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Esta é a história do dia da Rádio Observador. Um ano depois da queda de Bashar al-Assad, como está a Síria?

"The Assembly will now hear an address by His Excellency Hamad al-Shara, President of the Syrian Arab Republic.

In the name of God, most compassionate, most merciful. The Syrian story is filled with emotions."

Há um ano, no dia 08 de dezembro de 2024, chegou ao fim a guerra civil na Síria, que durava há 13 anos e que pôs fim ao regime de Bashar al-Assad, que fugiu para a Rússia. O momento foi festejado nas ruas do país. O novo presidente, líder de um dos movimentos rebeldes que lutou contra o regime, Ahmed al-Sharaa, prometeu democratizar o país. Em setembro, foi o primeiro líder sírio a discursar numa Assembleia-Geral das Nações Unidas em seis décadas. Foram retomados laços diplomáticos e levantadas algumas sanções, mas ainda há um longo caminho na reconstrução do país, que enfrenta uma das piores crises humanitárias do mundo. A maior parte da população vive abaixo do limiar da pobreza. Os jornalistas Cátia Bruno e João Porfírio são os enviados especiais do Observador à Síria, na altura em que se assinala um ano desde o fim da guerra civil. É com eles que vou falar sobre o estado do país, as expectativas das pessoas e a realidade no terreno. Eu sou a Teresa Abecasis e esta é a história do dia de terça-feira, 09 de dezembro. Cátia Bruno, João Porfírio, bem-vindos.

Olá, Teresa.

Viva, Teresa.

Vocês estão a fazer uma série de reportagens pelo país que se libertou há um ano do regime de Bashar al-Assad, mas que ainda terá um longo caminho a percorrer até se poder dizer que é seguro e livre. Cátia, por onde têm andado e quais são as vossas impressões?

Nós começámos esta viagem atravessando a fronteira do Líbano para a Síria e o primeiro sítio onde parámos foi na cidade de Damasco, a capital. Depois seguimos para norte, em direção a Homs, e agora estamos em Alepo, que é ainda mais a norte. A primeira impressão que tivemos é, acho que é algo que qualquer pessoa diria assim que entrasse aqui, é que é um impacto muito grande quando se vê o nível de destruição do país. Embora em Damasco isso não seja tão visível, porque a capital esteve quase sempre controlada pelo regime e, portanto, os combates foram à volta nos subúrbios, quer em Homs, quer em Alepo, o nível de destruição é elevadíssimo e andamos em bairros inteiros onde não há uma casa intocada. As casas ou estão destruídas, a colapsar, ou há montes de entulho no chão no sítio onde já foi uma casa, ou então as fachadas estão cravejadas de marcas de balas. Portanto, eu acho que esse é o grande primeiro impacto e que não é possível uma pessoa não ser afetada por isso.

Eu estava a ver o primeiro trabalho que vocês publicaram aí, que está disponível no site do Observador, foi da cidade de Homs. João, o que impressiona nas tuas fotografias são mesmo as ruínas, as marcas dos tiros e os prédios destruídos. E no meio disso tudo, as pessoas tentam retomar alguma normalidade.

Sim, não há dúvida absolutamente nenhuma sobre isso. No meio de casas completamente destruídas, cravadas por balas ou até mesmo sem paredes ou sem tetos, as pessoas voltaram para as suas casas ou daquilo que restou das suas casas e ali tentam fazer a sua vida minimamente normal. As crianças vão à escola, brincam nas ruas, brincam numa das ruas principais dos bairros onde nós visitamos em Homs, uma rua que ficou conhecida como o Beco dos Snipers. Hoje, essa rua que tem este nome bastante assustador, se conseguirmos imaginar que ali todas as pessoas que saíam de suas casas para ir comprar comida, para tentar fugir da guerra, praticamente todas as pessoas que passaram por aquela rua foram mortas exatamente por snipers. Nessa mesma rua onde nós passamos, é impressionante ver a quantidade de comércio que começou a ressurgir ali naquela grande avenida principal desse bairro e a quantidade de crianças que nós víamos brincar no meio do entulho das casas que ficaram minimamente em pé. Também de realçar que muitas das pessoas estão a viver nessas casas precárias, que muitas vezes não têm uma ou duas paredes, ou mesmo teto. Nós entrámos em casas de pessoas que estão praticamente destruídas e mesmo assim as pessoas tentam fazer a sua vida normal nessas casas. Entrámos em casas onde as pessoas nos contaram que quando voltaram para suas casas, viram apenas escombros e é ali que hoje vivem famílias numerosas, muitas pessoas a viver na mesma casa. Uma das histórias que mais nos marcou, e que até tem grande destaque o artigo que publicámos esta noite, é a história de uma mulher que estava refugiada no Líbano e que soube da notícia da queda do regime de Bashar al-Assad no Líbano e quando voltou para sua casa, viu os destroços que restavam dessa mesma casa, mas mesmo assim quis permanecer ali e permanece até os dias de hoje ali com os seus filhos, as suas noras e os seus netos. Portanto, é uma história de sobrevivência inacreditável que tivemos o privilégio de contar. E essas histórias multiplicam-se por muitas pessoas com quem fomos falando ao longo de todo aquele dia.

Neste momento, ainda há muita insegurança na Síria Cátia, podes dizer-me quais são os principais riscos e como é que o atual regime tem lidado com isso?

Eu penso que o principal risco é o da violência sectária, até porque ele já se concretizou. Alguns grupos étnicos e religiosos a atacarem outros, precisamente pelo fato de as pessoas serem simplesmente de outro grupo étnico ou religioso. Mas este risco é particularmente agudo para os alauítas. Os alauítas são uma minoria muçulmana de uma corrente do xiismo que existe em muito poucos sítios, que existe aqui na Síria e ganhou particular relevância por ser a religião de Bashar al-Assad e do seu pai antes dele. Portanto, apesar do grupo corresponder a uma minoria, na altura em que a guerra começou, eram cerca de 12% da população, foi uma minoria que alcançou o poder e por isso os alauítas sempre foram vistos na Síria como um grupo privilegiado, um grupo que tinha acesso a melhores empregos, um grupo que era favorecido e à medida que a guerra foi avançando, foi visto como um grupo que perpetuou mais atrocidades na guerra, porque muitas vezes eram eles que ocupavam os grandes cargos militares ou o funcionalismo público, etc. Isso significa que agora que a guerra acabou, ao longo deste último ano, temos assistido a vários atos de vingança e de retaliação. Muitos sírios, sobretudo muçulmanos sunitas, que foram o grupo mais afetado pela repressão de Assad, que agora querem vingança. É um processo que acontece em todas as situações de pós-guerra e em todos os pós-revoluções e também está a acontecer aqui. Portanto, os alauítas são o grupo que está a ser mais afetado por isso, que acabam por ser atacados em uma espécie de pogroms nas ruas por alguns grupos armados, não se sabe exatamente que grupos, várias fações diferentes. Nós falámos com uma jovem alauíta que vive em Homs. Chamámos-lhe Sumar, porque ela não quer ser identificada precisamente pelo receio enorme que tem. E a Sumar explica que, para além de vários episódios que contou, de momentos em que houve violência nas ruas, em que o seu bairro foi fechado, em que homens armados entraram, mandavam toda a gente entrar em casa, as lojas fecharem, etc., e em que havia muito risco para quem tentasse sair à rua. Ela, para além disso, já enfrentou situações como a de um amigo que desapareceu e que se supõe que tenha sido morto num ato de vingança. Portanto, há muito receio por parte desta comunidade. Esse é, sem dúvida, o maior risco que o país vive neste momento, que é poder mergulhar numa espécie de novo banho de sangue, num ciclo de retaliação em reação ao que aconteceu durante a guerra. Depois, para além disso, há todos os riscos de qualquer país que se tenta reerguer depois de uma guerra, de um governo novo que tenta ser funcional e que não sabemos exatamente quão democrático vai ser. Esse ainda é um caminho que está a ser trilhado, mas a maior parte das pessoas aqui deposita muita esperança no novo governo. Há uma sensação de alívio tremenda pelo fim da guerra, há uma grande revolta contra Bashar al-Assad e, portanto, por oposição, toda a gente espera que o que vem depois é melhor. Talvez o governo de al-Sharaa esteja a ser inteligente na gestão disto, no sentido em que muitas pessoas já nos disseram, por exemplo: "O meu salário agora é muito mais alto". Isso talvez esteja a contribuir para haver aqui apoio popular a este novo regime.

Vocês hoje estão em Alepo, um dos principais campos de batalha durante a guerra civil. A cidade esteve cercada durante quatro anos. João, podes descrever-nos como é que encontraram Alepo?

Sim, Alepo, de facto, foi uma cidade mártir durante praticamente toda a guerra civil aqui na Síria. Entrar nesta cidade era aquilo que a Cátia dizia. É muito difícil nós entrarmos em qualquer cidade da Síria onde não se veja marca da guerra civil. Mas aqui em Alepo, essas marcas são substancialmente maiores e muito mais visíveis, uma vez que grande parte da destruição encontra-se no centro da cidade. Muitos dos edifícios do centro da cidade, muitas casas no centro da cidade estão completamente em ruínas, estão completamente destruídos. Sobreviveram apenas os escombros dessas casas, desses edifícios. Assim que começamos a sair do centro e começamos a afastar para os subúrbios, é que se percebe verdadeiramente o cerco que aconteceu aqui durante quatro anos em Alepo. Não há praticamente uma casa em pé, não há praticamente uma casa que não tenha paredes partidas, marcas de balas, milhares de marcas de balas cravadas no cimento das casas. E o que é mais impressionante é que as pessoas convivem com isso. Esta tarde nós estivemos junto ao castelo de Alepo, onde em redor de todo o castelo estava praticamente tudo destruído. Não havia um único edifício em pé, uma única casa que tenha sobrevivido ao cerco de Alepo. E as pessoas concentram-se nesse local, muito perto do castelo, para festejar a liberdade. Aí, nesse local, muitas pessoas estão com os seus filhos a brincar, que é uma zona muito ampla, muito direita, muito plana, quero eu dizer, e as pessoas concentram-se aí a brincar com os seus filhos, a jogar bola. Muitas crianças sempre com a bandeira síria na mão, muita venda ambulante, venda, por exemplo, de pipocas, de algodão doce. Portanto, isso contrasta verdadeiramente com aquilo que está a 10 metros de nós, que são edifícios completamente destruídos, contrasta verdadeiramente com crianças com balões na mão, crianças a comer algodão doce e os seus pais a tentarem trazer de volta a estas crianças uma vida normal.

Na altura em que a guerra civil rebentou, milhões de pessoas tiveram que fugir das suas casas e tornaram-se refugiadas internas ou noutros países vizinhos. Cátia, essas pessoas já estão a voltar?

Algumas estão, sim. Eu volto ao exemplo que o João falou no início da nossa conversa das casas que nós pudemos visitar de duas famílias que estavam completamente destruídas e onde eles se instalaram. Num dos casos, falávamos com o Abdullah, que tem 31 anos. Ele esteve em três campos de refugiados diferentes, todos dentro da Síria. Portanto, ele foi um deslocado interno ao longo da guerra inteira e foi saltando de lugar em lugar e regressou quando soube que a guerra tinha terminado e veio precisamente para a sua casa, apesar de ela estar completamente destruída. No caso da outra família, a família da Shadia, eles partiram quando a situação se tornou ainda pior naquele bairro, em Baba Amr, e foram para o Líbano, portanto, foram refugiados internacionais. Quando a guerra terminou, Shadia e a família também voltaram, voltaram para a mesma casa onde viviam. E é muito interessante, e para completar um pouco aquilo que o João contava, é que para além dessa destruição, a vida se vai fazendo normalmente. Uma prova disso é que, por exemplo, nós a certa altura estávamos no telhado de um dos prédios a ver completamente como estava furado, penetrado pelos mísseis que ali tinham caído, e estávamos lá a beber café num serviço de chá de porcelana, porque as pessoas querem manter essa normalidade e, portanto, querem manter dignidade, apesar de viverem nessas condições. Mas as histórias do Abdullah e da Shadia não são representativas do que se passa em todo o país. E os números mostram-nos isso. A guerra civil na Síria provocou cinco milhões de refugiados espalhados por todo o mundo. Desses cinco milhões, neste momento e um ano depois de ter terminado a guerra, só um milhão é que regressou à Síria. E em termos de deslocados internos, ou seja, de pessoas que tiveram de sair das suas casas e das suas cidades e foram para outros locais na Síria, havia 7,5 milhões, e agora, neste momento, só dois milhões desse grupo é que estão de novo nas suas terras. Portanto, ainda há muita gente por regressar. Mas muitas dessas pessoas talvez não queiram voltar, porque muitas delas refizeram as suas vidas, algumas no estrangeiro, arranjaram novos empregos, compraram casa e portanto, podem não ter um desejo de voltar para um país onde aquilo que encontram é a casa que tinham completamente destruída, onde não têm emprego. Nós estamos a falar de um país onde neste momento 90% das pessoas vivem abaixo do limiar da pobreza e, portanto, não podemos esperar que todos estes refugiados estejam a pensar em voltar e não sabemos se brevemente a Síria voltará a ter o número de população semelhante ao que tinha antes da guerra rebentar em 2011.

Como vocês disseram, neste momento, uma das principais questões é mesmo a reconstrução do país e há muita gente a precisar de ajuda. Mas no meio dos escombros que vocês já descreveram, essa reconstrução já é visível no terreno, João?

Vai sendo visível a conta-gotas. Muitas dessas pessoas que têm possibilidades financeiras, isso mesmo, estão a reconstruir a pouco e pouco as suas casas. O que é facto é que a prioridade do governo na reconstrução do país foi direcionada para as infraestruturas militares, infraestruturas escolares, infraestruturas de abastecimento de água e de eletricidade, e as casas estão a ficar por último. O novo governo assinou também vários acordos com organizações internacionais para ajudar nessa reconstrução. Exemplo de hoje mesmo, termos passado numa ponte de uma barragem em que essa ponte estava a ser reconstruída pela Cruz Vermelha. Por isso, são estas infraestruturas que o novo governo sírio destacou como prioritárias e as casas estão a ficar para último. As pessoas têm muito poucos apoios para a reconstrução das próprias casas. O que se vai vendo aqui ou ali são os próprios habitantes dessas mesmas casas que estão com as suas próprias mãos a tentar reconstruir ou reparar aquilo que restou das suas casas.

Obrigada, Cátia Bruno, João Porfírio. Vamos continuar a acompanhar os vossos trabalhos no site e na Rádio Observador. Bom trabalho por aí.

Obrigado.

Obrigada.

Cátia Bruno é editora de internacional do Observador. João Porfírio é o editor de fotografia. Ambos estão na Síria. Pode ver o trabalho deles no site do Observador. Esta foi a história do dia. No início deste episódio, escutamos o início da intervenção do presidente sírio na Assembleia Geral das Nações Unidas. A sonoplastia deste episódio é da Mariana Sousa Aguiar. A música do genérico é do João Ribeiro. Eu sou a Teresa de Cassis. Até amanhã.