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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, tá bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.

E ontem vimos a Justiça a entrar nas autarquias. Paulo, não há fumo sem fogo?

É isso que diz o dito popular, que raramente falha estas suspeitas que agora motivaram este raide da Polícia Judiciária. As juntas de freguesia lideradas pelo PS tinham sido noticiadas essas suspeitas pela Sábado já em 2022, portanto há quatro anos. E a investigação da revista dizia, e citamos que: "a contratação de empresas de militantes socialistas pela Junta de Santa Maria Maior, em Lisboa, tinha ramificações no núcleo do PS de António Costa, então, e no PS de Mafra." Duarte Mural e a sua mulher eram referenciados já nesse trabalho e ontem foram os dois detidos. Duarte Mural não é um elemento qualquer, ele foi a sombra de António Costa durante muitos anos, ainda no governo, quando António Costa foi Ministro da Administração Interna, depois na Câmara Municipal de Lisboa, e agora é também assessor de José Luís Carneiro. Até prova em contrário, obviamente, serão todos inocentes, mas os danos políticos são aqui evidentes. E mostra também que muita da promiscuidade com dinheiros públicos passa hoje pelas autarquias, nomeadamente por juntas de freguesia, que são menos mediáticas e menos escrutinadas. E depois temos estas surpresas.

Bruno, depois disto, o PS tem de entrar em modo de contenção de danos?

É obrigatório que o faça, mas a primeira reação pode não ter sido a melhor, porque imputar as responsabilidades a um dos seus trabalhadores, e foi esta a expressão utilizada no comunicado, tentando afastar o partido do epicentro da polêmica, não parece uma boa estratégia, porque não estamos a falar de ilícitos que sejam alheios à gestão política das autarquias, neste caso. Outras reações a sublinhar a coincidência entre a operação e os bons resultados que o PS tem tido em sondagens, e hoje sai outra sondagem que põe o PS em primeiro, também não parecem a melhor forma de lidar com o caso. Felizmente para o PS, o secretário-geral chegou-se à frente para cortar essas teorias, embora se saiba também que a estratégia dos partidos passa muitas vezes por pôr figuras menores a dizer aquilo que pensam, enquanto os elementos mais destacados aparecem como monumentos à sensatez. Seja como for, a reação de José Luís Carneiro a prometer a cooperação com a Justiça, mesmo que também tenha tentado afastar o PS da polêmica e tenha dito que ainda não tinha falado com o seu principal assessor, é melhor do que aquela reedição da tese das cabalas.

Vamos mudar de tema, Paulo. Até quando vamos conseguir suportar os custos com as pensões?

Essa é uma das perguntas que nos devia preocupar e que no fundo acaba por resumir também as dúvidas sobre a sustentabilidade futura da Segurança Social. O Conselho de Finanças Públicas publicou ontem dados sobre a despesa com pensões. E então essa despesa atingiu o máximo histórico de quase 38 mil milhões de euros em 2025, tendo disparado, tendo crescido quase 48% na última década, portanto, quase 50% de acréscimo em 10 anos. O peso desta despesa no PIB nominal caiu, mas atenção que nesse período tivemos o surto inflacionista, em 2022, 2023, o que nos dá uma imagem distorcida desse indicador. Com este aumento de custos, que são estruturais, isto é, isto nunca baixa, o menos recomendado é, obviamente, entrar em aventuras de descidas da idade da reforma, que só farão aumentar a despesa e vão provocar ao mesmo tempo um corte nas receitas. Portanto, vamos ver se as tentações populistas conseguem ser vencidas com os factos.

Com os dados. A ver vamos. E quem espera sempre alcança?

Quem espera no aeroporto, Carla, naqueles controles de fronteira intermináveis e por essa razão perca voos ou ligações, não vai alcançar qualquer compensação, talvez só alcance um enorme estado de nervos. A Autoridade Nacional da Aviação Civil disse ontem que os passageiros que percam voos não têm direito a indenização ou assistência, ao abrigo das regras europeias sobre o transporte aéreo. E isto significa que, conhecendo os elevados tempos de espera que se verificam atualmente, cabe aos passageiros estar a tempo e horas no portão de embarque. E para que isso aconteça, o melhor é irem com muitas horas de antecedência, o que não depende deles no caso dos voos de ligação. Aí não há nada que possam fazer. Mas caso contrário, a responsabilidade não poderá ser assacada à companhia aérea, que também não é responsável pelo controle de fronteiras. Claro que um passageiro que se sinta prejudicado pode sempre recorrer aos tribunais para tentar ser ressarcido pelas entidades responsáveis pelo controle de fronteiras e pela gestão aeroportuária, mas se já acham que perdem muito tempo no controle de fronteiras, agora imaginem o que terão de esperar nos tribunais. Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.

Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, tá bem? Não quero que ninguém se magoe.

Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.

Eu às vezes tenho mais para fazer do que estar a responder diariamente.

Calma, Jesus.