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Olá e sejam bem-vindos à História das Histórias. Eu chamo-me João Paulo Secadura e estou aqui sobretudo a convidar Alberto Correia, que em Viseu, este historiador vai nos contar sempre histórias curiosas da antropologia, da história, da museologia, da arqueologia. Hoje falamos, fique atento, de um atleta mais bem pago na antiguidade do que Cristiano Ronaldo. Este era conhecido pelo Lamecus, este Caio Apuleio Diocles. Vamos então saber quem era este corredor, de facto, de carros de cavalos, que ficou famoso e era o atleta mais bem pago do seu tempo. Vamos a isso. Bem-vindo, Alberto.
Voltamos hoje a Lamego, uma cidade carregada de história antiga de que já contei os passos de Erdingha, a mourinha apaixonada, e a história de Édipo, rei de Tebas, que teve uma vida desgraçada, ainda que tenha sido contada em maravilhosas tapeçarias de museu. A história que hoje trago é uma história de verdade de um homem que, não sabendo bem por que caminhos, aparece em Roma no início do século II da era cristã, ano de 104 depois de Cristo, andaria pelos 20 anos. Conhecemo-lo pelo seu nome romano, Caio Apuleio Diocles, corredor de carro de cavalos, e pelo apelativo que escolheu, Lamecus, Lamego, honrando assim a cidade da Lusitânia onde nasceu, filho de um mercador. Pouca gente em Lamego saberá a sua história, ainda que uma fonte monumental construída em 1830, transferida em 1924 para um espaço fronteiro ao Jardim da República e à Câmara Municipal, se intitule popularmente como a fonte do Lamego, o mais famoso auriga ou corredor de carro de cavalos que passou na Roma Antiga. A figura de um Lamego, espécie de patrono tutelar da cidade, não aparece todavia na fonte com o aspeto de corredor de uma quadriga, mas como guerreiro que segura na mão uma alabarda, arma de guerra, e mantém um escudo a seus pés, onde está gravado o nome Lamego. Caio Apuleio Diocles, este génio do desporto, as corridas de cavalos no Circo Máximo, na Roma do Césares, figura conhecida por uma ampla historiografia, aparece com 18 anos na que é hoje a cidade de Lérida, na Catalunha, já corredor em carro de cavalos, e dali, com cerca de 20 anos, parte para Roma, onde durante 24 anos corre no Circo Máximo, batendo recordes de estrela nas vitórias que alcançou. 1462, num total de 4257 corridas, aplaudido até ao delírio por uma multidão que enchia os três pisos de bancadas do circo, que mais tarde chegou a contar com o incalculável número de mais de 300 mil espectadores, que nenhum estádio moderno ainda comporta. Corredores desta estirpe organizavam-se em Roma ao jeito das modernas equipas de Fórmula 1, ali com os designativos de Branca, Verde e Vermelha, por todas correndo este celebrado auriga da fama, e também a Azul, que investiam nessas estrelas, os aurigas, como também nos escolhidos cavalos, etc. Recorda-se o episódio da corrida de cavalos do filme "Ben-Hur" com Charlton Heston. Caio Apuleio Diocles, campeão de campeões, figura testemunhada na Roma Antiga por documentos, inscrições, mosaicos. Dela nos trouxe notícia também frei Bernardo de Brito, na segunda parte da "Monarquia Lusitana" de 1607, e a ela se referiram diversos historiadores. Um deles, referindo que o valor dos prémios recebidos pelo herói que celebramos, atingiria a incrível fortuna de 18 mil milhões de dólares, quantia que teria dado pão durante um ano para alimentar a populosa cidade de Roma. Fortuna que nenhum atleta até hoje ainda igualou. Retira-se mais tarde para a cidade de Prneste, atual Palestrina, no Lácio, hoje província de Roma, onde terá vivido com um filho e a esposa numa recatada vida entregue à terra e onde terá repousado finalmente.
Que história incrível, resgatada deste atleta. Não fazia ideia que os prémios já naquela altura podiam-- sabia que eram celebrados, claro, mas que já podiam ascender a quantias astronómicas. É incrível o que este homem conseguiu ao longo da sua carreira, Alberto. Incrível.
É, e é um lusitano que nos honra.
Exatamente. Tem mais um atleta de nível mundial.
Com os cavalos lusitanos, certamente, com quem correu.
Mais um atleta lusitano de nível mundial. Muito bem. Agradeço-lhe esta sua contribuição, Alberto. Marcamos encontro amanhã. Bem haja.
Até amanhã.