.
Mas Joana, dezenas de perguntas e não temos tempo neste episódio da História do Dia para ir a todas, mas temos que rasgar o Shakespeare, por exemplo? Ele escreve personagens masculinas, femininas, quer dizer, com superior mestria, não é?
Sim, aquilo que nós verificamos ao fazer esta reportagem e das pessoas com quem falamos, é que de facto a rasura dos clássicos é algo que está bastante em algum consenso nos editores em Portugal. Há muita cautela.
Por cá.
Por cá, precisamente. Os editores são muito cautelosos nesta matéria. Por enquanto, aquilo que verificamos mais da utilização dos leitores de sensibilidade é em obras contemporâneas.
E já temos leitores de sensibilidade em Portugal. Quem são eles?
É um universo muito difícil de quantificar, porque não há nenhum diretório, nenhumas páginas amarelas.
Não dá para procurar no Google.
Não dá, de todo. Nem sequer constam na ficha técnica das editoras. É um serviço que só mesmo questionando diretamente os grupos editoriais. Aliás, é graças às editoras que se disponibilizaram a responder às questões d'O Observador é que conseguimos encontrar alguns profissionais. Na reportagem publicada, falamos, por exemplo, com a Helga Fontes, que tem um currículo ligado à edição e estudos pós-coloniais e que faz leitura de sensibilidade, sobretudo sobre temas de gênero e questões raciais.
Mas sabemos quanto ganham por cada livro? Como é que é essa relação profissional? Vivem disto? Como é que é?
Não sabemos. Muitos deles acumulam trabalhos de revisão e de edição e, portanto, daí poderemos depreender que possam ter tarifas semelhantes ao caráter, à palavra, mas na verdade, não sabemos. Sabemos, sim, que é ainda uma indústria relativamente pequena e um serviço oferecido essencialmente por freelancers e pequenas agências.
E há exemplos de alterações feitas na sequência do trabalho desses leitores de sensibilidade por cá, em Portugal?
Nenhuma alteração é pública, porque estes são processos internos nas editoras, é uma prática muito discreta. Aliás, nós só soubemos que isso estava a acontecer porque questionámos diretamente as editoras, porque isso não é público. Temos um caso interessante, por exemplo, que é o caso da Penguin em Portugal, que já está a utilizar leitor de sensibilidade no caso de conteúdos originais contemporâneos, mas que admite sérias reservas em fazê-lo em obras que foram publicadas em contextos e em tempos radicalmente diferentes.
E cá usou em que contexto?
Cá já foi utilizado, por exemplo, no caso de um livro que é sobre biografias de pessoas negras que marcaram a história. E houve uma série de leitores de sensibilidades especializados no tema que reviram a obra.
Uma questão de raça, podemos dizer assim. E é para ver se não há ali nenhuma palavra maldita ou nenhuma frase que possa, neste caso, maldita não, mas mal escrita, neste caso também será maldita, mas que possa ferir a sensibilidade de um leitor, é isso? E é alterado nesse sentido.
Precisamente. E a verdade é que a preocupação com a linguagem não é um fenômeno exclusivo da literatura, se nós pensarmos bem sobre isso. Nós próprios, jornalistas, cidadãos no geral, estamos cada vez mais atentos e sensíveis à forma como nos comunicamos e dirigimos aos outros.
Sim, sempre estivemos, mas estamos mais. Isso é uma deixa perfeita para a próxima pergunta que tenho para ti, Joana. Isto é um caminho sem retorno, não é? Fica esta sensação de que isto não será uma moda passageira, ou é?
Na verdade, não sabemos. Nós, como dizia há pouco, estamos cada vez mais preocupados com a linguagem. Por cá, e foi aquilo que concluímos ao fazer esta reportagem, é que os editores portugueses são bastante cautelosos e, por agora, a utilização é episódica, como bem disseste, é pontual. Mas lá fora não faltam leitores de sensibilidade e basta uma pesquisa no Google para perceber isso. Portanto, se eu tivesse que apostar, diria que é uma questão de tempo até que o fenômeno ganhe mais expressão em Portugal.
E se hoje estamos em questões de raça, de gênero, enfim, podemos acreditar que isso poderá evoluir para outras questões? Ou seja, já percebeste, não é? Estou muito preocupado com a questão da criatividade e da liberdade artística. Até que ponto é que isto pode condicionar a criação artística?
Essa será sempre a crítica feita.
Há sempre pessoas ofendidas com tudo, não é?
É verdade, mas se nós pensarmos, não há grandes limites à criação artística. Agora, estamos em 2023 e é inevitável que o mercado vá responder e os consumidores também têm determinado tipo de exigências. Portanto, um artista será livre de escrever o livro que entender. Agora, estará do lado da editora, que é uma empresa privada, decidir se edita ou não a obra, e do leitor, se quer ou não comprar a obra que representa alguém de uma determinada forma. É o mercado a responder.
Obrigado, Joana.
Obrigada, Ricardo.
Joana Moreira é jornalista da seção de cultura d'O Observador e é autora de um especial, que vale a pena ler, sobre este tema dos leitores de sensibilidade. E para quem nos ouve na aplicação do Spotify, e atenção, só funciona na app do Spotify, deixamos uma pergunta: concorda com a existência de leitores de sensibilidade? E se gostou deste episódio da História do Dia, por que não partilhá-lo com amigos ou familiares? Para nós, essa partilha é mesmo muito importante. Esta foi a História do Dia e este episódio contou com a colaboração da jornalista Maria Miguel Duarte, a sonoplastia do Artur Costa e a música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Até amanhã.