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Olá, Sérgio, muito bem-vindo. Esta é a História das Histórias. Eu sou o João Paulo Sacadura e em Viseu, o Jorge Adolfo Marques, historiador e professor, continua aqui com uma lista de homenagem de várias personalidades importantes de Viseu. Hoje vamos falar de uma Augusta e um Augusto, os dois, se tivermos tempo, Jorge. Vamos falar da Augusta Cruz e do Augusto Hilário. Vamos lá, bem-vindo.

Vamos juntar os dois Augustos. Os dois grandes. Augusta da Cruz, cantora lírica, e Augusto Hilário, fadista. Eles acabam por ser contemporâneos e dedicam-se a uma mesma arte, que é a arte do canto.

Exato.

Augusta Cruz nasceu em Viseu, na praça. Hoje há uma Rua Augusta Cruz. A praça hoje é a Praça de Dom Duarte, anteriormente Praça Luís de Camões, e na origem era só praça, porque era a única que existia em Viseu, era o centro da cidade.

E é onde está a estátua de Dom Duarte hoje em dia.

Onde está a estátua de Dom Duarte.

Ao lado da Sé.

Foi aí que nasceu a nossa Maria Augusta Correia da Cruz, em 1869. Ela era filha de António Coelho da Cruz e de Júlia Correia da Cruz. Era uma família burguesa da cidade, portanto eram pessoas com algumas posses à época. O pai era empregado de tesouraria no Conselho de Viseu. Tinha na família pessoas com formação acadêmica, nomeadamente acadêmica superior, médicos e ourives. Era uma classe urbana letrada com algumas posses. Ela desde muito cedo que manifestou o seu gosto pela música, pelo canto, e nomeadamente pelo canto lírico. Ela foi depois para Lisboa e em Lisboa teve aulas do mestre Arturo Pontechi, que era professor do conservatório. Ela vai ter essa formação em canto lírico. Tinha dotes importantes de canto, uma voz poderosa, uma voz que não era mediana, era uma voz importante, e isso vai ser reconhecido. A primeira vez que ela se apresentou ao grande público foi no Porto, numa festa de beneficência, com o papel de Síbel, na ópera "Fausto". Não era um papel fácil para alguém que estava a começar, que estava a dar os primeiros passos, mas as suas qualidades vocais foram tão reconhecidas que ela vai ter uma bolsa para ir estudar para Milão.

Boa.

Em 1889. E ela faz formação lá com o professor Giovanni, do conservatório em Milão. Depois dessa formação vai atuar no Theatro Garibaldi, em Pádua, representando o papel de Leonor na ópera "O Trovador". Depois percorreu várias cidades italianas, Milão, Roma, Pádua, Veneza. Em Veneza fez o papel de Julieta na ópera "Romeu e Julieta".

No Teatro La Fenice.

É uma artista que sai de Viseu e que vai para esses grandes palcos do canto italiano e na terra da ópera. Ou numa das terras da ópera, melhor dizendo. Em Portugal também atuou em Lisboa. Em 1899, foi um ano importante pra ela. Ela abandonou os palcos, casou com um senhor, Manuel da Costa Carneiro, que era um grande proprietário. Casou em Coimbra, na Igreja de Santa Cruz de Coimbra. Mas infelizmente faleceu muito pouco depois, em 1901. Muito jovem também, com 31 anos. Foi uma morte muito precoce.

Prematura.

Muito prematura. E a verdade é que a sua morte causou alguma comoção, sobretudo no meio artístico. Por quê? Porque de fato era uma voz bonita, poderosa.

Uma diva.

Encorpada. Exatamente. Que a vida desapareceu no momento em que até estava a começar a sua vida pessoal. Augusto Hilário, saltando agora pro outro Augusto.

Exatamente. Também cantor, mas de outro estilo.

Também cantor, nasceu em 1864, em Viseu. E nasceu num meio completamente diferente da Augusta Cruz.

Mais humilde.

Foi colocado na Roda de Viseu.

Dos expostos.

Na Roda dos Expostos. Uma família muito pobre e que acolhia as crianças. Para quem não sabe o que é a Roda, acolhia as crianças abandonadas.

As mães não poderiam cuidar, não tinham condição, não tinham posses.

Não tinham razões. Exato.

Eram deixados nos conventos.

Ele tinha mãe e pai. Ele nasceu no dia 7 de janeiro de 64. No dia 15 de janeiro foi batizado na Sé com o nome Lázaro Augusto. Lázaro Augusto.

Sim, só o Augusto é que ficou.

Lázaro Augusto. Mas ele mudou de nome quando fez o crisma para Augusto Hilário. Curioso.

Sim.

E foi com este nome que ele se tornou um fadista famoso até os nossos dias. Augusto Hilário era o filho mais velho de António da Costa Alves e de Ana de Jesus da Mota. Portanto, os pais eram conhecidos, eles colocaram-no lá porque não tinham.

Exatamente, não tinham podes.

E tinham outros irmãos. A infância e a adolescência dele foram passadas em Viseu. O pai tinha um botequim na Rua Nova. A Rua Nova era a antiga Rua da Judiaria, portanto, uma das ruas também centrais da cidade. Ele foi para Coimbra depois estudar em 1886, matriculou-se lá na universidade, em Medicina, mas também entrou pra escola naval. Mas ele foi pra Coimbra vivendo perto da universidade, na Rua Infante Dom Augusto, no Largo do Observatório, e depois na Travessa de São Pedro. Mas ele era um grande boêmio. Ele gostava era do fado.

Claro.

Mas de facto, ele era um virtuoso do fado. Augusta Cruz era uma virtuosa do canto lírico e este era um virtuoso do fado. Ele pertenceu à Tuna Académica da Universidade e notabilizou-se cantando poemas de António Nobre, de Teixeira de Pascoais, de Guerra Junqueiro. Portanto, ele notabilizou-se. Ele tinha um grande carisma e era um homem que, em 1895, quando foi homenageado o poeta João de Deus, no Teatro Dona Maria II, ele de improviso cantou e a plateia, como se costuma dizer, quase que vinha abaixo pela capacidade, a beleza do virtuosismo dele.

Incrível.

O famoso fado do Hilário há de ser cantado por António Menano, pela Amália Rodrigues, pela Maria Teresa Noronha. Nós já uma vez aqui também falámos do fado Hilário no fonógrafo.

Por causa que se podia ouvir o fonógrafo.

Que se podia ouvir o fado Hilário no fonógrafo, em Viseu, ali perto da casa dele, casa onde ele também vai falecer. Ele nasceu e faleceu na mesma casa, na casa da Rua Nova, hoje Rua Augusto Hilário, ali pertinho da Praça de Dom Duarte, com 32 anos. E ele faleceu também em resultado da vida boêmia que tinha tido em Coimbra. Pouco estudou, muito cantou, cantou e encantou, mas a verdade é que ele foi uma figura que também foi ceifada com 32 anos.

É incrível.

Há bocadinho disse que a Augusta foi com 31.

Exato.

Com 31.

Incrível. Trás dois grandes nomes, dois grandes vultos do canto, e os dois que prematuramente nos deixaram. Uma com 31 e o outro com 32. Incrível.

E ainda hoje, em Coimbra também há uma praça que é Augusto Hilário, mas ainda hoje os estudantes prestam homenagem a este visense de nome de nascimento Lázaro Augusto, que renasceu. Renasceu o Lázaro, mas que vai falecer muito cedo e prematuramente, mas que ficou pra história.

Ambos fizeram o suficiente pelas suas artes pra ficarem com esta fama destes artistas que foram, com este grande instrumento da voz que tinham. Muito bem, ficamos então com estas duas personalidades hoje. Jorge, eu sei que há mais amanhã, vamos marcar encontro pra falar de outras duas. Jorge Adolfo Marques, bem-hajas. Até amanhã.