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Olá, sejam todos muito bem-vindos e já sabem, esta é a "História das Histórias". Eu sou o João Paulo Sacadura e estou aqui apenas para apresentar o Alberto Correia, este historiador beirão e investigador da história e das tradições. Vai-nos falar das lavadeiras do rio Pavia, em Viseu, uma espécie de memória e homenagem que aqui lhe presta. Vamos a isso. Bem-vindo, Alberto.
"O rio da minha aldeia não faz pensar em nada. Quem está ao pé dele, está só ao pé dele." Fernando Pessoa, como Alberto Caeiro. Chama-se Pavia o rio desta cidade, Viseu, onde eu habito. Desci muitas vezes à margem deste rio. Às vezes ainda desço apenas para reinventar memórias que não tenho e me contaram as antigas lavadeiras. Eram as mulheres que ali lavavam roupa quem mas contava, as mãos suspensas um tempo do bater no lavadouro, a voz suspensa na canção, olhando o correr da água a deslar de um manto de areia onde brincava uma criança. E lembro-me então de minha mãe, do riozinho que corria na Quinta de Valbom, com pontezinhas de madeira levantadas por meu pai, ou essas alpodres ligeiras de lanchas fincadas na fundura breve do seu leito, onde a gente passava nesse jeito quase de dançar. Lembro-me das manhãs de verão da minha infância, de minha mãe ajoelhada na pedra do lavadouro, que eu devia ter guardado e não guardei. Lembro-me da roupa a corar nas ervagens do ribeiro. Lembro-me desse descuidar do tempo de paraíso, do vermelho das cerejas ao findar de maio, dos morangos silvestres, como aqueles que colhia a Sara, a heroína do filme de seu nome já esquecido. Lembro-me dos buraquinhos dos grilos, que às vezes vinham espreitar, das libélulas a voar, do cantar de rolas no pinheiral vizinho, da água límpida do ribeiro onde eu bebia ajoelhado, do olhinho vivo das rãs e do crescer dos filhos delas, os girinos, peixinhos gordos que não eram e que eu aprendi a chamar amorosamente de cabeçudos e que via crescer sem dar conta que eu crescia como eles, só mais devagar. E o Mondego, que andava sempre ao pé de mim, o meu cão, que tinha o nome de um rio. Ah, as memórias que me vieram ao lembrar-me das lavadeiras do Pavia.
Muito bem, ficam então estas suas memórias, Alberto, as lavadeiras do rio Pavia e também da sua mãe, que também lavava a roupa e fazia parte destas tradições tão curiosas, que hoje em dia, infelizmente, já se perderam. Fazia parte de um Portugal mais antigo, mas que lhe deu belíssimas memórias. Estamos por hoje então conversados, por esta semana. Alberto, quero agradecer-lhe muito a sua presença e as suas histórias, as suas crónicas, as suas memórias e marcamos encontro então na próxima vez. Bem-haja, obrigado.
Então, até para a semana.