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Portanto, também se calhar esta ideia de que os homens é que são os infiéis profissionais é um mito.
Isso é uma mania. Os homens não são infiéis uns com os outros, nem são só com mulheres solteiras. Eu acho que a infidelidade masculina e feminina, não sei se é 50/50, mas se não é 50/50, é 52/48, é assim uma coisa.
Será muito semelhante.
É muito semelhante.
O poeta Daniel Felipe publicou o poema "A Invenção do Amor", em 1961. Mais de 60 anos depois, recuperamos as suas palavras para dar título a este podcast com José Gameiro, médico psiquiatra, membro fundador da Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar e terapeuta de casais e famílias há mais de 40 anos, e Raquel Marinho, jornalista por mais de 25 anos, podcaster e divulgadora de poesia. Vamos conversar sobre saúde mental e também relações amorosas e familiares, o que as protege e o que as põe em risco. A partir de agora, somos um podcast observador, o que significa que pode escutar-nos no site, mas também continuar a acompanhar-nos em todas as plataformas de podcast, como até aqui. O podcast "A Invenção do Amor" tem autoria de Raquel Marinho e José Gameiro e música de Filipe Raposo. Olá, Zé Gameiro.
Olá, Raquel.
Bem-vindo a mais um episódio aqui do nosso podcast. Como temos muitas perguntas dos ouvintes, talvez seja melhor responder novamente a algumas. E se calhar começamos com uma, de uma pessoa que pediu, naturalmente, para ficar anónima e que ouviu o nosso episódio sobre o burnout e que tem aqui algumas questões, e que eu vou passar a ler-lhe: "Qual a responsabilidade dos próprios profissionais com relação a chegar ao estado de burnout?" Esta é uma pessoa que eu creio que tem funções de gestão. "Um profissional que alega burnout e já encontrou outro trabalho e continua a contactar a empresa, está realmente com burnout, proibindo a empresa de o contactar, no entanto, sentindo-se no direito de ele mesmo o fazer? É preciso também, que há pessoas com outras patologias de base, mitomania, transtornos depressivos e tal, que usam o burnout para conseguirem indemnizações? Como é que os profissionais de saúde podem garantir isenção e assertividade? Porque podemos entrar em caminhos perigosos, porque o diagnóstico do médico não pode ser questionado pela entidade patronal. No entanto, o médico pode não conseguir ter todo o enquadramento. Falo por experiência própria, professoras de alto renome passarem baixas médicas por burnout e mais tarde se descobrir que os profissionais ou doentes não tinham realmente burnout, quanto muito tinham estados depressivos ou de bipolaridade ou traumas do passado e apenas queriam garantir um salário ou uma indemnização. Penso que será bom colocar as coisas em perspetiva sob pena de um efeito alastrado que prejudica uma sociedade." Como é que o Zé Gameiro responde a estas dúvidas e questões?
Não é fácil, porque a psiquiatria, agora menos, mas sempre foi usada para tentar ser manipulada. Ou seja, enquanto você tem uma perna partida, tem uma doença que é diagnosticada por análises, por observação, por raios-X, pelo que você quiser, é fácil de detectar se é verdade ou se é mentira. As doenças psiquiátricas, na maior parte dos casos, não têm uma consistência física de prova.
Evidente.
São sintomas. Claro que, por um lado, nós com a experiência vamos aprendendo quando é que vêm ter connosco. Por exemplo, já me aconteceu várias vezes, virem ter comigo numa primeira consulta, de repente, uma pessoa que vem se queixar de uma coisa e pede uma baixa. Eu não posso passar baixa, mas posso passar cartas para os colegas. Se for da ADSE, eu posso passar baixa. É desconfiar imediatamente. E depois a psiquiatria é muito usada para prolongar a baixa. Ainda neste momento as juntas médicas já não vão tanto na conversa como iam antigamente. Houve uma altura até que era relativamente fácil reformar pessoas da psiquiatria. Houve casos graves com coisas de justiça, porque falsos diagnósticos que davam forma. Houve colegas meus que foram punidos, seriamente punidos, porque faziam falsos diagnósticos, ensinavam os doentes a simular sintomas para serem reformados por coisas psicoticas muito cedo. Isso acabou. Hoje em dia, se houver, é muito raro. Agora, já me aconteceu a mim, uma, duas vezes, eu ter desconfianças de estar a ser manipulado e ter que acabar com aquilo. Isto em geral, em relação à psiquiatria. O burnout é um quadro que é mais difícil. É sempre possível a pessoa ser enganada, mas é mais difícil, porque é um quadro, em geral, em pessoas que não têm história nenhuma atrás, depressiva, e que vivem um estresse aumentado profissional. É um quadro em relação com a profissão. E é um quadro, já falámos disso, penso eu, é um quadro cujos sintomas não são tão depressivos, são mais de ansiedade e que se prolongam no tempo, muito tempo. Obviamente que se alguém, como diz a leitora ou ouvinte, muda de trabalho, vai trabalhar para outro sítio e continua a contactar a antiga empresa, não está em burnout por isso nenhuma, porque uma das coisas que o burnout é completamente impeditivo é de haver contactos com o trabalho. Quer dizer, a pessoa está em burnout e se não consegue isolamento, um telefonema, um e-mail, uma mensagem, um WhatsApp, seja o que for, da empresa, desencadeia uma crise de ansiedade. Acho que já contei a história de uma colega minha que eu acompanhei há muito tempo.
Do Alentejo, não é?
Sim, que era de um centro de saúde de uma terra pequena e que ela respondia, mas ele batia-lhe à porta.
Muito difícil aí de tratar.
Muito difícil de tratar, porque dizia: "Você tem que estar isolada". "Mas como é que batem à porta, sei lá quem é que é? Eu tenho que ir à porta". Era alguém do centro de saúde a pedir para ela assinar um papel. Dizia: "Você não tem que assinar nada. Aliás, não pode assinar nada, está de baixa, não pode assinar nada". E foi uma sessão bem arrastada de burnout. E portanto, o burnout é um quadro que é relativamente difícil de simular. Não é fácil de simular, mas é possível. Eu, em princípio, não duvido daquilo que as pessoas me dizem. Se a pessoa me diz: "Eu estou a trabalhar no sítio tal, tenho um cargo de grande pressão. Tenho uma pressão enorme que cada vez vai aumentar mais. Estou de baixa, fui ao médico, estou de baixa a partir do momento em que eu lhe faço uma carta e a seguir tenho determinado tipo de sintomas". Por muito que eu investigue os sintomas, e os sintomas são relativamente fáceis de definir quais são, eu posso ser enganado.
Já lhe aconteceu, José Gameiro?
O burnout nunca me aconteceu. Que eu saiba, nunca me aconteceu.
Noutras situações já lhe aconteceu?
Já me aconteceu.
Já?
Já me aconteceu. Já me aconteceu numa situação que eu nunca mais me esqueci, de um tipo que me aparece a dizer que trabalhava numa instituição qualquer bancária, a dizer que tinha sido maltratado, que tinha sido feito, acontece, não sei o quê. E depois apareceu com uma ameaça de que ia lá com uma espingarda e matava metade das pessoas. Eu, na dúvida, levei aquilo a sério. Tive alguma dúvida, mas levei aquilo a sério e falei com a Ordem dos Médicos, porque nós não podemos denunciar uma situação.
Por causa do sigilo profissional.
Por causa do sigilo profissional. Falei com o presidente do colégio, o presidente que eu conhecia muito bem, é meu colega do Porto. Falei com ele e disse: "Se passa se seja assim, vê lá se achas que eu devo fazer um pedido de autorização para denunciar o sigilo médico, que eu acho que este gajo aqui é perigoso". Nunca me tinha acontecido. O gajo depois acalmou, aquelas ideias passaram, mas meteu um processo contra o banco, onde eu me encontrei com o advogado dele. E diz-me assim o advogado: "Olhe, senhor doutor, o senhor doutor já percebeu que estamos a ser os dois enganados? Isto é tudo uma grande hora, viu? Este gajo quer é dinheiro". E eu disse: "Eu já tinha desconfiado, mas com a sua clareza, fez-me luz o espírito. De facto, vamos embora. Acabou. Não fui testemunha dele. Vamos embora."
Pois.
Acabou mal. Mas foi a única vez que eu lembro assim de ser enganado. Fui enganado, em terapias de casal fui muitas vezes enganado, mas aí é diferente, é outra conversa. Fui enganado algumas vezes. Agora, o quadro de burnout não é um quadro facilmente de enganar. Alguém com experiência não é facilmente enganável num quadro de burnout, porque há sintomas muito específicos e muito precisos, que é muito difícil uma pessoa, a não ser que tenha estudado muito bem o quadro, simular. Muito difícil de simular. A responsabilidade patronal do burnout, eu não sei como é em Portugal, mas em Portugal as indemnizações jurídicas, essas coisas, não sei se existem, se existem são ridículas e demoram 20 anos até se chegar a uma solução. Não sei se há responsabilidade, porque muita da responsabilidade do burnout, obviamente que há empresas que fazem uma enorme pressão sobre as pessoas, mas também as pessoas têm alguma responsabilidade ao não se defenderem dessa pressão. Eu percebo que às vezes é difícil não se defenderem. Os dois últimos burnouts que eu tratei, tinham uma característica em comum: eram pessoas que estavam separadas, sozinhas, uma delas sem filhos, a outra com uma filha já crescida. E portanto, que estavam muito mais disponíveis porque têm uma família. E portanto, deixavam-se pressionar muito por causa disso.
Não impunham limites.
Exatamente.
Que é uma das coisas que o José Gameiro sugere nesse episódio no qual falamos sobre o burnout. Há aqui um outro tema que é recorrente, volta aqui ao nosso podcast, que é os dois episódios que fizemos sobre a infidelidade e as pessoas continuam a escrever, a perguntar sobre isso e no caso, temos duas pessoas que escrevem sobre casos de infidelidade. Vou passar a ler um dos e-mails, diz assim: "Os casos que o doutor José Gameiro analisa são casais que querem manter a relação e que tiveram uma 'one night stand' ou uma relação paralela, mas quando um dos parceiros, neste caso um homem, tem sucessivos casos com diferentes mulheres em simultâneo, para além da mulher oficial, quando quer manter a mulher oficial, mas não deixa de seduzir, de se envolver com outras de forma sistemática, dizendo que isso vai terminar, mas consecutivamente vai encontrando sempre novos casos". E depois há outra pessoa que também escreve no mesmo sentido e que diz: "Eu vivo esta situação há vários anos com um homem que me assume como a mulher dele, a mulher oficial, mas que nunca deixou de procurar outras, de me enganar e mentir descaradamente. Apesar do que vejo e sei Tenho tentado inúmeras vezes acabar com a relação, mas acabo sempre por ceder aos seus apelos "sérios" de que tudo isso acabou. Gostava de ouvir o doutor José Gameiro discorrer sobre este tipo de infidelidade e qual é o prognóstico.
O prognóstico é mau. O doente pode não morrer, mas o prognóstico é mau. É aquilo que eu chamo, a brincar e a sério, os infiéis profissionais. Há pessoas, tradicionalmente mais homens, mas cada vez vêm mais mulheres. Com as igualdades cada vez maiores que existem, os comportamentos mais similares que existem, eu já vi até mulheres com comportamentos deste tipo. Ainda bem, num certo sentido, que são iguais, não há diferença. Há um amigo meu, que é mais velho que eu, que é meu colega e que foi toda a vida um infiel profissional e que me dizia uma coisa que é: "Eu preciso olhar para o espelho todos os dias e achar que ainda sou desejado". É isto, é uma coisa mais física. Além da questão de procurar prazeres novos e pessoas novas, que dizem que tu és o máximo, que és não sei o quê, que és bestial, que és não sei o quê. Há uma necessidade narcísica de ser gratificado sistematicamente e uma necessidade de prazer sexual que muitas vezes já desapareceu, na sua forma mais exaltante, com a pessoa oficial com quem se está.
Significa isso que a pessoa permanente da vida desta outra pessoa, portanto, da vida desta mulher ou deste homem, a pessoa permanente que mantêm não satisfaz essa necessidade narcísica.
Não satisfaz. Não por culpa dela, muitas vezes. É porque a necessidade narcísica é de tal maneira grande, que não há ninguém que lhes chega a não ser sucessivas pessoas. Uma relação fora do casamento, ao princípio, é muito aliciante. Tem o seu lado, obviamente, de risco e de negativo, mas a clandestinidade, a força da clandestinidade, tudo isso é muito aliciante. E portanto, sendo muito aliciante, obviamente que as pessoas mantêm isso, há pessoas que queimam aquilo em poucos meses, porque deixa de ser aliciante e passam a outra.
Ou seja, é muito diferente uma situação em que, numa relação estável, uma das pessoas tem uma relação fora e tem culpa, procura ajuda e quer salvar aquele casamento e depois até vai fazer terapia de casal.
Nalguns casos, sim.
Nalguns casos, do que uma situação de uma relação estável, onde um dos elementos permanentemente procura fora pessoas novas.
E não é uma relação aberta, porque há relações que depois são abertas, não há muitas, mas há algumas, em que os dois podem fazer isso. Não é uma relação aberta. Portanto, é uma relação em que uma das pessoas está sempre em sofrimento, porque muitas vezes nem sequer escondem. O comportamento é tão frequente e tão claro que a outra pessoa percebe rapidamente. As histórias aparecem o ato na camisa, essas histórias assim, não são se as tintas, quem vai saber? E depois a outra pessoa tem muita dificuldade em separar-se muitas vezes, por várias razões. Essas razões depois são variadas, variadíssimas.
Mas então o prognóstico é mau porque tratando-se de uma personalidade narcísica...
É muito difícil de sair dessa situação.
Mas por quê? Porque tratando-se de uma personalidade narcísica, essa pessoa não vai deixar de procurar gratificação nova sistematicamente?
Sim, tem muita dificuldade em deixar de fazer isso. Vai ter dificuldade em "submeter-se" ao pedido da sua pessoa oficial, dizendo: "Desculpa, eu não aguento isto". Eventualmente, uma grande crise pode estar uns tempos sem fazer nada, mas depois volta.
O que isso nos diz sobre essas pessoas? Essas pessoas têm alguma abordagem que possa fazer se elas desejarem, de facto, mudar? Ou essas pessoas não desejam mudar? Ou depende?
Algumas desejam mudar. Já tive doentes que desejam mudar. São terapias individuais.
Ah, já teve terapias individuais de pessoas com este comportamento?
Com este comportamento, já. Queriam mudar. "Não aguento mais isto, isto vai dar cabo da minha relação, está a dar cabo de mim, eu não aguento isto". Depois, pelo menos, às vezes há coisas físicas, dá ansiedade. Alguns fazem isto como quem bebe um copo de água, mas há outras pessoas que não, isto dá culpa e dá trabalho. E portanto, muitas vezes querem assim: "Tenho que resolver isto". E eu trabalho com elas sentido: "Ao longo da vida, todos nós ou quase todos nós temos que renunciar a coisas. Temos que renunciar a coisas, à atração que podemos sentir ao longo da vida por outras pessoas, umas mais, outras menos, numa fase mais, outras fases menos, quase toda a gente já sentiu atração. E portanto, há uma renúncia que você tem que fazer. Vamos trabalhar sobre essa renúncia, como é que é fácil você renunciar, quais são os passos antes". Eu falo sempre com as pessoas que há um ponto a partir do qual voltar para trás é muito difícil. Um turning point qualquer, um cantófo, se me permite dizer, em que você já sabe que se for tomar café com não sei o quê, o risco aumenta, se for não sei o quê, o risco aumenta. Você, se quer evitar isso, não faça nenhum comportamento em que haja riscos. Porque você já se conhece a si próprio e sabe que se for tomar café, se for almoçar, jantar é mais complicado às vezes, por causa da família, mas se for almoçar, se for não sei o quê, você tem risco de acontecer. E sabe-se que se começa, nunca se sabe como é que acaba.
Pois, exato. O José Gameiro diz muitas vezes essa frase. Dizia, quando li há pouco os e-mails destas ouvintes, que o prognóstico é mau. Este segundo e-mail, o prognóstico é mau. Ainda assim, viu em terapias individuais pessoas que procuraram ajuda. Nos casos em que as pessoas procuram ajuda, as pessoas que têm este comportamento, o prognóstico melhora?
Tem o melhor prognóstico, porque percebem, porque muitas vezes gostam imenso da outra pessoa com quem estão e não querem acabar com a relação com a outra pessoa. Às vezes até se dão muito bem sexualmente com ela Isto é um mix complicado. E tem a relação familiar que querem preservar. Às vezes há uma insatisfação sexual muito grande com a pessoa com quem se está ou entrou numa rotina que já não tem muito interesse para elas. Outras vezes não, outras vezes há quem me diga: "Prefiro ter alguém por fora do que uma mulher em casa." Eu penso: "Mas não pode ser, sua mulher ou seu marido estão a sofrer imenso." São as pessoas que me dizem que eles estão a sofrer, eu não os conheço de lado nenhum. E portanto: "Você tem que controlar isto, porque senão isto vai dar cabo de si e vai dar cabo da relação, é uma questão de tempo."
Então, respondendo diretamente à pergunta, não sei se é possível, desta pessoa que nos escreveu dizendo qual é o prognóstico, depende, não é?
Depende. Se a pessoa quiser tentar resolver isso. Eu já fui enganado várias vezes em terapia de casal, por exemplo. Já fui enganado várias vezes em terapia de casal. E foi uma senhora, uma rapariga, uma mulher. Numa terapia de casal, ela foi apanhada, foram para a terapia de casal os dois, e eu fazia sempre a entrevista individual a cada uma delas. Ele não tinha história de infidelidades, mas ela tinha história de infidelidades uns anos antes já, era a segunda vez que acontecia. E cheirou-me que aquilo era uma prática, entre aspas, não profissional, obviamente, mas entre aspas, que era uma coisa compulsiva da parte dela. E perguntei-lhe diretamente, e ela disse-me que não, não era.
E que naquele momento não estava.
Naquele momento não estava, tinha acabado a relação. E depois, mais tarde, veio a perceber que era uma coisa compulsiva, que a relação tinha se mantido, que havia outras pessoas. O marido, depois de estar a investigar como deve ser, não fui eu que investiguei, obviamente, investigou e o casamento acabou.
Portanto, também se calhar esta ideia de que os homens é que são os infiéis profissionais é um mito, não é?
Isso é uma mania, os homens não são infiéis mais do que os outros, nem são só com mulheres solteiras. Eu acho que a infidelidade masculina e feminina, não faço ideia se é 50/50, mas se não é 50/50, é 52/48.
Será muito semelhante.
É muito semelhante.
E para terminar este tema em relação a estas perguntas, pergunto: estas duas são mulheres que nos escrevem, terão melhor prognóstico para os casos que referem se falarem sobre isto com as pessoas? Ou seja, vamos imaginar que alguém tem esta prática recorrente, mas nem sequer fala do assunto. O prognóstico será pior do que quando há uma discussão.
Não fala do assunto com quem?
Com a companheira ou com o companheiro em casa. Ou seja, o prognóstico é melhor se houver abertura para conversar sobre isto?
É melhor. É melhor porque às vezes acontece, não é muito frequente, mas às vezes acontece, que há uma certa infidelidade consecutiva e isso tem de fato a ver com a relação física com a pessoa com quem se está. A questão das práticas sexuais, que é muito importante. Eu já disse isto várias vezes nos podcasts, que é: casais que depois quando há uma infidelidade, vem a técnica e a relação sexual muda muito, torna-se muito mais aberta, porque há a imaginação que com outra pessoa se fazia isto, aquilo e aquilo outro. E então se mete algumas nacionalidades e ainda mais aberta fica. Há umas fantasias sobre mulheres de outras nacionalidades. Mas isso para dizer que há casais, estou a lembrar-me de uma coisa recente, mas é uma coisa de amizade, não tem a ver com clínica, em que havia uma queixa desse tipo e eu perguntei: "Mas alguma vez perguntaste como é que ela gosta? Ou como é que ele gosta? O que faz?" "Não, nunca perguntei." "Então estávamos perguntar, se calhar gosta de coisas um bocadinho diferentes." E de fato aquilo era verdade.
O José Gameiro usou a expressão: "Tem a ver com as práticas sexuais, que é um fator importante". Ou seja, a infidelidade também pode estar relacionada com isso.
Pode estar relacionada com isso, pode estar relacionada com a incapacidade que há no casal de falar sobre isso. E portanto, de ir procurar outra pessoa para ter práticas que se imagina que não são possíveis no casal, mas que muitas vezes são possíveis. Muitos casais, ou alguns casais, agora não sei se são muitos ou alguns, têm dificuldade em falar sobre as suas práticas sexuais e sobre os gostos que têm sexual. Fazem aquilo que é suposto fazer, que é mais ou menos o programa, não sei se é o programa geral, mas é o programa mais geral da vida sexual das pessoas, mas depois não perguntam se a pessoa gosta de mais assim ou mais assado.
E diria que é bom perguntar.
Claro, é fundamental perguntar.
Fundamental, não é só bom, é fundamental.
É fundamental perguntar. Perguntar logo no princípio, mas ao fim de um tempo ter intimidade para perguntar: "Como é que é? Tens mais prazer assim, assado, frito ou cozido?" É fundamental. Não custa nada. Não custa nada fazer perguntar isso.
Sim, mas imagino que nalguns casais seja difícil alcançar. Imagino eu, dir-me-á o Zé Gameiro. Um nível de intimidade onde essa conversa seja normal.
Sim, é difícil.
Se nem toda a gente, como já vimos noutros podcasts, fala sobre sentimentos, também nem toda a gente fala sobre sexo. Certo?
É.
Portanto, é preciso caminhar nesse sentido.
E os homens ainda têm algum pudor, ainda pensam, não é bem isto que eu queria dizer, ainda pensam que as mulheres são pessoas com muito pudor. Pudor no sentido velho da palavra. Há uma frase notável O último filme do Kubrick.
Não me estou a lembrar.
"Eyes Wide Shut", "De Olhos Bem Fechados".
"De Olhos Bem Fechados", sim.
Em que o casal é a Kidman com o-
E o Tom Cruise.
O Tom Cruise. Ela é muito melhor que ele, mas enfim, isso é outra conversa. É uma história de uma fantasia que ela tem num jantar em que estão com a criança naqueles sítios ao pé de Boston, na praia, e entra um gajo que ela não conhece, um homem vestido de oficial da Marinha, que era oficial da Marinha. E à noite, charrados os dois, já com um char, diz-lhe: "Eu vi aquele gajo e tu não imaginas. Just a glimpse, eu era capaz de fugir com ele e largar tudo." E ele fica em pânico, completamente em pânico. O filme depois é muito forte. Entretanto, eles conhecem um homem que organiza bacanais ultrassecretos. Ele consegue infiltrar-se dentro do bacanal, porque é tudo mascarado. E o filme desenrola-se a maior parte do tempo nesse bacanal, enquanto que ela está em casa com a criança. Isto passa-se na véspera de Natal e há uma frase que ela lhe diz no meio desta conversa: "Vocês, homens, não têm a mínima ideia do que são as mulheres. Não têm a mínima ideia do que as mulheres pensam, o que as mulheres imaginam, o que as mulheres fantasiam. Não fazem a menor ideia." Isto é um filme que deve ter para aí 20 anos ou 25 anos. E o filme termina de uma forma brilhante. Fechou e voltou a abrir. Loja de brinquedos que me conhecia de Nova Iorque, chamada Schwartz, que é uma loja gigante de brinquedos cá em Nova Iorque, fechou e agora voltou a abrir. Com a criança, eles dois completamente marados, porque não tinham dormido a noite toda, a passear com a criança, a escolher brinquedos para o Natal. A criança tinha para aí cinco ou seis anos. E a frase final do filme. O filme já não é montado pelo Kubrick. O Kubrick entretanto morre e o filme é montado por alguém. A frase final do filme é eles dois com um ar muito pedrado, muito cansado, muito estourado. Ela volta-se para ele e diz-lhe assim: "Sabe do que a gente precisava agora?" Ele diz: "Não." "Foder." E termina o filme. Viu o filme?
Vi.
Eu passei este filme nas formações para terapia de casal e de família, casais sobretudo, dezenas de vezes, porque é um filme que explica o que é um casal, mesmo sendo de culturas diferentes da nossa, mas explica o que pode ser um casal e as singulares de um casal e sobretudo a diferença de sagacidade que eu acho que existe imenso entre as mulheres e os homens nos casais.
Por que diz isso? Que existe imenso.
As mulheres são mais espertas, pensam mais, têm uma imaginação muito mais fértil e os homens não lhes passa pela cabeça muitas vezes o que as mulheres imaginam. E muitas coisas que elas imaginam, elas não conseguem transmitir por vergonha.
Portanto, cultural, uma coisa cultural. Que a mulher-
Que ainda persistem.
Persiste esta ideia de que a mulher deve ser recatada.
Exatamente. Eu não me esqueço que um amigo meu, que tinha muitas namoradas, já morreu, e ele dizia: "Epá, tive uma que não me dava gozo nenhum. Ainda eu não tinha pousado a carteira, já ela estava toda nua". Eu disse: "Mas qual é o mal?" "Epá, não pode ser assim, as mulheres não podem ser assim." Era um homem mais velho que eu, e que significava alguma cultura machista. Qual é o problema da mulher que estava já toda nua? Para ele, era suposto que isso não acontecesse assim de uma forma tão rápida.
Sim, como falámos em relação a perguntas anteriores, até esta ideia de que às vezes até quando diz que não quer, só está a fazer o que é suposto fazer, porque no fundo até quer.
Claro que quer.
Esta ideia.
Algumas querem, outras não. Depende do que é que quer, o que não quer. Mas o que elas querem, eles às vezes têm dificuldade em aceitar que elas queiram, porque continua a haver, muito menos do que antigamente. Mas continua ainda a haver aquela coisa de que com umas, às oficiais fazem-se umas coisas, com as outras fazem-se outras. Isso ainda existe.
Mas é machismo, isso.
Completamente.
É uma cultura muito machista.
Como havia a ideia, que agora não sei se ainda existe, que as miúdas do meu tempo que davam umas baldas não eram para casar. Quer dizer que se davam baldas connosco, então davam com outros.
Enquanto eles davam baldas para usar a sua discrição.
À balda.
À balda. Zé Gameiro, não temos mais tempo hoje para responder a perguntas mais ouvintes. Temos aqui várias, teremos de voltar noutros episódios a falar destas questões, mas então para fechar esta ideia que se prende com a infidelidade. Mau prognóstico para as pessoas que escreveram. Mau prognóstico se a pessoa não falar muito sobre o assunto e não quiser mostrar abertura.
Isso se for uma coisa consecutiva.
Se for uma coisa consecutiva. Ainda assim, para quem procura ajuda ou se predispõe a isso.
O prognóstico melhora.
E o Zé Gameiro viu alguns casos, o prognóstico melhora. Obrigada e ficamos com esta sugestão, não é? Porque fez uma sugestão cinéfila para os nossos ouvintes. "Eyes Wide Shut" "De Olhos Bem Fechados", do Stanley Kubrick. Até breve. Obrigada.
Adeus, Raquel.
O podcast "A Invenção do Amor" tem autoria de Raquel Marinho e José Gameiro e música de Filipe Raposo. Pode escrever-nos para ainvençãodoamor@gmail.com e colocar-nos as suas questões e também seguir-nos nas plataformas de podcast e nas redes sociais para acompanhar de perto a estreia de novos episódios.