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Esta é a história do dia da Rádio Observador: terá o Governo chegado tarde demais?

Estamos aqui para gerir a emergência com sentido de responsabilidade e com sentido de que ainda temos muitas tarefas para cumprir nos próximos dias.

Era hora de almoço de domingo. O primeiro-ministro fazia em direto uma comunicação ao país como não tinha feito até agora.

Que poderão mesmo chegar à necessidade de evacuação.

A avisar claramente a população para os riscos desta semana que agora começa, depois da destruição da semana passada. Luís Montenegro parecia ter aprendido qualquer coisa com a tragédia no centro do país, que era preciso uma comunicação solene, com imagens claras, uma explicação pormenorizada do risco que a população corre nas zonas mais perigosas. Era preciso elencar quais são os meios que vão ser acionados e, sobretudo, o que devem as pessoas fazer se as coisas correrem mal.

Devem respeitar, no tempo e no modo, as orientações das autoridades.

Luís Montenegro fez tudo isto no domingo, à hora do almoço, incluindo anunciar uma série de medidas para apoiar, mitigar, reconstruir. Isenções fiscais, moratórias, linhas de crédito, 2,5 mil milhões de euros para apoiar famílias e empresas e um estado de calamidade estendido até 8 de fevereiro.

Mas estamos aqui também com esperança e com confiança.

Mas estas palavras ditas em São Bento terão tido o eco desejado pelo governo? Terão chegado a tempo para surtir efeito, sobretudo numa zona onde foram afetadas não apenas as vidas de quem perdeu as casas, mas também empresas que ficaram literalmente no chão. Prejuízos incalculáveis, negócios e empregos que se perderam à velocidade com que o vento e a chuva derrubaram paredes e coberturas.

Nós vamos, mais uma vez, superar este momento. Nós vamos, mais uma vez, reerguer Portugal.

Eu vou falar com a Marina Ferreira, ela é jornalista do Observador e tem passado estes dias entre a Marinha Grande e Pombal a ouvir as histórias de quem procura esta esperança otimista de que falava Luís Montenegro no domingo, à hora do almoço. Eu sou o Pedro Benovides e esta é a história do dia de segunda-feira, 2 de fevereiro. Olá, Marina.

Olá, Pedro.

Deixa-me começar por te perguntar, depois desta declaração ao país do primeiro-ministro, onde houve vários anúncios para as famílias e para as empresas, tu que andaste estes dias pelo terreno a ver com os teus olhos e a ouvir as histórias das pessoas e das vidas que foram impactadas por esta tempestade, parece-te que esta declaração e estes anúncios vieram no tempo certo ou vieram tarde demais?

Aquilo que eu ouvi de todas as pessoas, tanto empresários como pessoas que tiveram danos nas casas, o que me transmitiram foi que se sentiram abandonadas nestes últimos dias e que o governo e as autoridades não estão a ser céleres na resolução de problemas. Problemas tão básicos como a desobstrução de estradas, com o entulho que caiu de algumas empresas, bem como na reposição de eletricidade e até de água em algumas zonas de Leiria e de Pombal.

Bem, sabemos que a destruição foi muita, portanto, havia muita gente a que acudir. Agora pedia que tu também me explicasses por onde é que andaste nestes dias. Não estamos a falar de aldeias remotas, estamos a falar até de centros urbanos e industriais com bastante dimensão.

Sim, na Marinha Grande, que tem várias zonas industriais e cuja indústria é focada principalmente nos moldes de plástico e também na produção de borracha, existem danos em quase todas as empresas que nós visitámos na sexta-feira, eu e o fotojornalista Francisco Romão Pereira. Vimos um pouco de tudo. Estruturas completamente arrancadas, estruturas que ainda estão instáveis, foi o caso de uma empresa de fabrico de borracha, em que o diretor basicamente admitiu que ainda havia a possibilidade dessa própria estrutura vir a cair nos próximos dias. Vimos tudo. Vimos ainda, na sexta-feira, árvores caídas nessas zonas industriais, juntamente com postes elétricos, um emaranhado de fios, de ramos de árvores, e não vimos, pelo menos na hora que chegámos, autoridades para resolver aquela situação, por exemplo, de árvore e de poste elétrico caído ali na zona industrial. Mais tarde à noite acabámos por encontrar algumas equipas de bombeiros que nos disseram que estavam a trabalhar ininterruptamente há vários dias e que estavam a tentar ir a todo o lado. Porém, neste momento, estavam a dar prioridade a zonas residenciais ali na Marinha Grande e isso também justifica um pouco o facto de a zona industrial ainda estar com bastante entulho, porque basicamente houve empresas cujo revestimento em chapa voou praticamente todo.

Nós temos falado do problema das casas, casas que ficaram sem telhado, algumas ficaram sem paredes, pessoas desalojadas. É um problema gravíssimo. E depois há este lado também que é aquele Para o qual tu estiveste a olhar com mais atenção, que é o tecido empresarial dessa zona sofreu danos, nalguns casos, irreparáveis.

Sim, por um lado, existe o dano na infraestrutura, nas chapas que voam, mas durante todos estes dias esteve a chover. O que acontece? Há máquinas que são hipersensíveis e que são sensíveis, por exemplo, à umidade e que estão a levar com a chuva e, à medida que o tempo passa, e não é tão fácil reparar e recolocar chapa, como por exemplo, é reparar um telhado, estas máquinas estão a ficar danificadas com o passar do tempo e não há propriamente meio, na grande maioria dos casos, pelo menos das empresas que nós vimos ali na Marinha Grande, de colocar um penso rápido para tentar estancar a situação. O dano vai continuar a aumentar à medida que o tempo passar e principalmente, tendo em conta a previsão.

Com esta chuva que se anuncia para esta semana. Quando te puseste ao terreno à procura de histórias, foi difícil encontrar empresas destruídas ou isso era visível logo aos primeiros passos?

Na Marinha Grande, bastou entrarmos na zona industrial e numa das zonas industriais não era possível encontrar uma única empresa que não tivesse danos. Algumas delas estavam completamente destruídas e nem sequer conseguimos encontrar pessoas com quem falar.

Quando dizes completamente destruídas, quer dizer o edifício todo no chão?

Sim, no chão, ou então apenas com os pilares e todo o seu interior a descoberto. Nestes casos, havia pessoas no local e depois mais à noite acabamos por encontrar uma empresa que é relativamente conhecida, a TJ Moldes, que tem ali um grande polo industrial noutra zona da Marinha Grande, que estava inacessível de um dos lados, devido à quantidade de entulho que voou da própria empresa, desde chapas ao próprio conteúdo dos pavilhões da empresa, misturado com árvores caídas e com postes elétricos caídos. Não era possível passar de maneira nenhuma.

Vocês conseguiram lá chegar ou não?

Conseguimos, porque fomos dar a volta à cidade da Marinha Grande e conseguimos aceder por outra via. Foi basicamente dar a volta e ir pelo lado contrário. E quem sinalizou essa obstrução, por exemplo, foi a própria empresa, porque estava com medo que alguém tivesse um acidente rodoviário no local. Não é uma zona de grande passagem, mas não deixa de ser uma via pública e não estava de maneira nenhuma sinalizada. Depois, à chegada a essa empresa, encontrámos uma vigília de trabalhadores que se juntam em turnos para fazer basicamente a vigia daquela empresa onde trabalham mais de 100 pessoas.

Para as pessoas não roubarem, não haver...?

Sim, basicamente o medo deles era que houvesse pilhagens durante a noite, principalmente, sendo que há algum do conteúdo, basicamente os despojos, digamos assim, que ainda são valiosos, tanto material metálico como as próprias peças das máquinas.

E estava tudo a céu aberto.

Sim, basicamente. Por exemplo, nessa empresa há uma imagem que é muito poderosa, que é um dos pavilhões, tem as paredes de cimento e chapa no teto. Uma das paredes de cimento simplesmente desapareceu, rebentou com a força da tempestade.

Não estamos a falar só de chapa ou de uma construção mais frágil, até o cimento não resistiu. Marina, eu sei que tu andaste por outras zonas, eu vou-te perguntar sobre isso e vou-te também perguntar sobre a forma como isso tudo impactou também a vida das pessoas dessa zona. Até já.

Até já.

Marina Ferreira, novamente à conversa comigo nesta história do dia. Para além desta passagem pela Marinha Grande, tu também estiveste depois pela zona de Pombal, certo?

Sim, exatamente. Estive na zona de Pombal, aqui já numa zona mais rural, basicamente na zona da divisão entre os concelhos de Pombal e de Leiria. Aqui também consegui encontrar, já não de uma forma tão centralizada, porque não existe propriamente um polo industrial, mas fiz a minha pesquisa e soube de casos de empresas que tinham sido muito afetadas em Pombal, especificamente, e na zona de Colmeias, por exemplo. Estive numa empresa de lacagem, que segundo o testemunho do presidente da Junta de Freguesia dessa localidade, ele tinha-me referido que essa empresa de lacagem simplesmente já não existia.

A empresa toda deixou de existir?

A estrutura voou praticamente na totalidade. Todo o conteúdo, todas as máquinas, os materiais que estavam a ser trabalhados e que estavam lá dentro, ou estavam espalhados pela rua e pelaquela pequena zona da empresa, e neste momento são puramente entulho. Nós vimos, os donos da empresa estavam naturalmente muito consternados e admitiram que a perda foi total.

Então o que eles vão fazer agora nesse caso?

Pois, neste momento ainda havia incerteza. Trabalhavam naquele local cerca de 15 pessoas, daquilo que a gerente da empresa me disse, e foi ainda com incerteza, mas a admitir já que não haverá grande solução. Eles têm seguro, têm outras empresas até na zona que foram igualmente afetadas, não tanto como aquela, mas realmente o que ela nos disse foi que tinha a esperança que pelo menos fosse possível colocar todos os trabalhadores que tinha a seu cargo no fundo de desemprego, portanto, pareceu-me uma admissão de que iriam entrar em insolvência.

E depois isso tem impacto também nas empresas aí à volta, imagino eu.

Sim, exatamente, tal como na Marinha Grande também se percebeu. Nós também percebemos que havia várias empresas que eram dependentes de outras, porque cada empresa faz um passo do molde de plástico, digamos assim, há a parte da injeção, daquilo que eu consegui perceber. Depois há a parte de fazer mesmo o próprio molde de plástico, que é vendido normalmente à indústria automóvel. E também aqui em Pombal percebi que ali naquele local, dessa tal empresa que praticamente desapareceu, haviam vários negócios que dependiam ali daquele serviço de lacagem, por exemplo.

Estamos a falar aqui de danos, imagino, incalculáveis, de perdas à conta desta tempestade. Eu sei que ainda por cima tu és aí dessa zona de Pombal, portanto eu presumo que isso também seja mais difícil quando se está a fazer reportagem, tendo aí uma ligação ao local afetado. Mas há alguma história, algumas histórias que queiras partilhar conosco que te tenham impressionado particularmente?

Sim, eu acho que há duas que eu posso partilhar. Uma delas aconteceu praticamente na minha aldeia. Aquela zona é conhecida também por ter várias casas de pessoas que emigraram, especialmente para França. E há muitas pessoas mais velhas que acabam a regressar depois para gozar a reforma em Portugal. Uma dessas pessoas, que tem 92 anos, uma senhora, basicamente estava incontactável desde quarta-feira. Incontactável para a filha, que vive em Lyon.

Em França, portanto.

Em França.

A filha tentava falar com ela ao telefone e não conseguia porque não havia comunicações.

Não só não conseguia falar com ela, como não conseguia falar com alguém que pudesse ir verificar se estava tudo bem ou que lhe desse a noção do que se tinha passado. Ela percebeu pelas notícias que tinha sido grave, mas não tinha como verificar, lá está, o estado de saúde da mãe, o estado de saúde da casa. Então o que ela acabou por fazer foi literalmente conduzir desde Lyon até Pombal para vir verificar se estava tudo bem.

Para Pombal, para ver in loco se a mãe estava bem.

Sim, isto também porque os bilhetes de avião, entretanto, aumentaram de preço significativamente. Isto foi um relato que eu tive por parte de duas pessoas que tentaram voltar de avião e que também viram uma romaria muito grande de carros com matrícula francesa, suíça e do Luxemburgo.

Em direção ao Furão.

Exatamente. Ou seja, o que dá a entender que realmente houve ali um fenómeno de pessoas.

Muitos familiares a não terem outra solução senão meterem-se à estrada e virem ver como é que estava.

Sim, e também para vir proteger as casas, porque a maioria dessas pessoas poupou vários anos e trabalhou vários anos para conseguir ter a casa cá em Portugal, tanto para passar férias como para depois gozar a reforma.

E mais, tens mais histórias?

Sim, também encontrei numa localidade que se chama Barracão, também pertence ao Conselho de Leiria, uma rua. Essa história eu não conhecia, não tinha feito pesquisa, nem tinha sido um relato, foi mesmo uma coisa que eu e o Francisco encontrámos enquanto estávamos a passar, porque basicamente a estrada estava muito obstruída com uma estrutura metálica, que voou, e então fomos ter com as pessoas e perguntar o que é que se tinha passado. E falámos com uma senhora que tinha o telhado completamente destruído, várias partes da casa também com vidros partidos, uma casa especialmente afetada. E ao lado dessa casa existia um armazém. Basicamente o que aconteceu foi que a estrutura de metal do armazém voou para a estrada e também contra a própria casa e os dois edifícios eram da mesma família. Então o que aconteceu ali foi que houve um dano de um dos edifícios em relação ao outro e também danos da tempestade na casa. Portanto, ali naquele caso, existe danos de uma fonte de rendimento daquela família, que alugava o armazém, cujo conteúdo também está praticamente todo destruído.

E quem alugava o armazém?

Quem alugava o armazém foi um homem com quem eu falei, um rapaz na casa dos 30 anos, que basicamente investiu as poupanças todas dele naquele local onde fazia algum trabalho de moldagem de peças de metal. Um trabalho muito específico e muito minucioso. Ele aprendeu a fazer o trabalho em fábricas em que trabalhava e decidiu investir ele próprio, porque percebeu que era uma área de produção que não estava suficientemente desenvolvida naquela região.

Investiu, arriscou e acabou-

E perdeu tudo.

A família que alugava esse armazém, que perdeu parte da casa e perdeu a sua fonte de rendimento, e quem alugou o armazém, que também tinha investido tudo nesse negócio e que também perdeu tudo. Marina.

Sim.

Obrigado por teres partilhado essas histórias. Bom trabalho para ti.

Obrigada, Pedro.

A Marina Ferreira é jornalista do Observador e está a publicar uma série de reportagens sobre os estragos que a tempestade deixou no tecido económico da zona centro e nas vidas que dele dependem. Se costuma seguir a história do dia, sabe que terminamos sempre com uma chamada de atenção para algumas das principais notícias deste dia, mas hoje vamos fazer uma coisa diferente. Como ouviu pelo relato da Marina, há muita gente a precisar de ajuda, da nossa ajuda. Várias famílias do distrito de Leiria continuam sem eletricidade, sem água, sem comunicações. É preciso bens alimentares que não se estraguem, é preciso água, comida de bebê, fraldas, é preciso produtos de higiene e é preciso materiais de construção, lonas e plásticos para tapar coberturas e telhados destruídos pelo mau tempo. Há várias associações a organizar ajuda, da Cruz Vermelha à Caritas, por exemplo. As autarquias e as empresas de várias zonas do país estão a fazer o mesmo. Se puder, ajude, até porque esta semana que hoje começa vai provavelmente dificultar ainda mais aquilo que já está muito difícil. Esta foi a história do dia, a sonoplastia do João Tição, a música do genérico do João Ribeiro. Eu sou o Pedro Benevides. Até amanhã.