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Olá e sejam muito bem-vindos. Esta é a História das Histórias. Eu chamo-me João Paulo Sacadura, estou aqui apenas para acolher o Alberto Correia, historiador e investigador das histórias e tradições da região Centro. Vai-nos falar de uma que era muito importante: o chapéu de feltro. O chapéu, que hoje caiu completamente em desuso, mas era uma tradição de que o Alberto se lembra bem. Vamos conversar um bocadinho sobre a volta do chapéu na sua aldeia. Vamos a isso, Alberto. Bem-vindo.

Os homens da aldeia onde eu nasci, além do Távora, já beira transmontana, começavam, no geral, a usar chapéu quando iam à vila à inspeção, que ninguém então chamava militar, que esse era também para os rapazes um ato de passagem, como depois viria a ser o casamento, quando o noivo se vestia de fato escuro com chapéu, cuja compra era então jeito de velho uso para o ato: oferta do padrinho. O chapéu de feltro nunca mais se largaria vida fora. Na festa ou no trabalho, na feira ou romaria onde recebia, dobrada a jeito, protegida pela fita, a estampa do santo festejado, nunca mais se largaria no inverno ou no estio. E a diferença que havia era usar um chapéu novo ou o chapéu de andar a cote do afã quotidiano. Até dentro de casa, até mesmo na cozinha de que o lavrador fazia pouso de nobreza, o lume aceso, a mesa posta tantas vezes, um homem ficava com a cabeça coberta com o chapéu e se alguém batia à porta de visita, respondia ao lavrador: "Entre, quem é?" E se o amigo, que agora estava feito, tirasse, por respeito, o seu próprio chapéu, vinha logo o dono com palavras de à vontade: "Cubra-se, que aqui não há santos". E mandava servir vinho, quando não partilhava com ele a refeição. O chapéu apenas se tirava na igreja e levava-se na mão quando se ia a enterro ou seguisse procissão. Tirava-se ao passar em lugar santo, frente ao pórtico de igreja ou de capela, junto ao cemitério e ao passar num caminho com alminhas ou cruzeiro alevantado. Tirava-se para saudar o senhor padre ou o doutor, ao dizer bom dia à senhora professora e, na feira, se respeito merecesse, tirava-se o chapéu a fidalgo que passasse. Com os rapazes do meu tempo já não era bem assim, como tinha sido no tempo de nossos pais. Já não fui com chapéu à inspeção e o padrinho não me deu um chapéu no casamento.

De facto, foi uma tradição que caiu em desuso completamente. Apesar de nós, estou me a lembrar em São João da Madeira, termos tido, Alberto, das melhores tradições e dos melhores chapeleiros que havia antigamente. Lembro que até houve filmes de Hollywood sobre gangsters que encomendaram os chapéus a chapeleiros nossos do norte, que éramos muito bons a fazer chapéus, sempre fomos. É engraçado.

Ainda são.

Ainda são, exatamente. É uma tradição que não se perdeu completamente, só no usar. Muito bem, estamos conversados por hoje. Alberto Correia, marcamos encontro amanhã. Bem-haja.

Até amanhã.