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Sejam bem-vindos ao programa "A Nossa Cultura". O meu nome é Martim Madeira e iniciamos hoje um ciclo de entrevistas dedicado à produção artística e contemporânea na região de Viseu. Encontramo-nos no Teatro Viriato, um espaço que está a acolher a exposição "Regenerar Estados Transitórios", e connosco está a autora desta mostra, a artista Liliana Velho. Liliana, muito obrigado pela sua presença. E para contextualizar o nosso público, qual foi a premissa conceptual e o que motivou a criação desta exposição?
A exposição "Regenerar" parte de um fenómeno natural que se chama autotomia, que é um fenómeno em que os animais se desprendem de uma parte do corpo para poder distrair o predador e fugir. A gente conhece mais este fenómeno com as osgas, que se libertam do rabo, que é para o predador perseguir aquele membro e elas assim conseguirem escapar. Esse é o ponto de partida para a exposição. Transpor esse membro que se liberta para o coração, e a premissa da exposição é basicamente um coração que decide sair do corpo e ir viver para o campo.
Vemos aqui várias peças, todas de materiais diferentes. A minha pergunta é: cada uma destas peças representa um aspeto diferente da natureza, por exemplo?
Pode ser. A ideia era trabalhar o que seria a transformação deste coração no campo, ou seja, como é que um órgão que foi deixado ao tempo, à intempérie, a todos os estados pelos quais a natureza passa, o que é que lhe acontece. E a exposição vai ensaiando um bocadinho sobre isso. Há corações que estão mais próximos da forma anatómica real e há outros que se vão desfazendo ou que vão revelando uma espécie quase de um esqueleto que não existe, mas que passam a estar só pelas linhas esquemáticas ou as linhas mais fortes que formam um coração.
Uma pergunta também um bocadinho clichê, mas que também tem que ser feita: por que aqui o teatro? Por que expor aqui no Teatro Viriato?
Eu acho interessante expor neste foyer, claro, que o teatro já teve aqui outras exposições, mas para mim é interessante expor num espaço que não é uma galeria nem um museu, porque normalmente as pessoas procuram a arte e estar no foyer é o movimento contrário, é a arte que vai encontrar as pessoas num espaço onde se calhar elas não estavam à espera de encontrar.
E também tem alguma relação com este teatro, Liliana, e com a cidade?
Sim, este teatro é o teatro da cidade. Acho que todos temos uma relação afetiva com o teatro e eu, particularmente, desde que tenho aqui a exposição, ainda mais.
Cada vez está mais presente e, portanto, criou essa relação com o teatro. Diria, para avançarmos um bocadinho, para cada uma das peças, e podemos começar por esta primeira, que eu gostava que a Liliana me pudesse descrever. Falava que isto aborda o coração e diferentes corações. Este primeiro coração, eu gostava que a Liliana descrevesse um bocadinho do que estamos a ver neste momento.
Ok. A exposição tem vários corações, alguns são identificáveis e outros já são formas um bocadinho abstratas. Este primeiro, que inicia a exposição, ainda está num estado que é reconhecível. Ainda o conseguimos identificar como um coração. Foi modelado em grés branco e foi pintado com engobes, que são umas tintas sem brilho, cor-de-rosa, e tem alguns vidrados que já têm algum brilho azuis.
Mas estas formas, a mim, pelo menos, faz-me lembrar uma espécie de coral. Era esse o objetivo?
Sim, eles têm sempre alguma mistura entre qualquer coisa da floresta e qualquer coisa do mar. Há sempre estes dois polos em todas as peças que eu vou fazendo.
Portanto, este aqui é claramente do mar. Vemos, parece-me a mim, uma espécie de rocha com um tom aqui um bocadinho mais cor-de-rosa. Esta parte cor-de-rosa, diria que é mais o quê? Eu estou a tentar decifrar um bocadinho, mas não estou a conseguir encontrar a palavra. O que é esta parte mais cor-de-rosa, por exemplo?
Ela não está a tentar reproduzir nenhuma forma. Na verdade, essa parte é o que a gente chama de rolinhos na cerâmica, que é um método de construção. Basicamente, vamos juntando estes rolinhos todos e no final alisamos para dar a forma. O que temos nesta peça é que os rolinhos foram construídos, estão lá, mas no final não foram alisados. Deixou-se a estrutura deles precisamente para dar este efeito e para se desvendar um bocadinho também da construção ou qual foi a técnica usada para fazer a obra.
Temos aqui este primeiro episódio do "A Nossa Cultura" e vamos continuar em conversa com a artista Liliana Velho aqui nesta exposição. Vamos continuar a analisar estas obras que aqui estão no Teatro Viriato. Portanto, acompanhe o próximo episódio.