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Porque o José Gameiro quis trazer este tema aqui para o nosso podcast, se calhar, e voltando ao início da nossa conversa, vale a pena dizer com todas as letras que a homossexualidade não é uma doença.

Não é uma doença, de modo nenhum. Não é uma doença, não é controlável pelo próprio, a pessoa não escolhe ser homossexual.

O poeta Daniel Felipe publicou o poema "A Invenção do Amor", em 1961. Mais de 60 anos depois, recuperamos as suas palavras para dar título a este podcast com José Gameiro, médico psiquiatra, membro fundador da Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar e terapeuta de casais e famílias há mais de 40 anos, e Raquel Marinho, jornalista por mais de 25 anos, podcaster e divulgadora de poesia. Conversamos sobre saúde mental e também relações amorosas e familiares, o que as protege e o que as põe em risco. Somos um podcast observador, o que significa que pode escutar-nos no site, mas também em todas as plataformas de podcast. O podcast "A Invenção do Amor" tem autoria de Raquel Marinho e José Gameiro, e música de Filipe Raposo. Olá, José Gameiro.

Olá, Raquel.

Bem-vindo. Hoje vamos falar aqui de um tema que foi uma sugestão do José Gameiro, que é a homossexualidade. Antes de qualquer coisa e de darmos contexto, até histórico, por que quis trazer este tema para o nosso podcast?

A razão mais imediata foi a surpresa que eu tive, há razões anteriores que eu depois explico, quando o Daniel Sampaio publicou um livro sobre a homossexualidade agora, há pouco tempo. E ofereceu-me, naturalmente, como é costume. E eu li o livro e gostei muito. Ele disse-me: "Sabes que o livro está a ser muito mal recebido. Estou a receber imensas críticas por eu falar nisto." O que o deixou a ele e a mim completamente surpreendido. Pensava que a sociedade portuguesa era um pouquinho mais aberta. Escrevi uma crónica no Expresso sobre isso. Contando a história da homossexualidade e como a psiquiatria foi usada como arma de arremesso, sempre em várias coisas, entre elas, homossexualidade. Esta é a razão próxima. A razão relativamente longínqua é que eu, ao longo da vida, tive, sabe como é, a gente às vezes tem doentes que depois mandam outros doentes. Não posso dizer muitos, porque não são muitos, são menos do que os heterossexuais, mas tive alguns homossexuais individuais e tive casais homossexuais. E liduei com muita coisa e com muito sofrimento, sobretudo dos individuais, os casais também, mas menos. Os casais, depois já falamos, porque é muito interessante quando a relação conjugal homossexual não tem igualdade, sobretudo no coming out e na aceitação social e familiar, sobretudo familiar. Mas tive homossexuais individuais com vidas clandestinas, casados, com filhos e que se odiavam por ser homossexuais, odiavam ser homossexuais. "Por que é que isto me calhou a mim? Por que é que isto me aconteceu a mim? Por que eu não sou um tipo normal como os outros? Por que eu não gosto de mulheres? Tinha a vida muito mais facilitada se gostasse de mulheres." Tive homossexuais da província, que é muito mais duro ainda.

São mais fechados.

São cidades da província. Tive dois, não vou dizer onde, mas de cidades médias da província, cidades com 50 mil, 60 mil habitantes, em que era completamente impossível ter uma relação aberta homossexual. E o que eles faziam era: ou tinham uma relação fora da cidade, mas também a vida não era fácil, ou era prostituição. Muitos homossexuais que nunca conseguiam ter uma relação estável e assumida, o que faziam era recorrer à prostituição.

Muito contribuiu, provavelmente, para todo este estigma que a história viu em relação à homossexualidade, a psiquiatria, a saúde mental, no sentido em que a homossexualidade, como sabemos, foi considerada uma doença.

Durante muitos anos.

Durante muitos anos. Vamos dar aqui um contexto histórico. Há um manual de transtornos mentais norte-americano chamado DSM, e a homossexualidade foi retirada apenas em 1973 do DSM, após ser classificada como transtorno desde 1952. Desde 1952 era considerada um transtorno. E em 1973 foi retirada da DSM e substituída por orientação sexual egodistônica. Ainda assim-

Ainda é uma doença

...ainda é uma doença. Depois, só em 2013.

Só há 13 anos, é preciso notar isso.

É que foi retirada, consolidando a visão de que a homossexualidade não é um transtorno. Ou seja, o que isto significa é que até os manuais de psiquiatria terão contribuído, naturalmente, para-

Não, e não nos esqueçamos que tínhamos passado por toda a história da SIDA, que começa nos anos 70. Pela quantidade enorme de homossexuais assumidos que os Estados Unidos tiveram, o problema da SIDA, sobretudo na Califórnia, mas Nova York também. Eu lembro que o primeiro doente, que só se percebeu depois que tinha SIDA, que eu soube que morreu em Lisboa, no Santa Maria, foi em 77, 78. Eu sei isto por duas razões: porque a mãe da minha filha, a minha ex-mulher, era médica do serviço e foi ela que o tratou, mas não tinha diagnóstico, não perceberam por que ele tinha morrido, e porque ele era namorado e vivia com um doente meu, que ainda hoje é meu doente, aliás. Isto em 77. Os Estados Unidos, acho que foi a altura mais complicada, porque eram os backrooms, os bacanais de homossexuais, aquela coisa da libertação, um bocadinho completamente descontrolada, não havia preservativos, não havia nada, e aquilo foi uma epidemia. Nessa altura, era considerada uma doença, eles eram perseguidos. Aliás, há um filme notável com o Tom Hanks.

É o "Philadelphia".

"Philadelphia", exatamente, sobre isso, que é dos anos 80.

Tem uma belíssima banda sonora do Bruce Springsteen.

Belíssima banda sonora.

Mas então, podemos dizer, José Gameiro, como eu estava a tentar dizer há pouco O facto de até a saúde mental oficial considerar a homossexualidade uma doença contribui para que estas pessoas se tenham sentido excluídas, perseguidas, diferentes e doentes durante muito tempo.

E doentes. E durante muitos anos, oficialmente em Portugal não há e a ordem proibiu. Mas eu estou convencido que ainda existem as chamadas tentativas de terapias de conversão.

Conversão.

Conversão. Isto é um defeito que você tem e portanto vamos tentar converter isto, você vai começar a gostar de mulheres ao invés de gostar de homens.

E o que pensa disso?

É horrível. Eu creio que já se faz muito pouco, mas há países que fazem ainda.

E ainda há países hoje em dia onde a homossexualidade é considerada um crime. As pessoas não podem assumir a sua sexualidade.

Sim, os países islâmicos são terríveis. Os católicos, apesar de tudo, são os melhorzinho que há. Os melhores, apesar de tudo, são os protestantes anglicanos, são os mais aceitam melhor. Mas os árabes não de todo. Os chineses não sei muito bem, não conheço.

E creio que ainda há, eu cheguei a fazer uma reportagem sobre isso na televisão, uma associação em Portugal dos homossexuais católicos.

Exatamente. Sim, há muitos homossexuais católicos. O que é interessante é que apesar da homossexualidade estar cada vez menos discriminada, naturalmente, mas a aceitação muitas vezes, eu estou bem lembrado de uma família muito católica, com oito ou nove filhos, em que um deles, um dos mais novos, assumiu a homossexualidade e foi viver com um doente meu. E ao contrário do que seria previsto, a família acabou por aceitar muito bem e receber o namorado em casa, etc. Aquilo que cada vez mais acontece é que mesmo que a pessoa ache: "É pena ele ser homossexual, eu gostava que não fosse", mas aceitam. Eu já fui a três casamentos homossexuais, dois deles com 500 pessoas. Só não havia era padre. De resto, era exatamente igual.

Normal, é uma festa, uma celebração.

Eu estou convencido, mas não tenho a certeza, isto é uma convicção minha, que eu não tenho a certeza, que há padres, e eu estou bem lembrado de um que conheço muito bem, que é meu amigo, que acho que clandestinamente casa homossexuais pela Igreja. Clandestinamente, naturalmente, não pode ficar registado.

Ou seja, fazem uma cerimônia mais simbólica.

Fazemos uma cerimônia simbólica. Estou convencido que alguns já fazem isso, porque senão têm uma abertura suficiente para fazer isso. Aliás, o Papa morreu, só faltou dizer que os casava. De resto, disse tudo. Foi até onde pôde ir. Depois até onde pôde ir.

Apesar de tudo, depois alguns dogmas permanecem. Agora, sobre esse sofrimento que acompanhou durante tantos anos de clínica, se calhar, vamos por partes. Antes de falarmos dos casais heterossexuais, onde um dos elementos é homossexual, vamos falar dos homossexuais que o procuravam para consultas individuais.

Como casal ou individual.

Mas primeiro como consultas individuais, neste sentido. Esse sofrimento prende-se com o preconceito de que se sentiam vítimas por parte da sociedade, por um desencontro até interno e pessoal, naquele sentido que dizia: "Eu preferia não ser assim", mas por que as pessoas queriam não ser assim?

Havia dois tipos de pessoas que me procuravam com idades normalmente muito diferentes. Havia jovens que queriam fazer o coming out, mas tinham medo da reação familiar e portanto, tinham receio da reação da família, mais até do que a reação social, porque em alguns casos era visível que eles eram homossexuais, como se sabe, há homossexuais que não se percebe fisicamente, não têm trejeitos, mas há outros que têm trejeitos. E, portanto, se percebia e eu dizia-lhes sempre a mesma coisa, que é: "Pelo menos a sua mãe já percebe há tempos". Porque é o que acontece normalmente. Os pais são mais obtusos, têm mais dificuldade em aceitar, porque as mães em geral, estou a falar em relação aos rapazes. Mas as mães percebem muito cedo o que acontece. E, portanto, o que eu fazia era ajudá-los no coming out, sem pressa nenhuma, sem pressão nenhuma, não conseguiam falar, não conseguiam conversar, não conseguiam assumir perante a família. Normalmente, havia a via materna, havia uma ou outra reação chata da parte dos pais, que acabava por ceder. Isto era um tipo de malta nova. 18, 20, 22, 23. Estou bem lembrado de um, que já assumiu perfeitamente, e ainda hoje é meu doente, porque é um tipo introvertido, de vez em quando tem umas depressões. Depois havia os tipos mais velhos, alguns, aliás, pessoas com famílias bem conhecidas e que eram casados, com filhos, e que não aguentavam mais a situação.

E procuravam-no por causa disso.

Procuravam por causa disso e, ao mesmo tempo, aquilo que eu dizia há bocado, com uma enorme revolta de serem assim. "Por que eu sou assim?"

Mas isso significa que preferiam ser de outra maneira. Por quê?

Porque tinham a vida mais facilitada, porque não tinham que ter uma vida dupla, porque não tinham que ter uma vida clandestina. Estes tipos nunca conseguiam ter uma relação estável. Alguns conseguiram a ruptura conjugal e assumir uma relação estável, mas a maior parte não conseguia, por razões interiores e por razões sociais também. E, portanto, o que faziam? Frequentavam os prostitutos. Faziam uma vida sexual paralela a prostitutos. A relação com as mulheres ia-se aguentando tão bem que mal, muitas vezes já não havia nada. Algumas aguentavam bem isso, se calhar algumas agradeciam, eventualmente, não digo eu.

Eu ia perguntar-lhe isso, como é que é para um dos elementos do casal, que está numa relação ou num casamento heterossexual, saber que a outra pessoa gosta de pessoas do mesmo sexo?

Mas a outra normalmente não sabe.

Pronto, mas em alguns casamentos, como dizia, às vezes as mulheres ou os homens até sabem.

Ou muitas vezes as mulheres não sabem, mas também não lhes interessa muito a vida sexual e, portanto, são tão pacatas e não querem muito saber, não querem muito conhecimento. Outras fingem que sabem ou não sabem. Eu acho que lhe contei uma história Acho que já contei a história de um casal. Eu fiz um estágio na coisa da sexologia. Já lhe contei essa história?

Não me recordo.

Uma coisa da sexologia, um estágio do internato de psiquiatria geral, que eu fiz três ou quatro meses com o José Severiano Nunes, que era o melhor sexólogo da altura, que já morreu, infelizmente, e que eu, conjuntamente com uma psicóloga, Clara Sá da Bandeira, que está bem viva, nós fazíamos com ele pra aprendermos o mínimo de sexologia. Eu não fui sexólogo nunca, mas sabia o beabá por causa dos casais. E um dia aparece um tipo, dos seus 40 anos, a dizer que estava impotente. Não conseguia ter relações. E que aquilo estava a começar a tornar-se complicado, porque a mulher não estava a aceitar bem. O que é que nós fazíamos? A mulher falava com a Clara Sá da Bandeira e eu falava com ele. A mulher confirmou que de facto aquilo estava a desaparecer. E o tipo contou uma história inacreditável. Ele sempre foi homossexual, tinha uma relação com um tipo casado, antes do casamento dele. Era amante dele.

Portanto, ele casou com uma mulher mesmo tendo um namorado homem.

Foi o homem que o aconselhou a casar-se. "Vais-te casar, que é para isto não dar nas vistas". Não só casou, como o outro foi padrinho de um dos filhos dele.

Ui!

E passavam férias os quatro. Uma vez por semana, à quinta-feira, nunca me esqueço, tinham o chamado programa de homens para disfarçar. Iam jogar não sei o quê, já não sei o que era. E aí se encontravam num sítio qualquer os dois, uma vez por semana, pra terem relações. Ele aguentou isto até determinada altura, até que não conseguiu ter ereção com a mulher. Ele conseguia ter uma ereção de vez em quando, não sei, foi uma única ocorrência. Sexualmente funcionava com a mulher, com muitos filhos, mas em determinada altura deixou de conseguir funcionar. E ele fez o pedido impossível, que é: "Ponha-me a funcionar com a minha mulher".

Acho que já contou. Agora que está a dizer isso, há aqui qualquer coisa que é sendo uma mentira.

E a gente explicou-lhe que não podia ser, que era impossível.

Não pode ser assim. Agora, o que é interessante é esse mecanismo psicológico, emocional, que é alguém que sabe perfeitamente qual é a sua sexualidade, mas que por uma pressão social, assume outro caminho na sua vida, não é?

Sim.

Ou seja, ele nunca teria querido casar com uma mulher, essa pessoa, não é?

Não, não teria querido. Às vezes, não é tão linear como isso, porque às vezes alguns conseguem ter relações com homens e com mulheres. Depois, há uma altura, raramente isso continua pela vida a fora. Eu já lhe contei uma outra história, não sei se já contei, que também é interessante. Mas aí foi preconceito puro e simples mesmo, muito interessante. Mas alguns conseguem ter relações com rapazes e raparigas, com homens e mulheres. Eu conheço rapazes homossexuais que chegaram a ter relações várias vezes com raparigas e depois um dia experimentaram com rapazes e não quiseram outra coisa. O meu pai dizia com graça, o meu pai, que era um homem que hoje em dia teria 100 anos. Dizia: "Zé Manel, eu já vi muitos irem, nunca vi nenhum voltar, deve ser muito bom, com certeza". Era uma coisa que se dizia na época do meu pai. E é um bocado isto que acontece a alguns. Alguns jovens que experimentaram com as raparigas, com as amigas, com as namoradas, e depois um dia experimentam e não querem. Parece que o prazer é maior, dizem. Eu nunca experimentei, mas dizem que o prazer é maior. E depois há uns que mantêm ao longo da vida alguma bissexualidade. Eu estou me lembrado de um casal, não sei se já contei essa história, porque com a idade eu repito-me muito. Mas uma altura aparece um casal e diz: "Nós estivemos juntos não sei quantos anos, depois separamos e o meu marido foi viver com um homem e agora passaram não sei quantos anos e a gente quer reatar a relação. Estamos a reatar a relação, mas os problemas estão a surgir e precisamos de ajuda". E eu disse: "Mas o problema foi ele ir viver com o homem?" "Não, isso não é problema nenhum, não foi problema nenhum. Isso para mim não é problema nenhum. O problema é que a gente não se entende um com o outro". E eu assim: "Já foste".

Sexualmente. Ela dizia que não se entendiam sexualmente?

Não, sexualmente funcionavam muito bem. Não se entendiam na relação. E eu pensei cá pra mim: "És de facto um preconceituoso, com esta idade ainda teres este preconceito na cabeça que homossexual era um problema". Não era um problema, de facto. E não era, depois, na terapia de casal mostrou-se que não era, era uma relação deles difícil. Aliás, as relações conjugais estáveis e assumidas homossexuais não têm grande diferença. Eu vi várias, não têm grande diferença. Os problemas que surgem não têm grande diferença.

Era isso que eu ia perguntar. Tudo aquilo de que falámos neste ano de 2025, que terminou há pouco tempo, sobre os desafios, os problemas das relações amorosas heterossexuais, aplica-se também às relações homossexuais?

Há uma coisa que às vezes é muito complicada e que é uma grande diferença, habitualmente, que é quando um casal, em princípio, não é casado, enfim, não será casado, mas é igual como se fosse. Um deles, a família está completamente a par do que se passa e o outro é clandestino. Eu segui um casal em que um deles era de Lisboa, vivia na casa desse que era de Lisboa, já tinha uma relação de uns anos. E o outro era de uma cidade da província. De vez em quando, os pais dele, do da província, vinham vê-lo.

Mudavam a casa.

Mudavam a casa toda. O outro desaparecia, ia pra um hotel. Isto deu umas chatices com ele.

Eu ia perguntar se isso não comporta sofrimento, porque imagino que sim, não é?

Claro que comporta sofrimento a um, porque não consegue assumir. Ele diz: "Enquanto os meus pais forem vivos, eu não assumo". Ponto final. Como aliás acontece algumas vezes. Se pensar um bocadinho, encontra alguns casos públicos disso. Pessoas que enquanto os pais forem vivos, não querem assumir. Neste caso, ele dizia para o marido, para o companheiro: "Enquanto os meus pais estiverem vivos, eu não assumo". E o outro ficava meio estragado, como é evidente. Não era por ter mudado de casa, é porque achava que aquilo não fazia sentido nenhum, que eles não podiam andar às claras. Ele, por exemplo, nunca conheceu os pais do outro. No entanto, em Lisboa andavam à vontade. Andavam perfeitamente à vontade, porque o outro era de trás do Sol Poente, não sei da onde, mas muito longe daqui.

Agora, o que isso nos diz, José Gameiro, é que para haver pessoas que até dizem: "Enquanto os meus pais forem vivos, eu não assumo", significa que esses pais têm, de facto, um preconceito em relação à homossexualidade.

Muitas vezes é uma fantasia.

Podem não ter.

Exatamente. Muitos jovens, e eu trabalhei muito isso com os jovens, têm receio que os pais rejeitem. Eu dizia-lhes sempre a mesma coisa: os seus pais podem não gostar, mas a hipótese dos pais rejeitarem um filho porque é homossexual é muito pequena. Pode haver uma fase inicial.

Acontece, pode acontecer.

Pode acontecer, mas é muito pequena. Os pais querem, sobretudo, amar os filhos e gostar dos filhos. Podem ter dificuldade em aceitar, podem ter dificuldades sociais em aceitar, em partilhar com os amigos que o filho ou a filha é homossexual. Hoje em dia, cada vez menos. Eu quando falo, por exemplo, com a minha filha, que trabalha no teatro, ela diz: "Ó pai, para nós, nem nos lembramos que era. Não sei se metade das pessoas que estão ali são homossexuais, se não são metade, é quase metade. E há casais. Não há nenhuma distinção, não há nenhuma diferença".

Mas para haver estes cuidados, esta tensão, digamos, de o coming out de que tanto se fala, esta assunção de que a sexualidade é homossexual, é porque há um preconceito da sociedade ou um tabu, que eventualmente, como dizia, será menos presente ou menos mostrado hoje em dia, mas que ainda existe. Até porque eu imagino que também existem, e queria saber a sua opinião, aqueles casos onde as pessoas dizem: "Eu não tenho nada contra os homossexuais, mas preferia que os meus filhos não fossem homossexuais". Portanto, é esta posição.

Estamos numa fase de transição, apesar de tudo. Não se esqueça que a oficialização ou a legislação sobre o casamento homossexual, que eu acho que foi muito importante em termos simbólicos. Muitos casam, outros não casam, mas simbolicamente é muito importante.

Ter a possibilidade.

Terá oito, nove anos, 10 anos? Não tem muitos anos. O número de casamentos homossexuais tem vindo a aumentar, mas é um bocado residual, não é muito grande. Mas simbolicamente foi muito importante. Não sei se já contei esta história. Dizem-me alguns amigos, não sei se é verdade, alguns conhecidos homossexuais, que eu fui a primeira pessoa na televisão a defender o casamento homossexual, há 40 anos.

Foi em 2010, o casamento em Portugal.

Eu sei. Então já foi há mais. Eu sei que é verdade, porque a minha filha estava na escola na altura e eu imagino o que ouviu. A minha filha tem 48 ou 49. Tinha oito, estava na escola, na primária. Porque o pai foi para a televisão dizer que os homossexuais deviam casar.

E a sua filha ouviu coisas na escola.

Claro, foi vítima de algum bullying. Aliás, depois tivemos que ir lá falar com a diretora, que era uma mulher aberta, já morreu. Para pôr um travão aquilo, porque aquilo foi os paizinhos dos outros e das outras dizerem: "O teu pai é um perverso".

Há esta ideia, e se calhar, apesar de poder parecer muito óbvio, vale a pena dizê-la explicitamente, de que ser homossexual é uma escolha e, portanto, que as pessoas podem escolher não ser. Eu queria que o José Gameiro nos dissesse.

Isso é um disparate pegado. A razão da homossexualidade não se conhece. Pensa-se que é uma coisa genética, é a hipótese mais forte. Obviamente que havia muita gente, muitos homens e mulheres, que tinham essa potencialidade dentro delas, mas a repressão social era de tal maneira grande, que deixou de ser. E portanto, nós agora dizemos: há muito mais homossexuais que havia. Há muito mais assumidos homossexuais que havia. De facto, é verdade, porque a sociedade permite mais que eles venham cá para fora. Estima-se que haja cerca de 5% da população homossexual. É uma estima. Mas é genético, não se sabe a razão. Ninguém escolhe ser homossexual, nem ninguém escolhe ser heterossexual. Ninguém escolhe.

E como ninguém escolhe ser homossexual, também imagino que seja difícil escolher deixar de ser.

Claro, obviamente. Alguns tentam forçar-se a deixar de ser, mas normalmente não funciona bem, como é evidente. Depois há os bissexuais. Existem, de facto, bissexuais.

Era isso que queria perguntar-lhe. Portanto, existe a bissexualidade, tal como existe a homossexualidade.

Existe.

Uma pessoa não tem de ter definido uma.

Algumas pessoas são homossexuais exclusivas, não conseguem ter relações. No caso dos homens é mais complicado, porque pressupõe ereção. No caso das mulheres, mais passivamente, é possível. Mas não conseguem ter prazer nenhum nisso. São homossexuais exclusivos. Mas nada garante que um dia não aparece uma princesa e saltam para cima. Desculpa a minha brincadeira, e saltam para cima da princesa e até aí saltavam para cima de príncipes. Nada garante que isso não aconteça, mas normalmente não acontece. E depois há pessoas que são bissexuais e portanto têm relações com homens e com mulheres e alguns não têm preferência, outros têm preferência. Conseguem ter com os dois, mas têm a preferência. Portanto, a bissexualidade existe, de facto. Também não tem explicação.

Também não tem explicação.

Há quem diga que são mais felizes que nós, que têm mais escolha.

Sim, duplica.

Duplica a escolha.

Duplica a escolha, o universo da escolha. O José Gameiro quis trazer este tema para o nosso podcast e voltando ao início da nossa conversa, vale a pena dizer com todas as letras que a homossexualidade não é uma doença.

Não é uma doença, de modo nenhum. Não é uma doença, não é controlável pelo próprio, a pessoa não escolhe ser homossexual. É uma coisa como ser louro, moreno, alto, baixo.

É uma característica.

É uma característica.

Que ainda assim comporta sofrimento, por ser diferenciadora.

Ainda comporta sofrimento, cada vez menos.

Por, para algumas pessoas da sociedade, ser diferenciadora ou ser um elemento distintivo.

Depois há uma coisa, não sei se ainda tenho tempo para falar. Hoje em dia acontece menos, e eu percebi que acontecia antigamente, que é uma autoguetização dos homossexuais, que eu sou completamente contra, acho que é um disparate que eles fazem. Hoje em dia é menor, hoje em dia eles misturam-se muito mais. Mas aquela coisa de haver discotecas para homossexuais. Eu percebo que se sintam mais à vontade, que sejam mais livres, mas acho que durante muitos anos, eu percebo a discriminação, não ajudou muito a guetização que eles fizeram de eles próprios.

Portanto, estarem fechados na bolha deles.

Estarem fechados eles próprios. Neste momento há hotéis, mas isso tem a ver com razões comerciais, porque não há crianças. Os homossexuais de um certo nível social têm muito mais massa do que nós, não têm filhos, não têm escolas para pagar. E, portanto, há hotéis, cá em Portugal não sei se há algum, mas penso que é, ou teve para haver. Mas lá fora há imensos hotéis. Quer dizer, você não pode sair, mas são hotéis sobretudo para gays, em que não há crianças. Um casal homossexual que seja um quadro médio superior tem menos coisas que nós. Portanto, viaja mais, passeia mais, vai para melhores hotéis. Olhe, são mais felizes.

Falou nos filhos e se calhar vale a pena trazer aqui este tema também, antes de fecharmos, que é esta ideia que já muitas pessoas levam a cabo, de não só adotarem, casais homossexuais, como conseguirem ter um filho biológico. Em Portugal não é possível, mas fora de Portugal, onde fazem a doação do esperma e depois há uma mulher que tem uma FIV, uma barriga de aluguer.

Em Portugal não é permitido.

E depois ficam com o filho ou com a filha. E há também algumas reservas de algumas pessoas, de senso comum temos esta ideia, em relação a esta criança que depois é criada por dois pais ou por duas mães. Dir-me-ia para a saúde mental desta criança, não há qualquer problema ou há?

Não. Os estudos mais antigos sobre isso são canadianos. O Canadá tem uma legislação muito antiga, talvez das mais antigas do mundo, em relação a estudar longitudinalmente a evolução das crianças que são filhos de casais homossexuais, ou homens ou mulheres, e não há nenhuma diferença. A única diferença que pode haver, no Canadá não sei, mas em Portugal pode haver, tenderá a cada vez menos, é social. Ou seja, imagine uma reunião de pais na escola e o pai e pai, mãe e mãe. Depende um pouco do nível social, depende do sítio onde for, mas eu acho que ainda há discriminação. Ainda se fala disso.

Mas para a saúde mental daquela criança?

Está provadíssimo que não.

Se calhar, back to basics. O que a criança precisa é de amor.

Agora, se me perguntar assim: é fácil um casal homossexual fazer uma adoção em Portugal? Não é. Há muito preconceito.

Considera que existe das instituições?

Os psis são do pior que há. Estou a brincar. Os psis e assistentes sociais, não todos, como é evidente, que são quem decide muitas vezes essas coisas, têm muitos preconceitos. Não só em relação a isso, têm muitos preconceitos em relação ao que é uma família. Há muito preconceito.

O que é a família ideal para adotar.

O que é a família ideal, etc. Conheci isso muito proximamente e portanto sei como é que isso funciona.

Mas lamenta?

Lamento completamente. Eu conheço uma situação em que há um casal que esteve sete anos à espera de adoção e uma das coisas que lhes puseram é que eles viviam a 200 km da família. E então? Qual é o apoio que têm? E a maior parte das pessoas não vive longe da família?

Pois, claro.

Não temos amigos? Esta era uma razão para dificultar. Bullshit, desculpe a expressão. Há muito preconceito ainda.

Não ficamos aqui porque vou ler um poema, como faço às vezes aqui no podcast, que vem bem a propósito, porque é um livro que saiu em 2025, escrito por poetas gays. O livro tem logo um título muito interessante, diz: "Quiseram enterrar-nos, não sabiam que éramos sementes". Cá está. Fala desta questão do preconceito. "Ou alguma poesia gay europeia". A seleção e tradução é do Ricardo Marques, tem vários poetas e eu vou ler um poema de um poeta grego, que já morreu em 2020, chamado Dinos Christianopoulos, que é um poema pequenino que tem a ver com o encontro entre duas pessoas e eu achei-o muito bonito. Diz assim: "Um jovem trouxe-me os seus poemas para ler. Enquanto se senta à minha frente aguardando as minhas críticas, não lhe vou dizer como escreve mal. Os pelos brilhantes da sua perna entre as calças e as meias revelam o seu poema mais adorável." Cá está, fica também esta sugestão, "Quiseram enterrar-nos, não sabiam que éramos sementes". Seleção e tradução de Ricardo Marques, edição Narcissos. José Gameiro, até já e obrigado.

Até já, obrigado.

O podcast "A Invenção do Amor" tem autoria de Raquel Marinho e José Gameiro e música de Filipe Raposo. Pode escrever-nos para ainvencaodoamor@gmail.com e colocar-nos as suas questões e também seguir-nos nas plataformas de podcast e nas redes sociais para acompanhar de perto a estreia dos novos episódios.