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Olá, sejam bem-vindos. Esta é a história das histórias. Eu sou o João Paulo Secadora. Alberto Correia, em Viseu, como sempre, vai nos falar destas tradições, concretamente destas memórias. Hoje estamos um bocadinho ligados à etnografia, que é uma coisa muito curiosa que nos vai falar hoje. Este móvel que tinha tanto a ver com a vida das famílias e concretamente das mulheres na casa beirã. Vamos falar do velho armário de cozinha, que eu me lembro que era conhecido pela cantareira. Vamos a isso.
"A cantareira fica ao pé. Lá se veem os bojudos cântaros, a bilhinha de ir às sachas, por cima pratos, malgas e almofias. Na travessa das bodas, um galär aos façanudos". Texto de Aquilino Ribeiro, nas "Arcas Encoiradas". Era assim na cozinha antiga, em quase toda a beira. Era assim na minha terra. Encostado a uma parede que o fogo enegrecera ou fazendo costas com o frontal que resguardava da porta da entrada o calor e a intimidade, o armário da cozinha, a cantareira, como era chamado algumas vezes, herdado geralmente dos avós, era, em casa de lavrador, tal qual a arca do milho, a salgadeira, o pipo ou a maceira, a cama de ferro ou de madeira, o móvel de mais préstimo na economia de matriz familiar. Dois cântaros de barro, às vezes três, trazidos da fonte à cabeça com rodilhas, repousavam deborcados e deles despejava a mulher a água de beber no pocarinho vidrado, a água de fazer o caldo ou a vianda do cevado, a água de amassar o pão ou de lavar a louça na gamela, que, essa, se mantinha quente na panela de ferro à lareira. Na prateleira superior, vestida com recortes de jornais ao vir da Páscoa em cada ano, encostavam-se pratos e malgas de Coimbra ou Sacavém trocadas por cornelo, farrapos ou medidas de feijão, dois copos de vidro para servir aguardente por remédio, o cartucho de papel do açúcar amarelo, clorau num pacotinho e a caixinha da canela. Mais ao canto, misturadas com os codelos para o cão, moedas de dez reis feitas com a venda das peles de coelho, usadas também pela mulher para a compra do petróleo, garrafinhas de vinagre e de azeite com rolhas de cortiça ou de papel. Mais ao alto, duas portas fechadas com cravilho guardavam mimos, manteiga de cevado numa púcara de molelos, cartuchos de açúcar despejados numa lata em forma de barril, chás de tília e de cidreira, macela, folhas de nogueira e funcho para curar a erisipela. E era à volta do armário da cozinha que girava quase toda a vida da mulher.
Uma belíssima homenagem, não só a estes móveis que eram tão importantes na vida de uma cozinha, como falou, na salgadeira, na maceira, mas também, e como muito bem referiu o Alberto, as mulheres que passavam a vida neste meio e que quase não saíam da cozinha a tratar de toda a família, do comer e de tudo que tinham que fazer, enquanto também ouviam histórias curiosas, às vezes, perto do lume de chão. Toda esta cozinha beirã dava para muitas crônicas e esta vida que se passava muito na cozinha. Era um polo central.
Exatamente, é um longo texto, longas memórias.
Com as quais vai brindando todas as semanas. Muito bem, e assim completamos mais uma. Alberto, marcamos encontro então pra semana? Bem haja.
Então, até a próxima semana.