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O que podemos dizer para as pessoas que nos estão a escutar? Nós estamos na semana do Natal, o Natal está aqui à porta e que têm este tipo de desafios. Ou seja, por um lado, vão eventualmente encontrar-se com pessoas com quem não têm nenhuma relação e vão cumprir um calendário, mas depois também a outra situação, eventualmente mais desafiante, que é pessoas que não têm muita família ou não podem ver a família e se defrontam com esta coisa de passarem uma noite de Natal sozinhos.

Sozinhos. É horrível. É horrível, porque estar sozinho pode ser sempre mau. Às vezes não é, mas volto à questão, que a noite de Natal, quer se queira, quer não, tem um significado muito especial. E não é por acaso que as pessoas mais pobres, as pessoas com mais dificuldades, as pessoas que não têm acesso a determinadas coisas, na noite de Natal há organizações, há associações que chegam perto delas e dão-lhes um bom jantar, jantares razoáveis, e fazem uma certa companhia. Mas depois acabou. Quer dizer, aquilo é um dia sem exemplo. E portanto, a solidão mata. A solidão está provadíssimo que mata. A solidão é das coisas mais, já falámos disso.

Uhum, já falámos noutros episódios.

A solidão é das coisas mais negativas que há para a vida das pessoas.

Ou seja, o que está a dizer, desculpe interrompê-lo, José Gameiro, não é uma metáfora. A solidão mata mesmo, no sentido em que pode desembocar problemas de saúde, não é?

Exatamente. A solidão está provado que está relacionado com mortes mais precoces, doença crônica mais precoce. Não é obviamente o único fator, mas é um fator muito importante.

O poeta Daniel Felipe publicou o poema "A Invenção do Amor", em 1961. Mais de 60 anos depois, recuperamos as suas palavras para dar título a este podcast com José Gameiro, médico psiquiatra, membro fundador da Sociedade Portuguesa de Terapia Familiar e terapeuta de casais e famílias há mais de 40 anos, e Raquel Marinho, jornalista por mais de 25 anos, podcaster e divulgadora de poesia. Conversamos sobre saúde mental e também relações amorosas e familiares, o que as protege e o que as põe em risco. Somos um podcast observador, o que significa que pode escutar-nos no site, mas também em todas as plataformas de podcast. O podcast "A Invenção do Amor" tem autoria de Raquel Marinho e José Gameiro e música de Felipe Raposo. Olá, Zé Gameiro.

Olá!

Bom dia, boa tarde, boa noite. Este episódio especial, porque estamos na semana do Natal, agora até fiz aqui uma rima. Mas este período do Natal diz, por exemplo, a Ordem dos Psicólogos, pode ser uma fonte de estresse, ou seja, nós associamos, claro, a um período festivo e de encontro familiar, mas não é assim para toda a gente, pois não?

Eu acho que para a maior parte continua a ser. Há estresse que tem a ver com coisas muito práticas, que toda gente conhece, de andar às compras, de organizar os jantares, os almoços de Natal, enfim, obviamente que há estresse. Mas a maior parte, eu penso que é uma época, apesar de tudo, feliz e satisfeita, em que as pessoas se reúnem. Há uma certa, eu ia dizer hipocrisia, mas a palavra é demasiado forte, porque há famílias que não se veem todo o ano, depois veem-se nos funerais e no Natal.

Cumprês efemérides.

Não têm uma relação de facto, mas há uma relação familiar que fica e que vai ficando ao longo dos anos. Depois há as famílias complicadas, com histórias complicadas, com histórias de separações, já lá iremos depois, que aí sim, pode ser uma fonte de estresse. Pode ser uma fonte de estresse, pode ser uma fonte de ansiedade. "Eu irei ou não irei? Vou ou não vou estar? Vou estar bem, não vou estar bem? Vou encontrar não sei quem, que é uma chatice." Bom, coisas desse tipo. Como eu só trabalhei em chatices, vou tentar fugir à visão das coisas correrem mal.

Claro. E pegando, se calhar, começando por aí, que tem a ver com a sua área de trabalho, que são os casais, as famílias, as separações, as dificuldades. Nesses casos, os Natais também podem ser fonte de estresse, por exemplo, nesta ideia de que alguns membros da família não veem os outros porque os Natais passam a ser separados, o 24 com um, o 25 com outro.

Não só isso, como a escolha dos dias pode ser um problema, porque o Natal tem classicamente dois dias importantes. Que é a noite de 24 e o dia 25. Tudo o resto é um bocado secundário. No sentido de ser desvalorizado um bocado. E o que se passa é que as novas formas de família, ou famílias em que há separações ou que há conflitos, têm que ter outros dias, senão não conseguem distribuir-se por toda a gente. Como há bocado se pensava, se os dois, por exemplo, são recasados, dois pais, são recasados, têm a família dos novos cônjuges. E aquilo pode se prolongar por quatro ou cinco dias. E eu assistia famílias em que havia discussões todos os anos, onde é que era passar a noite. Porque depois há tradições familiares diferentes também. Porque há tradições, há famílias que comemoram o Natal muito na noite de Natal e o dia de Natal já não é tão importante.

O que privilegia o 24.

Exato. E há famílias que privilegiam o 25. Há famílias que ainda vão à Missa do Galo, há famílias que não vão à Missa do Galo. Enfim, há uma série de variáveis que se complexificam todas quando há uma separação anterior. Eu digo sempre isto: nós separamo-nos muito mal. E, portanto, eu nunca consegui, menti, consegui uma vez. Consegui uma vez saber, não é a minha família a saber, que era juntar tudo ao molho. De um lado e do outro.

Portanto, os ex-maridos, ex-mulheres com ex.

Os ex, os novos, as famílias, os pais, as irmãs, enfim, tudo aquilo. Há sempre alguém que põe problemas quando não são todos a pôr problemas e, portanto, por exemplo, os miúdos às vezes fazem quilómetros e quilómetros no Natal. Nos carros para ir de um lado para o outro.

Sim, e era isso que eu também há pouco estava a referir quando pensava, por exemplo, numa família tradicional Que ainda não teve divórcios nem separações, passam os Natais com os filhos e depois com os pais e os sogros. Cada lado, mesmo que seja 24 e 25 em lados separados. Quando há um divórcio, tradicionalmente, digo eu, não sei se será assim, dir-me-á o Zé Gameiro, os filhos vão para a mãe num dia, para o pai no outro, e isso altera aquele hábito do Natal para o pai e a mãe que costumavam ter os filhos sempre, e mesmo para os filhos também.

É muito raro isso acontecer, conseguirem juntar. Eu já ouvi alguns miúdos dizer: "O que é bom nisto é que temos mais presentes".

Claro.

De resto, alguns atravessam o país inteiro. Se o pai foi para um sítio e a mãe está lá acima, atrás do oposto, e depois tem que estar com os pais de um, com os pais de outro, os novos cônjuges, podem fazer não sei quantos quilómetros naqueles dias.

E isso também comporta uma adaptação, imagino eu, para os pais, porque se há esta alternância, tal como também haverá no final do ano, que é outra efeméride.

É menos importante familiarmente. É muito menos importante familiarmente.

Sim, simbolicamente menos importante. Mas se há esta alteração, imagina, mãe ou pai, naquele ano do 24 em que calha com o outro, não tem os filhos. E isso muda a noite de Natal.

Não tem os filhos.

Ou seja, isso é um desafio, não é?

Sim, não tem os filhos. E passar Natal sem crianças, quando há crianças, obviamente, pode não haver crianças. Quando há crianças, é um bocado triste. Porque o que é giro no Natal? Primeiro são os filhos, depois são os netos. É a animação. Por exemplo, na minha família há um ritual que é dar presentes. São duas horas a dar presentes, às vezes.

Ou seja, todos assistirem aquela pessoa abrir o presente.

Que é giríssimo.

Na minha família também é assim. São noites longuíssimas.

Longuíssimas. Janta-se, estou a noite de 24. Janta-se e depois estão todos os miúdos todos: "Qual é que é, qual é que é?" Eu lembro-me quando era miúdo, tinha dois Natais, apesar de os meus pais estarem separados. Era relativamente pacífico, não se juntavam, mas tinha dois Natais, um em casa dos meus avós maternos, em Lisboa, no Saldanha, e outro em casa dos meus avós paternos no Ribatejo. Eu lembro-me, não dormia, porque se dava os presentes de manhã, dia 25.

Isso muda. De facto.

Eu acordava o pai às 4 da manhã com a excitação dos presentes.

Claro.

E lembro-me de outra coisa que eu penso que já ninguém usa, que é a árvore de Natal com velas. Em casa dos meus avós paternos, no Ribatejo. Com velas de cera, com as pinças e velas. Aquilo durava, não sei quanto tempo durava, uma hora, duas horas. Mas eram velas verdadeiras.

É muito curioso, deve ficar bem bonito.

Muito bonito. Depois já se deixou de haver isso, nem sei se se pode arranjar. Pode-se arranjar, mas depois eram aquelas coisas elétricas, agora se compra uns chineses.

Claro. Sobre este desafio para as famílias, quando, para começar por um dos exemplos que o Zé Gameiro deu, vão cumprir calendário. Ou seja, não se veem, não se dão, mas eventualmente, para não ferir ou suscetibilizar a mãe ou o pai ou quem seja, vão lá e marcam presença. Isso pode ser complicado. Não significa que as pessoas se sintam bem, pelo contrário.

Não, sentem-se mal às vezes. Até porque muitas vezes há muitas dúvidas se ao chegar lá, sou bem tratado, sou mal tratado, como é que é, como é que não é, etc. Há muitas dúvidas. Por exemplo, estou a lembrar de um caso. É uma família que é uma senhora que é viúva e tem um novo marido, um novo companheiro, e tem dois filhos do primeiro casamento. Os filhos não se entenderam este ano para saber o sítio onde haviam de passar a noite de Natal. Por exemplo, não se entenderam. Pura e simplesmente não se entenderam. E portanto, ela tem que gerir aquilo metade, metade, não faz outro sentido. E que é muito triste. Quer se quer, quer não, mesmo as pessoas que são, não digo agnósticas que aqui não é o caso, mas que não ligam nenhuma ao Natal, acabam por ligar muito. É uma festa muito marcante. Eu acho que é a festa da família mais forte do ano.

Sim, claro. E também por isso, por ser uma festa da família tradicionalmente, é também uma festa onde a ausência se faz presente. Não é? Ou seja, as pessoas que já não estão, são recordadas, estão muito presentes nessa noite, nesses momentos.

Muito recordadas. Finalmente, são pessoas mais velhas que morreram, algumas há pouco tempo, outras há mais tempo, e são muito recordadas, são muito faladas, contam-se muitas histórias dessas pessoas que já morreram. Histórias normalmente divertidas. Se os netos as conheceram ainda, e muitos conheceram, lembram-se muito dos avós que morreram. É uma festa ao mesmo tempo de muita presença familiar virtual, se quiser chamar-lhe assim. É engraçado, porque os netos, mitandose biologicamente, normalmente os netos têm já 18, 19, 20 e tal anos quando os avós morrem. Quando primeiro o avô e depois a avó, ou vice-versa. Infelizmente é o avô o primeiro que vai. Estatisticamente.

Os homens morrem primeiro, não é? Estatisticamente.

Quatro anos, em média, mais cedo. E os netos contam histórias da infância: "Foi giro isto, aquilo, aqueloutro. Lembramo-nos do Natal, não sei de quando, e do presente que o avô e a avó me deram". Lembram-se de coisas do diabo.

Esta preparação, como também falam aqui numa nota, se consultarmos a Ordem dos Psicólogos, encontramos também algumas referências a este período como sendo desafiante, e algumas têm a ver com a preparação, portanto, com a azáfama da preparação e o confronto com algumas dificuldades, porque nem toda a gente consegue preparar um Natal como queria preparar.

E está muito simplificado, porque eu lembro perfeitamente em casa da minha mãe, em que se faziam filhoses, como é que se chama o outro bolo clássico?

Fatias douradas.

Fatias douradas e aquelas bolinhas redondas.

Sonhos.

Sonhos. Fazia-se aquilo tudo em casa. Aquilo era tudo feito em casa. Agora compra-se tudo. Quem pode, uma parte das pessoas não sabem fazer aquilo. E portanto, depois é o peru, depois é o cabrito, depois é o bacalhau, depois depende das regiões do país, qual é o prato mais forte. Eu lembro-me em casa dos meus avós, de antes do Natal, o peru andar por ali na marquise. Era comprado vivo, andavam em Lisboa Com um grupo, não sei como é que se chama, um bando de perus, não é um bando que se diz.

Também não sei como é que se diz.

Um bando que se diz. Perus com o pauzinho aí estao os perus.

Andavam?

Andavam no meio da rua, no meio de Lisboa. Quando entrei para a faculdade, agora estou a divagar com o Natal. Quando entrei para a faculdade, com 17 anos, ali em frente à Santa Maria, pastavam ovelhas.

Em Santa Maria?

Em frente à Santa Maria, pastavam ovelhas. Bem em frente. Ao lado do Estádio da Luz, que ainda existia, pastavam ovelhas. Mas os perus eram comprados uns dias antes e embebedados. Ponto final. Começava-se a dar aguardente aos perus.

Mas, portanto, em casa.

Em casa, para a carne ficar mais mole.

Aguardente.

Aguardente, acho que era aguardente. E depois eu lembro-me, coisa horrível, que era cortar as goelas ao peru. Depois tirava aquilo tudo. O peru era o prato típico da minha família, como era de muitas famílias, lá para o norte é diferente. Isto para dizer que a sobrecarga familiar, normalmente em cima das mulheres. Os homens, hoje em dia, enfim, são mais participantes, vão comprar mais coisas. Depois há as compras de Natal, que às vezes é uma chatice, porque deviam ser uma compra definida para uma determinada pessoa e andar à procura dá muito trabalho e ocupa muito tempo. Portanto, são aquelas coisas dos gels, das águas de colônia, os rituais vendem-se como o diabo para o pobre já estar cheio de rituais em casa e é aquilo que recebe.

O que é que podemos dizer para as pessoas que nos estão a escutar, nós estamos na semana do Natal, o Natal está aqui à porta, e que têm este tipo de desafios, ou seja, por um lado, vão eventualmente encontrar-se com pessoas com quem não têm nenhuma relação e vão cumprir um calendário, mas depois também a outra situação, eventualmente mais desafiante, que é pessoas que não têm muita família ou não podem ver a família e se defrontam com esta coisa de passarem uma noite de Natal sozinhos.

Sozinhos. É horrível. Porque estar sozinho pode ser sempre mau, às vezes não é, mas volto à questão, que a noite de Natal, quer se queira, quer não, tem um significado muito especial. E não é por acaso que as pessoas mais pobres, as pessoas com mais dificuldades, as pessoas que não têm acesso a determinadas coisas, na noite de Natal há organizações, há associações que chegam perto delas e dão-lhes bons jantares, jantares razoáveis, e fazem uma certa companhia. Mas depois acabou, quer dizer, aquilo é um dia sem exemplo. E portanto, a solidão mata. A solidão está provadíssimo que mata. A solidão é das coisas mais, já falámos disso.

Uhum, já falámos noutros episódios.

A solidão é das coisas mais negativas que há para a vida das pessoas.

Ou seja, o que está a dizer, desculpe interrompê-lo, José Gamero, não é uma metáfora. A solidão mata mesmo, no sentido em que pode desembocar problemas de saúde, não é?

Exatamente. A solidão está provado que está relacionado com mortes mais precoces, doença crônica mais precoce. Não é obviamente o único fator, mas é um fator muito importante. Já falámos disso, há um estudo muito grande que foi feito nos Estados Unidos com milhares de pessoas, longitudinal, de dezenas e dezenas de anos. Estamos a falar da solidão no Natal. A solidão no Natal é, quer dizer, há pessoas que não têm, de facto, ninguém ou cortaram com pessoas, também acontece nas famílias, em que houve cortes em que elas ficaram sozinhas. O facto de as pessoas querem conselhos para a noite de Natal, pessoas que não se veem, é proibido piadas secas. É proibido insinuar coisas e dizer piadas, porque já ouvi histórias de dar cabo de Natais assim.

Ai, já ouvi.

Já. Que é alguém que chega e que tem um conflito com A, B, C ou D e manda três ou quatro piadas e aquilo está tudo estragado. Já houve histórias na minha vida clínica de Natais que foram interrompidos a meio. As pessoas foram-se embora.

A sério?

Foram-se embora, ponto final. Filhos com pais, eram mesmo bem, ou irmãos, eram irmãos, talvez. Uma história do diabo. As famílias não são focos de prazer muitas vezes.

Sim, são um dos maiores desafios. A vida familiar é um dos maiores desafios. Mas dito isto, como dizia inicialmente.

Agora, eu volto a dizer, eu só vejo o lado mau. Portanto, calma.

Não vê as famílias felizes. Mas dizia eu, como dizíamos inicialmente, a maioria dos Natais correrá bem. Não haverá este tipo de questões.

A maioria corre bem. Às vezes há algumas tensões iniciais, por exemplo, famílias com muitos irmãos, já adultos, já com filhos, etc. Ou têm um sistema de turma organizado. Este ano começa a 23 aqui, começa contigo. Ou então há uma discussão, às vezes complicada, antes do Natal, sobretudo pelos dias, que é aquilo que a gente dizia há bocado. Para mim não tem qualquer significado fazer a 23, a 24, a 25, eu não ligo nenhuma a isso, ou até a 26. Mas há pessoas para quem há os dias de primeira e os dias de segunda. E portanto, voltamos à questão do 24 e do 25. E às vezes quando há muitos irmãos ou alguns irmãos que organizam o Natal ou que vão rolando a organizar o Natal, é qual é o dia. Outra questão é quem é que toma o lugar dos pais quando os pais morrem. Em várias coisas, mas agora é o Natal. Pode haver uma disputa entre, em princípio, seria o mais velho, teoricamente, da família tradicional, nem sempre é, como é evidente, pode até não ter condições para ser. Mas às vezes pode haver uma disputa sobre quem é que vai organizar o Natal. Quer dizer, para outras pessoas, ainda bem que tu organizas, porque eu só chego, sento-me e como. Mas há pessoas que fazem questão de ser elas uma espécie de sucessoras. Mal comparado, é como se tivesse aparecido uma chefia de um grupo e houvesse uma luta pela nova chefia.

Liderança.

Liderança. E isso reflete-se, depois, nas datas importantes, que é o Natal É uma das importantes.

Claro.

O fim do ano já é mais disperso, já vamos falar disso depois. Fim do ano já cada um para seu lado, é pacífico.

Sim. Podemos dizer, tentando simplificar, que este período do ano, esta época festiva, talvez também o fim do ano, porque é muito dado a balanços, há pessoas que fazem balanço e projetos, mas este período do ano é um desafio para as pessoas que já têm alguma doença mental, por exemplo, uma depressão. Ou seja, porque comporta algum investimento emocional e as pessoas podem sentir-se mais fragilizadas, podemos dizer assim?

Comporta por dois motivos. Por um lado, porque quem está deprimido de forma relativamente séria, tem muita dificuldade em ter iniciativa para fazer coisas e para ter prazer nas coisas e, portanto, quando está em família, Natal, mas podia ser outra festa qualquer, outra comemoração qualquer, tem uma grande dificuldade em aceitar que as pessoas estejam bem. Não é por raiva, não é por nada disso, é porque elas tentam estar bem e não conseguem estar bem. E depois isso nota-se às vezes: "O que se passa contigo?" As perguntas não param, etc. Portanto, a depressão pode agravar as coisas. Agravar, quer dizer, pode ser um fator importante.

Porque temos aquela ideia de que uma pessoa com depressão ou num quadro depressivo, mesmo que não seja gravíssimo, tem que fazer um esforço emocional para levar uma vida normal, mesmo sem ser em períodos deste gênero. Portanto, para ela é mais difícil um jantar com muita gente, uma conversa importante familiar, uma entrega emocional. Portanto, este período ainda pode ser um desafio muito maior.

Pode ser mais complicado ainda. Porque não consegue participar naquilo e não percebe porque é que, sendo as pessoas mais próximas da sua família, da sua vida, da sua vida familiar, não lhe dá prazer nenhum estar ali, o que dá uma sensação de culpa muito grande, muitas vezes.

Pois, não lhe dá prazer nenhum, porque está doente.

Porque está doente.

Ou seja, não é só o Natal que não lhe dá prazer.

Não, é tudo. Só que o Natal, eventualmente, é mais forte, porque é uma coisa em que estão pessoas muito próximas e a pessoa não percebe porque está aqui tudo ao pé de mim e eu não consigo ter-- eu queria ir para o quarto deitar-me ou quero-me ir embora ou seja o que for.

E a família como é que fica perante também um ente familiar que está assim na noite de Natal?

Muitas vezes já está assim há uns tempos, portanto a pessoa percebe um bocado. Entende.

O que é que podíamos dizer às pessoas que estão mais sozinhas ou mais fragilizadas? Há pouco dizia, quando são situações mais tensas, evitar as piadas secas, mas para estas pessoas que estão emocionalmente mais frágeis, o que lhes podíamos dizer?

Eu podia dizer aquilo que já fiz algumas vezes na vida, que é: pessoas que estão sozinhas, naturalmente amigas ou bastante conhecidas nossas, chamá-las para o Natal. Ao princípio não foi fácil, porque era meter pessoas que não são da família dentro do Natal da família. Mas depois eu e a Ana falámos muito disso e havia uma pessoa, particularmente, que estava deprimida e sozinha e não tinha grandes relações sociais, e depois outra, e acolhemo-la no Natal. Passou o Natal connosco e não houve problema nenhum. Explicámos à família, o que é a família, era os filhos, basicamente os filhos, a minha irmã estava viva ainda também. Portanto, a minha irmã e a minha cunhada, etc. Explicámos o que se passava e ninguém se opôs, como é evidente. E a pessoa acho que se sentiu bem, apesar de tudo, sentiu-se bem. Tínhamos um presente para dar.

E vocês sentiram-se bem também.

E nós sentimo-nos bem também.

Acolhendo alguém que não é da família biológica, digamos assim.

Sim. A minha irmã que fez, eu nunca fiz isso, porque me fez sempre um bocado de impressão. Fazia de família de acolhimento. Iam para lá miúdos ao fim de semana, que é uma situação que eu nunca consegui fazer, porque me fazia muita impressão como é que as crianças tinham duas vidas, tinham uma vida ali em que estavam bem, tinham acesso a uma série de coisas e depois iam outra vez para a instituição. E chegámos a passar o Natal com crianças dessas. Eu gostava de as ter lá, mas depois fazia muita impressão. Elas têm que voltar.

Então há esta ideia de que quem nos está a escutar, se conhecer alguém que vai passar um Natal sozinho ou que não tem família, ou que tem uma rede social e familiar muito fraca, debilitada, não vê mal algum em sugerir que as pessoas possam acolher.

Desde que a família aceite, eu vejo só bem nisso.

E para as pessoas que inevitavelmente vão ficar sozinhas, isso já é mais complicado.

Se estão inseridas numa rede qualquer de apoio, vão ter a visita das pessoas que passam a noite de Natal a fazer isso. Nós temos um presidente da República que faz isso desde muito antes de ser presidente da República. O Marcelo faz isso há 30 ou 40 anos. Agora é mais visível, mas sempre fez isso.

O quê? Visitar?

Visitar pessoas sozinhas no Natal e noutros, mas tem a ver com os doentes também, que ele costumava visitar muito, mas no Natal fazia muito isso e continua a fazer, só que agora vai com as câmaras atrás. Antigamente, só os amigos próximos é que sabiam que ele fazia isso. E portanto, ou há uma instituição que faz isso, ou então Muitas vezes não há nada a fazer. Depois há os sem-abrigo, no meio disto também. Enfim, alguns apoiam-se uns aos outros, mas também se agridem uns aos outros. Depois há muito álcool no meio disto, muitas vezes.

Ou seja, podemos pensar que há grupos para quem este período do ano é um desafio maior. Estávamos a falar dos sem-abrigo, mas também, por exemplo, as pessoas que estão internadas, os doentes.

Exatamente.

As pessoas que estão sozinhas.

Nos hospitais procura-se dar uma saída de dois ou três dias aos doentes para irem para casa e voltarem depois. Sempre se fez isso. Há doentes que não podem sair, como é evidente. Claro que têm esse dia um jantar especial, têm um bolo rei, a refeição é especial, as enfermeiras e o pessoal que está lá é mais cuidadoso ao estar próximo dos doentes. Os doentes, se puderem, comem em conjunto. Obviamente os que podem comer em conjunto saem. Mas são mais cuidados. Mas é assim, não podem sair.

Claro. Ficamos com esta ideia de que é um desafio maior para algumas pessoas e se quem nos está a escutar quiser pensar nisso, nessa ideia de acolher alguém que está sozinho para a noite de Natal ou o dia de Natal, pode ser uma saída e para quem fica realmente sozinho.

Neste momento há aquele projeto, que eu não sei qual é a quantidade de pessoas envolvidas nisso, em que os jovens acompanham idosos sozinhos, vão a casa, acompanham às consultas, etc. Eu não sei, mas admito que alguns desses jovens levem essas pessoas idosas para sua casa da família nestas alturas do ano. Passar a noite de Natal, por exemplo.

Porque como dizia, se a solidão mata, a solidão faz-se mais presente nestas alturas.

Quer se queira, quer não.

Quer se queira, quer não. Porque é também um período de memórias, não é?

Aliás, é uma coisa que acontece às vezes, quem trabalha em situações de oncologia, por exemplo, fala muito disso, ou doenças graves, que é: "Senhora doutora, deixe-me chegar ao Natal". Sabe que vai morrer, ou em princípio sabe que vai morrer, deixe-me chegar ao Natal. O Natal tem um significado, de facto, muito forte.

Sim, e não é só do presente, como eu estava a dizer, ou seja, é da memória também. Nesse período, as pessoas recordam-se, como o José Gameiro estava a contar, da infância, dos avós.

Eu lembro-me imenso dos Natais dos meus avós. De um lado e de outro, perfeitamente.

Porque às vezes passava cá, mas também passava fora, não era?

Não, era em casa. Era cá em casa dos meus avós maternos e depois no dia seguinte íamos para Torres Novas, para casa dos meus avós paternos.

E aí é que havia aquelas velinhas e uma ligação diferente com o campo.

É porque aquilo era uma quinta muito grande, com ovos, com galinhas. Eu ia para lá muito no verão, passar uns dias, sempre. E portanto, o Natal era muito rural e comia-se muito bem, quer num sítio, quer noutro.

Posso lhe perguntar, fora do âmbito do nosso podcast, mas por curiosidade, o que é que gosta mais no Natal? Assim gastronomicamente falando, tem algum prazer especial?

Olha, a gente de uns anos para cá, compramos leitão. Não sei bem porquê, começámos a comprar leitão. Eu gosto muito de leitão. E depois há os bacalhaus. É mais da família da Ana, da minha parte nunca houve muito cabrito. Mas a Ana agora não tem feito.

E dos doces?

Bolo-rainha, mas tem que ser um sítio bom, para ser bom. De resto, eu não sou muito doceiro.

Não liga.

Não sou muito doceiro. Bolo-rainha é aquilo que eu mais gosto. De bolo-rei não gosto, mas gosto muito de bolo-rainha. Tem fruta cristalizada a mais e tem que tirar. Bolo-rainha eu gosto imenso. De resto, não. No tempo da minha mãe comíamos tudo. Todos os doces clássicos de Natal a minha mãe fazia. Agora não, agora compra-se. A Ana costuma comprar sonhos e ficam aí quase todos.

A sério?

Há muito pouca gente que come muitos sonhos.

Eu gosto imenso de sonhos.

Pois, está bem.

Aliás, até há aquela ideia.

Tem a ver com as magrezas e as gordurezas.

Pois é, agora há esta coisa. Porque há até aquela ideia que é muito curiosa, eu gosto muito de dizermos a brincar que nesta época do ano há uma espécie de poesia natalícia do dia a dia, que é chegarmos a um café e dizermos: "Bom dia, dê-me um sonho". Que é assim uma coisa muito bonita. Vou ler-lhe e ler para os nossos ouvintes, um poema do Eugénio de Andrade, do livro "Rante ao Dizer", pequenino, chamado "O Último Poema", que precisamente fala desta ideia da solidão, mas também do que nós podemos ir buscar aos nossos recursos para este período do ano. "Último Poema: É Natal. Nunca estive tão só. Nem sequer neva como nos versos do Pessoa ou nos bosques da Nova Inglaterra. Deixo os olhos correr entre o fulgor dos cravos e os diospiros ardendo na sombra. Quem assim tem o verão dentro de casa não devia queixar-se de estar só. Não devia."

Lindo.

É bonito, não é?

Muito bonito.

Também tem aqui uma ideia de esperança, não é?

Sim.

Ou de pelo menos tentar olhar à volta, se tivermos conosco algumas coisas, podemos não queixar-nos da solidão ou pelo menos tentar.

O Natal com calor faz-me impressão, porque nunca passei o Natal fora de cá, é uma coisa sagrada. Não me lembro de ter passado o Natal fora daqui de Portugal, mas viajei muitas vezes a seguir ao Natal para sítios de calor.

De calor.

E fazia um bocado de impressão. Imaginar passar o Natal, sei lá, no Rio de Janeiro.

Para muitas pessoas é essa a tradição.

Eu sei.

Não é tão diferente de nós.

Mas eu também nunca passei com neve. Aqui não neva.

Sempre aqui, aqui não neva. Mas isso também me faz lembrar de uma outra coisa que pode acontecer no Natal, que é as pessoas irem para fora. Também já se começou a fazer isso.

Já se começou a fazer isso. Eu tenho amigos, estou a lembrar de um casal, que vai sempre passar o Natal a um hotel. Sempre.

E por quê?

Porque gostam. Primeiro, não dão chatice nenhuma. Pagam e pronto. Têm o jantar.

Não têm o forno, a louça para lavar.

E depois alugam os quartos para os filhos e para os netos. Aquilo não deve ser barato, depende do hotel, claro, mas vão passar fora. E assim não têm que fazer nada em casa. Os hotéis, aliás, neste momento promovem imenso o Natal. Fim de ano sempre foi. Mas agora promovem o Natal, que não tem muitos anos a promoção do Natal.

Pois não. É uma outra tradição.

É uma outra tradição.

O mundo a mudar.

É.

José Gameiro, obrigada. Voltamos daqui a 15 dias para fazermos uma espécie de balanço do ano do nosso podcast e anteciparmos o ano que vem. Até já. Obrigada.

Até já, Raquel.

O podcast "A Invenção do Amor" tem autoria de Raquel Marinho e José Gameiro e música de Filipe Raposo. Pode escrever-nos para ainvencaodoamor@gmail.com e colocar-nos as suas questões e também seguir-nos nas plataformas de podcast e nas redes sociais para acompanhar de perto a estreia dos novos episódios.