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A luzinha, essas várias luzinhas ao fim do túnel.

Uma luz concreta, exata, ao fundo do túnel.

A luz ao fundo do túnel.

"Walking By Myself", um êxito de Gary Moore, aqui interpretado por Steve Harvey. É um guitarrista, cantor e compositor norte-americano de Chicago que, durante o confinamento, foi dando pequenos concertos em casa, no alpendre, virado para a vizinhança. É isso que Steve continua a fazer. É um músico com uma longa carreira. Já teve turnês por vários pontos do globo, mas que para já, por causa da pandemia, continua a tocar a partir de casa. O regresso à normalidade continua a ser lento e o setor da cultura não é exceção. Precisamente nos Estados Unidos, depois do que parecia ser um possível controle da pandemia, em alguns estados, o número de casos disparou. Louisiana, Nevada, Texas, Alabama e o mais preocupante de todos, o estado da Flórida. Bateu todos os recordes que tinham sido alcançados pelo estado de Nova York nos meses mais críticos da pandemia. E só neste estado, no estado da Flórida, no dia 12, foram registrados mais de 15 mil casos. Em todo o país, a média de novos casos já é superior a 60 mil. São muitos números, mas de forma redonda, desde o início da pandemia, os Estados Unidos da América registam quase 3,5 milhões de infectados e mais de 136 mil mortes por Covid-19. Em Portugal, a região de Lisboa e Vale do Tejo continua a preocupar. O governo anunciou esta semana que o país continua com três velocidades: estado de calamidade em 19 freguesias da região de Lisboa e Vale do Tejo, estado de contingência para a área metropolitana de Lisboa e estado de alerta para o resto do país. Noutros países da Europa, o número diário de casos também tem vindo a crescer e já estão a ser dados passos atrás no desconfinamento para evitar o crescimento de surtos. O rastreio aumenta e com isso surgem também, com mais facilidade, novos casos. Uma das formas de rastreio está a ter o apoio da tecnologia, com aplicações móveis que informam os utilizadores se estiveram em contacto com alguém que testou positivo à Covid-19. Hoje falamos destas aplicações e como podem ser importantes para controlar a pandemia.

Quanto à aplicação informática StayAway, que é aquela que tem sido desenvolvida, houve várias recomendações da Comissão Nacional de Proteção de Dados Pessoais e está neste momento a ser desenvolvido um trabalho de pormenor entre a entidade promotora do projeto e as autoridades de saúde, no sentido da adequada regulamentação de todo o procedimento. Esperamos que o resultado deste trabalho seja muito em breve e o que está previsto é que se inicie com uma fase piloto e depois se estenda de uma maneira mais consubstanciada, de uma maneira generalizada.

A explicação foi dada esta semana por Jamila Madeira, Secretária de Estado Adjunta e da Saúde. Foi na habitual conferência de imprensa sobre o estado da pandemia em Portugal. A aplicação de rastreio, desenvolvida em território nacional, está prestes a ficar disponível. Chama-se StayAway e foi desenvolvida no Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência, no Porto. Vamos perceber como funciona esta aplicação com a ajuda de Rui Oliveira, professor e membro da administração deste instituto que desenvolveu a aplicação portuguesa de rastreio à Covid-19. Bom dia, professor.

Viva!

Muito trabalho por estes dias, acredito.

É verdade, mas trabalho bom.

Vamos falar sobre a app StayAway. Já muito se falou sobre esta aplicação, mas pedi-lhe uma breve explicação sobre o que é esta app e por que ela é importante nesta situação de pandemia.

A partir do momento em que voltamos à nossa vida normal, desconfinada, vamos aumentar, obviamente, os nossos contactos sociais e com isso vamos nos expor mais ou muito mais do que aquilo que nos expusemos quando estávamos confinados. É um risco. E apesar de todas as precauções que nós aprendemos a ter e que temos e que continuaremos a ter, não estamos livres. É essa a definição desse risco. Não estamos livres de nos expor ao contágio e ser contagiados.

E esta aplicação pode ser importante para fazer uma espécie de rastreio?

Eu estou absolutamente convencido que esta aplicação poderá ser muito útil como um complemento a todos os cuidados que nós temos e continuaremos a ter e uma ajuda preciosa para os profissionais de saúde que têm como missão fazer o rastreio dos contágios e ver que riscos é que um atual infectado deixou à sua volta.

Como é que a tecnologia pode ajudar nessa situação?

A tecnologia vem colmatar as limitações que o rastreio manual tem. Vamos à situação do centro comercial ou do parque. Eu não sei quem são as pessoas à minha volta, mas a aplicação pode saber, preservando completamente a privacidade das pessoas. Eu não precisarei nunca de saber quem é a pessoa, até porque eu não vou contactar essa pessoa. Eu vou dar é a possibilidade a essa pessoa de, ao contactar o sistema, saber se esteve perto de mim. Portanto, eu não vou saber de quem é que estive perto, vou permitir às pessoas que saibam que estiveram perto de mim quando eu for diagnosticado. E portanto, numa situação destas, num parque, num centro comercial, eu vou colmatar exatamente a limitação do rastreio físico. Por outro lado, vou colmatar a outra situação do rastreio físico, que é eu me lembrar exatamente de todos os sítios onde eu estive e as situações que de facto poderão ter sido de risco.

Professor Rui Oliveira, vamos olhar para como é que funciona tudo isto. Imaginemos que eu acabei de instalar a aplicação. O que é que tenho que fazer? São pedidos alguns dados pessoais?

Rigorosamente nenhum. E portanto, a única coisa que eu respondo é: "Sim, senhora, concordo com os termos de utilização, deixo que a aplicação use o Bluetooth" e, no caso de ter um sistema Android, "sim, senhora, eu abdico da poupança de bateria". Mais nada, rigorosamente mais nada.

E neste caso, imaginemos que fui fazer o teste e testei positivo. O que é que tenho que fazer depois?

Na altura em que lhe é confirmado o diagnóstico, essa informação será acompanhada por um código numérico de 12 algarismos. E nessa altura, tem a opção de introduzir esse código na aplicação ou preferir não fazê-lo.

Opcional.

É absolutamente opcional. O facto de aderir ao sistema não é um compromisso com nada. Pode instalar a aplicação e passar cinco minutos, desinstalá-la.

E imaginando que eu tenha a aplicação comigo, não fui testar, não tive sintomas, não fui testar a Covid-19, mas estive em contacto próximo, ou pelo menos o telemóvel detetou que estive em contacto próximo com alguém que testou positivo. O que é que acontece nesse caso?

A aplicação vai emitir uma notificação a dizer: "Esteve próximo de alguém que entretanto testou positivo e eu, aplicação, calculei", até porque isto é feito no seu telemóvel, "calculei que isto constitua um risco para si. Por favor, resguarde-se, não saia de casa, continue a tomar as precauções e contacte o Serviço Nacional de Saúde para ser guiado nos próximos passos".

E em todo este processo, enquanto utilizador da aplicação, quer como pessoa que foi testar ou como pessoa que esteve em contacto com alguém que testou positivo, em todo este processo nunca posso ser identificado, os meus dados pessoais nunca são transmitidos.

A aplicação não conhece um único dado pessoal seu. Um único. E, portanto, não o pode transmitir a ninguém. É importante que se diga que a aplicação não conhece, não obtém do telemóvel, não questiona o utilizador, nenhum dado pessoal. Nem o primeiro nome, nem o nome de família, nem a morada, nem o telefone, nem as redes sociais. Absolutamente nada. Por que é que isso é um dado pessoal?

A nível de segurança para os utilizadores, a nível da utilização desta aplicação, pode garantir que, no que toca a dados pessoais, esta é uma aplicação segura?

Absolutamente segura.

Há o risco de a aplicação ser pirateada?

Há sempre. Agora, no caso desta aplicação, esse risco é extremamente baixo e a utilidade desse ataque, eu diria, é nenhuma. Eu explico. Um atacante que aceda ao meu telemóvel e aceda à minha aplicação. Os dados que eu tenho no meu telemóvel são absolutamente inúteis para o atacante. Então não vai acontecer. Vai acontecer que haverá gente muito inteligente que tentará atacar pelo gozo que isso traz. Porque os dados que esse atacante poderia obter da aplicação, como lhe digo, são números aleatórios.

Professor, vamos olhar um bocado para a eficácia desta aplicação. Agora que já explicou o funcionamento e também a segurança desta aplicação. Seria necessário ser utilizada por um grande número de pessoas para poder ser realmente eficaz esta aplicação?

A forma simples de dizer é: se eu for o único a usar máscara em Portugal, a eficácia de eu usar máscara será para mim. Poderá ser para aqueles que me rodeiam, mas para os outros não tem benefício nenhum. Portanto, a aplicação, salvaguardadas as diferenças, tem a sua eficácia orientada ou proporcional à utilização. Deveremos todos usar máscaras? Sim. Deveremos todos usar a aplicação? Sim.

Professor, é possível enganar a aplicação e dizer que testei positivo sem efetivamente ter testado positivo?

Não. Uma vez eu testado positivo, vou colocar um código. Eu tenho que colocar um código para que a aplicação depois prossiga naquilo que tem que fazer.

E não posso colocar esse código num telemóvel que não seja o meu?

Pode, isso pode. Isso pode. Só os códigos que são fornecidos pela autoridade de saúde é que são válidos. São códigos que são válidos durante 24 horas, portanto, se demorar mais de 24 horas a colocar o código, ele deixa de ser válido. Mas há, de facto, essa vulnerabilidade, que é: se quiser fazer uma partida de mau gosto, pode pegar nesse código e em vez de colocar no seu telemóvel, colocar no telemóvel do seu amigo. E aí, o que é que vai acontecer? Vão ser as pessoas que privaram com o seu amigo que serão alertadas. Se quisermos chamar vulnerabilidade, podemos chamar uma vulnerabilidade do sistema, mas é algo que foi, de alguma forma, desvalorizado perante as alternativas.

Professor, queria continuar a olhar aqui para a vulnerabilidade, vamos chamar assim, foi o termo que utilizou. Se eu testar positivo, é possível que um vizinho, que também utiliza a aplicação, possa receber a notificação, sendo que neste caso pode nunca ter estado em contacto comigo, mas esteve com o telemóvel a menos de dois metros por mais de 15 minutos, à distância de uma parede?

Pode. É altamente improvável e os nossos testes têm vindo a confirmar isso desde sempre. E por quê? Se colocar uma parede entre duas pessoas, a menos que essas duas pessoas estejam encostadas à parede, é muito fácil que os valores de intensidade que os telemóveis recebam sejam inferiores àqueles correspondentes a uma distância de dois metros.

Falando ainda também sobre essa capacidade que é necessária de Bluetooth e desta tecnologia, e também do software que é utilizado na aplicação, esta aplicação pode ser usada em qualquer smartphone?

Pode ser utilizada em qualquer telemóvel dos mais recentes dos últimos anos.

Dos últimos três anos, dos últimos quatro anos?

Sim, nos últimos três, quatro anos, sim, à vontade.

Um telemóvel com mais de quatro anos dificilmente vai poder utilizar esta aplicação.

Poderá não conseguir fazer. No caso dos Android, como sabe, há uma miríade de fabricantes de telemóveis e, portanto, é mais difícil dar um exemplo. No caso da Apple, o velhinho iPhone 5SE funcionará.

Professor, estamos a falar desta aplicação já há vários meses. Quando é que pode ficar disponível?

Ela vai ficar disponível muito rapidamente. Não lhe dou uma data, porque essa data compete ao governo definir.

Mas estamos a falar deste mês, desta semana?

Estamos a falar deste mês, salvaguardando o facto de que isto é uma decisão do governo. Eu próprio já disse que estaria disponível em junho, que estaria disponível em julho, mas isso se calhar é a manifestação da minha vontade.

Por que essa atraso? Por que isso está a demorar tanto tempo?

Porque há decisões não técnicas que precisam de tempo, precisam de ponderação e, portanto, levam tempo. Principalmente numa situação tão séria, tão sensível como esta.

Claro. Professor, nos últimos dias foi anunciado que vai ser colocado a testar uma versão piloto desta aplicação. Isto estamos a falar que já está disponível esse projeto piloto, vai avançar nos próximos dias?

Sim, vai avançar nos próximos dias. A visibilidade desse requisito, digamos assim, surgiu pela parte da proteção de dados. O teste que irá arrancar é um teste exatamente igual ao sistema que será disponibilizado para toda a população, mas restrito a um número inferior de utilizadores e num processo progressivo. Isto é, nalguns dias contamos ter cerca de 10 mil utilizadores e iremos fazer uma implantação progressiva. No primeiro dia, 500 utilizadores, no segundo dia mais 2 mil utilizadores, por aí fora, até termos os 10 mil utilizadores.

Para testar também o crescimento de utilização da aplicação.

Exatamente, porque o que nós gostaríamos que viesse a acontecer, há sempre a possibilidade de algo não correr bem, de se descobrir alguma coisa na aplicação e no sistema. É esse o objetivo dos testes, mas se tudo correr como nós estamos confiantes que irá ocorrer, o piloto acabará num dia e no dia seguinte a aplicação está disponível para toda a população.

Professor, algumas questões: este piloto vai abranger quantas pessoas, como é que vão ser escolhidas essas pessoas e quanto tempo é que vai durar este teste piloto?

Nós iremos contactar cerca de 10 mil pessoas. O universo será, no essencial, o conjunto de pessoas que participou num projeto paralelo à Stayaway Covid, levado a cabo pelo INESC Tech, pelo ISCSP e pelo jornal Público, que se chama Diários de Uma Pandemia.

E depois, quanto tempo é que vai durar este teste piloto?

Eu diria que cerca de uma semana, 10 dias.

É nisso que sustenta que até o final deste mês de julho a aplicação pode estar disponível se não for encontrada nenhuma falha?

Exatamente. Eu tenho dito que o sistema já está pronto há muito tempo, e é verdade, e agora continua a estar pronto, digamos assim. Estamos mais do que prontos para lançar a aplicação.

Professor, estamos a chegar ao fim. Queria apenas perceber alguns detalhes. Quantas pessoas estiveram envolvidas neste projeto?

Eu diria, sob pena de estar a esquecer alguém, mas neste momento, 40 pessoas, à vontade.

Professor, e consegue quantificar o custo de todo este projeto?

É difícil. Eu diria que do lado do INESC, o desenvolvimento disto tudo e as pessoas envolvidas, deixe-me fazer aqui uma conta de cabeça, uns €400 mil, €500 mil seria o valor que se nós, na nossa atividade normal, propuséssemos num projeto europeu, num projeto com uma empresa, eu julgo que o esforço que foi despendido e que está a ser despendido, era capaz de nos levar para um orçamento desse tipo.

Professor, uma última questão. Depois desta pandemia, muita coisa mudou. Acha que a tecnologia pode ter um papel importante em todas estas mudanças e principalmente a nível sanitário, no controle de doenças como estas e no rastreio de doenças como esta?

Definitivamente. Saibamos nós aproveitar a capacidade que temos para pensar em soluções e usemos todos nós uma grande balança de pratos em cima da mesa para encontrar os equilíbrios certos e não tenho qualquer dúvida que só temos a ganhar com o auxílio da tecnologia. Foi assim no passado, nós não teríamos superado esta pandemia da forma que estamos a superar, se não fossem os sistemas digitais, se não fossem as videochamadas. Isto não é outra coisa senão tecnologia. Portanto, saibamos nós usar essa tecnologia e encontrar os equilíbrios certos e seremos muito mais capazes, muito mais felizes e teremos uma melhor qualidade de vida. Especificamente no que tem a ver com a saúde pública, repito o que tenho ouvido do professor Henrique de Barros, que é: nós não podemos continuar a fazer saúde pública com as ferramentas de há dois séculos atrás.

A fase piloto da aplicação StayAway está prestes a avançar e, caso tudo corra bem, a aplicação vai estar disponível ainda neste mês de julho. Como explicou o professor Rui Oliveira, do INESC-TEC, esta é mais uma ajuda, mais uma luz ao fundo do túnel, na tentativa de controlar o crescimento da pandemia.

Too many countries are headed in the wrong direction. Vou fazer o 12° teste sexta-feira. Eu estive quase um mês no Hospital de Faro.

Já há novidades sobre o caso de Tânia Poço, a portuguesa infectada que testou positivo por 14 vezes. E que finalmente se viu livre da doença depois de quatro meses de confinamento.

Parecia mentira. Já dei um abraço ao meu marido, ao meu filho, com muita alegria, muito choro.

Não podemos voltar a repetir o confinamento que tivemos.

Em relação à juventude, nós compreendemos. É muito difícil, já vai lá há muito tempo, não se vê luz ao fundo do túnel.