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Se pedirmos a alguém para desenhar uma pessoa careca, é muito provável que desenhe um homem. Mas a verdade é que a queda de cabelo não escolhe gênero. A alopecia androgenética é a causa mais comum de perda de cabelo e pode afetar homens e mulheres, embora se manifeste de formas muito diferentes. Neste episódio de "Carecas de Saber", vamos perceber o que está por trás da alopecia androgenética, o que distingue a queda de cabelo nos homens e nas mulheres, e o que a ciência tem para nos dizer perante aquilo que encontramos nas nossas pesquisas online. Para nos guiar ao longo desta partilha, juntamos Dr. António Massa, dermatologista e presidente do Grupo Português de Tricologia e Onicologia, e Dra. Filipa Osório, também dermatologista no Porto, especialista em tricologia, dedicada à consulta do cabelo desde há 15 anos. Como sempre, "Carecas de Saber" é um podcast do Observador com o apoio da ISDIN. Sejam bem-vindos. Começo por si, dra. Filipa. Quando é que uma pessoa deve começar a desconfiar de que não está simplesmente a perder cabelo, mas pode estar perante uma alopecia androgenética? Do que estamos a falar exatamente?
Muito bem. Eu acho que primeiro há que esclarecer o que significa alopecia, porque as pessoas têm muito medo de ter uma alopecia. Chegam: "Ah, doutor, eu tenho uma alopecia". Alopecia só significa queda de cabelo. E alopecia pode ser temporária, pode ser reversível ou pode ser irreversível. Portanto, o termo alopecia acho que não deve amedrontar ninguém. Alopecia androgenética é a calvície. Toda gente percebe o que significa um homem ficar calvo. Quando um homem fica calvo, começa a haver entradas, começa a ficar com a coroa de Santo António, às vezes as zonas agrupam-se e começa a ficar calvo em todo o topo da cabeça. Nas senhoras, este padrão de recuo bitemporal, de entradas e de coroa de Santo António, não é tão frequente, é muito menos frequente. O que geralmente acontece é uma rarefação do cabelo no topo da cabeça, ou seja, a senhora olha para o espelho e começa a ver a risca a alargar. Vai ao banho e o couro cabeludo vê-se, a transparência do couro cabeludo. Um homem sabe quando começa a ter calvície. Uma senhora é um bocadinho mais difícil e acho que a mensagem, além de ir para os homens, naturalmente, também especialmente para as senhoras, porque quando começarem a ver a risca a ficar mais larga, já tiveram mais cabelo no topo da cabeça, quando começam a ver o couro cabeludo à transparência, devem procurar ajuda.
Dr. António, o que acontece biologicamente dentro de cada folículo, quando estamos perante uma alopecia androgenética?
O que acontece é, acima de tudo, uma miniaturização do folículo. Ou seja, o folículo vai ficando mais fininho, mais pequenino, cresce menos o cabelo, até que deixa de crescer. Acima de tudo, isto acontece em certas áreas, por isso isto tudo chama-se uma alopecia de padrão. Por quê? Porque não acontece de uma forma generalizada no couro cabeludo. Como a Filipa estava a referir, estas áreas são diferentes quando é no homem ou na mulher, no homem, normalmente com entradas, chamadas entradas fronto ou bitemporais. Também temos um atingimento do vertex, ou seja, da coroa. Na senhora, normalmente é um atingimento da cabeça do ponto de vista superior, mas, por norma, há uma manutenção da linha anterior. Isto é uma distinção que é importante, porque muitas vezes a senhora não tem logo a noção de que está a ficar com menos cabelo e diz assim: "O meu cabelo não é o mesmo", porque quando olha ao espelho, vê que a linha anterior está semelhante, enquanto que no homem, normalmente começa a ter entradas mais precocemente. Este tipo de folículo é um folículo que está mais sensível às hormonas androgênias. Então, esta sensibilidade não é igual em todo o couro cabeludo. Estas zonas que estamos a falar têm maior desta sensibilidade. Enquanto que outras áreas, como por exemplo, a nuca, em que estão como que protegidas. Dizemos que os receptores estão mutilados e então não há esta sensibilidade. Por isso é que quando falamos, por exemplo, em transplante capilar, o sítio da dor, a zona da dor, vai ser na nuca. Por quê? Porque vamos buscar pelo, cabelo, que não está sensível à influência destas hormonas androgênias ou masculinas.
Dra. Filipa, posso dizer então que é mais facilmente perceptível uma alopecia androgenética nos homens do que nas mulheres?
Sim, penso que sim. Daí muitas vezes as senhoras, no início da manifestação, não se aperceberem e virem à nossa consulta efetivamente confirmar o diagnóstico. Geralmente, o diagnóstico é muito mais fácil nos homens do que nas senhoras.
A verdade é que é a causa mais comum de queda de cabelo. Quão comum é entre homens e mulheres?
Nos homens, um homem com 30 anos, há cerca de 30 a 50%, pode chegar aos 50% nalguns estudos, de afetação. Ou seja, homens com 30 anos, em regra, 30 a 50% afetados com calvície. À medida que o tempo vai passando, à medida que a idade vai progredindo, vai havendo uma percentagem cada vez maior de homens, sendo que em alguns estudos, há indicação de que há 80% dos homens afetados ao longo da sua vida. No caso das senhoras, com 30 anos, haverá 5 a 15% afetadas. O pico é na menopausa, ou seja, há uma maior quantidade de senhoras a serem afetadas ao nível da menopausa. E nessa altura, em senhoras com 100 anos, pode haver 50% de senhoras afetadas. A raça caucasiana é mais afetada do que outras raças. Os estudos não são claros, mas são estas as prevalências que temos, ou seja, é uma queda de cabelo superfrequente, é a queda de cabelo que nós vemos mais frequentemente em consulta. Eu diria que na minha prática clínica, que faço fundamentalmente consulta do cabelo, na maior parte dos doentes, estamos a falar de 90% dos doentes têm uma alopecia androgenética, ou seja, têm calvície.
E podemos fazer aqui uma referência que há uma regra assim um pouco grosseira, mas que é a regra dos 10%. Há quase que uma paridade da idade com a falta de cabelo nos homens. Então podemos ver aos 20 anos, 20%; aos 30, 30%; aos 50, 50%; e quando chegam aos 80, realmente nesses estudos mais de 80% têm. Embora isto seja uma regra grosseira, porque eu concordo com o que a Filipa disse. A verdade é que nós temos um viés de observação, ou seja, se não temos estudos atualizados, que não temos números, por exemplo, para a nossa realidade nacional, a verdade é que o nosso viés é de quem também tem falta de cabelo, mas vemos Muita gente, muitos homens com 20 anos, desses 20% em homens de 20 anos.
Não, acho que corresponde à realidade.
Mínima. Provavelmente temos mais doentes afetados, por isso estes 30 a 50% que a Filipa referiu aos 30 anos, são provavelmente mais coincidentes com a realidade.
E, doutor António, existe algum motivo para homens e mulheres não perderem o cabelo exatamente da mesma forma? Por exemplo, no caso de uma mulher ter uma alopécia androgenética, significa necessariamente que tem um excesso de androgénios?
Não necessariamente. Muitas vezes, quando fazemos análises, os níveis hormonais estão normais. Tem a ver, acima de tudo, com a sensibilidade dessas hormonas no folículo piloso. E é esta sensibilidade que vai determinar a alopécia androgenética. Isto é o genérico, o geral. Eu falaria aqui de uma pequena exceção. A exceção maior será a menopausa. Por quê? Porque na menopausa, nós temos uma grande queda das hormonas estrogênicas, e estas hormonas funcionam como protetoras do cabelo, como temos, por exemplo, na gravidez, em que o cabelo melhora porque temos um pico de estrogênios. Quando há menopausa, há um cair abrupto e então acaba por haver um aumento relativo das hormonas androgénias. Então, por isso, nesse caso, acaba por haver aqui um componente não apenas de número absoluto, mas passa a haver uma proporção diferente da que existia com o aumento relativo dos androgénios. Na maioria das pessoas, não há realmente alterações. Muitas vezes temos que investigar alterações quando temos os chamados outros sinais de hiperandrogenismo, ou seja, um excesso de pelo, chamado de hirsutismo, alterações na voz, alterações na musculatura, e então, nesse caso, deve ser estudado para que sejam excluídas outras causas que possam levar a este aumento.
Ou seja, está sempre intimamente ligado à nossa hormona, à nossa parte hormonal.
Não necessariamente. No homem, o papel da testosterona e da DHT, da dihidrotestosterona, que é um derivado da testosterona, que é o ativo no couro cabeludo que faz cair o cabelo no homem, esta DHT, tem um papel mais bem estabelecido. E há maior quantidade de receptores desta DHT nas zonas mais frequentemente atingidas, ou seja, nas entradas e na coroa. Nas mulheres, o papel da DHT não está tão bem estabelecido. Por isso é que, em relação aos antiandrogênios, algumas mulheres respondem e outras não. Portanto, a resposta é um nim, é um sim para os homens e um nim para as senhoras.
Para as senhoras.
E porque é aquilo que novamente voltamos a dizer, muitas vezes não quer dizer que haja um nível excessivo. Pode a sensibilidade estar aumentada, o que é diferente. Por isso é que fazemos análises, muitas vezes em homens e em senhoras, e os níveis são normais, mas a sensibilidade àquele nível é que vai levar a que realmente tenhamos mais impacto. Nem tudo está completamente estabelecido. E como diz a Filipa bem, no caso da senhora, um pouco menos do que nos homens.
Sim. Doutora Filipa, como é que é feito o diagnóstico? Por exemplo, qual é que é o papel ou o impacto, a importância da tricoscopia?
Muito bem. O diagnóstico deve ser feito numa consulta médica, com um dermatologista, especialmente se for dedicado à tricologia. O diagnóstico é fundamentalmente clínico. Não é expectável que a pessoa tenha que ir a correr, fazer uma biópsia cutânea do couro cabeludo. E quando eu digo clínico, o que é que significa? Significa uma conversa médico-doente, em que nós colhemos a história clínica, quando é que começou, como começou, qual é a medicação que o doente faz, se houve algum agravamento mais recente, se houve alguma doença, alguma cirurgia, algum internamento, um estresse, um parto, uma doença da tireoide. E depois desta conversa, vamos para o exame clínico, ou seja, vamos ver o doente. E como é que nós vemos o doente? Vemos o doente a olho nu e geralmente usamos um dispositivo chamado dermatoscópio. Dermatoscópio esse que pode ser manual ou pode ser digital. E o dermatoscópio digital permite tirar fotografias, fotografias perfeitamente standard e fotografias da tricoscopia. Ou seja, em cada doente que entra na consulta, eu sistematicamente tiro fotografias para ir fazendo o acompanhamento da evolução da doença, geralmente para acompanhar a melhoria que nós observamos após a introdução do tratamento. O que é a tricoscopia? A tricoscopia é a dermatoscopia do couro cabeludo. O dermatoscópio, esse mesmo equipamento que permite fazer fotografias standard, permite fazer uma avaliação do couro cabeludo com uma lente que aumenta o couro cabeludo em dezenas de vezes e permite ver o couro cabeludo com sinais, que são sinais característicos para cada doença. Ou seja, no caso da alopécia androgenética, há sinais característicos, a dita miniaturização folicular, o afinamento do cabelo, entre outros, que nos permitem fazer o diagnóstico. E fundamentalmente, o diagnóstico é feito desta forma. Claro que podem ser necessários pedir exames complementares, nomeadamente análises, mas a biópsia, que era uma técnica usada anteriormente com maior frequência, agora com a tricoscopia, com a dermatoscopia do couro cabeludo, tornou-se menos necessária e geralmente não é realizada.
Doutor António, além desse afinamento do fio do cabelo, que outros sinais podemos ficar atentos?
Muitas vezes, na alopécia androgenética, nenhum. Muitas vezes não cursa com mais nenhum sinal, ou seja, temos uma diminuição do volume e da densidade do cabelo e depois com o atingimento destes locais que nós estamos a ver. Quando falamos de tricoscopia, tricoscopia é algo que realmente é importante, mas deve ser efetuada por alguém que tenha a formação necessária. E nós na dermatologia aprendemos ao longo da nossa formação, esta é uma formação que precisa de formação própria, mas também imersão. Ou seja, é preciso ver muitas vezes para ter a noção de aquilo que vemos com dermatoscópio, qual é o real significado. Não chega pôr uma câmera e temos esta imagem. Se eu escolhesse uma palavra, escolheria a palavra anisoticose. Na prática, é quando temos um aumento de mais de 20% de variação do diâmetro da haste capilar E este sinal vai ser muito importante para o diagnóstico da alopecia androgenética, embora isto seja complementar, porque, efetivamente, um diagnóstico clínico quer dizer que a pessoa, pela observação, faz o diagnóstico. Nós não precisamos de ver, a pessoa se vir na rua, muitas vezes olha e diz: "Este homem é careca", sem precisar de mais consulta. Mas há situações em que tal não é completamente óbvio, em que pode haver mais do que uma patologia no mesmo doente. Muitas vezes, o que vemos em mulheres é que a alopecia androgenética vai crescendo devagarinho, já está lá há anos e depois, em períodos de queda, em períodos de eflúvio telogénico, em que a pessoa teve algum evento de vida, em que houve um estresse maior, em que houve uma cirurgia, em que houve algo que acentuou a queda e, na prática, veio descortinar outra patologia que já estava a custar alguns anos, que é a alopecia androgenética. Quando temos sintomatologia acompanhante, muitas vezes podemos também ter outras patologias. Podemos ter as chamadas alopecias cicatriciais, podemos também ter um episódio sobre isso. Podemos ter dermatite seborreica, podemos ter vermelhidão, descamação, dor. Todos estes sintomas devem fazer a pessoa ser consultada por um dermatologista. Por quê? Porque pode não ser só alopecia androgenética e as pessoas podem não querer ser consultadas como alopecia androgenética, mas podem ter outro tipo de alopecias ou patologia do couro cabeludo, que deva ser observada e tratada em conformidade, cujo tratamento é diferente de uma alopecia androgenética sem outro tipo de fator confundidor.
Porque é importante, doutora Filipa, explicar que há sintomas que são vistos a olho nu, portanto, com a tricoscopia. Há coisas que certamente não dá para ver a olho nu, mas há outras que podemos estar atentos. E pegando aqui naquilo que o doutor António disse, então é possível ter mais do que uma causa de queda de cabelo ao mesmo tempo.
Sim, e muitas vezes é muito frequente, como o doutor António estava a dizer, muitas vezes as senhoras deparam-se com a sua alopecia androgenética, por exemplo, num pós-parto, que é uma altura em que é característica haver o tal eflúvio telogénico agudo pós-parto. Geralmente acontece três meses depois do evento precipitante, neste caso, o nascer de um bebé, e às senhoras cai-lhes muito cabelo e começam a perceber-se que o cabelo não volta exatamente ao normal. Pode efetivamente haver um agravamento resultado da queda dos estrogênios, que se perdura no tempo, mas muitas vezes essa patologia já existia anteriormente. As senhoras não estavam era atentas a isso. Por isso, a coexistência de eflúvio telogénico com alopecia androgenética é muito comum. Na alopecia androgenética, as pessoas não têm uma queda de cabelo, não cai cabelo no chão, não veem cabelo no ralo da banheira. Isso é característico do eflúvio. Do eflúvio é que se nota a queda de cabelo. Na alopecia androgenética pura, sem eflúvio telogénico associado, o que acontece é que as pessoas vão notando que o cabelo fica cada vez mais raro, vão ficando com o cabelo cada vez mais fino. Neste caso, é nas senhoras que acontece mais frequentemente o eflúvio. Mas pode haver outro tipo de alopecias associadas à alopecia androgenética. E uma das que mais nos preocupa, porque tem tido um aumento crescente de frequência, é a alopecia fibrosante frontal, como disse o António, vai ser falada mais à frente, que é uma alopecia cicatricial, é uma alopecia irreversível, mas que pode ser travada. Ou seja, geralmente quando a doente chega à nossa consulta, porque geralmente são mulheres, nós conseguimos parar a evolução da doença. Em que consiste a alopecia fibrosante frontal? Consiste numa perda geralmente inicial de sobrancelhas, que depois evolui com o avanço da linha de implantação, ou seja, as senhoras vão ficando com a testa cada vez mais alta. E muitas vezes essa alopecia fibrosante frontal coexiste com uma alopecia androgenética. Estas são as alopecias que mais frequentemente coexistem com alopecia androgenética, ou seja, o eflúvio telogénico agudo e crônico e a alopecia fibrosante frontal, mas pode haver outras, e esse diagnóstico deve ser feito numa consulta de dermatologia.
Sim. Doutor António, estes sinais devemos estar atentos para procurar consulta médica. Acha que se normalizou a calvície masculina de uma forma que não se normalizou nas mulheres e que isso pode prejudicar, por exemplo, uma mulher, pode passar algum receio, alguma vergonha, algum estigma de ir à consulta?
Acho que tem mais impacto na senhora a falta de cabelo, porque desde tempos imemoriais há até algum charme no homem sem cabelo, enquanto que uma senhora sem cabelo normalmente não é bem visto e muitas vezes tem um grande impacto na autoestima. Isto desde mulheres jovens ou quando muitas vezes temos esta precipitação, por exemplo, na menopausa, em que já há um turbilhão de coisas a acontecer, ainda há o atingimento do cabelo. Acima de tudo, é bom ter a noção de que tem tratamento e que quanto mais cedo se tratar, melhor. O resultado pode ser realmente muito bom. Acima de tudo, o doente tem que estar confortável. Eu não diria normalizar, porque é uma patologia, mas a forma como é aceito tem um impacto muito grande. Eu fazia aqui um aparte sem ser só homens e mulheres. Por exemplo, quando vemos até em desportistas, um livro que é interessante sobre a biografia do Andre Agassi, que é o "Open", em que ele relata como a imagem de marca dele era ter um grande cabelo, era um cabelão, era aquela imagem de marca. E quando ele começou a ficar sem cabelo, ele começou a usar uma prótese capilar, uma peruca, e houve numa final de um open, penso que até foi em Roland-Garros Começou a cair. Ele estava mais do que concentrado no jogo, ele estava com medo que andasse a colar na Vespa, o irmão, que caísse completamente. Isto depois passou, ele conta isto anos mais tarde, até que passados dois ou três anos, ele assume completamente e aparece de cabelo rapado, que é como conhecemos hoje. Isto, acima de tudo, o que é importante? É saber que devemos sentirnos bem como estamos e saber que quando o cabelo começa a cair neste contexto, há tratamento. Tratamento não significa que seja uma resolução total, mas muitas vezes há uma possibilidade muito grande de conservar cabelo e ainda de ganhar algum cabelo. Agora, o tempo tem impacto, porque a partir do momento em que não tenho uma cabeça lisa e não tenho lá folículo, aí é apenas fazendo outro tipo de técnicas. Mas também há outra parte em que se a pessoa perdeu o cabelo, deve tentar ao máximo gerir e viver com isto da melhor forma possível e saber que antes pode-se atuar, mais tarde também as técnicas de transplante podem dar alguma ajuda e acima de tudo saber que tem tratamento e que não é uma inevitabilidade. Muitas vezes vemos que as pessoas acham que é inevitável, não é?
Sim, que a mãe tinha, a avó também já tinha, então eu também vou ter. Muitas vezes o que acontece é que a filha vem, depois traz a mãe, até traz a avó e todas elas melhoram, porque em qualquer faixa etária nós conseguimos uma melhoria. Claro que a melhoria, como estava a dizer o dr. António, e bem, é maior se for no início, se agirmos atempadamente, seja na alopécia androgenética, seja noutro tipo de alopécias, mas mesmo em senhoras de 60 a 70 anos, nós conseguimos reverter e é uma grande satisfação por parte das doentes. Dr.ª Filipa?
Não devemos esperar para ver. Porque nós temos, às vezes, aquilo que estamos a falar das idades, 20%, 30% a cada ano, às vezes não é assim. E às vezes temos jovens que têm 16, 17, 18 anos. Nesses jovens é nessa altura que se tem que atuar.
Sim, claro.
Porque são normalmente mais galopantes e se forem tratados cedo, a possibilidade de conservarem cabelo é muito maior.
Sim. Estarmos atentos aos sintomas, lá está, mais uma vez. E procurar diagnóstico certo. Dra. Filipa, ouve-se muito falar em minoxidil. Qual é a melhor opção? Tópico ou oral? Ora bem, eu sou adepta de ambos e os livros de texto e os artigos científicos também são. O minoxidil tópico é aquilo que nós temos há décadas. O minoxidil oral também já existe há décadas, inicialmente prescrito pela cardiologia como anti-hipertensor, isto na década de 70, 80, mas depois foi abandonado porque surgiam efeitos laterais, porque eles usavam doses muito mais altas do que aquelas que nós usamos agora. Nós usamos minoxidil oral em baixa dose. E, portanto, na minha opinião, oral e tópico têm os dois um lugar. O tópico é naturalmente menos eficaz, sobretudo se fizermos doses mais altas de minoxidil oral, mas não é um tratamento sistémico e tem atuação local. Geralmente pode ter efeitos laterais como um bocadinho de caspa, geralmente em doentes que já têm caspa. No início, pode causar um bocadinho de shedding, mas é uma coisa que não deve preocupar os doentes. O shedding é aquela queda inicial que os doentes que fazem minoxidil, sobretudo o tópico, podem ter, que é uma coisa que preocupa muitos doentes, mas que nós devemos tranquilizar, porque ao fim de dois meses, no máximo, isso passa. E há pessoas que não toleram cosmeticamente o minoxidil tópico. E estas pessoas, ou seja, as pessoas que têm dermatite seborreica, caspa, e que não toleram cosmeticamente o minoxidil tópico, essas são automaticamente candidatas ao minoxidil oral. E porque muitas vezes o minoxidil tópico não é suficiente, então introduzimos o outro. Introduzimos o minoxidil oral em cima do minoxidil tópico nos doentes que podem fazer ambos. Ou então só o minoxidil oral, mas sem dúvida que é o tratamento que nós estamos a prescrever há quase 10 anos, que veio revolucionar completamente a consulta do cabelo e que faz com que cada vez mais doentes estejam melhores e é muito gratificante fazer este tipo de consulta. Boas notícias. Sim. Dr. António, muito rapidamente, porque estamos a terminar e muito haveria ainda para falar sobre a alopécia androgenética. Qual é a informação mais importante a deixar hoje neste episódio?
Acima de tudo, que é uma patologia que tem tratamento. Quanto mais cedo, melhor o resultado. Não há inevitabilidades, tanto no homem como na mulher. Os resultados com a evolução terapêutica têm sido melhores. Nós temos tido escala, ou seja, temos minoxidil tópico, depois temos antiandrogênicos, que é o finasteride, o dutasteride, a spironolactone, tudo isto medicamentos que ajudam também e que não temos agora tempo para abordar. E temos minoxidil oral que ajuda, e ajuda também, além de outro tipo de medicamentos mais específicos para situações específicas, que não são tanto primeira linha, mas que por vezes têm um impacto grande. E depois também ter a noção de que a ciência evolui e que temos em pipeline novas moléculas que provavelmente poderão ajudar muito. Muitas vezes o doente vem à consulta e pergunta-me: "Mas isto é para sempre?" Nós não podemos responder a esta questão, porque as coisas mudam e eventualmente poderemos vir a ter terapêuticas.
A ciência está sempre a evoluir, não é?
Sim, terapêuticas génicas. Aquilo que hoje é o gold standard, daqui a meio dúzia de anos pode estar completamente diferente.
Dra. Filipa, muito rapidamente, uma última palavra. Eu ainda continuo a ter doentes que acham que o transplante é a única opção. Eu faço transplante, portanto, costumo dizer aos doentes, eu tenho todo o interesse em vender o produto, mas não é o produto primeira linha. O tratamento médico é a primeira opção. A maior parte dos doentes que entram no meu gabinete até vinham a pensar fazer um transplante, os que vinham a pensar fazer um transplante, e olhe, vamos fazer tratamento médico durante seis meses. Vamos ver os resultados. Se calhar podemos adiar o transplante e conservar a sua área doadora por mais tempo. E muitas vezes é isso que acontece, os doentes passados seis meses vêm melhores, já não sentem necessidade de fazer o transplante e se calhar conseguimos adiar o transplante cinco ou 10 anos e nessa altura fazermos o melhor aproveitamento dos folículos, das raízes dos cabelos, para os colocar no sítio certo. E o tratamento não implica gastar muito dinheiro. Eu costumo dizer-lhes: "Olhe, conseguimos fazer um tratamento super eficaz por cinco a €10 por mês." Eu acho que isto é um tema um bocadinho tabu, mas que é altamente relevante, porque se as pessoas acharem que têm que gastar fortunas em plasma rico em plaquetas, mesoterapia, microagulhamento, que são técnicas complementares, não são os tratamentos de primeira linha. Ficam assustadas e podem recuar. Exatamente, e não querem ir porque acham que vão gastar muito dinheiro e isso é altamente importante. Tempo e dinheiro. Dra. Filipa, dr. António, mais uma vez obrigada por uma excelente conversa sobre saúde do cabelo, que é tão importante. O "Carecas de Saber" regressa no próximo mês. Obrigada.