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Esta é a história do dia da Rádio Observador: Ursula von der Leyen é aposta na estabilidade?
Here is the result of the vote. Members voting: 707. Majority of component members: 360. Votes in favor: 401.
Roberta Metsola, a presidente do Parlamento Europeu, pouco depois da 13h desta quinta-feira, anunciava o resultado da votação. Para alívio de muitos, Ursula von der Leyen foi reeleita como presidente da Comissão Europeia e fica mais cinco anos. 401 votos a favor, em 707 votantes, 284 contra. Na semana das grandes decisões na União Europeia, fica, afinal, quase tudo na mesma ou não? Vou conversar com Rui Pedro Antunes, editor de política do Observador, que esteve esta semana em Estrasburgo. Eu sou o Ricardo Conceição e esta é a história do dia, de sexta-feira, 19 de julho. Bem-vindo, Rui Pedro. Onde é que tu andas com esse barulho todo?
Olha, Ricardo, estou no aeroporto de Estrasburgo. Tinha já o voo marcado e era ali à conta para se corresse bem a eleição de Ursula von der Leyen, daria ainda para acompanhar todo o processo e foi isso que aconteceu. Como foi tudo rápido e dentro do tempo, deu para fazer o acompanhamento para o Observador e para a Rádio Observador da eleição de Ursula von der Leyen e conseguir aqui apanhar o voo, pelo menos espero eu, ainda não chegou, mas estou aqui em trânsito.
Vamos ter então uma história do dia gravada na tarde de quinta-feira com o Rui Pedro Antunes à beira de entrar num avião. Ursula von der Leyen foi reeleita, mas até o fim, Rui Pedro, persistiam dúvidas sobre o resultado.
Sim, ao longo dos últimos cinco anos, acabou por colecionar alguns inimigos e alguns anticorpos em várias bancadas, até na própria bancada do PPE. Havia pessoas que não gostavam dela e apesar do compromisso das maiores famílias, principalmente a direita europeia do PPE, os socialistas europeus e os liberais, apesar dessa garantia, na verdade, havia uma incerteza muito grande, porque o voto era secreto. E, portanto, além disso, até o fim, tanto socialistas como liberais tentaram ao máximo tirar partido dessa obrigatoriedade do nome de Ursula von der Leyen passar no Parlamento e tentar conquistar lugares em comissões, por exemplo, tentar meter em cima da mesa o mandato da presidência do Parlamento Europeu repartido, tudo para, no fundo, conseguir tirar ganhos políticos, mesmo depois do acordo já ter sido fechado no Conselho por estas famílias políticas.
E chegou a ter, desta vez, mais votos do que em 2019. Agora, isso quer dizer que Ursula von der Leyen acaba por sair reforçada depois destas dúvidas e desta eleição?
Eu creio que sai reforçada. Ela própria reconheceu que há cinco anos tinha estado apenas oito votos acima daquilo que era a maioria absoluta que é necessária. E desta vez foram 41 votos acima. Eu creio que o próprio medo de não conseguir ser eleita levou a diversificar e a tentar criar alguma rede para fora das famílias políticas que já estavam à partida garantidas, ter ali mais algum apoio e por isso conseguiu mais esse apoio. Na conferência de imprensa a que assistimos no Parlamento Europeu, a própria Ursula von der Leyen fez referência a isso, que agora estava mais reforçada. O que é curioso é que percebe-se pelos votos que provavelmente as três famílias poderiam não ter sido suficientes, porque a família política dos Verdes deve ter votado massivamente. O voto é secreto, nós não sabemos, mas a própria Ursula von der Leyen assumiu isso, que a família política dos Verdes, que são 45, votou massivamente em Ursula von der Leyen. Portanto, caso tenham votado todos, era a prova que se calhar as famílias políticas não chegavam.
E durante a campanha, se podemos chamar assim, para a reeleição, Ursula von der Leyen falou com praticamente todos os grupos do Parlamento Europeu, isso até lhe provocou algumas críticas. Meloni, por exemplo, terá sido decisiva?
Lá está, no caso dos Verdes terem sido, como o voto é secreto, nós estamos sempre naquela dúvida, mas a própria Ursula von der Leyen admite que podem ter sido os Verdes a dar-lhe pelo menos esta distância tão grande. Os conservadores, o grupo de Giorgia Meloni, ou o que sobrou dele, mesmo assim é um grupo grande, depois da saída de alguns partidos para o novo Patriotas da Europa, não terá votado o grupo, porque senão os números seriam mais expressivos. Ou seja, o que se percebe e a copresidente da bancada parlamentar dos conservadores tinha dito que dependia do national interests, ou seja, cada grupo, conforme o país a que pertencia, poderia votar ou não em von der Leyen. Isso parecia-me, na altura, que era para legitimar que os Fratelli d'Italia, os Irmãos de Itália de Giorgia Meloni, que têm 24 eurodeputados, pudessem votar em Ursula von der Leyen. Não sabemos se votaram ou não, como o voto é secreto, mas à partida ficou um bocadinho a sensação que os conservadores faltaram à chamada e não votaram, mesmo com essa aproximação a Giorgia Meloni, não ajudaram a eleger Ursula von der Leyen.
Já que estamos aqui a falar de Giorgia Meloni, deixa-me fazer aqui um parêntesis que parece que cada vez tem mais poder e influência no contexto europeu, ou isto é uma perceção errada?
Não, eu creio que a Giorgia Meloni tem aqui uma vantagem, que é: ela está fora da cerca sanitária que as instituições europeias e que o eixo europeísta faz, por exemplo, aos Patriotas da Europa e com o muito reduzido grupo da Europa das Nações Soberanas, onde só está praticamente a AFD, que era o antigo ID, e portanto, isso dá-lhe alguma margem. E depois é preciso não ignorar uma questão, por exemplo, muita gente criticou Ursula von der Leyen por começar a negociar com Giorgia Meloni, por exemplo, o comissário italiano. Mas a Itália é um país grande da União Europeia, naturalmente que tem que ter peso. E o que ficou muito bem definido para as pessoas do PPE é que Ursula von der Leyen devia negociar com Giorgia Meloni como primeira-ministra de Itália e não como a líder espiritual e de fato dos conservadores. E, portanto, eu acho que nessa matéria, a Giorgia Meloni vai conseguir, naturalmente, certamente o comissário que queria e terá sempre uma palavra a dizer. Não é ao caso que Emmanuel Macron e outros foram decisivos, e Pedro Sánchez, etc. Tentaram ainda, depois do acordo, falar com Giorgia Meloni. Até creio que na altura foi noticiado que ela não lhes atendeu o telefone, mas esse grupo tentou ligar para a Giorgia Meloni, que claro, tem esse peso e não está dentro dessa cerca sanitária, permitindo que possa ter uma palavra a nível europeu.
Já voltamos à conversa com Rui Pedro Antunes, editor de política do Observador. Depois desta semana, será que fica tudo na mesma na União Europeia? Estamos de regresso à conversa com Rui Pedro Antunes, editor de política do Observador, que no momento que estamos a gravar esta conversa está no aeroporto, em Estrasburgo. Rui Pedro, voltando a Ursula von der Leyen, quais vão ser as linhas mestras deste novo mandato?
Pelo discurso que Ursula von der Leyen fez, ficou bastante claro que ia continuar a ter como prioridades o apoio à Ucrânia, ou seja, de alguma forma, pelo tempo que a Ucrânia precisar, contará com a União Europeia. Portanto, isso é uma garantia que já tinha sido dada pelo Parlamento Europeu e agora pela nova presidente da Comissão, de que esse é o caminho da União Europeia. Portanto, há aqui uma confrontação direta com Vladimir Putin. Ainda do ponto de vista político, parece-me que vai fazer e vai tentar também criar essa tal cerca sanitária, um tampão de segurança, um muro entre os europeístas e aqueles que são os populistas, eurocéticos, eurozangados, como por exemplo, os Patriotas da Europa. Ela foi muito dura, por exemplo, com o Viktor Orbán e com o fato de ele ter ido a Moscovo.
This so-called peace mission was nothing but an appeasement mission. This was a plain appeasement mission.
Aliás, isto está tudo interligado, naturalmente. Além disso, uma Europa de reforço da segurança e da defesa continua a ser fundamental. Ela própria fala numa espécie de um escudo aéreo. Fala-se muito no escudo que Israel tem do ponto de vista de defesa antiaérea. Ela defende que haja um escudo antimíssil do gênero na Europa. E, portanto, isso foi um discurso muito virado para a defesa. Ela percebe dessas matérias. Foi ministra da Defesa no governo de Angela Merkel e, portanto, teve como uma das prioridades toda esta matéria da segurança e da defesa. Depois, eu diria que ela tentou, não deixou de ser um statement eleitoral, porque ela prometeu dar prioridade à habitação e até ter um comissário para a habitação, mas isso era para ir ao encontro do que queriam os socialistas. Depois, toda a parte ecológica e do pacto ecológico foi no sentido de procurar o tal voto dos Verdes que falávamos há pouco. Para dentro, para o PPE e para aqueles que têm dúvidas da imigração, e até para os conservadores, disse que queria reforçar o Frontex e reforçar também a Europol, aí já era matéria não de imigração, mas de segurança. E, portanto, são prioridades que também têm muito a ver com o momento político que vivemos. E deixe-me só dar mais um destaque, Ricardo, que já me estou a estender em todas essas prioridades da Ursula von der Leyen, que é: ela deu a entender que vai ser difícil as eleições que vão ocorrer no mundo. Obviamente que ela está se a referir às eleições nos Estados Unidos e defende que a Europa se prepare para isso a vários níveis, ou seja, que seja autossuficiente, que produza mesmo do ponto de vista da indústria de defesa e que se consiga defender, obviamente sempre coordenado com os aliados, e diz que fala com todos, independentemente de quem seja o presidente desses países aliados, mas na verdade, deixou esse alerta já a pensar, claro, nas eleições presidenciais norte-americanas de novembro.
Mas em relação à Ucrânia e ao setor da defesa, que são matérias fundamentais para os próximos anos, aí podemos esperar uma continuidade daquilo que tem sido a atuação da von der Leyen e também da União Europeia.
Continuidade absoluta. Ela, aliás, quando fez um resumo na intervenção inicial dos cinco anos de mandato, disse que um dos momentos mais marcantes foi quando o Volodymyr Zelensky esteve no Parlamento Europeu a discursar e a maneira como isso foi emocionante. Portanto, há toda aqui uma estratégia de afronta à Rússia e de defesa incondicional da Ucrânia e também nessa matéria, para não ficar só como uma promessa vã, como nós estamos habituados a ter a Turquia há vários anos, para não dizer décadas, à espera como país candidato, Ursula von der Leyen diz que para haver alargamentos à Ucrânia, aos Balcãs Ocidentais, etc, é preciso mexer nos tratados e é preciso começar a preparar a União Europeia para isso. Portanto, ela sabe que ainda estes cinco anos tem que fazer esse caminho. Eu diria que muito difícil que seja nesses cinco anos que a Ucrânia vá aderir à União Europeia, mas as promessas estão lá todas.
E agora, Rui Pedro Antunes, o que é que se segue?
Agora, a Ursula von der Leyen vai enviar uma carta para os vários países, no caso português, por exemplo, é para Luís Montenegro, a pedir que indiquem o nome de dois comissários. Ela é uma espécie de primeira-ministra da União Europeia, com as devidas distâncias, e vai começar a formar o seu governo. E vai pedir, como fez há cinco anos, numa lógica de igualdade, que cada país indique um homem e uma mulher. E ela, depois, terá uma palavra muito forte a dizer sobre essa escolha, fará entrevistas. Roberta Metsola também avisou que o próprio Parlamento Europeu vai ter todo aquele processo do vetting e do escrutínio e vai utilizá-lo, e vai ser um escrutinador dessa matéria. Mas o passo seguinte é este, a Ursula von der Leyen vai começar a construir a sua equipa e naturalmente que há a expectativa, por exemplo, para saber qual é o comissário português e qual é o peso da pasta, que não se espera que seja uma pasta muito forte para Portugal. Já houve várias vitórias diplomáticas, até o presidente do Conselho que, deixa-me dizer, Ricardo, não sei se me ias perguntar sobre isso também.
Ia precisamente, sim.
António Costa pode respirar de alívio, parece-me que agora é que o acordo já não é rasgado de maneira nenhuma. Só falta um top job, quer dizer, na verdade, falta nomear definitivamente Kaja Kallas como alta representante, mas é por uma razão: o alto representante para a política externa da União Europeia é um comissário dos negócios estrangeiros. Só quando Ursula von der Leyen formar a sua equipa é que formalmente a primeira-ministra da Estónia entra em funções nesse cargo, que ficou para os liberais. E o acordo dos top jobs foi cumprido e António Costa, de facto, vai ser o próximo presidente do Conselho Europeu. Não estou a ver nada que possa travar isso. Isto era o último obstáculo a que isso acontecesse.
Então, Rui Pedro, neste momento em que ainda não conhecemos os novos comissários europeus, podemos dizer que a única grande novidade é António Costa. Isto não é um pouquinho baralhar para ficar tudo na mesma?
Sim, na verdade, como a nova comissão só começa no último trimestre a funcionar, algures entre outubro e novembro, isso faz com que haja agora algum tempo para os países se organizarem. No passado, nós tivemos situações em que para Portugal ter uma pasta mais forte, foi exigido que fosse uma mulher em troca e portanto há várias negociações paralelas. Claro que já se falam em alguns nomes, eu poderia atirar aqui alguns para o ar sobre quem podem ser os comissários. Falou-se em Miguel Poiares Maduro, em Maria Luís Albuquerque, no caso de ser uma mulher. No passado, já ouvi nos bastidores que o próprio ministro da Agricultura, se a pasta fosse essa, José Manuel Fernandes, que é o consultor das matérias europeias, também podia ser uma hipótese. Enfim, há toda uma série de possibilidades. Sabemos é que vai ser da área política da AD, do PSD, porque normalmente é quem está no governo. Normalmente não, é sempre quem está no governo que escolhe o comissário e, por maioria de razão, escolhe da sua cor política.
Rui Pedro, e com Donald Trump a caminho do número 1600 da Avenida Pensilvânia em Washington, é a morada oficial da Casa Branca, com Putin em Moscovo, Modi em Nova Deli, Xi Jinping em Pequim, Ursula von der Leyen em Bruxelas é a pessoa certa para lidar com a atual situação internacional?
Sim, quer dizer, a postura há de ser sempre a de uma moderada, daquilo que estamos habituados. Na defesa dos tais valores europeus e também num esforço para que haja um diálogo multilateral. Agora, esta composição dos cargos, temos que dizer que não é nada amiga de Vladimir Putin. Aí há um posicionamento claro da Europa de ser uma barreira para a Rússia. E nós não podemos esquecer que muitas vezes, independentemente do peso e da presença destes líderes europeus, por exemplo, nas cimeiras do G7 e em outras, na verdade, depois os Estados membros têm um peso muito grande e obviamente que o eixo franco-alemão, Emmanuel Macron e Olaf Scholz, neste caso, terão sempre uma palavra também a dizer nos destinos da Europa, não dependerá só dela. O próprio António Costa pode dar um contributo para a tal negociação e para às vezes juntar pontos que estão distantes, já que ele de facto tem esses pergaminhos e está aqui feita uma boa dupla, ou uma tripla, se colocarmos aqui também a alta representante para a política externa da União Europeia.
Obrigado, Rui Pedro, e boa viagem.
Obrigado, Ricardo. A ver se não perco o voo.
Até já. Rui Pedro Antunes é editor de política do Observador. Esta foi a História do Dia. A sonoplastia é do Diogo Casinha, a música do genérico, do João Ribeiro. Eu sou o Ricardo Conceição. Bom fim de semana.