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Olá, seja muito bem-vindo. Esta é a História das Histórias, este programa diário que já não passa sem ele, nós sabemos, e por isso é com muito prazer, eu, João Paulo Secadura, que acolho aqui o Jorge Adolfo Marques, para mim, um mestre historiador, professor, arqueólogo, especialista em comunicação também. Esta semana vamos ter mais algumas personalidades e mais alguns monumentos de que vale a pena falar, a começar por dois castelos. E é assim que arrancamos a semana, dois castelos, o Castelo de Linhares e o Castelo de Celorico da Beira, ali pela Guarda. Vamos a isso. Olá, bem-vindo, Jorge.
Olá, João Paulo.
Hoje vais-nos voltar a fazer passear.
É verdade.
Faz bem.
Nós temos dias em que ficamos aqui um bocadinho mais em estúdio, em casa, e temos dias em que vamos dar uma volta, ver uns monumentos aqui da nossa região, não só de Viseu, mas aqui de toda a Beira Alta e da região centro mais em geral. Até hoje pensei conversar um pouco contigo e passarmos uns minutos mais agradáveis sobre dois castelos que me são muito caros, de que eu guardo boas memórias desde muito criança, porque os visitei desde muito miúdo e que ficam aqui no distrito da Guarda, que faz aqui fronteira com o distrito de Viseu. O Castelo de Linhares, que pertence também a Celorico da Beira, e o próprio Castelo de Celorico da Beira. Nós quando fazemos a A25, que liga Aveiro a Vilar Formoso, esta entrada por aqui com Espanha. Ali na A25 vê-se muito bem, passamos ao lado de Celorico da Beira e o castelo está ali mesmo, altaneiro, a coroar o centro histórico de Celorico e é, de facto, uma vista muito bonita e até com a iluminação do próprio castelo é extraordinário. Se as pessoas tiverem um pouquinho de atenção, do outro lado da estrada, de um dos lados, se formos no sentido de Vilar Formoso, o Castelo de Linhares fica do nosso lado esquerdo. Se formos no mesmo sentido, o de Linhares fica precisamente do lado oposto, o lado direito. E fica mais na encosta da Serra da Estrela, ali naquela encosta, fica um pouquinho mais distante, mas consegue-se ver ao longe até o seu posicionamento na povoação. Vamos então começar aqui pelo Castelo de Linhares, esse mesmo, é um sítio onde os homens que fazem parapente gostam muito, porque faz-se lá parapente. Tem boas condições, tem mesmo um local de aterragem dos praticantes desse desporto e é um lugar muito bonito, ali na encosta da serra. Linhares, a própria povoação, já era acastelada no reinado de Dom Sancho I. Para quem não se lembra, ele reinou entre 1185 e 1211. Quer o de Linhares, quer o seu irmão, vamos assim chamar, Castelo de Celorico, eles comandavam esta região setentrional da Serra da Estrela. No final do século XII, os alcaides destes dois castelos, que eram irmãos, eram Gonçalo Mendes e Rodrigo Mendes, participaram em vários combates contra as tropas lionesas. Em todo caso, nós hoje não sabemos, olhamos para aquele castelo, e nós já falamos aqui em momentos anteriores, em programas anteriores, de outros castelos que até nem tinham torre de menagem, aquela torre central, que geralmente ficava no centro da fortaleza, da fortificação, mas estes aqui, quer um, quer outro, têm essa grande particularidade, ter a sua torre de menagem bem evidente. Não sabemos qual era a configuração primitiva do Castelo de Linhares. O primeiro castelo, porque aquele já é um castelo mais tardio, mais da Idade Média plena. Um castelo que já tem torre de menagem e depois ao longo do tempo foi sendo reconstruído, adaptado às novas táticas da guerra. É de presumir que ele inicialmente fosse um castelo românico com a sua torre talvez central, a sua torre de menagem, e adaptado à sua localização, porque ele está num cabeço, numa espécie de cabeço, a coroar esse cabeço. É curioso que nas inquirições de 1258, no tempo de Dom Afonso III, o Bolonhês, que elas referem, essas inquirições, que os moradores do Satão, de várias povoações do Satão, tinham que Prestar assistência, prestar serviço de anúduva. No fundo, a anúduva era ajudar na reparação das muralhas, quer das cercas das povoações, quer das próprias muralhas do castelo. Aliás, isso é referido em muitas passagens deste importante documento chamado inquirições. E portanto, os moradores do Satão, e veja-se que o Satão ainda fica a alguma distância, mas fica tudo na Beira Alta, tinham que prestar esse serviço, quer no Castelo da Guarda, quer no Castelo de Linhares. Portanto, tinham que preservar a reconstrução do castelo. O castelo que nos chegou hoje é um castelo do reinado de D. Dinis, portanto é um castelo já gótico. O próprio rei doou o castelo ao seu filho Fernão Sanches. É uma importante fortaleza gótica aqui da região da Beira Alta e desta região da Serra da Estrela, em particular. Tem a sua torre de menagem associada à cerca. Na atualidade, o conjunto tem duas torres, e até é provável que terão tido mais, mas subsistem estas duas torres. A torre de menagem tem uma secção retangular e está mais no centro da cerca, da muralha, da fortificação. Possui três pisos, cujo acesso faz por uma escada que seria amovível na sua origem. Hoje é por uma escada metálica, porque o castelo foi adaptado agora para os turistas poderem visitar. Portanto, o acesso ao interior fazia-se do castelo por três portas, uma delas chamada a porta da traição. Agora, relativamente ao Castelo de Celorico da Beira, é curioso, e eu gostaria de fazer referência aqui ao professor Adriano Vasco Rodrigues, que faleceu no ano passado, no ano de 2025, historiador, arqueólogo, político, professor. Portanto, uma pessoa muito conhecida de quem investiga a história e particularmente a história desta região. Ele admitia que já no século XII o local era fortificado e que terá sido Dom Afonso Henriques quem concedeu a carta de foral aos moradores de Celorico da Beira.
Ok. Também é muito antigo.
A referência mais antiga data de 1198, ano em que as tropas leonesas cercaram o castelo, obrigando o alcaide, que era um tal de Dom Rodrigo Mendes, a pedir ajuda ao seu irmão, Dom Gonçalo Mendes. Dom Rodrigo Mendes é precisamente um dos Mendes que eu há pouco referi a propósito de Linhares. O irmão é alcaide em Linhares, no castelo ali vizinho. Em 1217, Celorico teve foral por Dom Afonso II. E em 1246, já no reinado de Dom Sancho II, a fortificação foi cercada no âmbito de uma guerra civil, com o irmão Afonso III, que fiz referência há pouco a propósito das inquirições. E, portanto, o castelo vê-se envolvido neste conflito civil.
Entre irmãos.
Exatamente. Claro. No reinado de Dom Dinis, tal como aconteceu com o Castelo de Linhares, também teve obras para uma modernização gótica. E a torre de menagem, é curioso, não sei se já visitaste o Castelo de Celorico.
Por acaso, acho que não.
Não? Olha, o Castelo de Celorico tem uma característica que é muito própria aqui dos castelos góticos, que é a torre de menagem estar encostada, estar no circuito da muralha do próprio castelo. Por quê? Para poder ser um elemento ativo na defesa da fortificação. Se ela estivesse no meio da fortificação, o que acontecia? Era uma espécie de último reduto contra os invasores. Os invasores conseguiam entrar na muralha e depois a guarnição refugiava-se na torre de menagem ali no centro. Ora, naquele canto, aquela torre é o sinal da tal modernização que a fortaleza teve no período de Dom Dinis. Tinha duas portas, uma a sul, outra a ocidente, e é uma fortificação que também se encontra num cabeço, numa zona mais elevada, com o casario depois em torno da própria. E a verdade é que ao longo dos séculos, este castelo também sofreu obras de modernização, de reconstrução nos reinados de Dom Afonso IV, de Dom Pedro, Dom Fernando. Quer dizer, ao longo dos séculos até à época moderna e até mesmo no século XVI, melhorias que foram reconstruindo. Depois, como todas estas fortificações que ficavam longe da linha da frente da reconquista, mas também com uma pacificação com as relações com Castela.
Com Espanha, exato.
Foram fortificações que foram perdendo-
Caíram um bocado em desuso, não foi? Já não era tão importante
Com a modernização de todas as práticas militares já do século XVI e XVII e com as armas de fogo.
Exatamente. Estava a pensar nisso, Jorge, desculpa, houve muitos melhoramentos, outras muitas alterações que iam fazendo também conforme a pirobalística e a balística, não era?
Claro.
Desde as seteiras iniciais.
Há essa modernização que nós encontramos do castelo romano para o gótico.
As formas, os baluartes.
Mas depois, quando entramos já nas armas de fogo e em todas as armas que utilizavam pólvora para disparar, quer os canhões, quer outras armas individuais, o que é que acontece?
E iam-se alterando as formas.
A própria estrutura da defesa tem que ser alterada.
Claro.
E curiosamente, neste aqui não encontramos essas modernizações já do século XVI e XVII, que vamos encontrar noutras fortificações, mesmo desta linha de fronteira com Leão e Castela, e que são muito visíveis ao longo de toda a fronteira, desde a marítima até à fronteira seca do nosso território.
Muito bem. Então, estes passeios ficam prometidos, de certeza. Por acaso o de Linhares eu conhecia. Este de Florico não me lembro, mas fica aqui este convite. E Jorge, guiado por ti, vamos ter a atenção, de certeza, a esta exposição, esta tua homenagem, tudo isto é importante pra história e espero que esteja aberto ao público e eu desejo sempre que haja um folheto, uma coisa explicativa. Estou convencido que sim, deve haver.
Sim, existe toda a informação, painéis, tudo.
Muito bem. E então assim, por nós, marcamos encontro então amanhã. Jorge, bem-hajas. Até amanhã.
Grande abraço.