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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.
Bruno, afinal a descida dos preços dos combustíveis está nas mãos dos portugueses?
Não é nas mãos, tu não sabias, Maria João? Nas mãos e na consciência, pelos vistos, é a nova entidade reguladora do mercado dos combustíveis. O governo não pode pôr em causa as contas públicas e considera que cabe aos portugueses corrigir o mercado através da diminuição da procura. A velha questão da oferta e procura. Já tinha sido esse o sentido das declarações da ministra do Ambiente e agora foi o ministro da Economia, Manuel Castro Almeida, a dizer que perante os preços elevados, as famílias e as empresas devem fazer tudo para consumir menos combustível. Disse o ministro que esse é o melhor plano de contingência, que é colocarmo-nos nas mãos da consciência dos portugueses e depois esperemos que isso seja suficiente. Como é que nunca nos lembrámos desta? A solução para o aumento do custo de vida sempre esteve na consciência dos portugueses. Querem preços mais baixos? Consumam menos. É uma receita infalível. E se não houver alternativa? Também perguntaram ao ministro. O ministro teve resposta: se não houver alternativa, não há alternativa.
Estão mais contentes, mais descansados, mais felizes. Faz lembrar a história do pão, não é?
Dos brioches.
Comam brioches. Paulo, será que no Parlamento há uma árvore das patacas escondida?
Há sessões parlamentares que nos levam a pensar que sim, e que ainda por cima só alguns deputados é que sabem da existência dessa árvore, que garante que há dinheiro sem limites para pagar as suas propostas. Ontem assistimos à discussão e votação de uma série de propostas de partidos. Eram 20 e tal?
Eram 14 propostas. Noticiamos 14.
Eram 14. Andava com o quatro na cabeça, pensei que eram 24, mas não, 14. Assistimos à votação em série dessas propostas de partidos da oposição, para fazer face a este problema precisamente do aumento do preço dos combustíveis e dos alimentos também. E houve tudo: o IVA mais baixo, ou mesmo zero para combustíveis e alimentos básicos, menos IVA no gás, fim das portagens nas pontes sobre o Tejo, aqui na zona de Lisboa e por aí fora. A questão não está sequer em saber se pagamos ou não os produtos mais caros, está em saber se os pagamos agora como consumidores ou no futuro com mais impostos para pagar mais dívida, portanto, na qualidade de contribuintes. Felizmente, a aritmética e as contas partidárias acabaram por fazer com que todas as propostas fossem rejeitadas. Parece que já aprendemos alguma coisa com a quase encarrota de há 15 anos.
Não sei se é para cantar, Bruno.
Rui Veloso.
Rui Veloso. O prometido é devido.
É devido. É quase para toda a gente e para a FENPROF também é. E é precisamente por achar que o prometido ainda não foi pago, que o sindicato decidiu bater à porta da Provedora de Justiça, que aliás, até tem recebido muitos pedidos, muitas queixas nos últimos tempos. A história vem do atribulado processo dos exames nacionais deste verão e perante os problemas com a correção digital, houve professores classificadores a trabalhar para além do horário normal, à noite e em dias de descanso, e não foram só os professores classificadores. E segundo a FENPROF, o ministro Fernando Alexandre tinha se comprometido publicamente a pagar todas essas horas extraordinárias. O anúncio, aliás, tinha sido feito em julho, pelo porta-voz do PSD, Sebastião Bugalho. Agora parece que não vai ser bem assim. O governo decidiu pagar € 1 por cada item corrigido digitalmente, em vez de contabilizar esse trabalho como horas extraordinárias. Para a FENPROF, não foi isso que o governo prometeu e agora resta saber como é que o governo ou paga a promessa ou então paga aquilo que não tinha prometido exatamente.
António Costa terá perdido completamente o contacto com a realidade, Paulo.
Ora bem, quem o diz com essas letras todas é o ministro de Estado alemão, Gunther Krichbaum, acho que é assim que se diz, classificou assim a forma como o presidente do Conselho Europeu está a conduzir as negociações para o próximo quadro orçamental da União Europeia. António Costa quer manter um orçamento robusto e defende mesmo a criação de novos impostos à escala da União Europeia para o pagar. O problema é que o orçamento da União Europeia, de onde saem os famosos fundos comunitários, em que Portugal se viciou desde a entrada, é pago sobretudo pelos países mais ricos, os chamados contribuintes líquidos, com a Alemanha à cabeça. E portanto, a Alemanha não está muito satisfeita, porque sabe que uma parte da conta que António Costa quer deixar em cima da mesa vai ser paga por ela. Cá temos então duas versões opostas e duas visões opostas. Por um lado, a de quem quer fazer investimentos com o dinheiro dos outros e a de quem tem que cobrar impostos no seu país, pedir um esforço aos seus contribuintes para pagar esses investimentos. Estas negociações ainda estão a começar. Depois, no final, vamos ver se António Costa vai voltar a perguntar se já pode levantar o cheque.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos. Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.