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A questão é difícil.

Eu acho que a sua questão é muito importante.

Eu não lhe vou responder essa pergunta, porque não me apetece.

Ficará eventualmente a pergunta no ar.

É uma boa pergunta.

Esta terça-feira falamos de política de cartaz, Dores autárquicas, e quem não as tem. Já chegamos à Madeira, mas começamos a pedir o regresso de veteranos.

O regresso. O Bloco de Esquerda tem a sua brigada do reumático.

A expressão vem dos tempos da outra senhora, temos de enquadrar, quando um grupo de generais velhinhos do antigo regime foi prestar vassalagem a Marcelo Caetano. Semanas depois, inesperadamente, deu-se o 25 de Abril, uma revolução levada a cabo por outros militares. Aqueles generais, ultrapassados pelos novos tempos, ficaram para a história por essa designação cómica e quase misericordiosa da brigada do reumático. Que Francisco Louçã nunca deixou de ter a sua influência no Bloco de Esquerda, toda a gente percebeu. Mais do que um senador, sempre foi uma espécie de figura tutelar do partido. Agora, regressar ao combate político puro e duro, juntamente com outros históricos, Luís Fazenda e Fernando Rosas, isso já é outra coisa e demonstra a incapacidade do Bloco para renovar os quadros. Não é tanto regressar à casa dos pais, como disse com graça António Filipe, do PCP, é regressar à casa de partida, mas o tabuleiro do jogo mudou muito nestes anos.

Paulo, então o que acontece na Madeira fica na Madeira?

Parece que é esse o grande debate. Depois das eleições regionais deste domingo, os resultados permitem ou não uma leitura nacional. Isto é, aconteceu na Madeira, mas pode ser transposto para o país todo ou não. Será que os fatores que podem ter influenciado o voto na Madeira vão aplicar-se também nas eleições nacionais de 18 de maio? Será que também pode haver uma penalização dos partidos que provocaram a queda do governo? E se sim, quem são estes partidos? É que a nível nacional nem isso é claro. São os partidos que suportam o governo, a AD, que apresentou a moção de confiança ao governo, ou são os partidos da oposição que chumbaram essa moção de confiança no Parlamento? São tudo questões que os eleitores vão responder também em maio. No fundo, trata-se de saber se politicamente já chegamos à Madeira ou não.

Bruno, as autárquicas vão ser uma caixinha de surpresas?

Como sempre. Normalmente, as autárquicas são um viveiro de tesourinhos deprimentes da política portuguesa, com candidatos excêntricos e cartazes muito criativos, mas a verdade é que ainda são capazes de nos surpreender. Então não é que a Comissão Política Nacional do PSD quer apoiar a candidatura da independente Maria das Dores Meira à Câmara de Setúbal? Valha-nos Deus. Maria das Dores Meira presidiu à autarquia entre 2006 e 2021, primeiro substituindo o autarca comunista Carlos Sousa e a partir de 2009, ela própria eleita pela CDU. Como atingiu em 2021 o limite de mandatos, ainda foi candidata pela CDU à Câmara de Almada, mas não foi eleita. Foi eleita vereadora, mas depois deixou o cargo. Entretanto, zangou-se com o partido e agora está a ser investigada por suspeitas de irregularidades no exercício de funções, mas anunciou uma candidatura independente à Câmara de Setúbal, que, pelos vistos, o PSD nacional acha que é a melhor opção. Já a comissão concelhia dos laranjas torce o nariz à ideia. De facto, aqui há coisas que não lembram ao careca, há aqui uniões que não lembram a ninguém. Isto mesmo quando falamos de autárquicas, onde os fenómenos, eu não diria do Entroncamento, agora são de Setúbal, se multiplicam.

Pois é. E já falaste aqui de cartazes, Bruno. Os cartazes à beira da estrada são assunto para os tribunais, é claro, Paulo.

Luís Montenegro pensa que sim, e já avançou com a ação. Trata-se, claro, dos cartazes do Chega, em que André Ventura aparece a apontar para os rostos de Montenegro e de Sócrates, e onde se lê aquela frase: "50 anos de corrupção, é tempo de dizer chega." Não são apenas três cartazes à beira da estrada, como no filme, são muitos mais nas ruas do país. Montenegro diz que o cartaz é vergonhoso e que o prejudica como cidadão, marido e pai. Apresentou então uma providência cautelar que já foi recusada, porque o tribunal invoca o direito ao contraditório dos visados e decidiu notificar André Ventura para que este apresente os seus argumentos. O caso não vai ficar por aqui e coloca-nos no debate sobre onde estarão as fronteiras entre aquilo que são argumentos e crítica política, e onde começa a ofensa que pode ser criminosa. Vamos ver como decidem os tribunais, neste caso, que é inédito, ou pelo menos se não for inédito, não me lembro de outro na política portuguesa, pelo menos é muito raro.

A questão é difícil.

Eu acho que a sua questão é muito importante.

Eu não lhe vou responder essa pergunta, porque não me apetece.

Ficará eventualmente a pergunta no ar.

É uma boa pergunta.

Essa é a verdade